terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Tem um presente aqui pra você!

A todos os meus amigos queridos do blog, os vísíveis (que comentam e assinam) e os invisíveis (que nunca se manifestaram), mando, na forma de energia positiva, os mais variados presentes:


Que cada um encontre aí, nesta caixona, o que de fato deseja ou necessita: alegria, paz de espírito, saúde, prosperidade, romance, felicidade, um bom emprego, uma casa nova, um filhinho, uma viagem, a concretização de um projeto, novos amigos, novos horizontes e Jesus no coração!

Feliz Natal e um 2013 maravilhoso para todos nós!

Entrevista: Papai Noel

"Se eu não tivesse um saco enorme de filó..."

O convidado especial desta semana de fim de ano é nada menos que ele... PAPAI NOEL!!! O simpático sr., que também atende pelo nome Tales Ferreira da Silva, é carioca da gema, nascido e criado na Piedade e dali ganhou o mundo: casou três vezes e teve nada menos que dez filhos! Prestes a completar 69 anos, Noel está de dieta para manter os 84 quilos, porque já chegou a mais de 90. O talento natalino o acompanha desde jovem, quando já gostava de brincar e ajudar a criançada nesta época do ano. "Infelizmente o governo Collor me arrebentou, e agora sou aposentado e tenho que quebrar o galho aqui pra ganhar um dinheirinho", diz ele, que vai logo avisando: "pra ser Papai Noel não adianta só fazer curso, tem que gostar muito das crianças... tem uns por aí que pensam que é só vestir a roupa, e que não precisa ter paciência".



Qual o lado bom do trabalho?
O lado triste é que eu não agüento ser entrevistado. Sou emotivo. Mas o melhor são as crianças.

O sr. acredita em papai Noel?
É lógico! Senão, não faria! E quero que os amiguinhos acreditem sempre.

Quem dá mais trabalho, as mães ou as crianças?
O Papai Noel gosta de criança levada. Não gosta de criança que não conversa. Mas tem que ser educada, lógico.

E as crianças de hoje, que ganham presentes o ano inteiro, ainda dão valor ao Natal?
Elas valorizam sim, mas querem presentes mais caros, e às vezes eu tenho que dizer que o Papai Noel está com as finanças abaladas, fraquinho de dinheiro... elas acabam entendendo...

Já não se faz mais crianças como antigamente?
Ah, isso aí é geral, não é só criança não. Lembro que antigamente a rapaziada era mais saudável, não havia tanta violência... agora, só com muito puxão de orelha mesmo...

O sr. sempre quis ser papai Noel quando crescesse?
Fiz 19 aos e arrumei uma namorada com quatro filhos, aí arrumamos mais três; depois, separei e arrumei outra esposa e tive mais dois filhos... larguei dela e agora estou com outra que veio com um menino de nove anos...

Então Papai Noel tá cheio de filhos?!
Cheio.

Papai Noel não é mole não, hein? É mulherengo!
Sou... mas agora vou encerrar minha carrreira, se Deus quiser.

Os brinquedos eletrônicos o sr. traz lá da China ou é o sr. mesmo quem faz?
Nós temos uma fábrica, e os duendes ajudam para satisfazer as vontades das crianças.

É fácil tirar carteira de habilitação pra dirigir trenó?
Ontem mesmo, quebrou um ônibus no túnel e peguei um engarrafamento. Estava no trenó, e mesmo assim levei cinco horas pra chegar em casa. Cheguei às duas e meia da manhã e tive que acordar às seis pra levar o menino na escola, lá no Pólo Norte.

O que é preciso para ser um bom Papai Noel?
Tem que ter paciência com as crianças, tem uns por aí que não tem, acham que não precisa gostar de criança.

Mas não tem aquele dia que o sr. está meio de saco cheio?
Esta noite dormi só duas horas, se eu não tivesse um saco enorme de filó, o dia de perder a paciência era hoje!

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

A volta ao mundo em algumas horas

Depois da panqueca nojenta de ontem, hoje dei uma atenção especial ao meu estômago. Começamos com um frugal café da manhã em Paris, na versão americanizada do Le Pain Quotidien, padaria deliciosa que descobrimos nas férias francesas e que nosso amigo e comentarista Ariel contou que também existe aqui em NY. Confesso que a filial nova-iorquina não chega aos pés da matriz, mas pelo menos conseguimos fugir do café da manhã americano que, só de pensar, aumenta o colesterol.

 
Na hora do almoço, por sorte estávamos no Chelsea Market, que como o nome diz é um mercado interessantíssimo em Chelsea, e que é pra lá de eclético;  tem de boutique antenada a supermercado; de restaurantes dos mais variados tipos a galeria de arte... uma tremenda diversão. Foi assim que caímos de paraquedas no The Lobster Place, um restaurante que serve combinados japoneses a precinhos módicos e um bom prato de lagosta fresquinha a 18 dólares! Pra fazer digestão, toca a andar pela cidade!
Coitada da bicha!
 
Na Union Square paramos para descansar e aproveitamos para um café com chocolate, sentados na beira de um chafariz. Perdi a noção do tempo por ali, onde rola uma feira de artesanato muito bacana, embora os preços sejam de boutique.
 
Lá pela hora do jantar já havíamos cruzado o Soho e tínhamos ido parar em Little Italy. Fazer o quê? Traçar um macarrão, é lógico! O escolhido foi o Genaro, melhor pedida da NY italiana, onde sobram opções e os proprietários ficam na calçada forçando a barra com os turistas, na tentativa de safar a onça e encher o estabelecimento.

De volta ao buxixo da Sexta Avenida, esquina com a rua 49, mandamos brasa na sobremesa da pequenina Magnólia, doceria tipicamente americana que serve uns bolões maravilhosos e os mais diferentes tipos de cheesecake e cupcake.


Amanhã é dia de um legítimo hambúrguer americano. Nham! Nham!

