quarta-feira, 18 de março de 2015

Recaída, o xis da questão

Acendo um cigarro. E outro, e outro. O papo com as minhas amigas, as risadas que damos, o café delicioso... tudo isso me faz esquecer que recaída é assim, é triste assim; a gente fuma e não se importa que fuma; depois volta pra casa tão triste e amargo como o alcóolatra que se deixou levar pela ilusão de um golinho só ao lado dos amigos no bar... e cai no vão sem fundo da noite, onde o brilho dos copos é tudo o que há, além do prazer irresponsável do vício. O vício de se deixar cair.

Cair de novo na ilusão. E pode ser ilusão em qualquer coisa, não precisa ser, necessariamente no cigarro, como é o meu caso. Eu gosto de pitar um cigarrinho com as amigas, de vez em quando, tomando um café quentinho, batendo um papo, e tal... mas depois sempre me arrependo. Quero fazer ginástica, ter os pulmões limpos e leves, a consciência tranquila de quem não se sacaneia.

Mas recaída é assim, deve ser mesmo pulsão de morte... o que me faz pensar na minha amiga, que é tão bonita e jura que sonha com felicidade, mas deu de presente o coração para um homem que a trai repetidas vezes... porque não consegue ser fiel. E ela não consegue partir pra outra, mesmo sofrendo tanto: se ele recai na traição, ela recai em voltar pra ele, só de pensar em ir embora...

Se a gente parar pra pensar, vai perceber que a recaída está em tudo, está nas mínimas coisas, e o futuro é quem mais perde com isso porque o futuro é só uma promessa, uma miragem, uma alucinação. A gente só tem o hoje e entrou numas de que quer ser feliz aqui e agora, porque quase perdemos a fé nesta veleidade que o futuro se tornou em tempos de consumismo tão voraz e absoluto. Então a juventude bebe vodca até morrer, porque a vida não tem mais sentido, ou talvez nunca tenha tido.

A recaída é o xis da questão de nós, que nos sentimos eternos.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Frase do dia

"Se não há desejo, não  há vínculo."

                                                 Lúcia Helena Alves





segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

"Iguais" e "diferentes"

Fico sabendo da notícia: professora manda um bilhete para mãe da aluna negra, bem pequenininha, contando que a menina é alvo de piadas na escola por causa do cabelão armado. A professora termina o bilhete dando à mãe a ideia de fazer um "relaxamento" para alisar os fios e baixar o volume.

A mãe, indignada, não só se recusa a mudar o cabelo da filha como publica a história no Face, com foto e tudo.

Eu vi a foto, e a menina é linda, assim como seu cabelão. Se fosse minha filha, eu não alisava nem por decreto.

Minha primeira reação ao saber do caso foi achar a professora uma despersonalizada infeliz. Mas depois de pensar um pouco, concluí que é claro que ela agiu com a melhor das boas intenções. Quis proteger a menina das piadas dos coleguinhas. Porque a gente sabe que criança é um bicho terrível quando resolve pegar alguém pra Cristo, né?

O problema é que, como se sabe, o inferno está cheio de boas intenções, e em vez de proteger a "diferente" tornando-a igual e pasteurizada, o ideal seria que a escola (e no caso a professora, que representa a escola) deveria ensinar aos "iguais" que o "diferente" também pode ser lindo.

Mas não. Infelizmente a escola não ensina o aluno a pensar...

Neste caso, por exemplo, a professora só enxergou a alternativa de recorrer à mãe e pedir para alisar o cabelo da menina, sem perceber que esta sua atitude significa menosprezar a origem afro e toda a beleza que aí reside, alimentar o racismo e a suposta inferioridade da raça negra, perpetuar a vergonha de ser quem se é e o desejo impossível de ser outra coisa.

A professora perdeu a chance de ensinar aos "iguais" uma ótima lição de respeito e de valorização do próximo. E de ensinar à "diferente" uma boa aula de autoestima.

E de ensinar a todos da sala de aula que todos temos o direito de ser quem somos. Sem ser preciso mudar nada. Sem alisar, sem emagrecer, sem ficar rico, sem ficar na moda, sem ter que agradar, sem ter que pagar nenhum tipo de ingresso para a maioria. Sem ter que ficar igual, ou ter que pensar igual. Sem ter que abrir mão de sua originalidade!

