domingo, 6 de julho de 2014

Neymar quase vira filme de Eastwood

Não sou expert em futebol, mas embora a rapaziada ache normal as cotoveladas, os empurrões, os pontapés e golpes similares que os adversários se presenteiam durante as partidas, acho um absurdo que tal comportamento seja permitido no esporte.

E aí o que é acontece? Acontece uma joelhada nas costas, como esta que tirou o Neymar da Copa. E o Zuñiga vem dizer (é claro), que não foi por mal. Pois eu, desde o momento em que o Brasil fez o gol, achei que a coisa ficou violenta no gramado, e achei foi muito estranho que o colombiano tenha saído dali sem ao menos um cartão amarelo.

A história toda me remeteu ao filme "Menina de Ouro", do Clint Eastwood. Um filme lindo, tristíssimo, que me deixou de bode durante duas semanas. Na época, fiz uma pesquisa com as amigas mais chegadas e soube que elas também ficaram numa deprê desgraçada por causa da história estrelada pela (ótima e premiada) Hilary Swank, no papel de uma lutadora de box que, treinada pelo próprio Eastwood, excelente no papel, finalmente desabrocha no esporte... e então é covardemente golpeada por uma oponente... que a deixa tetraplégica.

À estas alturas da história, treinador e lutadora já conquistaram uma bela e improvável amizade, o que torna as coisas ainda mais dramáticas para eles e para nós, que estamos vendo o filme.

Voltando à vida real, a joelhada nas costas de Neymar foi uma tristeza por razões várias... não só porque o rapaz fez tudo direitinho para estar ali, participando da Copa, e também porque estava jogando bem e limpo... mas porque nós, os torcedores do mundo inteiro, tínhamos o direito de vê-lo jogar... e os brasileiros, quem sabe o direito a vencer com ele... (será que sua saída muda as reais chances do time?).

Só nos resta torcer para que as investigações comprovem que o joelho do colombiano não tenha mesmo sido movido pela força de algum propósito. E agradecer a Deus que Neymar não tenha se transformado em um roteiro de Eastwood. Embora ele seja, no final das contas, um menino de ouro, não é mesmo?



sábado, 5 de julho de 2014

Malévola, a feminista modernosa

Adorei Malévola! E não porque a Angelina Jolie seja linda, porque seus figurinos sejam um arraso ou porque o filme, ao contrário do que a crítica disse, seja bom. “Malévola” agrada principalmente porque rema contra a maré dos filminhos do gênero.

Lembra da Ariel, a sereiazinha de anos atrás, e que até hoje faz sucesso com moças das mais variadas gerações? Pois é... detesto! E detesto por um motivo simples: a peixa deixou para trás tudo o que ela era e tinha, toda a sua raiz e sua história, seu povo e sua origem... (ai, ai...) em nome do amor! Ou, pior ainda: em nome do desejo de ser outra coisa, ou seja: um ser humano, uma mulher com pernas...
Triste, né não? Pior: deprimente!
Já a dona Malévola é uma heroína “muderna” e poderosa, consciente de seu valor e de sua história, satisfeita por ser quem é. Além disso, chega às telas para garotas “mudernas” que já sabem que este papo de beijo de príncipe encantado é “conversa pra boi dormir”, como se diz lá em Minas Gerais... e esta é a grande sacada do filme: ter um príncipe é muito bom, mas não é o mais importante. Espero que a turma capte a mensagem.
 “Malévola” bem poderia chamar-se “Benévola”, se tal palavra de fato existisse no dicionário; é que a tal entidade é boa-gente, apesar de braba... mas está longe de ser uma bobona sem personalidade, ou de dar à plateia exemplos imbecis  ou alguma  “moral da história” do tipo machista, aliás muito pelo contrário. Malévola é feminista e só não queimou sutiãs diante do rei porque não tinha nenhum à mão.

Tô com ela e não abro!

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Uma jovem perdida no tempo e nas águas do Colorado

Eu tinha 28 anos quando minha amiga Alessandra voltou de uma viagem a trabalho aos Estados Unidos e contou que, em seu único dia de folga, precisou escolher entre um passeio no shopping ou no Grand Canyon.

Não pestanejei:

-- Claaaaaaro que você foi ao Grand Canyon!!!!!

Sim. Ela era "das minhas" e tinha feito a escolha certa.

