Meu marido sempre diz que deve ser muito chato ser mulher, porque as demandas são muitas. Eu, particularmente, sou muito feliz com o gênero que Deus me deu, mas concordo que as demandas são exageradas mesmo. No fundo, acho que tudo se resume a ser uma boa administradora para que as coisas funcionem bem no trabalho, em casa, no corpo e na cabeça... e principalmente no coração.
Vejo por aí que em seu afã de independência, muitas mulheres se descuidam do amor. Deixam para depois, escolhem excessivamente o parceiro ou exigem demais dele; não se dedicam o bastante ao relacionamento ou simplesmente optam pela vida sem grandes sentimentos ou sobressaltos, preferindo a superficialidade dos namorinhos ocasionais para garantir sua liberdade (a tão duras penas conquistada, afinal!).
Mas fico pensando... quem foi que disse que o coração aprisiona? Por que ver no homem a figura de um carcereiro? O amor liberta! Não tenho vergonha de dizer que o amor tem lugar de honra na minha lista de prioridades, ainda que algumas amigas riam de mim e me considerem "mulherzinha das antigas", coisa menor...
Não tenho pudores em assumir que um relacionamento feliz é tão importante e necessário, para mim, quanto a consciência tranquila, a saúde e a independência financeira. E percebo que, no esgar do seu deboche, algumas mulheres concordam comigo, mas padecem da obrigação de bancar as autossuficientes.
Meu recado vai para elas: dêem-se uma chance. Uma pequena oportunidade, que seja, para que o amor seja um prato a mais, entre tantos, que vocês equilibram com cuidado em suas varinhas. Porque não há nada melhor no mundo do que desfrutar de um amor verdadeiro, daqueles que nos abrem para a vida e nos libertam de preconceitos herdados, que carregamos, a duríssimas penas, sem nem saber o porquê.
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terça-feira, 18 de agosto de 2015
sábado, 14 de junho de 2014
Frei Betto e a alteridade
"O que
é alteridade? É ser capaz de apreender o outro na plenitude da sua dignidade,
dos seus direitos e, sobretudo, da sua diferença. Quanto menos alteridade
existe nas relações pessoais e sociais, mais conflitos ocorrem.
A
nossa tendência é colonizar o outro, ou partir do princípio de que eu sei e
ensino para ele. Ele não sabe. Eu sei melhor e sei mais do que ele. Toda a
estrutura do ensino no Brasil, criticada pelo professor Paulo Freire, é fundada
nessa concepção. O professor ensina e o aluno aprende. É evidente que nós
sabemos algumas coisas e, aqueles que não foram à escola, sabem outras tantas,
e graças a essa complementação vivemos em sociedade. Como disse um operário num
curso de educação popular: "Sei que, como todo mundo, não sei muitas
coisas".
Numa
sociedade como a brasileira em que o apartheid é tão arraigado, predomina a
concepção de que aqueles que fazem serviço braçal não sabem. No entanto, nós
que fomos formados como anjos barrocos da Bahia e de Minas, que só têm cabeça e
não têm corpo, não sabemos o que fazer das mãos. Passamos anos na escola,
saímos com Ph.D., porém não sabemos cozinhar, costurar, trocar uma tomada ou um
interruptor, identificar o defeito do automóvel... e nos consideramos eruditos.
E o que é pior, não temos equilíbrio emocional para lidar com as relações de
alteridade.
Daí
por que, agora, substituíram o Q.I. para o Q.E., o Quociente Intelectual para o
Quociente Emocional. Por quê? Porque as empresas estão constatando que há,
entre seus altos funcionários, uns meninões infantilizados, que não conseguem
lidar com o conflito, discutir com o colega de trabalho, receber uma
advertência do chefe e, muito menos, fazer uma crítica ao chefe.
Bem,
nem precisamos falar de empresa. Basta conferir na relação entre casais. Haja
reações infantis...
Quem
dera fosse levada à prática a idéia de, pelo menos a cada três meses, um setor
da empresa fazer uma avaliação, dentro da metodologia de crítica e autocrítica.
E que ninguém ficasse isento dessa avaliação. Como Jesus um dia fez, ao reunir
um grupo dos doze e perguntar: "O que o povo pensa de mim?" E depois
acrescentou: "E o que vocês pensam de mim?"
