Neste calor de Saara que tem sido o verão carioca, na hora da diversão não me arrisco a ir à praia. Se saio de casa, vou ao cinema, ao teatro, ao shopping, ao restaurante. Tudo para fugir do calor.
No último fim de semana, elegi um filme e uma peça, dois sucessos de crítica, e minha emoção não deu as caras no cinema nem no teatro. E olha que emoção é coisa que não me falta...
Ao contrário dos críticos de plantão, que raramente nadam contra a corrente, tenho a coragem de dizer que o premiado "Boyhood - da infância à adolescência", que levou 12 anos para ser filmado, e acompanha o crescimento de um casal de irmãos, fruto de um casamento em crise... olha, "Boyhood" não me disse absolutamente nada nas duas horas e meia em que aguentei na sala escura. O filme tem três horas de duração, três horas que os críticos julgaram incríveis! E que eu considerei ter gasto à toa; podia ter continuado a ler meu livro, que está ótimo, ou podia simplesmente ter tirado uma soneca, que adoro.
Ok. O diretor, Richard Linklater, uma das seis indicações ao Oscar que o filme recebeu, fez uma coisa que os críticos consideraram "única, do ponto de vista cinematográfico": dedicou anos a um projeto. E o roteiro, que a crítica considerou ótimo, eu considerei arrastado. Os diálogos, que os entendidos acharam "extraordinários", eu achei chatérrimos.
Enfim... fiquei duas horas e meia diante da telona buscando alguma coisa realmente preciosa na tal "simplicidade" que as matérias festejaram nos jornais, mas não vi nada, nem mesmo uma frase que me fizesse pensar, uma cena que me tocasse a alma. E desisti. Saí do cinema, que estava lotado aliás, com vontade de gritar pra plateia:
-- Vocês estão gostando?
No sábado resolvi ver a tal comédia teatral, pra dar umas risadas. Adoro rir. E gastei um bom tutu pra ver o monólogo de um ator famoso, a quem muito admiro, e que está há meses em cartaz. "A vida sexual da mulher feia" prometia. Ou não? Só este título já me fez pensar em mil situações hilárias.
Sentei na terceira fila, toda animada, e confesso que fiquei constrangida diante do texto fraquíssimo, do figurino ruim e do desempenho mecânico de um ator que poderia ir bem mais além.
Em dado momento comecei a observar a plateia e notei que quase ninguém ria das piadas velhas e forçadas, algumas extremamente machistas, inclusive. Será que todos sentiam-se enganados como eu?
Dei graças a Deus quando o show acabou e saí correndo dali. Voltei pra casa estressada, com medo da violência carioca, dos assaltos, dos pegas que vivem matando inocentes pelas avenidas, das balas perdidas que matam até quem está dormindo em casa... e no fim de semana sabe como é: o pessoal bebe e o trânsito ainda é pior!
Em casa, tomei um banho rápido, pra economizar água e ir treinando para aprender a viver sem banho (porque já que o Governo não faz a parte dele e culpa São Pedro pela estiagem, a gente tem que se acostumar com a ideia de viver sem água, como o sofrido povo do Nordeste já faz há séculos).
No conforto do ar-refrigerado, peguei no sono e sonhei. Que era inverno e chovia. Ai, finalmente... me diverti.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
Pai bandido
Na sucessão dos escândalos financeiros no país,
detenho os olhos nas fotos de um certo ex-diretor de estatal, justamente um
ex-diretor acusado de falcatruas tantas que, como o mundo inteiro já sabe, a
dita estatal, vítima de outros senhores como este que estou citando, e que já foi das maiores empresas do mundo, hoje não tem dinheiro
para tocar seus investimentos. Na fotografia, este ex-diretor veste roupas de
grife e vai cercado de policiais, portando no rosto um sorrisinho meio de lado. De
que será que ele ri? De sarcasmo ou de vergonha?
Fiquei aqui pensando neste homem, e nos outros que,
como ele, já foram respeitáveis homens de negócios, respeitáveis homens de
família, cheios de pompa, cheios de luxo, cheios de vontades, de cerimônias, de
salamaleques e de poder... e que agora estão nus frente ao mundo inteiro, vestindo apenas o
mau-caratismo que têm, e que tornou-se indisfarçável, porque por mais que o
mau-caráter se julgue mais inteligente que os demais, sempre chega o dia em que
a casa cai.
Penso nos filhos destes homens, que já fizeram o
papel de "respeitáveis" um dia, e que agora tornaram-se piada na boca do Brasil
inteiro, porque brasileiro faz piada de tudo... e como o Carnaval está aí,
tornaram-se também máscaras de folia, refrão de marchinhas. Então é esta a
herança que hão de deixar aos descendentes? Quando avidamente armavam suas negociatas não
pensavam nisso? Ou as falcatruas eram justamente em nome do "amor paternal" e
a proteção à família era desculpa para suas atitudes, envolvendo inclusive os
filhos e as mulheres em suas armações?
