terça-feira, 30 de agosto de 2011

A vida é uma caixinha de surpresas

Gosto desta imagem. Gosto de pensar que a vida é mesmo uma caixinha de presentes, de presentes de todos os tipos, inclusive aqueles que a gente não gosta muito.

Lembro de um livro chamado “O valor das pequenas coisas”, que ganhei de aniversário da Titi, melhor amiga da minha mãe. Ainda tenho na lembrança a satisfação dela, diante do meu poder de atriz, em meus plenos dez anos, agradecendo muito contente pelo presente que, secretamente, achei descabido.

“Podia ter sido um livro de histórias”, comentei mais tarde, com a minha mãe. E ela respondeu:

“Hoje não te serve, mas um dia vai te servir”.

O fato é que o presente da Titi me acompanhou por anos, sem nunca ter sido lido. Acabou se perdendo em alguma mudança de endereço. Mas bastou a capa pra dar o seu recado... sob as palavras emblemáticas do título, estava uma moça de vestido marrom, abraçada a um buquê de girassóis: ok, Titi, entendi tudinho.

Anos mais tarde, um dia falei pra minha mãe:

-- Na próxima encarnação, quando Deus me disser pra escolher de presente um dom, vou pedir uma voz maravilhosa pra cantar para as pessoas e fazer com que elas fiquem emocionadas.

E ela, que me gostava de ler, mandou na lata:

-- E você vai ser minha filha de novo, e me dizer que deveria ter pedido a Deus o dom de escrever e, então, tocar o coração das pessoas.

Perdoem-me as divagações, mas minha cabeça, que já voa normalmente, anda mais voadora por estes dias, e lembrei dessas passagens justamente por pensar que a vida é uma caixinha de surpresas.

Vejam este blog, que carinhosamente chamo de “bloguinho”... de dentro da caixa de surpresas, ele nasceu como um simples projeto profissional, mas na minha imaginação foi ganhando outras formas: neste momento de solidão que atravesso, ele está mais pra cachorro de estimação, daqueles que nunca tiveram pedigree, mas cujo rabo balançante é um aviso de vigília sobre o tapete ao lado da cama. Sempre por perto.

Então me vem outra imagem, porque afinal de contas sou mineira da gema: é uma cozinha de porta aberta, café no bule e bolo no fogão. Nas janelas, o sol da manhã bate tão amarelinho! E aquele cachorro de antes agora está na soleira, tirando um sono de preguiça enquanto as visitas entram e saem... muito naturalmente vão se formando os laços da amizade que têm tanto a ver com os dias de hoje... virtuais, invisíveis, sem rosto. Mas nem por isso imaginários.

Da minha caixinha de surpresas, saiu um bilhete de partida para o meu velho Dannemann, que viajou no domingo, no bonde das 22h30. O mundo ficou diferente, sinto-me um bicho em forçosa adaptação... e vejo que este blog, que tanta força me tem trazido, tantas mensagens de empatia e dor compartilhada... este blog é mais um presente enviado por Deus.


Nós dois agradecemos por tudo!

Leia também:
Todo mundo é pé na cova

sábado, 27 de agosto de 2011

Atlas e o aquário

Compartilho com vocês um poema que escrevi em 1992, sobre a tristeza do meu pai diante do falecimento da minha mãe.



Havia a marionete em meio à renda na janela
E o aquário sob o peitoril,
Na mesa carcomida por carunchos.

Nunca soube ao certo quantos peixes eram,
E, entre eles, a solidão de um cavalo-marinho, sobre o qual, talvez,
Meu pai estendesse demorado olhar,
Num tempo hoje perdido.

Havia em meu rosto a cor das framboesas.
Nos olhos, boiavam estas jabuticabas
(que hoje, tanto tempo já passado,
Persistem na maturação perpétua,
Carcomidas pelo apetite das visões
De tantos dias).

Era furtivo meu caminhar por entre um quarto e outro,
Como furtivo era o olhar às curvas costas do meu pai
E à contemplação diária a que se expunha, frente ao aquário.

Por vezes, creio tê-lo visto trocar olhares com um peixe,
E recolhida à sagacidade dos meus poucos anos,
Pressentia no silêncio o peso incontestável
Das confissões não ditas.

E tantas foram as confissões restritas ao olhar aguado de um peixe,
E tão poucas as palavras a passar por mim como enxurrada,
Que solidária a mim, por ver-me órfã de um pai vivo,
E solidária a este pai, por não deixar de amá-lo,
Tentei fazer-me cúmplice daquele mesmo peixe,
Embora seu olhar jamais me tenha definido
(talvez resposta sua, ao meu desejo de invasão).

Altivo e duro, o corpo do meu pai
(então humano, diante do aquário)
Parecia descansar de um peso insuportável,
Que talvez lhe fosse a vida.

Atlas a sustentar dores do mundo sobre as costas,
Meu pai me sugeria a sentença de carregar todas as marcas
De um passado morto;
De um passado imóvel tanto quanto a solidão de um cavalo-marinho;
De um passado mudo e fixo
Como o olhar daquele peixe enclausurado pelo vidro.

Mortas pelo tempo,
Esbranquiçaram-se aquelas framboesas.
Ainda as jabuticabas em meus olhos, cheios de visões.
Ainda em meus olhos, bóiam suaves as mãos de minha mãe
A agitar a água de um aquário,
A alimentar um peixe...
Quase como um aceno a tão guardadas,
Tão aguadas solidões.


(Fernanda Dannemann)




Minha mãe, eu e papai, em 1970

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Vai ter festa no céu

Sim, vai ter festa... porque meu pai está voltando pra casa.

Minha mãe estará com seu melhor vestido, com os cabelos soltos como ele gosta de ver; escolherá um disco do Fagner para tocar na vitrola e vai preparar ovos nevados. É um encontro há muito esperado: vinte anos desde o último olhar. E dançarão de novo, de rosto colado, enquanto ele mal acreditará estar ali.

Como na infância, minha irmã correrá em sua direção. E ele poderá sentir outra vez a felicidade, antes perdida, que é tê-la em seus braços.

Se aproxima o momento da libertação. De uma alegria que, para nós, que aqui neste mundo ficamos, é quase impossível alcançar: estou triste, uma tristeza profunda que só os órfãos entendem, porque a conhecem bem. A tristeza de não ter mais para onde voltar, porque a simples palavra "papai" nos leva de volta à casa da infância... aquela de onde nosso coração jamais se muda.