Quem,
na cultura ocidental, melhor enfatizou a radical dignidade de cada ser humano,
inclusive a sacralidade, foi Jesus. O sujeito pode ser paralítico, cego,
imbecil, inútil, pecador, mas ele é templo vivo de Deus, é imagem e semelhança
de Deus. Isso é uma herança da tradição hebraica. Todo ser humano, dentro da
perspectiva judaica ou cristã, é dotado de dignidade pelo simples fato de ser
vivo. Não só o ser humano, todo o Universo. Paulo, na Epístola aos Romanos,
assinala: "Toda a Criação geme em dores de parto por sua redenção".
Dentro
desse quadro, o desafio que se coloca para nós é como transformar essas cinco
instituições pilares da sociedade em que vivemos: família, escola, Estado (o
espaço do poder público, da administração pública), Igreja (os espaços
religiosos) e trabalho. Como torná-los comunidades de resgate da cidadania e de
exercício da alteridade democrática? O desafio é transformar essas instituições
naquilo que elas deveriam ser sempre: comunidades. E comunidades de alteridade.
Aqui
entra a perspectiva da generosidade. Só existe generosidade na medida em que
percebo o outro como outro e a diferença do outro em relação a mim. Então sou
capaz de entrar em relação com ele pela única via possível – porque, se tirar
essa via, caio no colonialismo, vou querer ser como ele ou que ele seja como
sou - a via do amor, se quisermos usar uma expressão evangélica; a via do
respeito, se quisermos usar uma expressão ética; a via do reconhecimento dos
seus direitos, se quisermos usar uma expressão jurídica; a via do resgate do
realce da sua dignidade como ser humano, se quisermos usar uma expressão moral.
Ou seja, isso supõe a via mais curta da comunicação humana, que é o diálogo e a
capacidade de entender o outro a partir da sua experiência de vida e da sua
interioridade."
Frei Betto é escritor, autor de "Alfabetto - autobiografia
escolar" (Ática), entre outros livros.
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
A última crônica
Marcos Lúcio, leitor e colaborador, mandou esta, de Fernando Sabino:
"A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês.
O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso."
"A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês.
O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso."
terça-feira, 24 de setembro de 2013
"Saúde mental", por Rubem Alves
"Fui convidado a fazer uma preleção sobre
saúde mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de
psicanalista, deveria ser um especialista no assunto. E eu também pensei. Tanto
que aceitei. Mas foi só parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada
sabia. Eu me explico.
Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maikóvski. E logo me assustei. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. van Gogh se matou. Wittgenstein se alegrou ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maiakóvski suicidou.
Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos.
Mas será que tinham saúde mental? Saúde mental, essa condição em que as idéias se comportam bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado, nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, basta fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme!), ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, que tenha a coragem de pensar o que nunca pensou. Pensar é coisa muito perigosa...
(Provavelmente escrito em 1994)
Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma. Nietzsche, Fernando Pessoa, van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maikóvski. E logo me assustei. Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. van Gogh se matou. Wittgenstein se alegrou ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maiakóvski suicidou.
Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos.
Mas será que tinham saúde mental? Saúde mental, essa condição em que as idéias se comportam bem, sempre iguais, previsíveis, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado, nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, basta fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme!), ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, que tenha a coragem de pensar o que nunca pensou. Pensar é coisa muito perigosa...
Não, saúde mental elas não tinham. Eram
lúcidas demais para isso. Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e
idiotas de gravata. Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos
da saúde mental. É claro que nenhuma mamãe consciente quererá que o seu filho
seja como van Gogh ou Maiakóvski. O desejável é que seja executivo de grande
empresa, na pior das hipóteses funcionário do Banco do Brasil ou da CPFL.
Preferível ser elefante ou tartaruga a ser borboleta ou condor. Claro que
nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de
se submeter se fosse pedir emprego. Mas nunca ouvi falar de político que
tivesse stress ou depressão, com excessão do Suplicy. Andam sempre fortes e
certos de si mesmos, em passeatas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e
certezas.
Sinto que meus pensamentos podem parecer
pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos.
Nós somos muito parecidos com
computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a
interação de duas partes. Uma delas se chama hardware, literalmente coisa dura
e a outra se denomina software, coisa mole. A hardware é constituída por todas
as coisas sólidas com que o aparelho é feito. A software é constituída por
entidades espirituais - símbolos, que formam os programas e são gravados nos
disquetes.