Longe de mim bancar a juíza. Mas penso em como deve
ser ver o pai estampado no jornal e apontado como tendo enriquecido
ilicitamente, como tendo lesado os cofres públicos, seu nome ridicularizado... não
há dinheiro no mundo que valha esta dor. Pagar um psicanalista em Paris, para aprender a viver com a verdade que o pai era ladrão e prejudicou muita gente? Eis uma herança triste de se receber e aceitar...
Valioso mesmo é o respeito genuíno
por um pai honesto, que mesmo pobre de tudo, seja rico de bons exemplos
para dar. No final das contas, esta certeza é que faz a vida da gente seguir nos trilhos.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
Angústia
A casa, repentina, se apequena;
paredes alvas tornam-se castanhas
e da janela vejo a noite antes da hora.
Faço um poema, penso em ir embora
mas onde for serei a mesma,
uma estranha.
A casa faz-se outra sem aviso:
pequena é, mínima se torna;
É o silêncio que devora as traças
das tantas dores que onde for, não lanço fora.
(Fernanda Dannemann)
paredes alvas tornam-se castanhas
e da janela vejo a noite antes da hora.
Faço um poema, penso em ir embora
mas onde for serei a mesma,
uma estranha.
A casa faz-se outra sem aviso:
pequena é, mínima se torna;
É o silêncio que devora as traças
das tantas dores que onde for, não lanço fora.
(Fernanda Dannemann)
domingo, 11 de janeiro de 2015
Viagem ao centro de si
Não me canso de repetir que a pior maneira de escolher um filme para ir ver é ler a crítica dos jornais. Mais uma vez os especialistas pisaram na bola: "Uma longa viagem", que leva Colin Firth no papel principal, é um filme que, se fosse mal contado, teria tudo para ser um dramalhão... e no entanto é lindo, embora os "entendidos" no assunto tenham feito até piada sobre a história (verídica), e tenha havido gente que até riu do final, classificando-o como "impossível".
O caso é que o dito final aconteceu mesmo, na vida real...
Adoro Colin Firth e fiz minha escolha por causa dele, apesar de não apreciar Nicole Kidman, seu par.
O enredo, como já disse, conta a história de um soldado inglês capturado e torturado por japoneses, na Segunda Guerra; finda a batalha, o homem segue vida afora torturado pela lembrança.
Daí pra frente eu não conto mais porque não sou estraga-prazeres, mas o modo como se desenrolam os assuntos da vingança, do arrependimento, do ódio e também o do amor... da lealdade acima de qualquer coisa... isto é que interessa e faz a gente pensar.
A lealdade é um tema que dá muito "pano pra manga", como se diz em Minas. Lealdade a quê? A quem? A que preço? Muitas vezes a lealdade transforma-se em algo funesto dentro da gente, sem que possamos nos dar conta, e faz apodrecer o lado bom da vida: quando nos aferramos a qualquer coisa que seja por "lealdade" é possível que estejamos tomando o caminho do retrocesso ou da estagnação.
A vida é movimento, muitas vezes é também mudar de ideia, tomar outro rumo, decidir até mesmo seguir pelo caminho oposto ao que imaginávamos o correto, o ideal, o único caminho.
Neste sentido, o ódio pode ser uma forma tortuosa de lealdade, tanto quanto o amor pode ser visto como desleal.
Graças a Deus, falíveis que somos... temos também a grandeza dentro de nós.
O caso é que o dito final aconteceu mesmo, na vida real...
Adoro Colin Firth e fiz minha escolha por causa dele, apesar de não apreciar Nicole Kidman, seu par.
O enredo, como já disse, conta a história de um soldado inglês capturado e torturado por japoneses, na Segunda Guerra; finda a batalha, o homem segue vida afora torturado pela lembrança.
Daí pra frente eu não conto mais porque não sou estraga-prazeres, mas o modo como se desenrolam os assuntos da vingança, do arrependimento, do ódio e também o do amor... da lealdade acima de qualquer coisa... isto é que interessa e faz a gente pensar.
A lealdade é um tema que dá muito "pano pra manga", como se diz em Minas. Lealdade a quê? A quem? A que preço? Muitas vezes a lealdade transforma-se em algo funesto dentro da gente, sem que possamos nos dar conta, e faz apodrecer o lado bom da vida: quando nos aferramos a qualquer coisa que seja por "lealdade" é possível que estejamos tomando o caminho do retrocesso ou da estagnação.
A vida é movimento, muitas vezes é também mudar de ideia, tomar outro rumo, decidir até mesmo seguir pelo caminho oposto ao que imaginávamos o correto, o ideal, o único caminho.
Neste sentido, o ódio pode ser uma forma tortuosa de lealdade, tanto quanto o amor pode ser visto como desleal.
Graças a Deus, falíveis que somos... temos também a grandeza dentro de nós.
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
A dor da crítica
Dificil é ouvir uma crítica, o resto é mole pra “nóis”,
como dizem os aficcionionados do Facebook, o Fantástico Mundo dos Puxa-sacos,
onde tudo é elogio e seda rasgada, e talvez por isso mesmo o sucesso seja
tanto.