E de pensar que bem mais jovem, lá pelos 18, subi duas vezes a trilha que conduz à Pedra da Gávea... só pra olhar a paisagem lá de cima:

-- Tchau, mãe! Vou subir a Pedra da Gávea hoje. À noitinha eu tô de volta, tá?

Acho que realmente minha mãe levava na brincadeira e só por isso é que me deixava sair de casa. Se eu não suportava programinhas alternativos, do tipo acampar com os amigos, como é que teria ganas pra encarar trilhas no meio do mato e paredões íngremes de pedra? Nem pensar!

-- Vai com Deus, minha filha. Não chega tarde não...

A juventude é a grande hora das pirações, alucinações, rebeldias e maluquices. Foi na juventude, por exemplo, que me aventurei a viajar de carona ou a ir trabalhar com uma blusa decotada e dizer ao chefe que não olhasse o meu decote. (Só porque botei um decote o sem-vergonha do chefe tinha que olhar onde não deveria?!).

Olha, foi nesta época que perdi meu tempo com gente que não valia a pena e sofri por causas sem valor verdadeiro. Foi quando, aos solavancos, fui aprendendo o valor da solidão: ainda bem, porque o preço que a vida cobra por uma má-companhia é impagável quando cai a luz sobre a consciência.

E foi na juventude também que tentei, sem sucesso, domar as ondas do meu cabelo, até que finalmente me dei conta de que cabelo ondulado é um barato total: e tornei-me livre, eu e meu cabelão, isso é que é amor. O cabelo foi só um pálido começo pra eu me aceitar inteira, dos ossos ao espírito, passando pelo (mau) humor e pelos defeitos (de fábrica). Se eu não me aceito... todas os bailes me barrarão!

Você pode estar lendo tudo isso e estar pensando que pirei na batatinha, que tomei um pileque, que fumei alguma coisa natural ou tomei algum chá esquisito... mas não é nada disso não. É só devaneio, a cabeça voadora viajando por aí e jogando conversa fora nesta cozinha virtual, tomando café com bolo, eu e você.

Fecho nosso papo dizendo que a maturidade tem isso de bom: não quero mais ir ao Grand Canyon, tá bom? Passou a vontade. Aquele passeio de barco pelo rio Colorado ficou para a próxima vida, quando eu for jovem de novo. Se for lá praquelas bandas, irei ao shopping.

Moral da história: o tempo passa e os desejos mudam. Se tiver vontade de fazer alguma coisa, faça logo. Ou seu desejo se perderá no tempo, assim como aquele jovem aventureiro (ou meio doido) que você foi.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

De volta ao inconsciente, com Munch




Ainda sob o impacto do inconsciente, fui atrás de Eduard Munch, um cara que se você não conhece pelo nome, certamente há de conhecer por este quadro aqui, ó, um ícone dos nossos tempos...



Munch foi, antes de mais nada, um sobrevivente. E assim como Van Gogh, que o precedeu e o inspirou, ele também cruzava aquela tal porta que conduz ao inconsciente para curar, através da arte, as chagas internas provocadas pelos traumas, pelas catástrofes íntimas, pelas neuroses dolorosas, pelas perdas de morte vividas na infância, pelas doenças mentais no sangue da família.

Mais tarde, alcóolatra, teve agravada a tendência ao isolamento, e nos pincéis encontrou a conexão com o mundo externo: um mundo ameaçador e obscuro, um mundo triste e opressor, um universo violento e em brasa.

Munch Museum  - Valuable works

Munch Museum  - Unique works


Munch Museum  - Interior exhibitions

Puberty by Edvard Munch

Munch Museum  - Unique works
 

Já na maturidade, Munch se refez: libertou-se da bebida e cauterizou sua neurose em um sanatório. Teve a dádiva de encontrar a paz que precisava.

Se parte da força de sua arte ficou lá atrás, com a doença, como dizem os críticos, para mim isso não tem importância nenhuma: Munch já havia provado sua potência como artista e não carecia provar nada a ninguém mais!

Sua maior obra-prima foi ter escolhido a vida enquanto ainda tinha tempo para vivê-la: morreu consagrado aos 80 anos.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Inocência

De vez em quando sinto que me sai do peito
uma menina que não viu a vida
(ou se esqueceu da morte,
todas estas dores)
desconhece a perda e só enxerga as cores
que a natureza lhe botou nos olhos.
Às vezes ela vem com cinco anos,
com dezessete, vinte, trinta e poucos;
brinca de pique, usa batom, solta um gemido rouco,
nem sabe que a vida é este mar de escolhos.
Ai, esta menina que se esconde em mim...
E que ressurge, viva, e tem nas mãos um ovo...
É de felicidade, a gema que ela guarda ali!
Eu penso nisso e rio: gozo de novo...