Nós também temos um hardware e um
software. O hardware são os nervos, o cérebro, os neurônios, tudo aquilo que
compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas
que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como nos computadores, o que fica
na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo espirituais,
sendo que o programa mais importante é linguagem.
Um computador pode enlouquecer por
defeitos no hardware ou por defeitos no software. Nós também. Quando o nosso
hardware fica louco há que se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com
suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou. Quando o problema
está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam. Não se conserta
um programa com chave de fenda. Porque o software é feito de símbolos, somente
símbolos podem entrar dentro dele. Assim, para se lidar com o software há que
se fazer uso de símbolos. Por isso, quem trata das perturbações do software
humano nunca se vale de recursos físicos para tal. Suas ferramentas são
palavras, e eles podem ser poetas, humoristas, palhaços, escritores, gurus,
amigos e até mesmo psicanalistas.
Acontece, entretanto, que esse
computador que é o corpo humano tem uma peculiaridade que o diferencia dos
outros: o seu hardware, o corpo, é sensível às coisas que o seu software
produz. Pois não é isso que acontece conosco? Ouvimos uma música e choramos.
Lemos os poemas eróticos do Drummond e o corpo fica excitado.
Imagine um aparelho de som. Imagine que
o toca-discos e acessórios, o software, tenha a capacidade de ouvir a música
que ele toca, e de se comover. Imagine mais, que a beleza é tão grande que o
hardware não a comporta, e se arrebenta de emoção! Pois foi isso que aconteceu
com aquelas pessoas que citei, no princípio: a música que saía do seu software
era tão bonita que o seu hardware não suportou.
A beleza pode fazer mal à saúde mental.
Sábias, portanto, são as empresas estatais, que têm retratos dos governadores e
presidentes espalhados por todos os lados: eles estão lá para exorcizar a
beleza e para produzir o suave estado de insensibilidade necessário ao bom
trabalho.
Dadas essas reflexões científicas sobre
a saúde mental, vai aqui uma receita que, se seguida à risca, garantirá que
ninguém será afetado pelas perturbações que afetaram os senhores que citei no
início, evitando assim o triste fim que tiveram.
Opte por um software modesto. Evite as
coisas belas e comoventes. Cuidado com a música. Brahms e Mahler são
especialmente perigosos. Já o roque pode ser tomado à vontade, sem contra
indicações. Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Há uma vasta
literatura especializada em impedir o pensamento. Se há livros do Dr. Lair
Ribeiro, por que arriscar-se a ler Saramago? Os jornais têm o mesmo efeito.
Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma
coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará
sempre coisas iguais. A saúde mental é um estômago que entra em convulsão
sempre que lhe é servido um prato diferente. Por isso que as pessoas de boa
saúde mental têm sempre as mesmas idéias. Essa cotidiana ingestão do banal é
condição necessária para a produção da dormência da inteligência ligada à saúde
mental. E, aos domingos, não se esqueca do Sílvio Santos e do Gugu Liberato.
Seguindo esta receita você terá uma vida
tranquila, embora banal. Mas como você cultivou a insensibilidade, você não
perceberá o quão banal ela é. E, ao invés de ter o fim que tiveram os senhores
que mencionei, você se aposentará para, então, realizar os seus sonhos.
Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já não mais saberá
como eles eram".
(Provavelmente escrito em 1994)
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
"É foda... pior é que é!"
Tenho um amigo jornalista, documentarista, ciclista,
fotógrafo, blogueiro e torcedor do Fluminense que é também um perspicaz observador da alma
humana, e que desenvolveu um método muito pessoal pra conversar com qualquer
pessoa, sobre qualquer assunto, a qualquer hora... e o melhor, sem precisar prestar a menor atenção no que o seu interlocutor está dizendo.
-- Pior é que é!
O tal método consiste em apenas duas frases que se alternam, e cai como uma luva
quando a gente encontra aquela pessoa com quem já conviveu por força das
circunstâncias, e que um dia encontra, inesperadamente, no corredor do
shopping ou na fila do cinema: um ex-colega de trabalho, um ex-cunhado, um cara
muito mala da faculdade, com quem fazíamos os trabalhos de uma matéria chatérrima... ou até
um "ex" saído do pretérito amoroso, e de quem as lembranças não são lá grande coisa...
-- Ooooooi!