Mas sinto também alegria, confesso: alegria por ele, que me ensinou a amar a vida e colocou em mim tantas coisas de si mesmo... acho graça em sua herança: a impaciência, o nariz longo e sempre em pé; o humor ácido, as respostas prontas na ponta da língua, o prazer na brincadeira, o desejo imenso de ser feliz.

Meu pai me inspira a vontade e a garra de viver porque é um lutador acima de tudo, um sobrevivente que jamais teve pena de si mesmo. Um combatente incansável diante das lutas que travou em seus 78 anos. Um vencedor pelo simples fato de não entregar os pontos nem mesmo diante das maiores dores e decepções. Um batalhador que viveu em busca da alegria de ser grande dentro de suas possibilidades. Um verdadeiro gladiador diante das adversidades.

Tenho um orgulho imenso de parecer-me com ele e de sentir o coração leve por ter sido a melhor filha que pude... por não ter deixado nada por dizer: nenhum "eu te amo"; nenhum "muito obrigada por ter feito o seu melhor"; nenhum "me perdoe se o magoei". A ele dedico (como à minha mãe, nestes vinte anos) todo o meu esforço em ser um ser humano melhor, um ser humano decente, um ser humano do bem: este é o meu maior "muito obrigada".

Meu coração acelera de frio pela solidão da orfandade, e pede a Deus que o receba ao lado de minha mãe, de minha irmã, dos meus avós e de todos os amigos que por lá estão. E que, juntos, celebrem seu reencontro e as vitórias que terão ficado pra trás.

E por nós, que aqui ficamos... peço a Deus que nos livre do egoísmo, para que o deixemos ser livre em paz.



segunda-feira, 22 de agosto de 2011

"A inveja não me deixa botar azeitona na empada de ninguém!"

Mantenho distância de gente mercenária. “Elogiar? Mas ninguém me elogia!”, dizem os negociantes da auto-estima, que distorcem a célebre frase “é dando que se recebe”. Da mesma forma, aqueles que economizam favores ou gentilezas usam esta justificativa, e não colocam azeitona na empada de ninguém. Não colocam porque a inveja não deixa.

Aqui com meus botões, penso que este é o típico comportamento de gente que transforma tudo em competição, inclusive a amizade. E acreditam que os outros não percebem, porque, claro, os outros são burros. Deus me livre!

Foi numa conversa sobre isso, com minha grande amiga, a Dra. Vera, mulher moderna nos seus 80 anos de sabedoria, que comentei imaginar a vida em retiro uma boa alternativa a este mundo tão competitivo e invejoso... e acabei me lembrando de Santa Teresinha do Menino Jesus, de quem sou fã.

-- Santa Teresinha padeceu no convento! As freiras não gostavam dela – me disse a Dra. Vera.

Pasmei.

-- As freiras não gostavam dela?!
-- Freira também é gente, minha filha. O convento está cheio de quê? De gente. Onde tem gente, também estão os defeitos.

Acabou-se ali a veleidade que alimentei, desde criança, de, depois de curtir bastante a vida, acabar meus dias no ambiente leve de um convento, cercada de muitas amiguinhas boa-praça. Quer dizer que Santa Teresinha, que foi -- e continua sendo – uma santa, e que sofreu muito devido à humildade, injustiça e doença, além de tudo teve que aturar gente que tinha inveja dela?!

Como meu pensamento voa, e disso já sabemos, acabei me lembrando do dia em que minha irmã Teresa, doentíssima, recebeu a médica acupunturista em casa, para tentar lhe aplacar dores que nenhum remédio aplacava. A doutora, formada na China, chegou elegante como sempre, em seu terninho, mas mal-humorada devido ao trânsito. De tão dedicada à carreira profissional, não teve tempo para casar-se ou ter filhos: rica e famosa, especializou-se em doentes terminais, mas detestava atender em domicílio.

Cercada por filhos e marido dedicadíssimos, minha irmã sofria na cama, usando pela primeira vez um autêntico robe de seda floral japonês, em tons de verde água, que a tia havia dado um jeito de mandar vir do outro lado do mundo, na tentativa de alegrá-la.

A médica pisou no quarto com seu salto alto e não disfarçou o encantamento diante da peça. Mal começou a espetar as agulhas, perguntou sua origem. Passou a sessão falando de suas viagens ao Oriente e, ainda que minha irmã reclamasse do peso de sua mão, mais pareceu estar num salão de chá, jogando cartas com as colegas.

Lá pelas tantas, foi à sala, a pretexto de beber água, e sacou o celular para uma ligação internacional. Dali mesmo, encomendou um robe de seda floral verde água, e entrou quase eufórica no quarto, para dar a notícia à paciente: seu robe chegaria em poucos dias!

Minha irmã encerrou a sessão e depois me perguntou, com uma expressão quase vencida no olhar:
-- Como pode, uma pessoa à beira da morte, ainda causar inveja em alguém?

Carrego esta pergunta há anos, e agora a divido com vocês.

Um momento feliz na vida da Teresa

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O arrependimento é um fruto amargo

-- Mãe, me leva na pracinha?

-- A mamãe tá cansada, filha...

Um dia a Michele cresceu. Nunca mais pediu pra ir à pracinha. E a Lucy, mãe dela, começou a sofrer a dor aguda e irreversível do arrependimento, principalmente porque o tempo havia passado e não era possível voltar atrás, mudar as coisas, levar a Michele à pracinha, afinal.

Não há remédio que cure esta dor que a Lucy sente: nem mesmo todas as lembranças do quanto sua vida era dura; nem todas as certezas de que não foi por descaso ou desamor; nem todos os perdões generosamente dados pela Michele, que acha até graça em tanta culpa... nada liberta o coração arrependido da Lucy.

Eu sinto esta pontada de dor quando minha mãe passa, diante dos meus olhos, subindo a rua de casa carregando as sacolas pesadas do supermercado. Eu a vi, mas não a ajudei. Preferi continuar de papo furado com a turminha... ou quando revejo meus sobrinhos em sua infância, e penso em todas as oportunidades que perdi de dar-lhes banho, de brincar com eles, de beijar mais aquelas bochechas gordinhas. Eles cresceram junto com a Michele, e eu sofro junto com a Lucy.

Meu pai me contou, uma vez, sobre um perdão que deixou de conceder, e que nunca mais pôde conceder, porque a pessoa que pedia absolvição morreu subitamente, deixando-o com este lamento que já dura mais de trinta anos, e que o incomoda tanto quanto uma queimadura recente.