Uma boa verdade, na forma de crítica construtiva, já
quase não encontra lugar na vida de hoje; o povo prefere cortar relações, sair no tapa,
virar a cara, jogar a amizade no lixo. É que para ouvir uma crítica, o sujeito
carece ser forte por dentro, ter músculos no pensar e na autoestima, ser movido
pelo anseio verdadeiro de evoluir. Caso contrário se ofende, exige desculpas e condolências.
As críticas bem-intencionadas não foram feitas para
os fracos, nem para os arrogantes, que no fim das contas estão todos no mesmo
barco.
Crítica doentia, maldosa, cheia de esgar e inveja...
isso aí é artigo para incineração e não merece uma gota de preocupação de quem
quer que seja. Mas não é disso que falamos no presente momento, e sim do famoso "toque" que só os corajosos têm ousadia de dar... mas que necessita coragem também para ser ouvido, aceito, assimilado e digerido, como se fosse um remédio ministrado por quem ama. E só quem ama o faz. O que em geral há faltado, é amor na hora de receber. Explica-se: o caminho do ódio é mais fácil, e da infelicidade também.
Mas o sincero, aquele cara que tem a coragem de
levantar o dedo e gritar para todos que sim, o rei está pelado... este aí
deveria ser ouvido com mais cautela por Sua Majestade, o que não erra, o que
não paga mico, o que está acima do bem e do mal. Porque o único ganho que o
sincero tem, é justamente ver o rei vestido. Mesmo correndo o risco de ser
incompreendido pela multidão... e pelo próprio rei. Aliás, coitadinho do rei!
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
O silêncio nos dias
Peço perdão aos amigos do blog pelo silêncio de semanas.
Talvez eu estivesse mudando a plumagem. Ou de estação: silenciei de repente, um vazio interno e abissal, uma falta do que pensar e dizer. Então não pensei e nem disse.
Deixei-me levar pelo silêncio como se fosse um rio, daqueles bem tranquilos, em pleno verão tropical. Boiando sobre ele, deslizei pelos dias numa frugal ausência de palavras. Foi quase meditação. Foi quase transcendência.
Já nasci feita de palavras. Como se frases cobrissem os ossos e, dentro das veias, corressem rimas. E a minha alma, a alma sempre molhada, que voa presa ao varal... a minha alma é de sentido!
Mas até quem é feito de palavras é também feito de silêncios, de pausas, de nada a declarar.
Então às vezes me calo, encho a boca de reticências e é como se um sono de princesa amaldiçoada se deitasse sobre mim.
Durmo. Espero. Deixo passar o vazio interno, esta necessidade de estar só como em um salão de baile sem orquestra ou convidados... apenas a voz do pensamento vago, errante, disperso: um encontro de dias entre mim e minha consciência, esta que se achega repentina e exige tempo, exige calma, exige mesmo a sabedoria da qual não disponho.
É o silêncio que faz pensar no que jamais pensamos, porque maltrata, fere, exige, impõe.
Um silêncio que toma tudo; a casa, nas tardes abafadas. O quarto, nas noites vagarosas. O fim de ano, com suas cores falsas.
Até que um dia as palavras brotam, lentamente, ou o desejo simples de dizê-las... como se ali, do outro lado da janela, o meu jardim anunciasse a primavera.
Talvez eu estivesse mudando a plumagem. Ou de estação: silenciei de repente, um vazio interno e abissal, uma falta do que pensar e dizer. Então não pensei e nem disse.
Deixei-me levar pelo silêncio como se fosse um rio, daqueles bem tranquilos, em pleno verão tropical. Boiando sobre ele, deslizei pelos dias numa frugal ausência de palavras. Foi quase meditação. Foi quase transcendência.
Já nasci feita de palavras. Como se frases cobrissem os ossos e, dentro das veias, corressem rimas. E a minha alma, a alma sempre molhada, que voa presa ao varal... a minha alma é de sentido!
Mas até quem é feito de palavras é também feito de silêncios, de pausas, de nada a declarar.
Então às vezes me calo, encho a boca de reticências e é como se um sono de princesa amaldiçoada se deitasse sobre mim.
Durmo. Espero. Deixo passar o vazio interno, esta necessidade de estar só como em um salão de baile sem orquestra ou convidados... apenas a voz do pensamento vago, errante, disperso: um encontro de dias entre mim e minha consciência, esta que se achega repentina e exige tempo, exige calma, exige mesmo a sabedoria da qual não disponho.
É o silêncio que faz pensar no que jamais pensamos, porque maltrata, fere, exige, impõe.
Um silêncio que toma tudo; a casa, nas tardes abafadas. O quarto, nas noites vagarosas. O fim de ano, com suas cores falsas.