Mas tem um lance aqui que eu não concordo: os restaurantes cobram 17% de taxa de serviço, e às vezes até mais. E ainda calculam o valor em cima do preço somado ao imposto, o que considero ainda pior. Talvez seja por isso que, aí no Brasil, alguns restabelecimentos andam inflacionando os dez por cento, cobrando 12% e até 13%! O consumidor que se cuide e trate de reclamar, porque se esta moda pega...
Well, mas voltando à vaca fria da comilança, sacrifício vai ser queimar as calorias adquiridas nesta festança gastronômica. Mas faço minhas as palavras de Scarlet O’hara, mulher mais chata que Hollywood já inventou:
-- Amanhã eu penso nisso!
E digo mais: não vai ser viajando de férias que vou entrar na paranóia de fazer dieta! Deus que me livre e guarde, amém! A propósito, olha que beleza de bolo! Eu é que não vou amarelar...
 

 

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Panqueca, rainha dos EUA; banana, rainha do Brasil

Hoje foi dia de Radio City e Rocketes, o show de natal que já tem 85 anos. Lindo, e mesmo assim a velhota ao meu lado conseguiu roncar enquanto a moça na fileira de trás passou o show inteiro chutando as costas da minha poltrona. E a gente reclama que brasileiro não tem educação no cinema porque faz a mesma coisa... aliás... pensando bem... será que a garota era brasileira???


Pra quem acha que americano é mala, conto que o gerente do estabelecimento nos presentou com dois ótimos lugares na plateia da sessão das 20h, quando fomos lá chorar nosso atraso de 50 minutos para o show das cinco da tarde. Por falar nisso, concluí que já não é preciso falar inglês para vir turistar em NY: espanhol é a língua que a gente mais ouve pelas ruas. E quase todo o pessoal que atende os turistas, como garçons, vendedores e taxistas têm o castelhano na ponta da língua, já que são latinos ou filhos de latinos.

Por falar em taxistas, outra coisa que notei na cidade é que, ao contrário de até dois anos atrás, quando estive aqui pela última vez, hoje há muito mais carros de passeio pelas ruas e muito menos táxis. E olha que está chovendo direto... e o povo todo anda a pé, com ou sem guarda-chuva, na maior animação. Inclusive eu, que considero a caminhada um dos melhores programas em NY, onde a gente vê todo o tipo de gente. Olha as duas companheiras Chester que encontrei, vindas diretamente do outro lado do mundo!
 
Outra diversão é o Macy's, a maior loja de departamentos do planeta, onde a gente também vê de tudo: verdadeiro parque temático para quem gosta de compras, e o legal ali é que pode-se encontrar coisas lindas misturadas a outras muito bregas. Então vemos o quanto que o que é chique para os gregos pode ser brega para os troianos.
 
 
O mesmo, inclusive, podemos dizer da comida. Pedi uma panquequinha no meu café da manhã e olha o que me trouxeram... alguém me explica como é que este povo está vivo comendo isto aí todo dia logo cedo?

 
Fiquei com enjoo só de olhar e decidi comprar umas frutas. Mas as frutas americanas... ai, coitadas! Parece que usam botox e preenchimento, e que também exageram na maquiagem, pra então ficar com cara de artificiais e infelizes. Alguém já viu uma banana mais triste do que esta?
 
(Triste fiquei eu, quando vi a pobre coitada! E tratei de ir comer uma panqueca leve, só com manteiga... fazer o quê? Em terra de americanos, a panqueca é a rainha.
Banana? Só mesmo no Brasilzão!

 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Epopeia de Nova Iorque com milhas

Estava trabalhando quando entrou a mensagem da companhia aérea, avisando que estrearia uma nova rota e, melhor ainda: NOVA IORQUE COM MILHAS!