(Fernanda Dannemann)


quinta-feira, 19 de junho de 2014

De volta ao inconsciente, com Van Gogh

Dias atrás estive no Museu do Inconsciente, no Rio, e me lembrei de Van Gogh. Eis que o destino me trouxe aos olhos (mais um) documentário sobre ele, que pintou mais de 400 quadros sob o desprezo total de sua época: Van Gogh foi um, entre tantos outros exemplos de homens geniais que, justamente por isto, foram incompreendidos pela ignorância do seu tempo.

Afora a isso, portador de doença mental ou "anormalidade", ele acessava o inconsciente através de uma porta misteriosa que o levava a lugares luminosos, dotados de cores muito vivas e espessuras bem particulares: era o mundo de Van Gogh, que o resto do mundo rejeitou.

Veja o trecho de uma carta que ele escreveu ao irmão e confidente Theo:

"O que sou eu, aos olhos das outras pessoas? Um nada? Um excêntrico? Uma pessoa desagradável? Alguém que não tem lugar na sociedade ou jamais terá.
Em resumo, o mais baixo de todos.
Tudo bem então. Mesmo que isso seja totalmente verdade, um dia eu gostaria de mostrar, com meu trabalho, o que um nada, o que um ninguém, tem em seu coração".









van gogh starry night variation



 

File:VanGogh-starry night ballance1.jpg

sábado, 14 de junho de 2014

Frei Betto e a alteridade


"O que é alteridade? É ser capaz de apreender o outro na plenitude da sua dignidade, dos seus direitos e, sobretudo, da sua diferença. Quanto menos alteridade existe nas relações pessoais e sociais, mais conflitos ocorrem.

A nossa tendência é colonizar o outro, ou partir do princípio de que eu sei e ensino para ele. Ele não sabe. Eu sei melhor e sei mais do que ele. Toda a estrutura do ensino no Brasil, criticada pelo professor Paulo Freire, é fundada nessa concepção. O professor ensina e o aluno aprende. É evidente que nós sabemos algumas coisas e, aqueles que não foram à escola, sabem outras tantas, e graças a essa complementação vivemos em sociedade. Como disse um operário num curso de educação popular: "Sei que, como todo mundo, não sei muitas coisas".

Numa sociedade como a brasileira em que o apartheid é tão arraigado, predomina a concepção de que aqueles que fazem serviço braçal não sabem. No entanto, nós que fomos formados como anjos barrocos da Bahia e de Minas, que só têm cabeça e não têm corpo, não sabemos o que fazer das mãos. Passamos anos na escola, saímos com Ph.D., porém não sabemos cozinhar, costurar, trocar uma tomada ou um interruptor, identificar o defeito do automóvel... e nos consideramos eruditos. E o que é pior, não temos equilíbrio emocional para lidar com as relações de alteridade.

Daí por que, agora, substituíram o Q.I. para o Q.E., o Quociente Intelectual para o Quociente Emocional. Por quê? Porque as empresas estão constatando que há, entre seus altos funcionários, uns meninões infantilizados, que não conseguem lidar com o conflito, discutir com o colega de trabalho, receber uma advertência do chefe e, muito menos, fazer uma crítica ao chefe.

Bem, nem precisamos falar de empresa. Basta conferir na relação entre casais. Haja reações infantis...

Quem dera fosse levada à prática a idéia de, pelo menos a cada três meses, um setor da empresa fazer uma avaliação, dentro da metodologia de crítica e autocrítica. E que ninguém ficasse isento dessa avaliação. Como Jesus um dia fez, ao reunir um grupo dos doze e perguntar: "O que o povo pensa de mim?" E depois acrescentou: "E o que vocês pensam de mim?"

Quem, na cultura ocidental, melhor enfatizou a radical dignidade de cada ser humano, inclusive a sacralidade, foi Jesus. O sujeito pode ser paralítico, cego, imbecil, inútil, pecador, mas ele é templo vivo de Deus, é imagem e semelhança de Deus. Isso é uma herança da tradição hebraica. Todo ser humano, dentro da perspectiva judaica ou cristã, é dotado de dignidade pelo simples fato de ser vivo. Não só o ser humano, todo o Universo. Paulo, na Epístola aos Romanos, assinala: "Toda a Criação geme em dores de parto por sua redenção".