Até que um dia as palavras brotam, lentamente, ou o desejo simples de dizê-las... como se ali, do outro lado da janela, o meu jardim anunciasse a primavera.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2014
Bolsonaro e o estupro da vida em sociedade
A violência maior não está no homem que faz a política do contra: contra as mulheres, contra os homossexuais, contra os negros, contra a liberdade, e sim no fato de que há quem vote nele!
Em 2014, Jair Bolsonaro foi o deputado mais votado do Rio, com mais de 460 mil votos, e isso é um caso a se pensar. Violência não se limita a assalto a mão armada. A violência silenciosa, que finca as raízes na cabeça das pessoas e conduz ao estupro da vida pública e da vida em sociedade, esta sim é a mais virulenta. Basta olharmos a história do homem, exemplos não faltam.
Era o caso de se pensar até que ponto a democracia deve dar espaço para que ideias de ódio possam ser oficialmente disseminadas, tendo como porta-voz um político eleito pelo povo. Ou não?
Em 2014, Jair Bolsonaro foi o deputado mais votado do Rio, com mais de 460 mil votos, e isso é um caso a se pensar. Violência não se limita a assalto a mão armada. A violência silenciosa, que finca as raízes na cabeça das pessoas e conduz ao estupro da vida pública e da vida em sociedade, esta sim é a mais virulenta. Basta olharmos a história do homem, exemplos não faltam.
Era o caso de se pensar até que ponto a democracia deve dar espaço para que ideias de ódio possam ser oficialmente disseminadas, tendo como porta-voz um político eleito pelo povo. Ou não?
sábado, 13 de dezembro de 2014
Buenos Aires musical
O Piazzolla Tango é um teatro na calle Florida que oferece um show diferente dos tradicionais tangões ao estilo "Por una cabeza": as seis duplas de dançarinos bailam ao som de uma orquestra de seis músicos que tocam o mais puro Piazzolla, artista que revolucionou a música argentina ao inovar o tango com as influências do jazz.
Ali, o apreciador da boa música e dança vai curtir um tango que não é para iniciantes. Quem quiser um show típico para turistas deve mesmo procurar outra opção, ou sairá frustrado. O teatro oferece um lauto jantar com excelente comida e vinho de primeira antes do espetáculo, que tem duração aproximada de 1 hora e meia.
Mas Buenos Aires é uma cidade musical, como se sabe, e a música está por toda parte e para todos os públicos... a seguir, uma pequena amostra do que vi, em menos de cinco minutos de caminhada, em duas esquinas vizinhas:
Ali, o apreciador da boa música e dança vai curtir um tango que não é para iniciantes. Quem quiser um show típico para turistas deve mesmo procurar outra opção, ou sairá frustrado. O teatro oferece um lauto jantar com excelente comida e vinho de primeira antes do espetáculo, que tem duração aproximada de 1 hora e meia.
Mas Buenos Aires é uma cidade musical, como se sabe, e a música está por toda parte e para todos os públicos... a seguir, uma pequena amostra do que vi, em menos de cinco minutos de caminhada, em duas esquinas vizinhas:
quinta-feira, 11 de dezembro de 2014
Sou Racing, mas na vitória do River virei a casaca
A festa do River Plate, ao vencer a Copa Sul-Americana por 2 a 0 ao derrotar o colombiano Atlético Nacional, foi contagiante. As autoridades fecharam a Avenida Corrientes e os torcedores se concentraram no Obelisco da Avenida Nove de Julho. Já era mais de meia-noite e o povo não parava de chegar, com uma alegria digna de Copa do Mundo. Impossível não se deixar levar...
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
Arte moderna em Buenos Aires
Descobri um novo museu na cidade, o Museu de Arte Moderna!
Relativamente novo, ainda falta montar um café e uma lojinha, coisas que na minha opinião são fundamentais! Mas o prédio tem o charme de parecer, ele mesmo, uma peça de arte... olha a escada, que ao vivo lembra a espinha de um dinossauro:
Alguns museus valem não só pelas obras que exibem, mas também pela sua arquitetura e conjunto. Um bom exemplo é o Guggenheim de Nova Iorque, em círculos, projetado para facilitar a vida dos visitantes e valorizar as exposições. Não é o caso deste aqui, mas mesmo assim ele é um colírio para os olhos, porque as salas são coloridas e também valorizam as mostras. Olha só:
O museu fica pertinho da Feira de Santelmo, que acontece aos domingos. Marque aí no seu caderninho e faça dois passeios que valem a pena em um dia só.
Relativamente novo, ainda falta montar um café e uma lojinha, coisas que na minha opinião são fundamentais! Mas o prédio tem o charme de parecer, ele mesmo, uma peça de arte... olha a escada, que ao vivo lembra a espinha de um dinossauro:
Alguns museus valem não só pelas obras que exibem, mas também pela sua arquitetura e conjunto. Um bom exemplo é o Guggenheim de Nova Iorque, em círculos, projetado para facilitar a vida dos visitantes e valorizar as exposições. Não é o caso deste aqui, mas mesmo assim ele é um colírio para os olhos, porque as salas são coloridas e também valorizam as mostras. Olha só:
O museu fica pertinho da Feira de Santelmo, que acontece aos domingos. Marque aí no seu caderninho e faça dois passeios que valem a pena em um dia só.
terça-feira, 9 de dezembro de 2014
Buenos Aires tropical
No verão, Buenos Aires é totalmente diferente
daquela dos dias de frio!