Fui clicando só pra ver o que acontecia e de repente... gelei! Não é que conseguiiiiiii??????
Clico ou não clico? E meu coração também pulava, igualzinho ao ícone do computador. Pum-pum! Pum-pum! Pum-Pum! Pum-pum-pum-pum! (olha aí a minha arritmia). E o tempo passando e me fazendo lembrar daquele locutor de futebol chatérrimo que berrava pelo radinho do meu pápi, lá no passado da minha infância: “O relógio maaaarca!!!”...
Clico ou não clico? Clico ou não clico? Clico ou não clico?
Cliquei!
E depois liguei para o co-piloto, que também responde pelo departamento financeiro daqui de casa (eu sou o executivo) e dei a notícia:
-- Menino, ganhamos bilhetes para NY! Vai ser NY de graaaaaaça!
-- Você é doida?! Nós já não juramos que nunca mais iríamos bancar os pinguins em Nova Iorque?!
-- Mas a viagem é de graça, homem de Deus! DE GRAAAAAÇA!!!
Tá bom, nem tão de graça assim, se considerarmos que o bilhete é o que há de mais barato na viagem, mas depois a gente pensa nisso. Por enquanto, vamos que vamos que a animação é grande.
No grande dia, chegamos ao Galeão às 7h da manhã pra fazer o check-in e pegar a conexão das 9h pra São Paulo. Mesmo assim quase que conseguimos perder o voo devido à inexperiência dos funcionários da companhia, que eram só dois para atender uma multidão, e que me confessaram ainda não terem recebido treinamento para despachar passageiros para os EUA. Depois de pegar uma fila errada por culpa de um funcionário mais perdido que  cego em tiroteio, estávamos na rabeta da fila certa quando faltavam menos de 30 minutos para o avião decolar. Tive que botar a boca no trombone para que alguém nos atendesse e não perdêssemos mesmo a viagem. E por alguns segundos achei que fosse ser linchada por aquela tal multidão que ficou pra trás.
Já em São Paulo, a funcionária da conexão nos botou numa fila e, quando vimos... plim! Como num passe de mágica estávamos já dentro da sala de embarque, sem fazer imigração na Polícia Federal. E não adiantava falar com ninguém, porque ninguém entendia que alguma coisa estava errada... mas como é que a gente vai entrar nos Estados Unidos se não conseguimos sair do Brasil, meu Deus do céu? Como é que viemos parar na sala de embarque sem passar pela PF???
Depois de muito reclamar, conseguimos resolver a situação e fomos parar no salão de embarque daquele que é o maior aeroporto do país. E onde o wifi não funciona e o passageiro toma a coca-cola mais cara do país, que custa 7,90 reais. Sem falar que a oferta de restaurantes é paupérrima, mas cobra preços para inglês ver. Arrisquei um prato alemão do qual só encarei mesmo foi a salsicha de vitela, porque a salada de batata já veio com a mãozinha na cintura me avisando que, se eu me atrevesse a comê-la, ia ter uma tremenda dor de barriga no avião, só de sacanagem! E foi assim que já comecei gastando mal o dinheiro das férias em NY: 43 reais por uma salsicha. Meu co-piloto, que tem estômago de aço, mandou pra dentro um sanduíche de salaminho na padaria, e que tinha cara de anteontem.
Olha, vou dar uma de Camila Pitanga e adaptar a situação:
PRIVATIZA, DILMAAAAAA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
No avião, achei que tinha entrado no corredor errado e que estava na ponte-aérea São Paulo-Rio: aviãozinho pequeeeeeno... duas fileirinhas de três poltronas... Uai, quede a televisãozinha pra gente ver um filme e ajudar a passar o tempo nesta viagem de mais de dez horas? O comissário, meio sósia do John Travolta, tentou segurar a onda da situação:
-- vou me informar com a equipe de terra para saber o que está sendo planejado para a recreação.
Foi quando a moça da fileira ao lado emendou:
-- Vai ter um grupo de teatro!
E eu entrei o clima:
-- Karaoquê!
E o comissário:
-- A gente brinca de cabra-cega!
Em resumo: recreação coisa nenhuma! Quem quis se distrair um pouco e não morrer de tédio ou de ansiedade no avião teve que tomar uns gorós. E o povo caiu dentro do uísque!
-- Bota mais gelo aê!!!!!
Depois de mais de meia hora dentro do avião, esperando sei lá o quê para decolar, finalmente o piloto deu as caras no alto-falante e já começou pedindo desculpas pelo atraso...  que foi dele mesmo, que se enrolou no trânsito de São Paulo. E prometeu que ia pisar na tábua pra recuperar o tempo perdido.
Foi aí que o meu co-piloto passou um sms para o brasileiro que montou empresa de transporte em NY e cobra 100 dólares adiantados pra buscar turistas no aeroporto. Conforme combinado, avisou que o voo estava no horário, e que esperávamos por ele pra nos buscar de madrugada, quando chegássemos. O homem respondeu simplesmente: “Era hoje????”.
Como diria minha santa mãe:
-- Jesus, Maria, José!!!!!!!!!!!!!
De repente, eis que começa o serviço de bordo. Dei graças ao bom Pai Celeste, porque a salsichinha do aeroporto não deu nem pro começo do buraco na minha pança. Então vi os famosos sucos de laranja e pacotinhos de amendoim. Comecei a rir de nervoso. E quando o garçon, digo, o comissário, chegou todo sorrisos, mandei na lata:
-- Não tem almoço? Vamos de amendoim até Nova Iorque?!
-- A senhora não almoçou na sala vip?
Cá entre nós: eu não sou vip, mas não perco a pose. E respondi na maior naturalidade:
-- Nãããããoooo... não passei por lá.
-- Que pena! Teve almoço para os passageiros.
Minha indignação foi tanta que precisei me defender, nem que fosse jogando um agá gigante em cima do homem:
-- Escuta, eu paguei uma nota preta pelo bilhete e não tem almoço a bordo?!
Ele sorriu benevolente:
-- Mas minha senhora, neste voo só tem cliente de milhagem...
Mais uma oportunidade que ele me deu para bancar a vip de araque:
-- Então estou no avião erraaaaaaaado!!!!!
A viagem foi dura no aviãozinho, e na chegada pensei que fosse ser mandada de volta pelo agente da imigração que implicou com o meu nome, alegando que isso não é nome de brasileiro. Felizmente o motorista apareceu e nos levou direitinho ao hotel, pena que não fechava a matraca e se gabou de ter greencard durante todo o trajeto.
Hoje, primeiro dia da viagem, dormimos quase que o dia inteiro e depois de recuperar as forças fomos passear: estava chovendo,  e esta foi a primeira vez que peguei chuva em uma viagem de férias. Mesmo assim a cidade é linda e passear pelas avenidas é uma diversão incrível. Amanhã, mais novidades...
Observação: quase não publiquei a história toda na íntegra porque o post ficou muito grande. Mas mudei de ideia quando o co-piloto disse que estava menor que os comentários do Marcos Lúcio.


       
                                             Encontrei um velho amigo na Times Square

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

O chester quer fazer uma lipo!

O alarme tocou quando meu marido me veio com esta:

-- Nooooossa... você está com uma barriguinha de estrela da dança do ventre.
(Não sei por quê lembrei de quando tinha 18 anos e meu namorado perguntou, todo carinhoso:
-- De quem é este narigãozinho???)...
Mas, voltando à barriga, dias depois deste comentário do meu marido, que até agora não sei se foi elogio ou crítica, um amigo daqueles para quem a gente comete o erro de dar muita liberdade ao pedir opinião, veio me comparar a um chester. Um chester! Isto é que é acabar com uma mulher... e não, não adianta dizer que chester é um bicho muito sexy e charmoso: xingue uma mulher de vaca, mas não diga que ela está barriguda!
Bom, desde que rolou esta primeira menção à minha pança, venho pensando no quanto os homens podem ser tapados ou mentirosos. Dizem que adoram apertar uma pancinha, que celulite é um charme, que mulher tem que ser violão, que magricela anoréxica não tem graça nenhuma... ah, tá...  mas a verdade é que nem eles sabem o que querem: se a mulher é magra demais, eles dizem que gostam de um pouco de fofurinha; se ela engorda uns dois quilos e adquire uma pequena barriguinha, lá vêm eles, pra dizer que ela está pançuda! Eles também reclamam que não gostam de barriga tanquinho, que o corpo tem que ser "natural"... tá bom, meu chapa! Deixa sua gordurinha natural aparecer só um tico de nada, e a turma vem dizer que você já não é mais aquela magrelinha charmosa de outrora!

E quer saber? Não é mesmo! Depois dos 40, pra ser a magrelinha de outrora... só se for passando fome e não comendo nem um pedacinho de bolo... nem um picolezinho no verão carioca... nem uma feijoadinha de vez em quando... e aí, minha nega... que graça tem ficar magérrima? Magra e esfomeada é que não dá pra ser feliz!

