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sexta-feira, 17 de abril de 2015

Eternamente jovem

O tempo é engraçado. Ele passa pra nós, mas nós só o sentimos passar no rosto dos outros. No espelho, somos, no dia a dia dos anos, os mesmos. Dos oito aos 80 anos, somos os mesmos, não percebemos o tempo.

Mas então, aos 47 anos, a gente se mete a dar uma faxina na casa e quase cai morta antes de terminar de lavar o banheiro. E pensa que, aos 24, limpava o apartamento inteiro sem sentir cansaço nenhum: depois de tudo ainda encarava uma noite de dança e amor atééééé... o sol raiar! Se mete a fazer faculdade e quase cai morta também quando acaba a semana de provas... e é assim todo santo semestre, ai que cansaço, essas provas me matam, cruzes!

Pois é. Já contei pra vocês que minha amiga octagenária costumava dizer:

-- Fernanda, envelhecer é uma merda.

E eu ia dizer o quê? Só escutava.

Ainda não cheguei aos 80, mas já começo a entender. Envelhecer é o seguinte: a gente quer continuar levando a vida como sempre,  no bem-bom da juventude... naquela correria de mil coisas, mil planos, um milhão de motivos pra continuar vivo... mas um dia a gente descobre que a vida é finita e que não dá pra fazer tudo. E por dois motivos simples: o primeiro é que o tempo é curto, e o segundo é que o corpo não aguenta.

É, fio... o corpo impõe limites. Quisera eu aguentar namorar a noite inteira! Não aguento. Se não aguento namorar, que dirá estudar?!  Menos ainda!

A força dos 20 anos acaba logo ali depois dos 30, embora a gente, passados os 40, finja que tudo continua bem no Reino da Dinamarca... mas a verdade é que o peso dos anos já cobra sua fatura desde longe, e insistir na ideia de que o corpo é uma máquina que a tudo suporta, pode ser fatal. O corpo não é uma máquina, muito menos a cabeça.

Olha, quer saber? Envelhecer pode ser péssimo, mas pode também ser muito bom e gratificante; tudo depende de como passamos pelo processo.

Cada dia precisa ter o seu valor; a existência deve ter um propósito; a vida não pode ser um desperdício.

A alegria de viver não está contida apenas no "bem-bom da juventude", mas também na sabedoria que a gente vai adquirindo com o tempo... a sabedoria para evitar as roubadas  que aparecem pelo caminho, para "viajar" em estado de plena caretice; e para entender que sim, o tempo passa, e por isso mesmo a gente tem que curtir a vida adoidado, antes que tudo se acabe, tão rapidamente como começou... porque a vida é breve, meu bem. Tão breve quanto pode ser a alegria da juventude.


Eternamente jovens!

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Juízes de nós mesmos

Mais um filme que a crítica especializada falou mal, e eu fui ver... e gostei. Trata-se de "O juiz", com Robert Downey Jr e Robert Duvall: uma história sobre a imaturidade, a teimosia e o amor brigão de filhos que insistem na necessidade adolescente de se diferenciarem dos pais, e só conseguem isso através da cisão.

É um drama edipiano sim, como são todos os enredos de pais e filhos, e é por isso que convence.
Com algumas pessoas, o clique acontece mais cedo (que sorte), com outras, como o personagem de Downey, infelizmente a descoberta de que somos o legado dos nossos pais chega já bem tardiamente, o que dá mais credibilidade à história.

Olhe ao seu redor e verá como existem por aí filhos famintos de tudo... tão ávidos pelo que clamam não terem tido nunca, e que, devido a esta avidez, tornam-se incapazes de usufruir do que os pais a vida inteira lhes deram...  
À certa altura do filme, há um diálogo em que o filho se queixa:

-- Você me colocou em um reformatório!
Ao que o pai responde:

-- VOCÊ se colocou lá.
Então o filho lamenta:

-- Eu me formei em Direito e fui o melhor aluno!
Ao que o pai comenta:

-- Não precisa me agradecer...
Frente a esta discussão, me flagrei dando risadas diante de tanta crueza e verdade nas palavras do pai, e tanta carência e infantilidade nas queixas do filho, que em outra cena comovem a plateia quando o primeiro, debilitado, necessita da ajuda do segundo, para um banho: a figura do respeitável juiz se despedaça diante dos nossos olhos, da maneira mais cruel que só a velhice e a doença são capazes de fazer, humanizando as mais frias relações como nada mais.