Passeando por Palermo e Recoleta, a Ipanema portenha, a gente se pergunta onde é que está a tal da crise argentina. O povo continua lindo, leve e solto... todo mundo com sacolas de boutiques caras na mão... tomando Quilmes com os amigos e batendo aqueeeeele papo legal! Os restaurantes continuam cheios e animados, os carrões desfilam pelas ruas arborizadas e os jardins seguem gramados e floridos...
As moças deixam os casacões negros no armário e
botam as perninhas de fora, com saias e shorts que a cada ano vêm ficando cada
vez mais curtos...
A cidade fica toda colorida...
Os bares lotados...
O calor por aqui é de matar, e como não há praia, a
gente tem mesmo que apelar para os heróis da temporada: Gota Máxima e
Cucurucho:
Ou para a bebida gelada de café, verdadeira
sobremesa, o Frapuccino (eu prefiro o velho e bom cafezinho):
Os piadistas gostam de dizer que os argentinos
pensam que são ingleses, mas o fato é que Buenos Aires embarcou na ideia alemã
de espalhar bancos de diferentes tipos pela cidade, então o pedestre nunca se
cansa de andar por aí, porque tem sempre onde se sentar...
Outra coisa que me surpreendeu nesta estação é que
eles aderiram à ciclovia!
E há por aqui bicicletas muuuuuito estilosas...
Por falar em estilo, as lojas da cidade estão cada
vez mais lindas, e redecorar a casa é sempre uma tentação... pena que não cabe
muita coisa na mala! Com a moeda argentina baixa e inflacionada, é uma oportunidade
para quem pode trocar dólares ou reais em uma casa de câmbio confiável, pois o
dólar no paralelo vale 30% a mais que no câmbio oficial. Os argentinos, que
antes se ofendiam com um pedido de pechincha, agora aceitam baixar até 30% do
preço marcado em vitrine no caso de pagamento à vista. Assim, não vale a pena
pagar nada com cartão de crédito, nem mesmo diária de hotel.
Passeando por Palermo e Recoleta, a Ipanema portenha, a gente se pergunta onde é que está a tal da crise argentina. O povo continua lindo, leve e solto... todo mundo com sacolas de boutiques caras na mão... tomando Quilmes com os amigos e batendo aqueeeeele papo legal! Os restaurantes continuam cheios e animados, os carrões desfilam pelas ruas arborizadas e os jardins seguem gramados e floridos...
Aí a gente vai ao outro lado da cidade dar uma volta
na tradicional Calle Florida, algo como o Saara carioca, mas melhor, e reduto
dos turistas (que creem estar no lugar ideal para as compras) e dos comerciantes
de bugingangas. Ali há de tudo um pouco: de Zara a lojas de 1,99... e a música
de fundo é algo como:
“Fabrica de cuero!”, “Cambio! Casa de Cambio!”, “Show
de tango!”, “Paseos Turísticos!” etc...
Em termos de propaganda no ouvido do turista, pior
que a Calle Florida só mesmo um lugar em Pernambuco chamado Porto de Galinhas,
onde estive uma vez e mal consegui caminhar por conta do enxame de ambulantes.
Mas em Buenos Aires lembrei da piada que diz que o
país está em “recessão” quando SEU VIZINHO perde o emprego, e está em “crise”
quando VOCÊ perde o emprego. Pois bem: em Palermo e Recoleta parece que o país
está em recessão, e não em crise. Os sinais de crise que vi por aqui foram os
mendigos pelas ruas do Centro e da Avenida Santa Fé, a alta do dólar paralelo e
o sumiço de várias lojas que existiam até ano passado. Três fortes indícios,
ainda que a cidade esteja com cafés e restaurantes cheios, que haja turistas
por todo lado e as lojas e feiras da cidade continuem vendendo.
Agora vou fazer como eles e tomar uma Quilmes, porque o calor tá "daqueles"! Amanhã
tem mais. Buenas!
segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
Alma portenha
Sou mineira da gema, mas o Rio é a cidade onde
escolhi viver. No entanto, todas as vezes que volto a Buenos Aires, tenho a
sensação de estar voltando para casa. É como se as ruas da cidade, os prédios,
os odores, a musicalidade da língua e até as peculiaridades do portenho fossem
muito familiares, bem mais até do que o esperado pelo tempo que já passei aqui.
Curiosamente, meu amor por Buenos Aires nasceu bem
antes de eu de fato conhecê-la. Eu ainda não havia aprendido a ler quando me
apaixonei pelo tango que meus pais ouviam em casa (e dançavam, de modo muito
criativo, nas gincanas da nossa escola e nas festas do clube da cidade). Depois
vieram os bolerões, que me fizeram amar o idioma. Aos 17 anos me matriculei
num curso de espanhol e sonhei estudar na capital portenha, devaneio total
àquela época.