Dia destes, estava eu na sala de espera do cirurgião plástico, aguardando o fim da consulta da minha amiga, quando botei os olhos naquela mulher sentada à minha frente, e que chegava a brilhar de tanta felicidade. Dentro de um vestido de malha preto,  justérrimo, daqueles em que a pessoa parece ter sido embalada a vácuo, ela esbanjava autoestima e segurança a respeito do corpinho cheio de curvas certas nos lugares certos. Aliás, parecia até a estrada de Santos! Como já passava dos 40, matei a charada na hora: fez lipo!
Enquanto ela reluzia de satisfação, o marido, sentado ao lado, estava pê da vida. Impaciente, acabou indo embora e deixando o campo livre para a minha entrevista. Comecei disfarçando a curiosidade:
-- Este vestido te cai como uma luva.
Ela entregou os pontos:
--  Depois de investir numa lipo, qualquer roupa cai como uma luva. Quer saber? Lipo é a felicidade! Meu marido está uma fera, diz que não precisava gastar este dinheiro, que não viu diferença nenhuma. Só topou a lipo quando percebeu que nem a luz apagada estava resolvendo as coisas na hora de ir pra cama...
Pois é: enquanto isso, eu ainda estava tentando sumir com minha pança à base de investimento na caminhaaaaada, na dieeeeeta, na abdominaaaaal, no pilaaaaates... e vem o amigo que não tem bom-gosto contar mentirinha dizendo que mulher gorda é que é uma beleza... e ainda me compara àquele chester!

Então  decidi: férias no ano quem vem? Macarrão na Itália? Baguete em Paris? Panqueca em Nova Iorque? O décimo terceiro já tem destino certo, meu bem! E não me venha com o papo de que lipo é uma violência, porque violência é não caber mais naquele velho jeans 42... e tudo por causa de uma barriguinha de nada, que apareceu só pra encher o saco! Chester... é o cacete!



                                 Qual você vai levar pra jantar no sábado?

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Pobre brasileiro rico

Não adianta botar dinheiro na mão de quem não tem educação, porque pobreza maior é a do espírito, e não a do bolso. 

O dinheiro é uma poderosa lente de aumento que potencializa tudo de bom e de ruim em uma pessoa ou em um povo. No caso da "pessoa" basta a gente ficar na pindaíba que rapidinho dá pra saber quem são os amigos, parentes e companheiros de vida com os quais convivemos às vezes durante mil anos, e que pensamos conhecer.  É na hora da pindaíba que as pessoas se revelam.

No caso do povo... é mais ou menos assim: vejo  no jornal que o brasileiro nunca esteve tão prosa. Até o final de 2012, terá gasto bilhões com viagens e compras no exterior... mas educação e repeito aos direitos dos outros, são luxos cada vez mais em falta. Eu sei por quê: é que educação a gente não compra em loja.
Fui ao shopping de luxo inaugurado há poucos dias na Barra da Tijuca, e onde o cinema custa de 50 e poucos a 60 e poucos reais: faz um frio polar dentro da sala, mas o ingresso dá direito a um cobertorzinho. Chique, né? Pois eu acho é muito brega! O povo paga, contente da vida, 23 reais por um pedaço de bolo chinfrim e uma xícara de chá, enquanto faz caras e bocas para mostrar seus celulares de última geração, tirados das bolsas de grife, ao mesmo tempo em que conta sobre a última viagem ao exterior, numa disputa acirrada pra ver quem viaja mais, quem conhece melhor tal lugar, quem fez mais compras e tudo o mais. Ninguém se escuta nas mesas dos restaurantes caros, porque todo mundo está se esgoelando pra contar vantagem mais alto.
Tenho um amigo gerente de restaurante no Leblon, que anda pensando em voltar para o sertão da Paraíba:
-- Lá só tem pobreza, o povo nem sempre tem o que comer, mas educação não falta.
Segundo ele, trabalhar como garçon na zona Sul do Rio é tão ruim que a turma anda pensando em pedir adicional de insalubridade.
E a perua sessentona, que tentou furar a fila no caixa da loja de departamentos? Quando reclamei, reagiu gritando e falando assim, ó:
-- Por isso é que odeio vir à Barra da Tijuca! Este povinho da Barra... Deus me livre!
Saiu batendo os cascos e não tive chance de dizer a ela:
-- Não, minha nega... o povinho não está na Barra da Tijuca... o povinho está na cidade inteira... principalmente onde sobra dinheiro e arrogância, e onde falta o respeito e a cidadania. O povinho está lá naquele lugar de onde você nunca deveria ter saído...
Então ela é que fura a fila, e eu é que sou povinho?
Na garagem do meu prédio, discuti com a garota de vinte e pouquíssimos que parou muito mal o carro ao lado do nosso, que meu marido ainda manobrava, e recusou-se a estacionar melhor, de forma que ele pudesse abrir a porta para sair.  O engraçado foi vê-la chamar-me de “senhora”, com a voz debochada, certa de que estava me ofendendo. É o sinal dos tempos: no reino do Botox, “senhora” virou ofensa.
Dias atrás, em Copacabana, vi a cena surreal: a moça, muito bem-vestida, estava indignada com dois rapazes que conversavam perto dela, e que não economizavam nos palavrões e nos comentários machistas. Parada no balcão da lanchonete, ela por fim não se aguentou. Botou as mãos na cintura e falou bem alto:
-- Mais respeito, né, porra?!
Respeito, alías, foi o que faltou a um idiota que, dentro da minha casa, teve a pachorra de dizer que, se pudesse, me mandaria à merda.
Abri a porta e disse-lhe apenas:
-- Volta pra lá você.

Estamos ricos, estamos cheios da grana... mas como dizia o poeta... que país é este?!

 

domingo, 9 de dezembro de 2012

O natal de rifa da Fefa Noel

Dezembro entra e começa esta chatice, o fenômeno da caixinha de natal que, a cada ano, estende seus tentáculos para os cantos mais impensáveis. Agora, até os flanelinhas têm a sua. Por isso é que estou pensando em fazer a minha também. Você, leitor, pode depositar aí um agradinho pra mim, naquela conta cinco estrelas que eu tenho no Banco do Universo.