Dentro desse quadro, o desafio que se coloca para nós é como transformar essas cinco instituições pilares da sociedade em que vivemos: família, escola, Estado (o espaço do poder público, da administração pública), Igreja (os espaços religiosos) e trabalho. Como torná-los comunidades de resgate da cidadania e de exercício da alteridade democrática? O desafio é transformar essas instituições naquilo que elas deveriam ser sempre: comunidades. E comunidades de alteridade.

Aqui entra a perspectiva da generosidade. Só existe generosidade na medida em que percebo o outro como outro e a diferença do outro em relação a mim. Então sou capaz de entrar em relação com ele pela única via possível – porque, se tirar essa via, caio no colonialismo, vou querer ser como ele ou que ele seja como sou - a via do amor, se quisermos usar uma expressão evangélica; a via do respeito, se quisermos usar uma expressão ética; a via do reconhecimento dos seus direitos, se quisermos usar uma expressão jurídica; a via do resgate do realce da sua dignidade como ser humano, se quisermos usar uma expressão moral. Ou seja, isso supõe a via mais curta da comunicação humana, que é o diálogo e a capacidade de entender o outro a partir da sua experiência de vida e da sua interioridade."

Frei Betto é escritor, autor de "Alfabetto - autobiografia escolar" (Ática), entre outros livros.
 
 
 

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Marcelo e o gol contra


O gol contra do Marcelo, craque titular do Real Madrid, no jogo de estreia nesta Copa que o Brasil está jogando em casa, me fez pensar em Barbosa, o goleiro que levou a culpa pelo segundo gol da derrota por 2 a 1 na final de 1950, também em casa, contra o Uruguai.

No fim da vida, em várias entrevistas, Barbosa costumava dar a seguinte declaração:

"O crime no Brasil prescreve em 20 anos. Mas o meu crime nunca prescreveu".

Morreu alcóolatra.


segunda-feira, 2 de junho de 2014

Tempo de nada


O que quer que tenha eu vivido
Ficou em mim como chuva mal caída.
Assim é que me sinto:
arada e mal,
quase doída;
porque estou morna,
e este descanso todo
me cansa ainda mais.

(Fernanda Dannemann)

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Com a violência colada aos ossos

Justamente agora, nestes dias em que o Rio de Janeiro vem sendo tomado por hordas de arruaceiros que promovem arrastões, montados em suas motocicletas, e roubam carros, dão tiros, queimam ônibus e tocam o terror na cidade, às vésperas da Copa do Mundo, não muito tempo após o evento dos black blocks, que culminou com a morte de um cinegrafista, tive a oportunidade de ver “Heaven” (no Brasil "Em um mundo melhor"), obra-prima que trata da violência sob diversos ângulos, como se fosse um cubo mágico.