Incrivelmente, eis que a vida, muitos anos depois, acabou me trazendo mesmo a esta cidade tão
bonita, onde vivi por tempo suficiente para que o amor brotasse verdadeiro, um
amor talvez nascido até em tempos imemoriais... veja você que aprendi o idioma tão rápido, e o
domino tão bem, que costumo dizer que não aprendi, mas me lembrei!
Turistas apaixonados, como eu (que amam viajar)
necessitam priorizar a escolha dos destinos, principalmente se, como eu, vivem em
países de Terceiro Mundo, não são ricos e já estão na meia-idade. Neste caso,
eleger as férias para um regresso significa uma escolha muito especial...
Buenos Aires, para mim, é como passar férias em
casa; aquela casa que a gente já teve um dia, mas não tem mais... que ainda existe nas nossas melhores
lembranças, e que guardamos no melhor lugar do coração... aquela casa que colorimos
com os lápis da alegria, da aventura, da paixão e da juventude... e para onde,
ainda que o tempo voe, podemos voltar de vez em quando, porque ela não ficou
estática no passado, mas continua viva e à nossa espera, sob aquele velho céu
azul de sempre, em algum lugar deste mundo!
sábado, 6 de dezembro de 2014
segunda-feira, 1 de dezembro de 2014
Infância consumida
Então a menina considerada a mais linda do mundo, a
russa Kristina Pimenova, tem mais de 300 mil seguidores no Instagram e mais de
2 milhões no Facebook... e entre este povo todo, há quem diga que ela tem
“pernas sexy”.
Pernas sexy aos 9 anos?
Olha... ela poderia ser bem MAIS bonita se não parecesse uma mulherzinha em miniatura; se fosse a imagem de uma criança, e só. O que de fato ela não parece, com as caras, bocas e poses que faz frente a lente do fotógrafo. Um verdadeiro deleite para os pedófilos de plantão, alguém duvida? Uma piração total destes tempos que vivemos, nos quais a infância está com os dias contados, e cada vez mais escassos.
Pernas sexy aos 9 anos?
Olha... ela poderia ser bem MAIS bonita se não parecesse uma mulherzinha em miniatura; se fosse a imagem de uma criança, e só. O que de fato ela não parece, com as caras, bocas e poses que faz frente a lente do fotógrafo. Um verdadeiro deleite para os pedófilos de plantão, alguém duvida? Uma piração total destes tempos que vivemos, nos quais a infância está com os dias contados, e cada vez mais escassos.
Minha amiga conta às risadas que viu a seguinte
cena:
Na loja, a menina de não mais que quatro anos fazia
birra para a avó. Queria uma bolsa. Ela cruzou os braços e sentenciou, fazendo
beicinho e às lágrimas:
-- Vovó, eu não vivo sem esta bolsa! Eu PRECISO
desta bolsa!!!
E eu aqui me pergunto: onde é que está a graça?
Tanto Kristina quanto a consumista que queria a
bolsa (e ganhou) apontam para o fato de que a infância está mesmo erotizada,
marcada pelo consumo e pelo descartável, os signos da atualidade.
A infância já não tem mais valor. Está sendo consumida pela indústria, pelos costumes moderninhos, pela pressa das crianças e até dos pais... as crianças nunca
quiseram crescer tão rápido, e os adultos parecem não perceber que estão apoiando esta pressa, e achando bonitinho! Ou, na pior das
hipóteses, ganhando dinheiro.
Kristina, a menina "mais bonita do mundo", tem uma
legião de seguidores simplesmente por ser... "a menina mais bonita do mundo", com seu cabelo louro e seus olhos azuis, o estereótipo "capa de revista" mais batido do planeta.
Chega a ser de pasmar o quanto as pessoas precisam de um ídolo para seguir, e hoje, com as redes sociais, podem mesmo "segui-lo" por aí, num voyeurismo crônico e instalado que denota vazios profundos e tão antigos...
A indústria já fez das crianças um mercado
consumidor valiosíssimo, e como os pais da atualidade, marcados pela culpa da
falta de tempo, não sabem impor limites... bingo! Na televisão e no cinema a
turma aprende que sexo é a coisa mais banal do mundo... em breve, aliás, o sexo
há de chegar às séries de desenho animado, onde a pancadaria já chegou faz
tempo. Porque se as modelos estão sexies aos 9 anos de idade... quem é que vai duvidar? Chega a ser de pasmar o quanto as pessoas precisam de um ídolo para seguir, e hoje, com as redes sociais, podem mesmo "segui-lo" por aí, num voyeurismo crônico e instalado que denota vazios profundos e tão antigos...