O ser humano tem a tendência de se desculpar e de jogar bem longe a responsabilidade pelos seus desacertos, e nessa hora a infância triste, os pais muito duros ou os terríveis traumas sofridos em algum momento da vida levam a culpa “numa nice”.  Se culpar os outros é fácil, culpar os pais é facílimo, inclusive porque eles são generosos o bastante para nos perdoar!

 O difícil é o bebê chorão crescer e assumir a responsabilidade por seus próprios atos, dar um jeito nas consequências de suas escolhas e atitudes... admitir que fez as escolhas erradas; que demorou pra “cair na real”; que não entendeu que o tempo passa... que teve medo de amadurecer, mas não soube pedir ajuda...  

E quando chega o dia da prestação de contas, quando o filho deixa de ser filho, quando a cadeira do pai fica vazia, haja maturidade conquistada para entender que somos sim a herança dos nossos pais a este mundo: a continuidade deles.
Juízes da nossa própria consciência, tomara Deus que em paz com ela!


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

"Elton Johnson" no conflito de gerações


Falou minha amiga Talita, que bem poderia chamar-se Lolita:

-- Fui ao show do Elton Johnson!

-- De quem?

-- Do Elton Johnson...

Não, leitor, não fique pasmo. É muito comum que uma moça de vinte e poucos anos confunda o nome do Elton John, mesmo sendo ele...  o Elton John.
Fiz uma pausa na conversa e comecei a divagar, coisa que, sabemos, é a minha especialidade:

Não sei se é porque já passei dos 45, mas o fato é que ando reparando que o tempo é bem relativo, a depender da idade que a gente tenha. Veja só: se você tem mais de 70 anos não há de considerar a Segunda Guerra Mundial um evento pré-histórico, e nomes como Hitler, Stalin e Mussolini não lhe hão de soar distantes como "Matusalém", "Maomé" ou "Adão" e "Eva".
Mas se você (como eu) estiver na casa dos 40 ou 50, a Segunda Guerra já lhe trará à mente as velhas aulas de história, as tardes abafadas dos verões da adolescência... o que é bem diferente da Guerra do Golfo, que acompanhamos ao vivo e à cores pela televisão há bem pouco tempo... mas que, para a turma de vinte e poucos anos, é tão longínqua quanto a Segunda Guerra é para nós. Sacou? Experimente falar em Saddam Hussein com um rapaz de vinte anos e ele, muito provavelmente, não saberá de quem se trata.

Rebobinei a memória: dia destes entrei em uma loja e começou a tocar justamente uma daquelas músicas que marcaram a minha juventude. Não me contive e falei para as duas mocinhas no balcão:
-- Aumenta que isso aí é Dire Straits!
-- Quem?!
-- Dire Straits!!!
Elas fizeram cara de descrédito e foram conferir o nome da banda na capa do CD, que era um mix de bandas diversas. E riram:
-- É... é este nome ai mesmo...
Fiquei incrédula:
-- Vocês não conhecem Dire Straits?!
E elas, em côro:
-- Nãããão...
Passados alguns dias, estava eu conversando com outra mocinha quando ela, contando de sua aventura no Rock in Rio, disse que gostou muito de um “velhinho" que ela não conhecia, que tocou um rock maneiro e a pegou de surpresa.
-- Qual o nome dele?
-- Não lembro...
Depois vim a saber que o tal velhinho era ninguém menos que o Bruce Springsteen...
Parei de divagar e voltei ao papo com a minha amiga Lolita, ou melhor, Talita, que foi ver o show do “Elton Johnson”. Mas não me contive:
-- Escuta... você conhece uma música chamada “My Way”? E uma outra, chamada “In the Still of the Night”? Conhece um cara chamado Frank Sinatra? E um tal de Cole Porter?
Ela não se fez de rogada, a danadinha, que é terrível:
-- E você, Fernanda? Conhece o Jack Johnson?
Calei a boca. E, como quem cala, consente, ela aproveitou meu momento de fraqueza para confessar sua mágoa:
-- Ah, Fê, eu nem sabia mesmo quem era o Elton Johnson, mas quando ele cantou a música da Lady Di eu reconheci. Mas eu fiquei na maior frustração porque ele não cantou a outra que eu conheço e que é a minha preferida...
-- Qual? “Don’t Go Breaking my Heart”?
-- Nãããããooooo... esta daí eu nunca ouvi falar. A que eu queria mesmo era a do filme “O Rei Leão”.