O natal hoje em dia já não tem muita graça pra mim, confesso, mas acho que é porque não sou mais criança. Parei de brigar com ele, como fiz durante anos, ao bancar a órfã rebelde, que diz que depois que mamãe morreu o natal morreu também. Tá bom, a mamãe morreu, mas tem um monte de outras pessoas aí, né não? E elas? Não valem? Não contam?
Agora eu curto, mas não entro na piração da roupa nova, da comilança, dos presentes e das pazes falsas que a gente finge fazer com os desafetos. Aliás, os presentes de natal hoje em dia não valem nada! O consumismo que tomou conta de tudo tirou completamente o valor do presente de natal. A pessoa ganha o presente, sorri, agradece, diz que adorou... e no minuto seguinte já nem se lembra dele.
Sou de uma época em que a gente sonhava com a calça Levi´s que ia ganhar no natal. Com o tênis Rainha. Com aquele brinquedo da Estrela... e o presente de natal era um acontecimento! A gente passava o ano inteiro usando aquela calça e aquele tênis, que eram os melhores do armário, e por isso eram tão especiais... não há saudosismo na minha fala, veja bem: mas não vejo por quê entrar na manada que dá e ganha presentes sem sentido, coisas que se acumulam no armário e que, em geral, nem têm valor afetivo.
Já gostei de natal a ponto de, eu mesma, quando chegava dezembro, descer com os enfeites do armário e montar a árvore sozinha. Lembro de um ano em que faltou o pinheiro, sei lá que fim havia levado,  e minha impaciência para esperar que outro fosse comprado improvisou uma árvore na samambaia da varanda: uma samambaia compriiiiiida, que ia até o chão, e que virou uma árvore linda, enfeitada com as bolas coloridas de vidro e o pisca-pisca, é claro, que não podia faltar. Fiquei toda prosa quando ouvi o papo dos meus pais:
-- Esta menina vai ser artista plástica!
À noite eu ficava olhando as luzes e sonhando com o clima natalino lá de casa, que era mesmo mágico... ou será que eu é que era criança e via magia em tudo?
Houve um dezembro em que estávamos duros, e temi pelo nosso natal. Eu tinha lá pelos 11 ou 12 anos, e tratei de pegar a mais bonita das Nossas Senhoras de gesso que minha mãe pintava, e que ficavam tão lindas que pareciam de madeira antiga, e fiz uma rifa pela cidade. Saía vendendo a rifa de manhã cedo, até a hora de ir pra escola. Uma vez, sentada sob uma árvore, na pracinha, pra descansar, vi um casal de turistas parar o carro e a moça se aproximar. Perguntou se eu estava pedindo esmolas com a santa. Ofereci a rifa, mas ela não comprou porque não morava lá. E se ganhasse? Como é que iria receber o prêmio?
Aquele foi um natal inesquecível, sobretudo porque me senti a própria Fernanda Noel: foi o natal que dei de presente pra família inteira, e que guardo na memória como uma jóia herdada. Lembro das luzes, das cores da ceia sobre a mesa, dos regalos sob a árvore, que as tias do Rio de Janeiro sempre enviavam, embalados em papéis coloridos e fitas brilhantes. Todo mundo de roupa nova e de mãos dadas, rezando o Pai Nosso para o Menino Jesus.
Taí um presente que nunca se acaba.

"Pápi" Noel bate à porta!!!!!!
 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A mulher que tem vagina, mas não tem valor

Estou longe de ser uma feminista de carteirinha, daquelas que defendem com unhas e dentes o direito a rachar as contas com o namorado... mas se tem uma coisa que acho baixo-nível, são as piadas machistas. Mais triste que isso é ver que as próprias mulheres dão risada para aqueles que as contam, e é assim que vestem carapuças de dona Encrenca, de loura-burra ou de objeto sexual: batendo palminhas.

Estas piadas são, não raro, transformadas em shows de TV e de teatro e rendem muita grana contadas por homens carismáticos e que dominam a arte de seduzir uma plateia. E já que estes senhores são talentosos, por que será que tomam o caminho mais fácil da piada agressiva, que menospreza a figura feminina?
Será por preguiça de pensar um roteiro novo, um assunto diferente? Ou por incapacidade intelectual mesmo?
 O pior é ver onde chega a desinformação das moças ali presentes. A falta de autoestima, a ignorância a respeito de si mesmas, de seu valor. A falta de consciência de que, ao rir da mulher estereotipada da piada, elas estão aceitando o estereótipo e concordando com ele, e mais: estão rindo de todas as mulheres e inclusive de si mesmas.
O que me surpreende é ver que o tempo passa, os costumes se transformam, a mulherada deita e rola numa liberdade cujo preço nem imagina qual foi... mas não enxerga que ser livre é muito mais que fazer carreira ou transar com quem quiser: ser livre é ser respeitada, e isso aí é conquista para todos os dias.
Os homens, inclusive os machistas, colhem as benesses de terem parceiras independentes e que se dão “ao direito” de rachar a conta do motel... que se matam de trabalhar dentro e fora de casa, que estão dispostas a dividir toda a alegria e toda a dor de uma vida em comum, e que ainda dão o corpo, a esperança e o coração a um marido que nem sempre lhes dá valor... e por quê?
Porque mesmo que sonhem ardentemente com um companheiro que as respeite pelo que são... elas não sabem como alcançar isso. E tudo porque não aprenderam sobre seu próprio valor.
 

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

"Me are happy now"

Pense aí uma boa maneira de torturar alguém.  Use toda a sua imaginação e certamente surgirão coisas horripilantes...

Pois vou lhe dizer uma tática que nem os chineses, que, segundo reza a lenda, são experts neste quesito, poderiam pensar: é o perfeccionismo.

Se já é uma tortura sem fim quando apontamos para alguém as flechas do nosso perfeccionismo, eu diria que é mesmo tétrico quando elas saem do nosso arco para, como se fossem um bumerangue, traçar uma rota rumo a nós mesmos......
E tem gente que se gaba, dizendo “sou muito exigente com tudo o que faço, quero dar sempre o meu melhor”. Como se isso fosse garantia de competência ou de comprometimento. Tá bom, cara-pálida... mas comprometimento com quê? Com a auto-sacanagem?
E dá-lhe porrete nas mãos e cilícios nas pernas, porque o tal “melhor” que se busca incessantemente nunca chega, e o que vem é o castigo, em seu lugar.
Já cometi este crime contra mim mesma, e infelizmente durante muitos anos, mas graças ao bom Pai celeste um dia tive um estalo e enxerguei o horror ao qual me submetia: o horror da cobrança,  da insatisfação, da desvalorização, do nível cada vez mais alto ser atingido, da obrigação de estar sempre superando... e superando quem? A mim mesma ora pois, e a quem mais?
O pior de tudo é isso: se ainda fosse superar o vizinho, o colega, o sei lá quem... mas não... os perfeccionistas são tão cruéis quanto exigentes, e por isso escolhem a dedo o oponente ideal e cometem a covardia insana de competir consigo. É assim que o ser humano faz de si o seu maior rival. E é assim, vestindo a toga para julgar-se o tempo inteiro, que ele também transforma-se em seu grande inimigo. É a disputa dele com ele... quer tirania maior?