![]() |
| Em breve estas placas não vão nem existir mais... |
domingo, 30 de novembro de 2014
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
O amor que cega
Tudo em excesso faz mal, e com o amor não há de
ser diferente. Nem mesmo ele, que nos enleva, e que tão bem faz a
quem o sente como ao seu objeto, está a salvo do equívoco, e simplesmente
por ser demais.
Ao fim de um tempo, as flores daquela amizade estão tão podres que nem a lembrança do perfume delas nos suscita algo de bom. Tudo acabou, restando apenas a mágoa de quem amou demais, e a mágoa de quem já não é amado mais. São os espinhos do ressentimento.
Amor, é bom que se diga, é a melhor coisa do mundo! Mas até a melhor coisa do mundo precisa ter medida certa no coração. Amar demais não faz bem a ninguém, ao contrário; é irracional, é parcial, faz-nos injustos ao julgar a situação, ao julgar o outro e a nós mesmos: somos sempre devedores de quem amamos demasiadamente. E isso, por si só, é um cárcere do qual não há saída... nem luz.
Virou lugar-comum dizer que “amor cega”.
Mas é que as grandes verdades facilmente se
transformam em lugares-comuns, e talvez seja por sua obviedade, por sua
transparência, que a gente ri e faz pouco caso. E, por fim, se recusa a aceitar
a realidade, como se fôssemos superiores a ela. Mas amor cega mesmo, e ponto. Amor
quando é demais, então... cega, ensurdece, amputa, mata de desgosto, quando não
de verdade.
O mal do amar demais é ser parcial, por mais
imparcial que a gente seja com o restante do mundo inteiro. É passar a mão na cabeça
do outro, quando o outro precisa, mesmo, é ser repreendido, chamado à razão, arcar
com as consequências dos seus atos,
sofrer para aprender, sentir na pele o peso do seu erro, que nasceu da
displicência, da irresponsabilidade ou da desconsideração.
Mas aí o “amor demais” entra em cena cheio de pudor,
de peninha, de instinto de proteção: tadinho do outro! Vai sofrer tanto neste
mundo, e logo eu, que o amo demasiado, vou fazê-lo sofrer também?
E é assim que o amor se transforma em lâmina, em
faca, em corte, em dor, em sangue no coração da gente: neste coração que ama, e
que ama tanto! Mas ama errado, porque não sabe impor limites nem educar, nem
mesmo mostrar ao outro que amar não significa ser tolo nem condescendente com o
erro; amar não pode ser isso, ou a humanidade estará perdida.
O amor está no “não”. No limite das situações e até
mesmo no fim da convivência, se for o caso. É triste, é tristíssimo, mas a
verdade é que há casos na vida em que temos mesmo que abrir mão de conviver com
quem amamos para o bem ou para a preservação de ambos: porque este amor
que protege em demasia, no fundo deseduca e faz mal, ensina ao outro que o erro
não tem consequências, ao mesmo tempo que faz com que aquele que ama se sinta
usurpado, vilipendiado das mais variadas formas. Ao fim de um tempo, as flores daquela amizade estão tão podres que nem a lembrança do perfume delas nos suscita algo de bom. Tudo acabou, restando apenas a mágoa de quem amou demais, e a mágoa de quem já não é amado mais. São os espinhos do ressentimento.
Amor, é bom que se diga, é a melhor coisa do mundo! Mas até a melhor coisa do mundo precisa ter medida certa no coração. Amar demais não faz bem a ninguém, ao contrário; é irracional, é parcial, faz-nos injustos ao julgar a situação, ao julgar o outro e a nós mesmos: somos sempre devedores de quem amamos demasiadamente. E isso, por si só, é um cárcere do qual não há saída... nem luz.
quinta-feira, 20 de novembro de 2014
Mutação
É que depois, quando esfriou o sangue,
O que me veio foi o torpor da bílis.
Veio o suor que deslizou na testa;
O fio leve me cortou o pescoço
E trouxe o calafrio da sentença.
E o querer, que quase foi doença,
Que me furou a carne e me tomou o osso,
Vazou de mim para ganhar o espaço
Se dissipar no ar, fugir pela janela.
Alguém me abriu o corpo no abraço
Tirou com dentes a costela
E a pendurou no céu, um arco-íris.
(Fernanda Dannemann)
sexta-feira, 14 de novembro de 2014
Viagem ao admirável mundo novo
Na ala feminina, fui abordada em particular, pela
primeira vez:
-- Tem perfume? Tem perfume?
Perguntou a senhora, bem velhinha, ao se aproximar
até ficar beeeeeem pertinho de mim.
-- Não tenho não.
-- Vai em casa buscar? Vai?
-- Vou sim.
-- Estou esperando...
E foi se afastando, dentro daquele vestido de algodão azulado, levinho, para dali a pouco voltar e passar por mim como se jamais tivesse me visto. Como se eu, na realidade, nem mesmo estivesse ali.
E foi se afastando, dentro daquele vestido de algodão azulado, levinho, para dali a pouco voltar e passar por mim como se jamais tivesse me visto. Como se eu, na realidade, nem mesmo estivesse ali.