A professora ainda não aprendeu, mas pobre dela: ninguém a ensinou quanta liberdade existe naquele cabelão!

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Mulher rodada

Queria ter saído, ontem, no Bloco das Mulheres Rodadas. Ficou para o ano que vem.

Veja você que eu, que sempre achei ridículo homem vestido de mulher no Carnaval, justamente na tarde do sábado anterior à festa, me vi dentro do meu carro,  cercada por uma horda de rapazes bem jovens, todos fantasiados de Minnie (a namorada do Mickey)!

Entrei na onda da brincadeira e enquanto eu sorria para a rapaziada, achando tudo o maior barato, a coisa subitamente mudou... a turma começou a bater na lataria, com força, e gritar, "dinheiro! dinheiro!"...

Meu co-piloto, mais esperto que eu, me avisou logo:
-- Pisa no acelerador e vamos sair daqui!

Foi quando dei por mim e vi que aquelas Minnies fofas não estavam sorrindo... elas estavam arreganhando os dentões, bem ao estilo predador para o queijo... e o queijo, na dita situação, éramos nós, dentro do carrinho que não é blindado nem lá grandes coisas, nesta cidade que já virou Terra de Marlboro faz é tempo...

Acelerei o quanto pude, enquanto meu coração tentava sair pela goela, e fui abrindo caminho em meio às Minnies batedoras de carteira. Com a graça de Deus conseguimos sair dali.

Foi o bastante para eu me enclausurar em casa durante a "festa".

Mas do Bloco das Rodadas eu gosto. Aliás, quero uma camiseta!

Sabe, acho maravilhoso a gente poder abrir a boca pra gritar contra o machismo. Penso nas tantas mulheres submetidas aos horrores da ignorância machista que ainda impera no mundo, e não só em absurdos como o ritual de passagem ainda praticado no Oriente Médio e na África, de retirada do clitóris, que impede o prazer sexual. E os casamentos forçados? E o impedimento ao estudo ou à religião? E a falta de liberdade para qualquer coisa? E a condenação ao afastamento da família?

E a sentença à infelicidade, que muitas mulheres, mesmo aqui, no Brasil, são submetidas por homens machistas e estúpidos, carrascos ou matadores, que exploram a dignidade de suas companheiras dentro de casa durante anos, impunemente?

E quando um homem posta na Internet que "não merece mulher rodada"?

 E logo eu, que sempre achei ridículo homem vestido de mulher no Carnaval, desta vez achei lindo: homem vestido de mulher no Bloco das Mulheres Rodadas teve tudo a ver porque teve significado, foi político, não foi simplesmente brincadeira gratuita, muito menos motivo para soltar a franga de uma violência íntima e viral.

Mulheres Rodadas! Ano que vem eu vou!


Fotos de Eulicia Esteves

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Livre (do passado)

Chegar ao grau máximo de acabar com a própria vida e dar cabo de si exige um nível muito alto de coragem. Para quem não dispõe de tamanha valentia, há outras maneiras eficazes de, literalmente, chegar ao mesmo fim, e uma delas é manter os olhos pregados no passado.

Dito isto, conto que meses atrás, passeando por uma livraria, comprei o livro “Livre”, da americana Cheryl Strayed, que conta a história de quando ela, a autora, perdeu a mãe aos 21 anos e, junto, perdeu também o rumo na vida durante quatro anos. Sofreu tanto que acabou sem o casamento, as referências e a esperança no futuro. E, quatro anos depois, reencontrou a fé na vida ao fazer uma caminhada de quase dois mil quilômetros, sozinha, através de uma trilha montanhosa na costa oeste dos Estados Unidos.
O livro ficou em minha estante e talvez tivesse sido doado sem ser lido se o filme não estreasse com a atriz Reese Witherspoon no papel principal. Passei a gostar de Reese desde que a vi em “Johnny e June”, de 2005, com Joaquin Phoenix. Então resolvi ler a história escrita por Cheryl antes de conferi-la nas telas.
O que vale no filme é o desempenho de Reese. No mais, o livro dá de dez não só porque é mais detalhado e porque nele a imaginação do leitor entra como coautora. Mas também porque no livro a gente tem a sensação de que Cheryl está realmente conversando com a gente. Ela escreve de um jeito tão coloquial, tão íntimo, tão transparente, que chega a ser uma confissão. Sem falar nas partes engraçadas, que não são poucas... porque Cheryl não está nem aí para as aparências ou para o que vão pensar dela.