Mudar não é fácil: é uma trabalho de todo dia, um exercício permanente, um "só por hoje" que talvez nunca acabe. O desejo de perfeição é tão agarrado aos ossos de um perfeccionista que livrar-se deste comportamento automàtico talvez seja tão duro quanto dominar a dependência química. Não estou exagerando, e quem carrega este peso há de concordar. Mas tudo começa com a consciência de que viver assim é um martírio.
Quando a gente está consciente de que dá, mesmo, o melhor no que faz, e que o resultado reflete o máximo do nosso comprometimento, mesmo que não seja o ideal, o esperado ou o desejado... quando a gente aceita os limites da situação, da vontade, da capacidade e até mesmo a influência do acaso, que sempre pode puxar a sardinha para uma brasa ou outra... então... é porque estamos livres das correntes que um dia pusemos em nossos tornozelos... e estamos livres do algoz que já fomos, e que felizmente foi vencido. E agora podemos, afinal, viver em paz.
Minha amiga Rosangela conta que quando viveu nos Estados Unidos, onde fez sua residência em Medicina, sofreu tremendamente por causa do seu inglês cheio de erros. Estava sempre com medo de ter que falar com alguém, e suas horas no hospital eram dolorosas por conta do esforço em não ser notada... para que não precisasse falar.
Até que um dia viu, na televisão, o famoso Osho, o filósofo e líder espiritual indiano, adorado por multidões mundo afora, dizendo-se muito feliz. E, todo sorridente, Osho dizia:
-- Me are happy now!
Depois do choque, os sinos da libertação tocaram no coração e nos ouvidos da Rosangela, que dali pra frente soltou a língua na maior despreocupação e guiada por um raciocínio simples:
-- Se o Osho pode falar errado, por que é que eu não posso?!
E eu, que já aposentei o cilício, deixei de lado meu porrete e consigo ser feliz mesmo não tirando nota dez em tudo, só poderia dar UMA resposta ao ouvir esta história:
-- Me are happy now… too!

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O maior desafio da vida

O maior desafio da vida é envelhecer. E não só porque a doença sempre chega, mesmo que você nunca tenha comido manteiga ou fumado um cigarrinho. Pode crer, o buraco é bem mais embaixo.

Quanto mais a ciência evolui e aumenta a vida útil dos que têm grana para pagar médicos e remédios, e quanto mais a cosmética avança, esticando o rosto do povo, implantando cabelos, peitos, bundas, dentes, unhas e um rejuvenescimento plástico... mais ainda a velhice torna-se insuportável.
É que ainda não inventaram um implante para a amargura. Tampouco uma cirurgia que extirpe o rancor, a frustração e a inveja que muita gente leva no coração, e que são os verdadeiros radicais livres que marcam a face com vincos tão fundos, e escurecem o olhar com a sombra da arrogância, e encurvam a coluna com cem quilos de infelicidade sobre as costas, e entortam a boca que já não sorri de verdade, e esmagam os sonhos e esperanças entre os dentes da desilusão.
Então os consultórios médicos ficam lotados e faturando horrores para fazer recauchutagem na lataria enquanto que o motor continua tomado pela ferrugem...  e é assim que os velhos vão se tornando caricaturas patéticas, porque nem o bisturi mágico do Ivo Pitanguy resolve  um rosto infeliz ou amargo. (Aliás, em casos como estes, o bisturi termina por piorar ainda mais a situação).
Dia desses conheci um rapaz que imaginei estar por volta dos 30 anos; quase caí pra trás quando ele disse que tem 50. Usa cremes? Foge do sol? Já fez lifting?  Botox? Será clonagem? Qual o milaaaaagre??? Descobri depois de meia hora de conversa: ele contou que  preza seu coração leve e contente, e que aprendeu de verdade a não guardar mágoa e raiva de nada nem de ninguém.

Anos atrás, viajei a São Paulo para entrevistar uma senhora que havia adotado dezenas de crianças portadoras de paralisia cerebral. Era de classe média e fez as adoções movida pelo sentimento. E olha que nem conhecia as crianças, decidiu adotar quando soube que o abrigo em que viviam seria fechado por falta de verbas. Quando ela abriu a porta, vi que era mesmo uma senhora, mas seus olhos azuis eram tão incrivelmente jovens que chegavam a não combinar com o resto. De dentro deles saía uma vivacidade de adolescência; e foi quando entendi porque é que dizem que os olhos são o espelho da alma.
Enquanto isso, os incautos que se deixam levar pela vaidade entram no túnel sem volta da decreptude. Vaidade de achar-se mais importante, mais merecedor, mais digno, mais tudo de bom. Ou uma outra vaidade, pior ainda, que é a de sofrer com a felicidade e até com a juventude alheias, principalmente quando a pessoa feliz ou mais jovem é um desafeto. É mais ou menos assim:

-- Então eu sou o máximo e o Fulano é que se dá bem?!

E como sofrem estas pessoas! Porque o mundo não perdoa e lentamente lhes devolve  cada gota da solidão que eles próprios semearam através dos anos, enquanto guerreavam com tudo e com todos para defender sua suposta superioridade.
E então, um dia, dão-se conta de que o tempo passou, passou demais e tão veloz... que já é tarde até para tentar mudar as coisas.  Aí jogam a culpa nas circunstãncias, na vida (que não foi mãe, foi madrasta), em Nossa Senhora, que não ouviu as orações, no destino (que foi um sacana), na família, no marido, nos amigos, no chefe e até no cachorro. Mas nunca, nunquinha, responsabilizam suas próprias escolhas equivocadas, nem os caminhos tortuosos que optaram por trilhar, nem os laços afetivos que desataram sem pensar.
O orgulho é um veneno que mata devagar, e não sem antes deixar o futuro defunto ridículo: a imagem decadente que sempre tem o ser humano perdido em sua própria mesquinhez.