Sei de tantas situações desta mesma natureza, que não entendo o porquê de continuarmos resvalando no mesmo erro, como se nosso egoísmo fosse uma areia movediça puxando-nos para o fundo, para a escuridão, para onde não há saída: só o arrependimento.

Talvez a raiz desta “árvore do arrependimento” __que, acredito, todos nós trazemos plantada em nosso jardim interno__ seja a ilusão de que sempre teremos oportunidade para agradar as pessoas, para aprender mais sobre a gentileza e sobre a generosidade.

Sendo assim, “da próxima vez eu carrego as sacolas pesadas do supermercado para a minha mãe, porque agora estou ocupada”.

Ilusão.

Não tive outra oportunidade.

Da minha preguiça, descaso, ilusão, egoísmo ou que quer que tenha sido, só sobrou mesmo esta árvore, cujos frutos amargos serei forçada a comer pelo resto da vida.

A Lucy não pode nem ver um balanço, porque o coração dela dói

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Barack Obama, Dom Quixote, você e eu




Muito antes de Barack Obama dizer “yes, we can!” um cara meio doido, vestido de cavaleiro andante, já dizia, de cima do seu cavalo, que sim, nós podemos, nós chegaremos lá!

Não é à toa que Alonso Quijano deixou de ser quem era para tornar-se Dom Quixote, um tipo que valorizava, acima de tudo, o esforço próprio, mirando-se nos heróis dos livros de aventura, onde encontrou inspiração para viver.

Não é à toa também que o livro de Cervantes é um best-seller de 400 anos, com fãs ardorosos como Freud e Dostoiévski. Dou de presente a vocês a versão do cavaleiro feita pelo argentino Miguel Rep, para o livro da Editorial Castalla, que por enquanto temos que comprar no exterior.

Embora divida as opiniões, Dom Quixote, para mim, está longe de ser uma comédia. Não consigo rir da tragédia humana, principalmente quando é proveniente da boa-vontade. E nosso herói – apesar da ironia sombria que o cerca, do ridículo de sua bravura – não aceita as realidades da vida porque anseia ser grande... e encontra para si um propósito sublime, ainda que precise recorrer à imaginação para fazer de uma hospedaria um castelo; de algumas ovelhas um exército; daqueles moinhos os gigantes por vencer.

Para mim é elogio ser chamada de “quixotesca”, pois quanta persistência me inspira o personagem!

Aliás, acho que por isso mesmo o livro tornou-se universal: porque o homem, só por ter nascido homem, nasceu um pouco Dom Quixote também.



domingo, 14 de agosto de 2011

Eu não sou Will Smith !!!


Várias pessoas já me disseram, com ares de saudosismo ou frustração, que “todos os amigos de verdade a gente encontra na infância”... porque depois disso o ser humano fica ruim demais para fazer amigos.

 Não sei da sua infância, caro Leitor, mas no caso da minha, salvo umas três ou quatro amiguinhas, com as quais perdi contato, o resto, confesso, era um bando de coisinhas horrorosas, do tipo comum que a gente mais encontra vida afora.

Não, a infância não é um mar de rosas, e quem acredita que toda criança é um anjo realmente não entende nada de crianças. Muitas são, simplesmente, do mal: cruéis, debochadas, insolentes, egoístas, opressoras, manipuladoras e invejosas. Estão aí os professores, para atestar o que digo.

A questão é que, desde a barriga da mãe, já somos o que de fato seremos por toda a vida. Alguém aí já leu aquela história incrível do Machado, “Esaú e Jacó”, os gêmeos que quase saíram no tapa em plena gestação?

Pra piorar a situação, além de desconfiada e exigente que sou (será a mineirice?) ainda me meti com uma profissão que favorece o contato com o que o que há de pior no ser humano, seja entre os colegas ou entre as histórias que acabamos assistindo diariamente. Resultado: em um quadro destes, o indivíduo começa, realmente, a crer que o mundo só tem fdp.

Foi triste, mas vivi assim durante anos: para onde quer que olhasse, estava lá um coisa horrorosa, pronto para dar o bote.

Desisti da melhor oportunidade profissional que tive justamente por causa disso. Rompi “amizades”, risquei alguns parentes do meu caderninho, cortei pela raiz possíveis roteiros amorosos... tudo para evitar os fdps.

Então aconteceu o lance cinematográfico: em um curto espaço de tempo, quase todos os meus amigos de verdade (que eram uma meia-dúzia de três ou quatro), estavam mortos. Restou-me apenas uma, para contar a história. Aos trinta e poucos, me vi em uma solidão tão absoluta e concreta, que adoeci de corpo e alma.

Realmente acredito que o pior da pobreza nada tenha a ver com dinheiro, porque este foi um momento de pobreza financeira e afetiva, e o que mais me doeu e assustou foi a consciência de estar só no mundo, este mundo que, para piorar tudo, só tinha fdps! Me senti o próprio Will Smith naquele filme de terror, “Eu sou a lenda”... sozinha em um mundo povoado por zumbis. Por sorte sou da vida, caso contrário teria pulado da ponte Rio-Niterói...

Então resolvi mudar meu foco. Os livros que lia, os filmes que via, os pensamentos que alimentava. Cortei as manchetes de jornal e a TV e, por isso, tive que buscar um outro tipo de jornalismo. Voltei para o consultório do analista, para encontrar alguma coisa boa dentro de mim mesma e tentar jogar fora o que não prestava. E, como tão bem aconselha o Frejat, deixei de passar a mão na cabeça de quem me sacaneava.

Já se passaram alguns anos, e vejo que os fdps continuam por aí. A diferença é que agora consigo ver que o mundo também tem muita gente boa, e que elas estão por toda parte: aqui mesmo, neste blog, volta e meia tenho boas surpresas.

O mundo está diferente, mas de fato mudou? Não. Quem mudou fui eu. E é aí que está o grande segredo de toda esta história.


Eu já não vivo mais assim!!!

sábado, 13 de agosto de 2011

Muitas oportunidades brotam de uma única perda

Nunca me esqueci da perplexidade da Paula Peres, minha amiga preferida na infância:

-- Mas como é que pode, ter tirado 2,5 na prova e estar assim, tão tranqüila?!

E eu, aos onze anos, dei de ombros, enquanto mandava brasa no pão-doce de canela e côco que comíamos todos os dias, na saída da escola.

No fundo, estava enganada, a Paula Peres, que não percebeu minha angústia pela nota baixa. Uma angústia que eu mesma rejeitava, por entender que não me ajudaria a desvendar os mistérios da matemática. Eu estava diante de um problema difícil, mas sabia que chorar pelo leite derramado não me ajudaria em nada.