A trama começa na Dinamarca, país evoluído... onde, no entanto, existe o preconceito virulento contra estrangeiros. Do norte da Europa a câmera migra para a aridez de um campo de refugiados na África, paupérrima e assolada pela matança, pela doença e pelo estupro.
A história também mostra a violência sob o ângulo do bullying, tão na moda, mas que não é coisa de hoje, convenhamos. A crueldade infantil sempre existiu, principalmente quando semeada dentro de casa, por pais violentos ou frios, e muitas vezes endossada pela escola.
E mais: mostra a violência que brota no coração de um sofredor como um grito de desespero, uma carência, uma tristeza que não sabe como sair ou se expressar. Tem gente que é assim mesmo: não aprendeu a chorar, a dizer que está padecendo, a pedir arrego, ajuda, abraço, remédio, reza, o que quer que seja que possa trazer um alívio qualquer ao sofrimento. E então fica fácil demais para nós, que estamos de fora da situação, olharmos com a cara desconfiada e fazermos mil julgamentos. É mais fácil dizer que Fulano não presta, que é um coisa-ruim. Difícil mesmo é entender que o coisa-ruim está doendo horrores.
E então vem o melhor da história: um homem é agredido fisicamente por outro diante dos filhos e não revida. O homem amarga intimamente a violência, mas se sujeita. Os filhos cobram a vingança e ele vai atrás do agressor e busca a conciliação, mas é novamente agredido verbal e fisicamente. E em vez de partir para o tapa, ele aceita outra vez a agressão, vai embora e explica aos filhos que “violência gera violência”, “que é assim que as guerras começam”, “que aquele homem é um idiota”.
Minha primeira reação foi achar que idiota era ele, um palhaço covarde que também ensinava aos filhos como serem covardes. E ali, sentada na poltrona da sala de exibição, senti desprezo pelo personagem.
O caso é que este homem, mais adiante, curando miseráveis na aridez da África, em condições práticas e emocionais que beiram o surreal, é capaz de enfrentar de peito aberto um chefe miliciano perigosíssimo, para defender os inocentes do acampamento. E o faz sem armas, apenas usando as palavras, exatamente como fez com seu agressor lá na Dinamarca.
Então entendi que não se tratava de um covarde, mas de um pacifista. Percebi o quanto é fácil rotular como “palhaço”, “fraco”, “frouxo” e todos os sinônimos possíveis, um ser humano CIVILIZADO, que se recusa a agir como um animal irracional que resolve suas questões à base da força, do grito, da lei do mais forte e da ameaça. Entendi o quanto é profunda a questão da ética interior, que é muito mais que um simples discurso, muito bonito de ser pregado, alardeado aos quatro ventos, mas na maioria das vezes dificílimo de ser vivenciado.
E entendi o quanto a violência pode estar arraigada aos nossos ossos, sem que nos demos conta. No escurinho da sala, me escondi de mim mesma, de tanta vergonha.


quarta-feira, 28 de maio de 2014

Pérolas no Museu do Inconsciente

Fui conhecer o Museu do Inconsciente, uma preciosidade escondida no Engenho de Dentro, lugar que, confesso, só havia passado assim mesmo: de passagem.

Quando dei por mim, estava absolutamente encantada com o que vi, obras saídas literalmente do inconsciente dos artistas, pacientes do Instituto Municipal Nise da Silveira, a psiquiatra nordestina que em plenos anos 40 deu voz a esquizofrênicos através da expressão artística e criou um ateliê para depois criar um Museu do Inconsciente, fazer exposições internacionais e nacionais e chamar um pouco mais a atenção do mundo para o que rolava dentro dos muros do manicômio.

Mas é lamentável aquelas obras de arte tão lindas e preciosas escondidas ali, distantes do olhar do público, que desconhece a existência do museu. E que pena que não haja mecanismos que possibilitem ao menos uma discussão atualizada sobre a possibilidade de reprodução daquele material tão bonito, de forma a levantar verba para ampliar o museu e possibilitar que mais uma parcela das 350 mil outras obras do acervo seja trazida a público, e que exposições itinerantes sejam montadas. É mesmo uma pena...

Já pensou se houvesse uma sucursal do museu do centro da cidade, com loja e café? Grandes ideias podem parecer absurdas em um primeiro momento... Não só pela beleza das peças, mas por sua importância na área da pesquisa (e também pelo interesse que haveria de despertar no público leigo) o Museu do Inconsciente deveria entrar na pauta de discussão dos nossos políticos como um projeto ligado também à pasta da cultura.

Fiquei particularmente apaixonada por dois artistas: Fernando Diniz e Adelina Gomes. Ele pintava aquarelas coloridas cujos motivos eram basicamente objetos domésticos: uma tentativa de organizar “a casa” interna. Ela gostava de esculpir imagens humanas, mas fiquei especialmente encantada com suas pinturas a óleo, enganosamente infantis, para o observador desatento.

O trabalho do artista que acessa o inconsciente me encanta de modo singular porque traz em si um dilaceramento que só os íntimos da dor e da brutalidade são capazes de traduzir; ao mesmo tempo em que traz também uma sede de singeleza e normalidade. Veja Eduard Munch e Vincent Van Gogh... não estão distantes de Fernando Diniz e Adelina Gomes: todos vieram do mesmo lugar; um lugar chamado Solidão.

sábado, 24 de maio de 2014

Solidão

Atravessei esta semana a nado

(e eu só tenho um braço).




Fernanda Dannemann

segunda-feira, 19 de maio de 2014

O jovem velho

O mal de se ter vinte e poucos anos é sentir que a vida é longa, por vezes tão longa que nos damos o direito de fazer besteiras monumentais, como se para tudo houvesse jeito e remédio, milagre a tempo e a hora, resoluções românticas que só mesmo a fé da juventude é capaz de alimentar.