sábado, 21 de setembro de 2013

Cambista acidental


Confesso: foi de olho na comissão que andei dois quilômetros no calorão carioca (apesar do sapato desconfortável) e fui parar num terminal de ônibus onde se concentravam os metaleiros a caminho do Rock in Rio.

Depois de arriscar a vida atravessando a avenida tomada pelo trânsito caótico, tive o prazer de me sentir um verdadeiro marciano ali no meio daquele povo vestido de preto, quase todos de coturno apesar do calor, meias-finas rasgadas e piercings pra todo lado. Mas o estranhamento foi de mão-dupla, porque é claro que a turma não estava entendendo muito bem o que é que aqueles dois “tiozinhos” esquisitos estavam fazendo ali: meu amigo e eu, os dois de roupinha clean e cara de fãs do “The Carpenters”. Logo alguém nos apontou e mandou a piada:
-- Onde aqueles dois deixaram o disco voador? KKKKKKKKK!

A situação esdrúxula tem explicação: meu amigo ganhou dois ingressos num sorteio e queria faturar um tutu com eles. Para me convencer a ir junto, me veio com esta, o malandro:

-- Se eu conseguir 400 nos dois te dou cinquentinha... já pesquisei tudo na internet: eles estão vendendo a 350! Vai ser moleeeeeeeza e daqui a gente vai pro shopping torrar a grana.

Fechamos a cem o valor da minha comissão e lá estávamos, os dois metidos a espertos, tentando parecer cambistas profissionais. Ele, animado, tomou a frente:

-- Você tem que se mexer, minha filha... quer ver, vou te “amostrar”...

E começou a oferecer o produto:

-- Vai um ingresso aêêê, “mermão”? Tenho dois... duzentinho cada, na moral...

A turma nos olhava com desconfiança. Ser cambista não é pra qualquer um, e acho que não transmitimos credibilidade. Várias tentativas depois, ele teve outra ideia:

-- Melhor ir na fonte e vender para os cambistas.

-- ‘bora lá!

Polícia pra todo lado, identificamos loguinho os cambistas da área. Meu amigo caiu de chofre:

-- Ó o ingresso!!!! Doizinho na mão!!!

O outro fez cara de interesse:

-- Pra que dia?

-- HOJE! Sò metaaaaaaal...

O homem fez cara de nojo e superioridade.

-- Não compro merda. Roqueiro não tem grana, é tudo fodido. Só tem fodido aqui...

No instante seguinte vendeu dois por 80 reais. Olhou pra gente, de relance, e fez um muxoxo:

-- Tô dizendo? Oitenta!

Seguimos adiante e então eu é que fiquei com nojo. Os banheiros químicos ostentavam portas abertas e rapazes fazendo xixi. Um cheeeeeeeeiro... cruzes! O que é que este povo bebe? Todos têm suas latinhas de energético na mão, mas acho que é fachada pra disfarçar o formol. Ardeu meu nariz! A única porta fechada durou pouco: vi o sósia do João Gordo sair lá de dentro e gritar para os amigos:

-- Não falei que dava pra cagar?

Foi neste ponto que caiu a ficha: o que é que eu estava fazendo ali? Melhor afanar um tutuzinho na carteira do meu marido do que tentar bancar a cambista em show de metaleiro.

-- Vende os dois por cem e v’ambora!

Meu amigo pesou prós e contras:

-- Mas aí tua comissão já era!