Justamente por não ser capaz de aprender aquelas equações sozinha, e por passar pelo dissabor de uma nota tão baixa e um castigo sentenciado por meu pai, minha mãe me arranjou uma professora particular, a Ângela, que me ensinou o quanto os números podem ser divertidos. Resultado: aprendi de verdade e, por isso, passei a tirar dez nas provas. O que pareceu terrível, num primeiro momento, revelou-se oportunidade.

Mas a lição mais importante eu ponho em prática até hoje: diante de qualquer experiência mal-sucedida, vasculho todos os cantos da situação em busca dos ganhos... que sempre existem, mesmo que eu não consiga vê-los de imediato. Os ganhos estão ali, e quanto mais abrimos os olhos para a vastidão que pode ser a vida, maiores são as novas possibilidades, que brotam, como flores, de um único pé de perda.

O segredo está no fato de que as aparências enganam, e nem sempre a vida é o que parece. Nem sempre, por exemplo, uma perda é uma perda. Aquela mulher que não te ama e vai embora, não é uma perda. Aquele emprego que não te realiza e um dia vira um bilhete azul sobre a mesa, não é uma perda. Aquele amigo que trai sua confiança... aquele dinheiro que virou fumaça no divórcio litigioso e que por tanto tempo te aprisionou em um casamento infeliz... aquela promoção que não saiu e que dobraria seu salário, mas faria de você um escravo...

Note que a vida é muito mais do que podemos perceber, em um primeiro momento. É preciso cuidado com as deduções que fazemos e com as decisões que tomamos, porque a realidade é muito maior do que nossos olhos alcançam e nossas emoções nos permitem ver.

A verdade tem sempre muitos lados, a realidade tem muitos ângulos, a vida tem muitas possibilidades... e nós temos só dois olhos para ver e um coração para decifrar tudo isso.


Três Mundos, de M.C. Escher

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Para os céticos, as estrelas não têm pontas

Dia desses, vi esta frase aparentemente ingênua escrita em algum lugar:

“Acredite em Papai Noel”.

Gostei do conselho, porque tenho a impressão de que proliferam, mundo afora, os que duvidam de tudo. Os que não confiam em ninguém. Os que afirmam já não ter esperanças, os que rechaçam a Deus e ironizam a felicidade. Os que negam os milagres e se gabam de não acreditar em nada.

Pois conto que, noite dessas, vendo um documentário do Discovery com meu marido, soube que as estrelas não são o que eu pensava.

-- As estrelas não têm pontas?!

Imaginei o céu coberto por estrelas que não são estrelas, mas bolas. E, de um instante para o outro, o mundo ficou esquisito. Meu marido achou graça em tanta decepção, e riu mais ainda na noite seguinte, quando olhei para o céu, enquanto caminhávamos perto de casa, e contei-lhe como um desabafo:

-- Não estou nem aí para o que os cientistas dizem.

Não sou cética. Se acredito em Papai Noel, não vou acreditar nos cientistas? Também não sou adepta da teimosia-burra...

Mas que importância têm, certas verdades, diante da beleza do mundo? Quanto da maravilha do seu natal foi pelo ralo quando você descobriu que seu presente tinha saído de uma linha de montagem industrial e havia sido pago, num balcão de loja? Quanto da magia de um casamento iria para o brejo se os noivos soubessem que, no futuro, se divorciariam? Quanta alegria deixaríamos de sentir, se soubéssemos, de antemão, dos desgostos do por vir?

Eu não duvido de nada e tenho na varanda um vaso de esperança e outro de felicidade. E dali mesmo, da varanda, posso ver, todas as noites, que as estrelas têm pontas sim.

domingo, 7 de agosto de 2011

Quem sabe apertar os seus melhores botões?

Costumo dizer que o ser humano é uma caixinha de surpresas, e que de dentro dele pode sair qualquer coisa: as maiores maravilhas e os piores horrores.

E pelo menos para quem é mais um na multidão de pessoas comuns, daquelas que estão buscando a evolução, mas ainda padecem das fraquezas mundanas, esta questão tem muito a ver com quem está à volta. Em outras palavras, estou dizendo que muito do que sai de dentro da caixinha, vem pelas mãos de quem a circunda.

Cada pessoa tira de dentro de nós comportamentos e atitudes bem específicos. Há quem te estimule a querer ser melhor, já reparou? Mas há também quem te leve à exaustão, ao nervosismo, à violência.

Não, não estou dizendo que a reponsabilidade pelas suas atitudes está na mão dos outros. O que estou dizendo, é que os outros têm a capacidade de extrair de você as suas potencialidades, sejam elas boas ou ruins. Por isso, todo cuidado é pouco. Ou, melhor ainda, "diga-me com quem andas, e te direi quem és".

Por que será que você se sente bem ao lado de Fulano e, em contrapartida, muito mal ao lado de Beltrano? Porque Fulano sabe, sei lá como, puxar do seu coração aquele fio iluminado da positividade; seja por afinidade, por respeito ou porque ele tem mesmo o talento de estimular os demais para o bem.

Ao passo que Beltrano, ao contrário, se compraz em ferir e em subtrair... será por vaidade? Por desejo de dominação? Ou por simples crueldade mesmo? Não sei, e isso nem importa, mas o fato é que, por vezes, as pessoas também puxam, do seu coração, aquele fio negro que traz à tona o seu lado sombrio... por mais que você se esforce em ser uma pessoa de luz.

Uma outra boa metáfora para isso, é imaginar dezenas de botões em nosso espírito, botões que, quando apertados, revelam diferentes capacidades nossas...

A capacidade de ser alegre ou triste; egoísta ou generoso; sereno ou abalado ; aberto à vida ou fechado em si mesmo; compassivo ou agressivo; saudável ou doentio, a compreensivo ou intolerante, amoroso ou aguerrido ...

E como são puxados esses fios? Como são apertados esses botões?

O gatilho pode ser uma palavra, um tom de voz; um olhar, um gesto. A chave de tudo está na maneira como nos portamos com o outro, porque a convivência nada mais é que uma troca de intenções e energias, bem mais que de sentimentos. Você pode amar desesperadamente uma pessoa e, no entanto, apertar os botões errados simplesmente porque se diverte em vê-la reagir, ou porque tem preguiça para buscar os botõezinhos certos. Ou, em último caso, porque é obtuso o bastante para entender a importância disso tudo.