(Você tenta disfarçar o desprazer com um sorrisinho
forçado e saca a velha resposta de sempre):
-- E aí???
O mala também não é criativo:
-- Há quanto tempo...
Então você tira da cartola o método do meu amigo:
-- Pior é que é...
O mala ataca outra vez:
-- O tempo passa mas você não envelhece!
E você insiste no método, que está dando certo:
-- É foda...
Ele:
-- Tá morando lá no mesmo lugar?
Você:
-- Pior é que é!
Ele:
-- Continua casado?
Você:
-- É foda...
Ele:
-- Bom... vamos ver se a gente marca de tomar um
chopp pra botar o papo em dia! Anota aí meu telefone e deixa eu pegar o seu!
Mas vamos marcar mesmo, senão a gente nunca mais se vê...
-- Pior é que é...
Pode até parecer piada, mas não é. Já o vi pondo em
prática sua tática e posso garantir que funciona em qualquer situação: seja em notícia de
velório ou de casamento; em discussões políticas ou queixas de separação
amorosa; em papo sobre falta de grana ou sobre aumento de salário... não é
que sempre dá certo mesmo?! Nem a crise conjugal, a religião ou o futebol ficam de fora:
-- Quero o divórcio!
-- É foda...
-- Nosso casamento acabou...
-- Pior é que é!
Ou:
-- Arrependei-vos, pecadores!!!!
-- É foda...
-- Ou então vão arder no fogo eterno!!!!
-- Pior é que é...
Ou ainda:
-- Vamos ao jogo ver o Fla dar uma surra no Flu?
-- É foda...
-- Te pego às três...-- Pior é que é!
E então me dirão os leitores:
-- Este teu post tá um saco!
Ao que responderei:
-- É foda...
Serei questionada:
-- Falta de imaginação?
E assumirei:
-- Pior é que é!
quinta-feira, 29 de março de 2012
A Pipoca é quem sabe das coisas...
Milho de Pipoca
(Rubem Alves)
Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho para sempre.
Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo.
Quem não passa pelo fogo, fica do mesmo jeito a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e uma dureza assombrosa.
Só que elas não percebem e acham que seu jeito de ser é o melhor jeito de ser. Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos: A dor.
Pode ser fogo de fora: Perder um amor, perder um filho, o pai, a mãe, perder o emprego ou ficar pobre.
Pode ser fogo de dentro: Pânico, medo, ansiedade, depressão ou sofrimento, cujas causas ignoramos.
Há sempre o recurso do remédio: apagar o fogo!
Sem fogo o sofrimento diminui. Com isso, a possibilidade da grande transformação também.
Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro cada vez mais quente, pensa que sua hora chegou: vai morrer.
Dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar um destino diferente para si. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada para ela. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz.
Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo a grande transformação acontece: BUM!
E ela aparece como uma outra coisa completamente diferente, algo que ela mesma nunca havia sonhado.
Bom, mas ainda temos o piruá, que é o milho de pipoca que se recusa a estourar. São como aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. A presunção e o medo são a dura casca do milho que não estoura. No entanto, o destino delas é triste, já que ficarão duras pela vida inteira.
Transforme-se na flor branca, macia e nutritiva. Mude! A escolha só depende de você: Milho para sempre ou pipoca.
Eita cabecinha dura de milho... sofre, sofre, mas não aprende!
(Rubem Alves)
Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho para sempre.
Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo.
Quem não passa pelo fogo, fica do mesmo jeito a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e uma dureza assombrosa.
Só que elas não percebem e acham que seu jeito de ser é o melhor jeito de ser. Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos: A dor.
Pode ser fogo de fora: Perder um amor, perder um filho, o pai, a mãe, perder o emprego ou ficar pobre.
Pode ser fogo de dentro: Pânico, medo, ansiedade, depressão ou sofrimento, cujas causas ignoramos.
Há sempre o recurso do remédio: apagar o fogo!
Sem fogo o sofrimento diminui. Com isso, a possibilidade da grande transformação também.
Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro cada vez mais quente, pensa que sua hora chegou: vai morrer.
Dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar um destino diferente para si. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada para ela. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz.
Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo a grande transformação acontece: BUM!
E ela aparece como uma outra coisa completamente diferente, algo que ela mesma nunca havia sonhado.
