Comprei o ingresso apenas por se tratar de Meryl
Streep. Gosto de me aventurar em um filme sem imaginar as curvas da viagem e,
mais ainda, ignorando dicas de críticos: ver um filme, pra mim, é como ler um
livro ou mergulhar em um quadro; cada um vê e entende ali um mundo de coisas a
partir de si mesmo.
O charmosão Hugh Grant, que sempre faz o mesmo em
papéis engraçadinhos, desta vez ganhou o meu respeito com uma interpretação
comovente e de verdade, para ajudar a contar a história verídica de uma
mecenas da NY dos anos 40 que era acima de tudo amante da música e dotada de um
coração vivíssimo, apesar de sifilítica e à espera da morte por nada menos que
50 anos! (E se pensarmos bem, quem de nós não vive a vida inteira à espera da morte? A consciência disso é que nos foge, e que muitas vezes nos faz fugir também o valor mínimo à vida... lapso do qual não sofria a sra. Florence Foster, interpretada aqui por Meryl Streep).
Florence ansiava ter voz de passarinho, mas cantava como uma gralha. Por força da bajulação de que padecem os milionários, foi levada a crer encarnar o rouxinol que não era, e daí para o ridículo foi um passo bem pequeno. Mas e o marido, vivido pelo herói Hugh Grant? O marido entra em cena com um amor tão verdadeiro, que se vê impedido de dizer-lhe a verdade. Sabe a tal “mentira de amor”, aquela que justifica a lealdade de um sentimento profundo e verdadeiro? E aí nos cabe a velha pergunta: cabe mentira quando se ama, ainda que na mais sublime intenção? Aaaaaiiii... as coisas difíceis do coração!
Na deliciosa interpretação da dama do cinema, a
gente não sabe se rola de rir ou se fica comovido. O verdadeiro ator é de fato aquele
que domina o ridículo, não é mesmo? A vida real, no fim das contas, é uma velha e
bela ridícula, alguém discorda? Feliz é quem sabe fazer do limão uma limonada, de preferência com gelo e açúcar.
O fim da história, quando a cantora se depara com
sua verdade, não poderia ser mais bonita: a gente vai até onde pode. Que triste
seria o mundo se só pudesse cantar quem nasce Gal Costa! Tantos anos depois de
morta, a sra. Florence Foster segue inspirando as
pessoas com seu amor pela música, e lembrando-nos o quanto ela, a música, pode
encantar a vida: fui dormir pensando no filme e no dia seguinte comprei uns discos
novos. Feliz da vida!
