Se tem uma coisa deliciosa em viajar, é conversar com gente diferente. Gente de países diferentes, de cidades longínquas, de realidades impensáveis...
Eu sou aquele tipo de turista bem conversador, sabe como? Puxo assunto com todo mundo e, para minha felicidade, quase sempre saio ganhando. É bem verdade que ontem, num passeio pelo Central Park, me aproximei de um mendigo toda sorridente, estendi a mão que segurava um pão-doce de canela e falei:
-- Happy Holyday!
O homem arregalou os olhões, começou a gritar palavras incompreensíveis acho que até para o mais letrado americano e eu tratei de dar no pé. Mas posso dizer que, em geral, ganho novos (e breves) amigos... e minhas viagens tornam-se muito mais ricas e divertidas.
Já houve tempo em que tinha vergonha de falar inglês, e sofria horrores por isso. Até que descobri o seguinte: o alto grau de exigência é um problema do envergonhado, que se cobra excessivamente e acaba com a língua travada.
Falar inglês com pessoas que sejam tão estrangeiras quanto você em países de língua inglesa é um ótimo começo: eles serão compreensivos a respeito das suas dificuldades, porque já passaram (ou passam) por elas. Sacou?
E tem mais: falar inglês com ingleses é ótimo, pois eles em geral são educadíssimos e falam devagar. Já os americanos... bem, com estes a gente tem que contar com a sorte e ter paciência com eles... porque eles (na maioria das vezes) não têm com a gente!
Viajar para uma cidade como NY, Paris ou Veneza, dá ao turista a chance de conversar com gente do mundo inteiro... já pensou nisso? Trocar uma ideia com um cara que nasceu na Bósnia? Ou na Nova Zelândia? Ou no Egito? Ou no Irã?Muito mais do que ver um monumento centenário, conversar com uma pessoa destas é uma tremenda experiência de vida e uma diversão... faz bem para a alma, renova a gente por dentro, abre uma porta a mais no labirinto da nossa percepção.
Há pessoas que viajam e não conversam com ninguém. Ou limitam-se a pedir informações... não sabem o que estão perdendo.
Veja abaixo o sr. Walter, chinês que vive na Áustria e sentou-se ao meu lado em um musical na Broadway. Durante o show ele conseguia a proeza de cochilar e dar umas roncadas de leve, mas antes que o espetáculo começasse, e durante o intervalo, conversamos sobre a China, sobre algumas viagens dele e sobre a família, que aliás estava em peso no teatro. Foi assim que conheci seu neto, de 14 anos, um menino vivaz que adora Rocky Balboa, e motivo de o clã chinês estar ali. A certa altura, sr. Walter me perguntou:
-- De que país você vem?
-- Do Brasil.
-- Brasil? Que país é este?
-- Sabe, sr. Walter, esta é uma pergunta que nós brasileiros às vezes nos fazemos.
Se o homem, que é professor de engenharia e casado com uma médica, já estava confuso, ficou mais ainda depois desta piadinha incompreensível para chineses. O neto precisou intervir.
-- Brasil? Onde fica?
-- É o maior país da América do Sul.
Uma luz se fez no rosto do menino:
-- Futebol! É o país onde vai ter a Copa do Mundo?
E aqui temos Milton, o policial muito simpático que não só me ajudou a escolher a peça que eu deveria ver como também me ensinou o caminho para chegar ao teatro. E ainda batemos um papo sobre cinema, que só não durou mais porque o chefe dele chegou e cortou nosso barato. Para diminuir seu constrangimento, me saí com esta:
--Ele está com ciúmes de nós!
Aqui, Martha, a americana que já viveu em Cuba e é ativista e defensora do planeta. Nós nos conhecemos em uma loja de roupas de Bali, e em pouco tempo ela fez de mim uma partidária de sua causa, com direito a broche no casaco:
Aqui, Sophie e Catherine, as chinesinhas que conheci na rua, quando dividimos a mesa de uma praça na hora do lanche. Aaaaaaltos papos sobre como é viver na China de hoje, como é ser estudante estrangeiro nos EUA...
E elas, infelizmente, também não sabiam onde fica o Brasil. A certa altura, Sophie, cujo nome chinês é impossível de escrever aqui, me perguntou:
-- No verão vocês só usam biquíni?
Com Ariel e Ivonete tivemos a chance de papear ao sabor de uma cerveja de laranja e de petiscos exóticos em um restaurante na Lexington. I-nes-que-cí-vel! Vamos querer a segunda rodada... porque o papo (com ou sem cervejinha) é o ponto alto da viagem...
































