Bom, mas ainda temos o piruá, que é o milho de pipoca que se recusa a estourar. São como aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. A presunção e o medo são a dura casca do milho que não estoura. No entanto, o destino delas é triste, já que ficarão duras pela vida inteira.
Transforme-se na flor branca, macia e nutritiva. Mude! A escolha só depende de você: Milho para sempre ou pipoca.
Eita cabecinha dura de milho... sofre, sofre, mas não aprende!
domingo, 25 de março de 2012
"Seu nome deve estar na boca do sapo"
Meu amigo, verdadeiro “peixe ensaboado”, daqueles que “escorregam” em qualquer situação desagradável, deu um pulo pra trás ao ouvir as palavras funestas:
-- Você é boa pinta... mora num lugar legal... deve estar com o nome na boca de um monte de sapo por aí!
Ao que ele respondeu sabidamente:
-- Vade retro, coisa horrorosa! Sou mais o meu São Jorge e o Arcanjo Gabriel!
É nessas horas que a gente vê o quanto é importante estar de bem com os santos...
Quando eu era “criança pequena lá em Barbacena”, minha irmã me fazia de serviçal. E se eu, por algum acaso, tentasse me rebelar, ela mandava na lata:
-- Se não for pegar um copo d’ água pra mim você vai tomar bomba este ano.
“Tomar bomba”, pra quem não sabe, significa ser reprovada na escola... e eu, que tinha pavor de ficar pra trás enquanto minhas coleguinhas iam para frente, caía em todas as chantagens. Mais tarde tentei fazer o mesmo com minhas sobrinhas, mas a nova geração parece que veio mais esperta e não levou fé, o que me deixou muito frustrada, aliás, e pôs um fim em minha carreira de chantagista profissional.
Minha mãe também teve, em sua infância, a chantagista de plantão. Era a Iliaíz, temida por todas as coleguinhas da escola justamente porque tinha um talento especial para rogar pragas. E minha mãe confessava, às risadas, que era uma, entre tantas, que viviam fugindo da Iliaíz depois da aula.
Minha amiga Luciana apelou para o poder das pragas em nome de garantir a fidelidade do marido, avisando que, se ele fosse pra cama com outra mulher, ia fazer feio:
-- O “dito cujo” não vai funcionaaaar!!!! – avisou, com voz de madrasta de Branca- de-Neve.
Se o bingolim funcionou ou não, jamais saberei, mas o fato é que o Dom Juan se casou com outra... depois dessa, eu é que eu não levo mais fé em praga de ninguém.
Eu estou bem com todo mundo... até com o sapo!
-- Você é boa pinta... mora num lugar legal... deve estar com o nome na boca de um monte de sapo por aí!
Ao que ele respondeu sabidamente:
-- Vade retro, coisa horrorosa! Sou mais o meu São Jorge e o Arcanjo Gabriel!
É nessas horas que a gente vê o quanto é importante estar de bem com os santos...
Quando eu era “criança pequena lá em Barbacena”, minha irmã me fazia de serviçal. E se eu, por algum acaso, tentasse me rebelar, ela mandava na lata:
-- Se não for pegar um copo d’ água pra mim você vai tomar bomba este ano.
“Tomar bomba”, pra quem não sabe, significa ser reprovada na escola... e eu, que tinha pavor de ficar pra trás enquanto minhas coleguinhas iam para frente, caía em todas as chantagens. Mais tarde tentei fazer o mesmo com minhas sobrinhas, mas a nova geração parece que veio mais esperta e não levou fé, o que me deixou muito frustrada, aliás, e pôs um fim em minha carreira de chantagista profissional.
Minha mãe também teve, em sua infância, a chantagista de plantão. Era a Iliaíz, temida por todas as coleguinhas da escola justamente porque tinha um talento especial para rogar pragas. E minha mãe confessava, às risadas, que era uma, entre tantas, que viviam fugindo da Iliaíz depois da aula.
Minha amiga Luciana apelou para o poder das pragas em nome de garantir a fidelidade do marido, avisando que, se ele fosse pra cama com outra mulher, ia fazer feio:
-- O “dito cujo” não vai funcionaaaar!!!! – avisou, com voz de madrasta de Branca- de-Neve.
Se o bingolim funcionou ou não, jamais saberei, mas o fato é que o Dom Juan se casou com outra... depois dessa, eu é que eu não levo mais fé em praga de ninguém.
Eu estou bem com todo mundo... até com o sapo!
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