O problema é que o tempo passa, e rápido, e mais rápido ainda quando fazemos más escolhas. Não sei exatamente o motivo, mas preste atenção: sempre que fez uma opção equivocada em sua existência, o tempo voou mais veloz, e depois foi mais difícil correr atrás do prejuízo, sanar os danos físicos, morais, financeiros e espirituais... o erro de cálculo em geral custa caro.
E como ser jovem ou velho nada tem a ver com idade cronológica, um dia a gente se mira ao espelho e se dá conta de que o viço da juventude já não brilha mais ali naqueles olhos... alguma coisa aconteceu, mas o quê?

A perda da ilusão, da fantasia, e isso é triste. Um pouco da alegria se foi também. E é assim que a gente começa a envelhecer, porque velhice, na verdade, é isso, é entristecer-se, tornar-se cativo de uma situação externa criada a partir de uma decisão interna.
Envelhecer não é ter 50, 60, 70, 80, 90 anos... a gente pode chegar aos cem e continuar o mesmo jovem que foi a vida inteira, desde que tenha passado pelos anos consciente do próprio valor e tomando as decisões certas para si e para os que estavam ao redor, aquelas que conduzem à alegria, e não à ruína.

Envelhecer é exatamente ser um jovem que desconsidera a si mesmo e brinca com o futuro, como se a vida fosse sempre lhe ofertar uma nova chance.
Ser jovem, ao contrário, é compreender o valor que a vida tem e que cada dia tem; compreender que o futuro é hoje, que cada batida do coração é uma benção  que merece ser celebrada... e que a única maneira de celebrar a vida é buscar de verdade a felicidade, sem atitudes doentias de autocomiseração, sem boicotes a si mesmo, sem pagamento de tributos ao orgulho: tudo isto um jeito mórbido que encontramos de matar o que há de mais livre em nós mesmos.

 Coisa mais triste ver os olhos de 80 numa pessoa de trinta!
 
 

domingo, 18 de maio de 2014

Frase do dia

"Tudo o que não puder contar como fez, não faça".

                                                                (Kant)

terça-feira, 13 de maio de 2014

O vexame do Complexo de Inferioridade

Em menos de uma semana fui testemunha, ao lado de outras pessoas,  de um show de estupidez de dois cidadãos sabidamente inteligentes e capazes, o que comprova minha tese de que estupidez nada tem a ver com inteligência ou capacidade: um indivíduo pode ser inteligente e altamente capaz, mas apesar disso... estúpido na mesma proporção.

Em ambas as situações, no miolo da questão estava o velho e triste Complexo de Inferioridade, aquele que quando grita na alma faz o complexado dar vexame nas horas mais impensáveis, seja o aniversário da sogra com quem não se tem intimidade ou mesmo uma reunião de trabalho com desconhecidos.
 É... é dura a vida dos complexados...
Ao observar o andamento dos fatos, me dei conta de que o curioso é o modo como a vítima do complexo de inferioridade se defende: ela parte para o ataque no momento em que se sente ofendida, mesmo que esta ofensa seja imaginária. (E note bem que é o que acontece na grande maioria das vezes).

Depois vem o pior, o ridículo da situação, que é a tentativa de fazer-se superior ao anular aquele que o incomoda, e que, intimamente, é transformado em oponente. O complexado, na crença doentia de que necessita defender-se de um golpe cego,  age como se o outro fosse invisível ou se sua fala não tivesse valor. Tenta calá-lo, esvaziá-lo de significado, constrangê-lo, submetê-lo ao seu jogo de poder. Com certeza é um sofrimento para ele, o complexado... mas para quem vê tudo de fora, é feio demais, pra não dizer patético.
Trata-se de uma atitude covarde não só por significar a tentativa de invalidar o outro perante si e o grupo (se houver um) mas também covarde porque é desta maneira que o complexado evita o que mais teme: conviver, expor-se, mostrar-se, ser avaliado, ser (ou não) aceito.

E o mais irônico de toda esta cena dantesca é que de nada adianta buscar a conciliação, pois estes sofredores roem-se tanto por sua suposta pequenez e ofendem-se com uma facilidade tão extrema, que até o convite à paz os avilta.