O roteirista fez o melhor que pôde, mas o filme está longe de alcançar a profundidade dos questionamentos da autora, que divaga sobre o drama de uma perda tão grande, de uma solidão tão absoluta, de um desespero que só a morte é capaz de nos lançar, e do qual nos tornamos cativos.

Mas o maior foco de toda esta história é justamente a volta por cima, e daí vem o título do livro e do filme: “Livre”.
No entanto, tudo tem a sua hora, inclusive deixar de sofrer. A dor existe para ser vivenciada até a última gota. E então a escalada rumo ao renascimento pode ser iniciada, e para isso precisamos deixar o passado para trás. O que Cheryl faz, sem perceber, é exatamente isso: forçada a manter o foco em sua sobrevivência naquela duríssima caminhada solitária, ela deixa de pensar 24 horas por dia em seu passado e consegue abrir os olhos para a maravilha da vida. Deixa de ser mártir de sua história pessoal para sobreviver. E não é só assim que sobrevivemos?

Terminei o livro e conclui que todos passamos por nossas perdas, e no final das contas todos encontramos um modo de lidar com o desafio de superá-las. Sei de um senhor que perdeu a filha em um acidente de carro e isolou-se no interior, ele e um mestre-de-obras: em poucos meses haviam construído uma casa bem grande juntos. O dois, sozinhos. Ele trabalhava das seis da manhã às dez da noite, e naqueles meses todos, quando a mulher e os outros filhos iam visitá-lo, jamais falou sobre seu luto. Depois da casa pronta, viveu sozinho nela por um tempo, e quando sentiu-se em paz, voltou para a família.
Sim, as perdas fazem parte da vida e temos que aprender a vencê-las. Aprender a encontrar um band-aid para a alma, de modo que deixemos o passado para trás e possamos seguir adiante com os pés no chão e a mente no infinito: um desafio cujo prêmio é o nosso renascimento.


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Birdman, Grandes olhos e o alter ego de cada um



No sábado fui ver "Birdman", do mexicano Alejandro Gonzáles Iñarritu, o mesmo do excelente “21 gramas”, e fiquei pensando que todos nós somos um pouco Birdman, e é por isso que este filme é tão bom! Iñarritu  acertou em cheio mais uma vez, agora ao tratar do conflito de um homem entre o que ele é excessivamente e o que ele é em menor parte. E estas duas naturezas, ambas verdadeiras e pulsantes neste homem, lutam para se impor e sobreviver.

Em suma, o personagem (vivido pelo impressionante Michael Keaton),  um ator de cinema decadente, que um dia incorporou o super-herói de sucesso chamado Birdman, deseja desligar-se desta imagem enlatada e tornar-se um respeitado ator de teatro.
Ele tem talento para tanto, mas... quando conquista seu desejo... seu alter-ego, o Birdman, o super-herói irritadinho, um homem-pássaro que detesta teatros da Broadway e adora cinemão com tiros e sangue no estilo catchup, vence a parada.

E não é assim com a gente, na vida real? Ninguém aqui é Hamlet, mas não estamos sempre decidindo entre "ser e não ser, eis a questão"?  Decidindo sobre como agir ou não agir? E a cada decisão que tomamos, a cada tom de voz, a cada estupidez ou gentileza, a cada atitude ética ou não, melhor ou pior para nós mesmos ou para os outros, a cada cigarro que decidimos fumar ou não fumar... a cada esquina que dobramos ou não dobramos... não escolhemos entre um ou outro "personagem"? Não optamos por um ou outro "roteiro" para a nossa existência, com uma diferente possibilidade de "fim"?
Realmente não entendi porque o filme foi classificado como “comédia”, porque ele não tem nada de engraçado! É um drama tratado de forma irônica e inteligente, bonito de se ver porque a luta interna deste homem, consigo mesmo, é dura de ser travada, e nos mostra que de nada adianta o esforço de anos a fio para tentarmos nadar contra nossa própria corrente: somos o que somos, e o melhor que fazemos é lapidar nossa própria natureza.