Enquanto ele se digladiava com o cambista, na negociação das duas capas de chuva ordinárias que vieram com os ingressos, eu olhava aquele povo paramentado e estranhava a cara tão séria de quem estava indo para um show de música... será que era apatia? Nas filas enormes para entrar nos ônibus, os metaleiros pareciam saber muito bem para onde estavam indo: a festa na qual as pessoas chegam a ficar dez horas no meio da multidão suada, segurando o xixi na bexiga... onde a  música é tão alta que ninguém dorme nos bairros vizinhos, onde celulares são roubados às centenas, comida vencida é vendida nas lanchonetes e tubulações de esgoto arrebentam...

Pensei em tudo isso e só consegui dizer uma coisa:

-- ET phone home!
 
 

sábado, 4 de maio de 2013

Eu sou a nova Maria Magdá

Lembro que na faculdade de jornalismo tínhamos uma colega na faixa dos 40: era a Maria Magdá, que tinha uma cicatriz deixada por um piercing no nariz, numa época em que piercing era coisa inexistente no Brasil. Magdá era uma mulher “prafrentex”, moderna, alternativa, como se vê pelo piercing que ela já havia deixado de usar. Estava em sua segunda faculdade e cursava jornalismo por prazer: o que eu achei o máximo! Depois da formatura nunca mais a vi, e sempre imagino como ela deve estar hoje, tantos anos passados.

E ai aconteceu que eu, que jamais pensei ter tempo, grana ou energia para encarar cinco anos em outra faculdade... eu, que nem lembrava mais o que vem a ser “meiose” e “mitose”... well... desisti dos cursos de pós-graduação e voltei pra estaca zero dos bancos escolares.
E agora tenho aula de genética, que adoro, e me faz lembrar das aulas de ciências, no primeiro grau, e de biologia, no segundo. Nunca entendi porque é que o nome mudava se a matéria era a mesma. E agora ela evoluiu mais ainda e virou neuroanatomia, psicofisiologia e genética. Que chique, hein? Eu, mulher das letras, entrei para o clube da Saúde!
A turma é eclética e tem de tudo, mas sinto um prazer especial em ser amiga das colegas mais jovens. Elas são jovens mesmo, muitas poderiam ser minhas filhas; eu olho para elas e vejo um pouco da moça que fui, vejo as minhas sobrinhas tão queridas e que também já passaram dos 30; vejo as filhas que não tive e a juventude que, graças aos Céus, ainda guardo como um luxo dentro de mim.
Conviver com jovens é uma das melhores coisas da vida: eles nos contagiam com uma alegria genuína e com uma ingenuidade que nos traz de volta a pureza das coisas mais simples. Dia desses, encontrei 12 reais no chão e tive pena da pessoa que, provavelmente no ponto de ônibus, se deu conta da perda. Quando a gente tem 18 anos, 12 reais são de um valor quase inestimável...
-- Fernanda, se você tiver dúvidas com a matéria, posso estudar com você!
Volta-e-meia ouço esta frase na aula de genética e acho um barato esta generosidade que, aos poucos, a gente vai perdendo, e aí a “falta” vira uma tônica: é a falta de tempo, falta de paciência, falta de vontade tão presentes na vida adulta. O jovem não: ele tem tempo pra tudo, tem vontade de sobra e paciência com as situações desagradáveis, que muitas vezes acabam virando piada. Ele ainda não se deu conta de que o tempo é finito e de que a vida é curta mesmo para quem chega aos 90.
Minha amiga antiga, a Ludmila, perguntou se me sinto velha de volta à faculdade e cercada por meninas na flor da idade. Não, Ludmila: eu  me senti aos oito anos quando montei, com minha mais nova amiga, a Juliane, um exemplar de fita de DNA e RNA, usando jujubas e palitos de dentes.  Inclusive tirei 9 na prova porque a Juliane estudou comigo depois da aula.
Dia desses, num almoço para comemorar as boas notas, foi a Juliane mesmo quem me chamou de “alternativa” ao me comparar com a mãe, que aliás tem exatamente a minha idade. Não sei bem o que ela quis dizer com isso, mas achei graça na situação. Eu, quem diria, virei Maria Magdá... e como é que vou me sentir velha com isso?

 
Olha a Juliane aí, com a nossa fita de DNA de jujuba!