Ninguém vem com manual, eu sei. Os botões certos e errados, ou o fio de luz e o de sombra, estão todos ali, misturados no nosso peito. Talvez, então, o segredo da felicidade esteja em identificar quem está disposto a mexer com tudo isso sem provocar o caos dentro da gente.


Olha aí alguns dos meus!

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Se não fossem os desafios, que graça teria viver?

Foi pensando assim que eu, doceira de mão cheia (modéstia à parte) resolvi, pela milésima vez, investir na minha falta de talento para pratos salgados e pagar uma nota por um livro de culinária daqueles bem luxuosos, que prometem ótimos resultados. Da livraria, toquei para o supermercado e comprei todos aqueles ingredientes diferentes que a receita do risoto de alho poró pedia.

Em casa, ataquei de chef e mandei ver na receita, feliz da vida com o início desta minha nova fase, a de ótima cozinheira, do tipo que promove almoços em casa para os amigos e é reconhecida pelas maravilhas que só ela sabe fazer.

A mesa arrumada na varanda, o estômago roncando na barriga e eis que...


A comida ficou horrível!

Eu e meu marido bem que tentamos, insistimos, mas não deu. E o que fazer com a fome? Tentamos ignorá-la a princípio, mas menos de uma hora depois dos pratos já lavados, deixamos de fingir e voltamos à rotina de sempre, ou seja, fiquei olhando enquanto ele pilotava o fogão.


Nada como um marido que, além de tudo, também é bom cozinheiro!


E ainda lava os pratos!

Para não me sentir totalmente por baixo, resolvi cantar de “gala” e ataquei de cheesecake... já pensando no peixe pochê ao vinho branco que vou preparar no próximo sábado. E, no final das contas pensei: se não existissem os desafios, que graça teria viver?

terça-feira, 2 de agosto de 2011

A beleza está nos olhos de quem vê

Duas horas na sala de embarque e nada! Depois de um dia exaustivo, o atraso do avião era só o que me faltava! Além do cansaço, da fome e do desânimo, a impaciência na cara dos meus companheiros de espera deixavam tudo ainda pior. Próximo a mim, um homem por volta dos 70 anos, inconformado, se queixava com a mulher, que, acostumada, não lhe dava ouvidos e se distraía com as palavras cruzadas.

De repente, levei um susto: do outro lado da parede de vidro, muito, muito longe, a lua reinava com toda a sua força naquela noite azul royal. Era uma imensa bola cor de laranja, quase na linha do horizonte, iluminando o céu ao redor. Eu, que gosto da lua e sempre tenho os olhos nela, nunca a tinha visto com aquele esplendor.

Foi como um passe de mágica: tudo sumiu. As vozes, as pessoas, meu cansaço. E meu primeiro pensamento foi que, se não fosse o atraso do voo, eu não teria ganho aquele presente dos céus.

Não me contive. Sem desviar os olhos dela, toquei de leve o braço do meu colega de espera __o tal senhor por volta dos 70__ e lhe disse, enquanto apontava para o horizonte:

- Preciso mostrar isso a alguém.

Não fosse a vida uma caixinha de surpresas, ele não teria me dado esta resposta:

- É, está horrível!

Outro susto: como é que alguém poderia achar horrível aquele quadro perfeito que nem Van Gogh, em seus melhores dias, seria capaz de reproduzir? E no minuto seguinte entendi que o pobre homem não tinha olhos para o extraordinário logo ali à nossa frente; era incapaz de ver a beleza em meio ao caos... ele, precisamente, só exergava o caos.

Deixei-me levar pela sensação mágica de estar só naquela sala de embarque e acabei voltando no tempo... ao dia em que, em plena Cinelândia às três da tarde, num calor de rachar, enquanto eu esperava uma carona na escadaria do Teatro Municipal, olhei para os lados do Museu de Belas Artes e dei de cara com a figura imensa de uma índia que, imediatamente, me transportou ao Brasil selvagem dos idos de 1500, talvez.

A Cinelândia sumiu. Virou floresta tropical... e eu ali, diante de uma índia.

Naquela tarde de verão carioca, a ampliação do quadro, pendurada na parede do Museu, anunciando a reforma do prédio, parecia invisível ao resto do povo, que passava apressado sem ver a índia ou a floresta, enquanto eu sentia a umidade tropical daquela vegetação e quase ouvia as aves livres no céu... em plena Avenida Rio Branco parecia que, a qualquer momento, aquela moça estática desapareceria entre as árvores!

Lá se vão alguns anos, e não esqueço este momento mágico.

Quem me ensinou a olhar o mundo foi a minha prima, Maria Alice. Eu tinha nove anos e descia a ladeira da cidadezinha de Minas, onde morávamos, quando vi a Maria Alice, lata de leite na mão, parada embaixo de uma árvore, olhando pra cima.

Parei ao lado dela e olhei também: nem sinal de avião ou de disco voador. De repente, ela disse a frase que mudou tudo.

- Olha como são lindas as folhas desta árvore, e o céu lá atrás, fazendo fundo pra elas.

Uma janela se abriu nos meus olhos, e a vida ficou muito mais bonita a partir dali.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Alma Lavada lança MBA

Eu já sabia da indústria do concurso público, mas agora conheci o “admirável mundo novo” dos cursos e das certificações.

Explico: aos 40 e poucos, resolvi turbinar minha carreira, mudar de profissão e, acima de tudo, reciclar minhas competências e meu currículo. Já gastei uma nota preta e acabei incluindo em meu vocabulário palavras como estas... “reciclar”, “competências” e “corporativo”... mas fico me perguntando até onde meu investimento em cursos, formações e workshops estarão mesmo valendo a pena.

Sou uma aluna chata... popular entre os colegas, mas odiada pelos professores, e a razão é simples: gosto de aprender, principalmente quando a escola cobra caro pelo que promete ensinar.

Lamentavelmente, não é sempre que as instituições entregam o que vendem, e embora a maioria dos colegas não se queixe (muito pelo contrário), com freqüência tenho me sentido ludibriada pelos setores de marketing e de vendas das ditas “sociedades”, “institutos”, “fundações” e etc, que vendem formação mas entregam sonhos, como tão bem avaliou minha amiga Carla, grande conhecedora deste universo e minha colega de “classe”.