Leia também:

Em queda livre, no espaço sideral 

Todo mundo é pé na cova

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Assombração sabe (mesmo!) pra quem aparece...

Pra começo de conversa, é uma pena que o Silvio Santos não tenha me descoberto, porque eu adoraria fazer parte da equipe das Pegadinhas. Não que eu seja espírito-de-porco, imagina... mas é que eu adoro rir... não só dos outros, é claro: sempre que vejo uma boa pegadinha, acabo me imaginando na cena... e é aí que eu rio mais ainda.

Nos últimos dias, está bombando no You Tube a fantasminha do elevador, que quase mata o incauto de medo e o público de dar gargalhada. Confesso que ri mais ainda ao imaginar como seria se minha irmã e eu estivéssemos naquele elevador... e não só no momento da aparição fantasmagórica, mas, pricipalmente, depois que a equipe de filmagem aparecesse para nos pedir autorização de uso de imagem... não posso nem contar o que provavelmente aconteceria, senão corro o risco de perder a admiração do meu eleitorado fiel.

Mas o Silvio pegou pesado nesta pegadinha do elevador. E se alguém passa mal e tem um piripaque no coração? E se alguém resolve se defender partindo para o ataque em cima do fantasma?

Não pense que isso não acontece: tenho uma tia médium que passou a vida inteira vendo fantasmas e até conversando com eles... mas um dia ficou com medo de um que não primava pela simpatia, ao contrário. Apavorada, começou a passar mal, e aí minha prima, que é um misto de Tomb Rider e "comigo-ninguém-pode", chamou a aparição para uma queda-de-braço... aos berros:

-- Aparece pra mim se você tem coraaaaaaagem!!!! Você só  aparece pra ela porque é covaaaaaarde!!!!

E como o fantasma não apareceu, aí é que ela se sentiu poderosa:

-- Tá com medo?! Cai deeeeeeentro!!!!!

Sei lá se o visitante do além tremeu nas bases, mas o fato é que, depois disso, minha tia diz que nunca mais apareceu fantasma nenhum lá na casa dela.

De minha parte, digo apenas: te cuida, Silvio Santos, porque tem gente mais doida por aí do que a sua equipe pode imaginar...



terça-feira, 27 de novembro de 2012

O cara que queria ser, mas não era

Hoje fui ver um filme sobre o cara que queria ser, mas não era. No caso deste filme, “As Palavras”, o sujeito queria ser Escritor, assim mesmo, com “e” maiúsculo. Tentou por anos, mas... não rolou.

O homem sofreu, chorou, entrou em crise... e então apoderou-se de um livro escrito por outro... ficou famoso, ficou contente, ficou rico. E foi aí que começou a sofrer... porque apesar de todos os louros, ele sabia que “não era”.
Olha, eu não vou contar o filme porque não sou estraga-prazeres. Vá ao cinema e veja por si, inclusive porque o Jeremy Irons, aquele inglês que é um tremendo charme, arrebenta na interpretação de um velho mastigado e cuspido pela vida.
O nosso papo aqui é justamente sobre o “querer ser”... sabendo-se bem distante disso. Ai, meu Deus, quem aí nunca sonhou em ser alguma coisa impossível... que atire a primeira pedra! Eu já sonhei ser muitas coisas, de cientista a veterinária, de mãe a cozinheira de forno & fogão, de poeta e romancista a desenhista e escultora, de super equilibrada a pessoa gentilíssima... e quer saber? Não rolou... e  eu também não morri por causa disso nem pirei na batatinha, achando que podia bancar a atriz... porque é aí que a porca torce o rabo.
Lutar contra a nossa natureza e buscar o impossível é a tortura campeã que podemos impingir a nós mesmos, perdendo apenas para a mania de perfeição, no ranking do masoquismo.
E fingir, como faz o galã do filme, não resolve o buraco da frustração porque o sujeito conhece, mais do que ninguém, suas próprias limitações. Ele pode até fazer o teatrinho, pode curtir tanto o barato de ser “o cara”, que a endorfina no sangue venha a deixá-lo meio crente na situação... a ponto de ele se convencer, por minutos, que sim, chegou “lá”: venceu, tornou-se  o senhor do seu destino e da sua vontade!
Mas não tem jeito: a pessoa que a gente é, na realidade, está sempre ali, grudada no nosso pé... e esfregando a verdade na nossa cara. E se a gente tem um pouquinho só de consciência, sofre ao encarnar o personagem... mesmo que o mundo inteiro embarque na novelinha.
Conheço gente que sofre quando não tira dez na prova... e sente até vontade de largar tudo, abandonar o curso, chorar o resto da vida pela nota máxima que não veio... pra este povo, nem o 9,5 resolve. Só vale o dez. Ô tristeza! E gente que não é feliz porque vive agarrada a uma frustração bem goooorda, tratada na base do mingau de aveia todas as manhãs... porque em vez de ser o que podia, de usar os seus talentos desperdiçados... prefere fingir pra si mesma que a vida "jogou contra".
O ideal de ser, que a gente busca, e que foi criado dentro da nossa cabeça e do nosso coração, é uma figura que merece respeito, é claro, mas que não pode ser elevada à condição de dona da verdade e de soberana sobre nós.
É que às vezes a gente não percebe, mas este ideal pode esconder um tremendo torturador de chicote em punho, a postos o tempo inteiro para nos agredir e violentar... e fazer de nós o que de mais infeliz existe sobre a Terra.

Leia também:

Nunca fui super em nada

domingo, 25 de novembro de 2012

O cafofo da Fefa

Eu, que detesto as redes sociais, não tenho ficha no Linkedin e viro piada entre os amigos porque não estou no Face, sou a prova-viva de que as amizades virtuais nem sempre resultam de problemas como solidão, timidez ou fobia social, nem são prerrogativa das gerações mais novas, que já chegaram ao mundo brincando com o celular da mãe (em vez de um chocalho).

É incrível como a gente pode se sentir distante de quem conheceu por toda uma vida e, na mesma proporção, próximo de pessoas que nunca viu, inclusive nas piores e nas melhores horas: aconteceu comigo, quando meu Velho Dannemann pegou o bonde para o Céu, e depois, quando estive, feliz da vida, flanando em Paris.