Mais adiante, fiz minha primeira visita a um Centro
de Atenção Psicossocial, Caps, que no mundo ideal deveria ser a alternativa definitiva aos hospitais psiquiátricos, já que presta atendimento clínico e, somado a isso, promove a inserção social do portador de doença mental em seu ambiente de origem. Eu estava no Caps Bispo do Rosário, que faz parte do complexo da Juliano Moreira, onde há um centro de convivência e, ao lado, o Ateliê Gaia, berçário de arte do mais puro inconsciente a céu aberto. Rolava um evento, a casa estava cheia de gente, então me sentei em um banquinho sob a árvore, pra descansar do calor. Nessa hora, a
moça se aproximou:
-- Tem cigarro?
E foi assim que teve início uma boa conversa com a
namorada do meu artista plástico preferido, o Luiz Carlos, de quem aliás já
comprei dois quadros, em diferentes ocasiões. Luiz Carlos, hoje aos 40 anos, nasceu na Colônia Juliano Moreira, onde a mãe, esquizofrênica, foi vítima de eletrochoques na gravidez, razão à qual ele credita sua psicose. Depois que ficamos amigos, passei a ganhar um abraço sempre que nos encontramos, e ao me mostrar seus quadros ele não deixa de perguntar:
-- Quer tirar fotos?
-- Mas é claro que eu quero!

-- Quer tirar fotos?
-- Mas é claro que eu quero!

Bem... mas vamos seguir viagem! Ao lado do Luiz Carlos temos uma série de outros artistas, entre eles o Arlindo, 60 anos, na Colônia desde os 12 e hoje fora dela, assim como o amigo (Arlindo está na foto abaixo). Juntos, todos eles têm a sorte de fazer parte do time do Ateliê Gaia, também pertencente à Colônia, e onde a arte é remédio e estabiliza as crises, dá voz aos esquizofrênicos e possibilita que, com a venda de seu trabalho, os artistas exercitem seu poder de contratualidade e, com isso, resgatem sua cidadania.
Vejo quando os turistas estrangeiros compram algumas obras... os doidos fazem arte... e vendem bem!
Na ala masculina, os pacientes, já com idade avançada, têm todos a mesma história: são portadores de transtorno mental grave e possuem décadas de internação psiquiátrica em hospitais. Ali, vivem em casinhas em formato de lar ou em pavilhões, num espaço comunitário. Tudo limpíssimo e com a individualidade preservada na medida do possível, como por exemplo lençóis diferentes, fotografias, armários, mesinhas de cabeceira.

Os pacientes transitam por todos os lados, em
liberdade. Conversam entre si e com os visitantes, alegremente. Nos tocam, nos
abraçam, ficam em silêncio, ficam deitados. Vêm a este mundo, vão a outros
mundos. Vão às oficinas de culinária e de jogos, mas nada é obrigatório. E nada
é obrigatório porque a tônica do tratamento, ali, é o empoderamento do paciente
e sua transferência progressiva para fora! Os mais autônomos vão para
residências terapêuticas e vivem com outros usuários dos serviços de saúde
mental, recebendo ajuda financeira do Governo: há ali, por exemplo, um sr. com
90 anos, sendo preparado para sair, pois seu desejo é “não morrer no hospício”.

No Museu Arthur Bispo do Rosário, fiquei com a
frustração por ter visto algumas poucas peças do esquizofrênico que por 50 anos
viveu internado ali, onde criou uma obra artística monumental. E que virou
mito: gênio para muitos, o fato é que sua impressionante obra, composta por
mais de 800 peças, merece uma exposição mais completa e permanente, pois é
justamente o conjunto que faz com que ela seja tão forte, expressiva
e original.
Ao fim da viagem, a vontade que fica é de uma
jornada mais profunda neste universo misterioso que se estende para além da
mente humana, dos muros do hospício, das possibilidades abertas pela Reforma
Psiquiátrica.
Porque os loucos que estão asilados são os menos perigosos: o perigo real mora do lado de fora, onde os doidos de verdade dirigem a 120 Km por hora nas cidades; abandonam filhos e mentem para suas mulheres; passam cheques sem fundos; roubam dinheiro da merenda escolar; recusam-se a atender pacientes que morrem nas calçadas dos hospitais; cobram propinas de empreiteiras; torturam, agridem, estupram, matam, caluniam; misturam amônia ao leite para aumentar seus lucros; desmatam florestas... e mais... e mais...
Porque os loucos que estão asilados são os menos perigosos: o perigo real mora do lado de fora, onde os doidos de verdade dirigem a 120 Km por hora nas cidades; abandonam filhos e mentem para suas mulheres; passam cheques sem fundos; roubam dinheiro da merenda escolar; recusam-se a atender pacientes que morrem nas calçadas dos hospitais; cobram propinas de empreiteiras; torturam, agridem, estupram, matam, caluniam; misturam amônia ao leite para aumentar seus lucros; desmatam florestas... e mais... e mais...
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