E já que os profissionais estão tão ávidos por certificados, e ficam de queixo caído diante de técnicas simplérrimas da psicologia, muitas vezes aplicadas sem nenhum cuidado... já que um mero teste de personalidade pode ser visto quase como mágica por pessoas que pouco sabem de si mesmas... já que o talento para a oratória pode mesmo fazer milagres e incendiar a auto-estima e a força de vontade das platéias... estou começando a achar que o negócio é entrar nesse mercado como concorrente, e não como aprendiz: ando pensando em criar o INSTITUTO DANNEMANN DE CONHECIMENTO SINÉRGICO E AVANÇO INTERPESSOAL!

O que significa este nome? Não tenho a menor idéia, mas isso não importa nadíssima: se já aprendi alguma coisa nos meus cursos, é que o nome do produto deve ser imponente, de modo a impressionar a clientela e convencer a respeito de seu próprio valor.

Já imagino a propaganda: Entre para o mundo da sinergia total! Seja um Super Champion e lidere vencedores!

Ou: O mundo pertence aos sinérgicos! Seja um multiplicador da metodologia campeã dos líderes mais bem-pagos dos países ricos!

E que tal os cursos? Módulo 1 e 2 do “Planejamento Executivo e Qualitativo da Esfera Global”... ou “Treinamento Subsequencial em Sinergia Mobilizadora”... e o que dizer do intensivo, em julho do ano que vem, mas já à venda, que será o “Ultra Sinergic Power para Formadores de Equipes Vendedoras”? E o que dizer do MBA Sinérgico-Executivo?

Hein? Será que levo jeito para subir num palanque e encarnar o Tim Tones, aquele impagável personagem do Chico Anysio na TV, e ficar rica no mundo maravilhoso dos “especialistas mais bem-sucedidos do mercado”? Mas a grande questão é: será que tenho cara-de-pau para tanto?

Enquanto decido, vou correndo patentear minhas idéias, antes que algum “consultor” passe por aqui e pegue carona na minha indignação...



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quarta-feira, 27 de julho de 2011

Aproveite o tempo que te resta

Meu amigo Gonza perdeu o filho neste fim de semana, depois de vê-lo lutar contra o câncer durante quase um ano.

O rapaz tinha pouco mais de 22 anos.

Uma história tão triste quanto esta me faz pensar na sorte imensa que tenho de ainda estar aqui neste mundo, viva, com saúde e com tantas coisas maravilhosas, como um amor, uma casa, alguns amigos de verdade e a esperança de poder desfrutar disso por muitos anos, de poder seguir descobrindo as maravilhas da vida.

Mas quantas vezes me deixo levar pela estupidez e sou dominada pela irritação, pela raiva, pelo desânimo! Quanto tempo já joguei fora discutindo com as pessoas que mais amo e me afastando delas! Quantas oportunidades de ser feliz tirei de mim mesma! E por quê?

Por me afastar da consciência de que o tempo passa, de que tudo passa, e que a hora de ser feliz e aproveitar as dádivas da vida... é agora.
Posso chegar aos 90 anos; posso morrer em um segundo.

O que estou fazendo com a minha vida? Com o meu tempo? Com todas as oportunidades que a cada dia me vêm, inclusive de tentar ser uma pessoa melhor?

Temos a tendência a desprezar as dádivas mais valiosas: o poder de ver, de sentir cheiros, provar sabores, caminhar, falar, ouvir... como se tais capacidades fossem uma obrigação do nosso corpo. Não são.

É um erro crer que podemos viver adiando um elogio, uma declaração de amor, um pedido de desculpas, um beijo, um encontro, um perdão, um desejo, uma gentileza, uma ajuda, uma viagem de férias, uma visita a alguém...

A estrada à nossa frente nos leva onde nosso coração determina; a paisagem é um reflexo do que trazemos dentro de nós. Podemos seguir mirando o horizonte ou de olhos postos no chão, o que seria um total desperdício.

Conheço pessoas que estão passando pela vida valorizando, acima de tudo, o trabalho ou as aplicações financeiras. Outras que só vêem seus ressentimentos, e vivem uma vida de rancor ou de pena de si mesmas. Há também os que têm olhos somente para as próprias necessidades; e aqueles que acreditam que a vida seja só o prazer da juventude. E muitos que vivem toda uma existência alimentando medos e paranóias. Esquecem-se, todos eles, da passagem voraz do tempo.

Aproveitemos ao máximo a estrada à nossa frente, para que não sejamos surpreendidos, de repente, pelo aviso de que a viagem chegou ao fim.


sexta-feira, 22 de julho de 2011

Nunca fui super em nada




Minha mais antiga lembrança de ter tentado bancar “a tal”, data de quando eu tinha exatos cinco anos: fui à piscina da cidadezinha do interior de Minas estrear o biquíni novo e o roupãozinho cor-de-rosa de plush (nome chique para tecido atoalhado) que havia ganho de aniversário.

Munida de chapéu preto de bolinhas brancas e tamanquinhos, resolvi desfilar minha superioridade na borda da piscina, diante das coleguinhas que nadavam, inspirada nos filmes de Esther Williams, que via na “Sessão da Tarde”...

E eis que caí dentro d´água, tendo que ser socorrida às pressas e, depois, tiritar (sou friorenta) enrolada numa toalha de banho vulgar.

Anos depois, aos 12, ganhei, de um parente distante, uma fantasia de Mulher Maravilha, e me senti ridícula naquele carnaval, vestida de tudo o que eu não era.

Conto isso para dizer que nunca fui super em nada, nem mesmo quando tentei.

Mas já fui uma pessoa triste, daquelas que tentam se ajustar aos mitos que a gente admira sem nem saber direito por quê... e que se esforçam para se adequar ao que pensa a maioria... e para usar as roupas que todo mundo usa... e para ser como todo mundo é.

Não deu certo... e justamente porque nunca fui super em nada.

Então decidi ser mortal em paz, como o fez Fernando Pessoa, porque pose nenhuma deste mundo vale a liberdade de poder ser ridículo em paz, e com a consciência leve de quem é feliz porque admite que é, simplesmente, humano.


Divido com vocês as maravilhosas palavras de um ser humano de carne e osso:


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possiblidade do soco;
Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu que verifico que não tenho par nisto neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo,
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu um enxovalho,
Nunca foi senão princípe - todos eles princípes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana,
Quem confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Quem contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó princípes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde há gente no mundo?

Então só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Todo mundo é pé na cova


Meu pai tem uma veia que, se estourar, babau.
 E enquanto esperamos que a burocracia seja resolvida, para que finalmente
ele possa ser operado, tentei reconfortá-lo.
 -- Paciência, pai.
-- Paciência é tudo o que não tive nesta vida – respondeu, tristíssimo.
 