Às vezes me pego imaginando o rosto destes meus amigos invisíveis... onde será que vivem? Trabalham em quê? Quem serão eles? Quais os seus dramas e alegrias?

Este é o paradoxo das relações virtuais: o povo acaba se sentindo próximo, e até íntimo, quando em verdade ninguém conhece ninguém e não houve a construção do cotidiano e da história física de um relacionamento.

Mas como dizer que a tribo que a gente encontra no espaço cibernético é de mentirinha? Como afirmar isso se a gente acaba mesmo sentindo que conhece aquelas pessoas?

Ao meu ver, a chave de tudo está na plataforma. Os poucos dias em que estive no Face me mostraram que a tônica ali é a superficialidade. E eu pergunto: rola fazer amigos (mesmo que virtuais) na superficialidade? Já em um blog, dependendo de sua natureza, o que a gente encontra é justamente o contrário: pode haver muita verdade e profundidade nas páginas de um blog... e o leitor entra na dança (ou vai cantar em outra freguesia). O Face junta pessoas, mas um blog une afinidades.

Veja o exemplo do leitor que dividiu conosco a dor pela morte do pai... e do outro , que me conta, via comentário não publicado, que estava lutando contra o câncer... e de mais uma, que me manda receita de sopa... e de de outro, que me convida para um café com bolo... e daquele que me ajuda a defender a “marca” do blog (e de quem acabei ficando amiga em carne e osso), e dos vários que andam me ajudando na busca por uma diarista!

Um blog é um planeta bem diferente do Facebook e de seus similares: nele, não fica quem não se afina com a atmosfera reinante. Ocorre uma “seleção natural” entre os "blognautas" e ,quando não há afinidade de opiniões e propósitos, eles não voltam... isso favorece os laços tanto quanto a possibilidade de opinar, contar casos, dar depoimentos... no blog, a palavra do leitor não só conta, como faz toda a diferença... às vezes, um comentário sai melhor que o próprio post, e aqui já aconteceu de comentário virar post, e dos mais lidos inclusive.

Quando a gente vê, está se relacionando, e não importa nada se conhece o rosto do outro, se sabe onde mora ou trabalha, se tem filhos, se casou e separou, se isso ou aquilo...


Os tempos estão mudando, e a gente muda com eles: embora eu deteste o Facebook, e o narcisismoque impera na rede, admito que tudo é possível na vida, até mesmo encontrar uma patota virtual.



Leia também:
Não me procure no Orkut

Alice no País do Facebook

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O panetone da discórdia

A última candidata ao posto de faxineira daqui de casa é realmente uma peça rara: logo no primeiro dia, quando foi chegando a hora do almoço, me veio com esta:

-- A senhora pode achar meio esquisito, mas eu só como macarrão.
-- Macarrão e mais nada?!
-- É, sim senhora.
-- Mas ninguém vive de comer só macarrão!
-- EU vivo.
Tentei chamá-la à razão:
-- Você faz cocô? Uma pessoa que só come macarrão não consegue fazer cocô... tem que comer salada, legume...
Minha veia teatral veio à tona quando terminei o raciocínio:
--Você vai morreeeeeer comendo só macarrão!!!!!!!!!!
Impassível, ela disse apenas:
-- Faço cocô sim senhora.
Cá entre nós: o que leva uma pessoa a uma decisão tão radical? Comecei a entrevista:
-- Mas por que é que você só come macarrão? Desde quando? É com molho? Com manteiga? Salsicha pode?
-- Dona Fernanda, eu posso ser lá da favela, mas sei que a gente tem que lavar a alface pelos menos cinco vezes antes de comer, e com água quente, que é pra matar o bicho. Tive uma patroa que não deixava a gente lavar nada e...
Foi justamente aí, quando ela fez cara de náusea, que consegui fazê-la parar, antes que fosse tarde e eu já tivesse ouvido a história escabrosa que já estava na ponta da língua dela, prontinha pra pular em cima de mim e me agarrar pela memória.
Em resumo: molho não pode, e como ela não compra manteiga, acostumou-se a comer macarrão... com macarrão, e só. 
Cheguei a ficar com pena e sugeri a manteiga; depois me arrependi, porque ela botou meio pacote (meio mesmo, me-ta-de) no prato. Dias depois, preocupada ao ver que era meio pacote a cada prato de macarrão, tratei de explicar-lhe o que é colesterol, porque não quero ser responsável por alguém ter tido um treco no coração.
Mas esse lance de comer só macarrão me incomodava, e passou a incomodar mais ainda quando percebi que ela só almoçava se eu (EU) fizesse o almoço pra ela.
-- Sandra, já está tarde, você não vai almoçar?
-- Ah, dona Fernanda, não vou parar a faxina pra cozinhar não, porque senão me atrasa muito...
Então a idiota aqui ficava culpada, sentindo-se a própria capitã-do-mato que maltratava escravos, e corria para o fogão.
Quando contei ao meu marido que nossa diarista não comia praticamente nada, ele, garoto esperto, perguntou logo:
-- Ela é magra?
-- Não...
-- Então esse papo todo é conversa pra boi dormir. Ela tá te botando pra trabalhar pra ela.
Parei de bancar a cozinheira da diarista, e ela parou de almoçar... eu já estava sem saber o que fazer com a culpa quando descobri como era sua compensação: era com bolo, com biscoito, com sorvete  ou com qualquer guloseima que não fosse goiabada, pão com manteiga e café com leite ou biscoito maisena. Lembrei de quando eu era adolescente e não jantava, na tentativa de fazer chantagem com a minha mãe, e meu pai não se abalava dizendo que  “quem não come, ou já comeu... ou vai comer”. Estava certíssimo, porque eu já tinha mesmo enchido a pança na cozinha, antes de fingir o jejum.
Mas um dia a casa cai.
--  Sandra, você viu por aí o panetone que estava na cozinha?
E ela, na maior naturalidade do mundo:
-- Tomei café da manhã com ele.
E foram estas suas últimas palavras na condição de faxineira do meu apê. Voltei à ativa no batente com a vassoura, mas pelo menos agora... o título de comilona (assumida) da casa é só meu. E sem essa de comer só macarrão.

Leia também:

Limonada na macumba telepática