Se, como diz a sabedoria popular, “para o bom entendedor, um pingo é letra”, digo que, para um complexado, um sorriso é agressão.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Inquilino

Ateio fogo nos lençóis, fogo na cama,
num desespero de amante
(a dor que clama)
pelo vazio a planar nos travesseiros.

É o espaço imenso, aqui,
lá adiante,
que se levanta, espreguiça e ganha a casa:
a tua falta, intensa,
este gigante
que nada tem de sutil ou passageiro.

Tudo me arde, sou eu toda esta chama;
sou eu que queimo, sou a cinza quase fria
que farta a casa

e a casa é tão vazia.

(Fernanda Dannemann)


terça-feira, 6 de maio de 2014

Julia, a metralhadora giratória

Poucas palavras dizem tudo... olha o meu papo com minha amiga Julia, de nove anos:

Eu: Acho que vou ao cinema ver "Noé".

Ela, de uma vez, sem nem parar pra respirar: Tem inundação! Muito sangue! Eles comem criança! (Os que comem, né, só os que vão pra guerra, porque os outros morrem de fome... ). O Noé é um bêbado e tenta agarrar uma moça! E eu vi um homem pelado, mas só de costas, então só vi a bunda dele. Eu nunca tinha visto um homem pelado! É muito violento, tem muita morte, muita coisa horrorosa...

Interrompi.

-- Tá bom, Julia, obrigada. Já desisti.

-- Nãããããããoooo... é legal!!!!!!!!

Estamos voltando à Idade Média, quando a infância não existia. É isso mesmo que a indústria do consumo quer, e está quase lá.


domingo, 4 de maio de 2014

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Voltar é sempre um recomeço

A gente está sempre indo a algum lugar, e se não vamos ao cinema, ao mercado, à casa de alguém ou a Paris, numa viagem de férias... estamos ao menos indo rumo ao futuro. Indo, indo, sem parar, como um ponteiro nervoso de relógio, que não para porque não pode e nem quer ficar pra trás.

E nesta onda de ir, o curioso é que desejamos chegar cada vez mais distante, já reparou? O mundo moderno não tem fronteiras... queremos ir longe no trabalho e alçar todas as promoções possíveis; nas férias, sonhamos com passeios longínquos pelos lugares mais exóticos e remotos do planeta. É como se fôssemos conquistadores, desbravadores da experiência... sempre indo, indo...

Parar pra pensar já não faz parte do trajeto: "parar" é o mesmo que "estagnar", e quem é que quer ficar para trás em tempos vorazes de Facebook e Linkedin? Pega até mal sumir do mapa por uns dias. "Pensar", além de dar trabalho, pode vir a doer bastante, e quem é que quer sentir dor em tempos de consumo selvagem e prazer imediato? Dor é coisa do passado...

E o que fazer com o cansaço de viver assim?

Ir é quase sempre uma festa; a gente vai, vai, vai... e às vezes até se perde pelo caminho, o que faz parte da diversão. Se houver incômodos, não faz mal... isso faz parte do percurso. Quem é que nunca teve uma bolha no pé ou chorou uma decepção? Mas sempre chega o dia em que a gente pega uma rua sem saída, e então, numa hora como esta, não tem jeito: a gente tem é que voltar.

Voltar é sempre um recomeço. Seja voltar pra casa, à noitinha, no fim do expediente... seja voltar de férias, depois de uma viagem a Nova Iorque... voltar para o trabalho, de manhã cedinho... voltar para a casa dos pais, após o divórcio... ou para o casamento, depois daquela separação dolorosa... ou para o abraço daquele amigo, que nos decepcionou... para a faculdade, depois de muitos anos, ou voltar para a realidade, quando acordamos de uma paixão violenta... ou mesmo para um projeto que havíamos abandonado...

A gente tem sempre uma estrada pra retomar, um caminho pra continuar seguindo, uma história para a qual regressar... e recomeçar, como uma chance que a vida nos dá de fazermos as coisas de um outro modo, quem sabe? A simples oportunidade de olhar o cotidiano com olhos diferentes já muda tudo. Ponha um pouco de curiosidade no seu olhar; e se puser um pouquinho de doçura a mudança será ainda maior. Pode não ser fácil, mas é tudo uma questão de exercício, como a gente faz com o bíceps, na academia... e ele vai crescendo e ficando forte, sabe como?

Voltar é sempre um recomeço. Decide aí como é que você quer a sua história.