Tremi nas bases ao pensar na crueza da situação: se a veia estourar... lá se
vão 79 anos. Mas então penso na minha amiga Carla, cujo filho de 12 saiu para uma
festinha e não voltou, justamente por causa de uma veia que se rompeu.
Doze anos, quem imaginaria? E a Carla conseguiu sobreviver para, depois,
voltar a viver: hoje é feliz de novo, e tem tanta força interior que consegue
levar conforto emocional a pacientes terminais que sofrem num hospital
público.
 
O que normalmente a gente não assimila é que, “para morrer, basta
estar vivo”. Deveríamos aprender com este ditado popular e aplicar seu
contrário: para viver, basta estar vivo...
 
Você já percebeu que nem sempre a morte está realmente perto de quem
parece estar? Ou longe de quem parece estar? Quantas mães cardiopatas
tiveram que, repentinamente, enterrar filhos jovens e saudáveis, e
continuaram vivinhas da silva durante anos, sustentando a moral e a união
da família inteira? Histórias assim são muito, muito comuns!
 
A ilusão da juventude cria nas pessoas a sensação de imortalidade ou, na
mais real das hipóteses, de que o fim está muito longe. E o triste disso é
que, contando com o imenso tempo que temos pela frente, adiamos o que
realmente importa: nos detemos nos problemas e nas insatisfações, em vez
de curtir as muitas coisas boas que temos ao nosso alcance.
 
Meu amigo Roberto se sente velho aos 63 anos. Talvez não tenha visto, no
espelho, o quanto seus olhos são jovens. Talvez não tenha entendido que
sua sede de conhecimento e de vida é o maior sinal que sua juventude lhe
dá. E vejo que outros amigos, na casa dos 30, o consideram um “senhor”.
 
Meu irmão, por volta dos 48, acha um absurdo meu pai ter saído para o
baile, ter dançado até altas madrugadas. Mais absurdo ainda, que ele tenha
namorada, que seja amigo da ex-mulher, que se recuse a parar de trabalhar,
que sonhe com viagens, com negócios mirabolantes... que ainda receba
convites para trabalhar.
 
-- Por isso é que ficou doente! Ele lá tem idade pra isso?!
 
Histórias como estas me fazem ver que somos todos pé na cova; a morte
está aí para todos os vivos! E ainda me ensinam que podemos errar
tremendamente em nosso julgamento sobre quem é jovem e quem já
envelheceu há muito tempo... mesmo que o espelho não nos diga isso lá
muito bem...



Lembre-se: para viver, basta estar vivo!

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Todo cuidado é pouco com as verdades absolutas

Quem foi que disse que quando chove o dia está feio?

Que pra vida ser linda, a gente tem que estar feliz?

Que pra se divertir, é preciso ter dinheiro?

Que a gente trabalha pra ficar rico?

Mas quem foi que te ensinou que, se não casar, você ficou pra titia?

Que se namorar muito, vai ficar com má fama?

E que se não tiver filhos, sua vida será vazia?

Quem foi que decretou que, pra te fazer feliz, sua cara-metade tem que corresponder às suas idealizações?

Que mudar de idéia é falta de opinião?

Que é chato ir ao cinema sozinho?

Onde é que está escrito que o casamento, pra dar certo, tem que durar a vida inteira?

E que seu ex-marido não pode ser seu melhor amigo?

E que o seu filho tem que ser como você sonhou?

Qual é a lei que reza que a gente tem que ler aquele livro chato até o fim?

E que passar a noite de sexta em casa é perder tempo?

Ou que temos, por obrigação, que aceitar o que nos violenta? Ou sorrir para quem nos desrespeita?

Onde foi que você leu que é fácil fazer a vida valer a pena? E que, se não está feliz, tem que se conformar e fingir?

E que questionar o que aprendeu é perda de tempo ou de energia?

Quem decidiu que, pra ser bonita, a manhã tem que ter céu azul?

Da próxima vez que amanhecer nublado, olhe bem a paisagem do seu dia. Pode ser o começo de uma revolução.


A beleza está nos olhos de quem vê!

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Quanto vale a sua vida?

Tenho uma amiga, médica conceituada, que está muito bem de vida: cobra
R$ 300 por consulta e o que mais faz é trabalhar: de segunda a sexta, pega
no batente das 7h às 22h. Aos sábados, como ninguém é de ferro, a jornada
é reduzida à metade. Não tira férias, só pensa em trabalho e em garantir um
futuro “confortável” para si e para seus dois filhos.

Semana passada, me atendeu cantarolando o clássico “La vie en Rose”.

-- Já foi a Paris, Eneide? – perguntei.

-- Cheguei de lá ontem – respondeu, satisfeita.

-- Férias com a família?

-- Não, fui fazer um curso.

-- Levou o marido e esticou uns dias?

-- Imagina! A cidade é caríssima: um jantar, 60 euros! Se tomar uma coca-
cola, lá se vão mais oito! Passei seis dias no curso e tratei de vir embora
antes que tivesse um prejuízo daqueles...

Ao final da consulta, a vi olhando a paisagem pela janela, e pensei em
perguntar-lhe se não custa caro passar a vida ali, nos limites daquela
salinha, enquanto sua juventude se desgasta e seu dinheiro rende juros nas
aplicações. Mas ela ainda não acordou para a realidade de que a vida corre
e tudo muda de um momento para o outro, inclusive nós mesmos.

Há pouco tempo, ouvi de uma outra amiga, work-a-holic inveterada e
também muito bem-sucedida, que ela descansa quando vai para o hospital.
Durante 28 anos jamais tirou um mês de férias. Ano passado, doentíssima
no CTI mais bem equipado da cidade, olhava o teto pensando o que é que
tinha feito da sua vida.

Ganhou uma nova chance, por fim, tomara que faça bom uso dela... é
comum que, diante da possibilidade de morrer, as pessoas repensem sua
trajetória e decidam não jogar mais a vida fora. O que não quer dizer que
cumpram, de fato, com sua decisão, porque mudar os valores nem sempre é
tarefa fácil.

Mas já é um desperdício enorme esperar a morte iminente para aprender
a valorizar a vida! Ou fazer da juventude uma senzala, para que a velhice
seja abençoada... e quem foi que disse que você vai chegar até lá?

Eu mesma pensei ter muito tempo pela frente para levar minha irmã a
Machu Picchu, um sonho nosso. Infelizmente o tempo dela se acabou antes
que eu comprasse as passagens, e o que para mim era um plano várias
vezes adiado, virou uma frustração definitiva.

Enquanto as responsabilidades deste mundo nos gritam a todo instante,
e nos deixamos tragar pelos compromissos inadiáveis, o tempo segue.
Enquanto nossas necessidades de segurança e projetos financeiros nos
dominam, a vida vai passando, irredutível. A quem diz que “desta vida não
se leva nada”, respondo que sim, levamos a vida que vivemos: o que fica
para trás é justamente o dinheiro, que para os mortos, aliás, não tem mesmo
valor nenhum.

O mundo é lindo demais para não ser apreciado!

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O vício pode ser uma escada para a luz

Qual o seu vício?

Antes de dizer que não fuma, não bebe ou não usa drogas, graças a Deus, atente para o fato de que é praticamente impossível uma vida sem vícios... ao menos para gente, digamos assim, como a gente: feita de carne, osso e muitas fraquezas.

Os vícios estão por toda parte, são uma praga. Tenho um amigo, por exemplo, cristão fervorosíssimo, que é viciado na palavra “inferno”. Em cinco minutos de conversa, ele manda meia-dúzia de “infernos” no ouvido do interlocutor. Dia desses, incomodada com o lance, perguntei se ele se dava conta da situação.

-- Eu?! Imagina se vou ficar falando uma palavra baixo-astral dessas!

Mas o vício é assim mesmo: a gente nem percebe sua existência, e é por isso que ele, ao contrário de tudo na natureza,  nasce, cresce, se reproduz e não morre.

Curar-se de um mau-hábito exige muita força de vontade e vigilância ferrenha, talvez porque o ser humano tenha realmente uma natural tendência para o erro. Imagino que, para ser compensado, tenha recebido o dom da consciência... e é aí que está toda a diferença: se é que temos um leme para levar a vida, ele é justamente a consciência. Afinal, como buscar o autoconhecimento e a autocorreção se não for através dela?

Somente a partir do seu olhar sem paixão sobre si mesmo é que você poderá enxergar onde tropeça. Quer ver só?

É praticamente impossível passarmos um diazinho, entre os sete da semana, fazendo um bom jejum de vícios, porque está por aí, por toda parte, uma variada oferta deles, e para qualquer situação: as mentirinhas “sem importância”... a fofoquinha “boba”... a crítica destrutiva... a reclamação... os palavrões, tão banalizados... a gula... o consumismo... a agressividade... e vou parando por aqui para economizar tempo e espaço.

Perdidos entre nossos gestos automáticos do cotidiano, estes comportamentos venenosos fazem tanto mal à vida quanto a nicotina e o álcool, porque também destroem amizades, amores, esperanças e oportunidades, além de semearem a discórdia, a tristeza e a solidão.

Pense bem antes de dizer, de agora em diante, que não tem vício nenhum. Eles estão colados ao comportamento humano, invisíveis e silenciosos... mas podem ser vencidos só com um pouquinho de esforço e atenção. Chego a pensar que foram criados, inclusive, para isso mesmo: um exercício a mais para os homens de boa-vontade.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Aqueles homens adoráveis e seus carros velhos

Não fui uma adolescente das mais espertas em se tratando de rapazes, mas sempre que me interessava por um, invariavelmente ele não tinha carro. Nas poucas vezes em que aconteceu de ter, era um carrinho velho que eu achava um charme: houve um fusquinha, um Baja __alguém se lembra?__ e até um Maverick cujo tapete estampado de verde havia sido surrupiado do banheiro da “sogra” da vez.

O demais namorados andavam de ônibus e isso para mim nunca foi um problema. Se a festa era muito longe, o jeito era pegar um táxi, caso contrário, íamos mesmo de “buzão”. Minhas amigas debochavam dos “duros” que eu namorava, enquanto que, o que eu gostava mais, era da segurança que eles tinham em si mesmos: não precisavam de um carro para me impressionar.

Já por volta dos 30 anos, me desinteressei de um homem no momento em que ele me disse, enquanto pilotava seu Land Rover novinho em folha, que não tinha dinheiro para dar de entrada num apartamentinho. Cruzes! Vi todo o meu interesse por ele ser atropelado pelo carrão em plena noite enluarada de verão, de frente para o mar de Ipanema... e o romance que poderia ter nascido morreu ali mesmo.

Por outro lado, certa vez fui instantaneamente flechada pela paixão quando um paquera, depois de me oferecer uma carona, deu de ombros __em vez de dar um ataque__ ao perceber que seu carro havia sido roubado.

-- Estava aqui e sumiu – disse, com ar de quem não iria estragar a noite por causa daquilo. Logo depois encontramos o "possante", que estava estacionado em outra vaga, mas a boa impressão já estava na minha cabeça. O relacionamento durou anos!

Já ouvi aqueles papos de que, para o homem, um carro pode ter muitos significados, inclusive a respeito de sua virilidade. Por isso mesmo, considero realmente interessante aquele que não precisa de um carro para se garantir: ele é mais ele, e ponto final.

Daí fico pensando sobre homens que fiam seu poder de atração nos carrões 4X4: não são todos os que fazem isso, imagino, mas que alguns fazem... ah, fazem sim. Dia desses, um deles me xingou no trânsito depois que, de leve, encostei __de novo: encostei__ em seu para-choque com o nariz do meu Fiatzinho. Ele parou o trânsito, desmontou do carro, olhou bem o para-choque e carinhosamente o alisou, quase como se fosse uma moça... e depois me xingou. Como deve sofrer com aquele carro... quanta preocupação, quanto medo de um prejuízo, de um risquinho, um amassadinho... gastou os tubos na compra e no seguro, e em vez de ser feliz, sofre.

Numa outra vez em que me aventurei a sair para jantar com um proprietário de carrão, percebi que sua grande preocupação era não estragar o dito cujo. Quando tirei as sandálias de salto, para descansar os pés, ele imediatamente perguntou se eu pretendia pisar no banco. Naquele instante minha intuição acendeu sua luz vermelha, e a historinha acabou ali.

Mas hoje em dia, quando vejo os carrões zunindo pelas avenidas da cidade, muitas das vezes ultrapassando pela direita, fechando os outros motoristas, acendendo o farol alto nos olhos dos que estão à frente e outros "que tais" típicos de quem se considera "o dono da rua", me pergunto se à namorada aquele motorista dá o mesmo nível de importância. Será que sua vaidade permite que ele seja tão detalhista e cuidadoso no amor quanto é com seu possante?

                                          Olha um dos meus namorados aí!