No domingo fui ver o tal “Grandes Olhos”, de Tim Burton, que traz às telas a história da pintora Margareth Ulbrich, que ao casar-se com Walter Keane, nos anos 50, tornou-se Margareth Keane e, ao assinar simplesmente “Keane” nas telas que pintava, e aceitar que seu marido as comercializasse fingindo ser ele o autor, acabou vivendo à sua sombra por dez anos: ela pintava, ele fazia um tremendo sucesso.
Também classificado como comédia, sem sê-lo, o filme causa incômodo ao mostrar a submissão feminina em um tempo que não vai tão longe assim. “Por que ela não reage?” a gente se pergunta. Mas é preciso contextualizar para entender.

E ao olhar de perto o sr. Walter Keane, aquele homem sedutor e inteligente, que era um agente imobiliário de sucesso e sonhava ser artista, embora não tivesse talento para tanto... e que mentia tão bem que acabava acreditando em suas próprias invenções... fica muito evidente, ali na tela, o quanto é perigoso deixar-se levar pela fantasia e acreditar naquilo que escolhemos acreditar: se é isso que Walter faz, ao crer que os quadros são realmente dele, é o que Margareth também faz, ao convencer-se de que seu marido era boa pessoa e que ela estava correta ao ceder a autoria de seu trabalho a ele.
Há casos em que o alter ego deve ser amordaçado. Um deles é quando a vaidade e a exploração entram em cena.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Emoção e diversão

Neste calor de Saara que tem sido o verão carioca, na hora da diversão não me arrisco a ir à praia. Se saio de casa, vou ao cinema, ao teatro, ao shopping, ao restaurante. Tudo para fugir do calor.

No último fim de semana, elegi um filme e uma peça, dois sucessos de crítica, e minha emoção não deu as caras no cinema nem no teatro. E olha que emoção é coisa que não me falta...

Ao contrário dos críticos de plantão, que raramente nadam contra a corrente, tenho a coragem de dizer que o premiado "Boyhood - da infância à adolescência", que levou 12 anos para ser filmado, e acompanha o crescimento de um casal de irmãos, fruto de um casamento em crise... olha, "Boyhood" não me disse absolutamente nada nas duas horas e meia em que aguentei na sala escura. O filme tem três horas de duração, três horas que os críticos julgaram incríveis! E que eu considerei ter gasto à toa; podia ter continuado a ler meu livro, que está ótimo, ou podia simplesmente ter tirado uma soneca, que adoro.

Ok. O diretor, Richard Linklater, uma das seis indicações ao Oscar que o filme recebeu, fez uma coisa que os críticos consideraram "única, do ponto de vista cinematográfico": dedicou anos a um projeto. E o roteiro, que a crítica considerou ótimo, eu considerei arrastado. Os diálogos, que os entendidos acharam "extraordinários", eu achei chatérrimos.

Enfim... fiquei duas horas e meia diante da telona buscando alguma coisa realmente preciosa na tal "simplicidade" que as matérias festejaram nos jornais, mas não vi nada, nem mesmo uma frase que me fizesse pensar, uma cena que me tocasse a alma. E desisti. Saí do cinema, que estava lotado aliás, com vontade de gritar pra plateia:

-- Vocês estão gostando?

No sábado resolvi ver a tal comédia teatral, pra dar umas risadas. Adoro rir. E gastei um bom tutu pra ver o monólogo de um ator famoso, a quem muito admiro, e que está há meses em cartaz. "A vida sexual da mulher feia" prometia. Ou não? Só este título já me fez pensar em mil situações hilárias.

Sentei na terceira fila, toda animada, e confesso que fiquei constrangida diante do texto fraquíssimo, do figurino ruim e do desempenho mecânico de um ator que poderia ir bem mais além.

Em dado momento comecei a observar a plateia e notei que quase ninguém ria das piadas velhas e forçadas, algumas extremamente machistas, inclusive. Será que todos sentiam-se enganados como eu?

Dei graças a Deus quando o show acabou e saí correndo dali. Voltei pra casa estressada, com medo da violência carioca, dos assaltos, dos pegas que vivem matando inocentes pelas avenidas, das balas perdidas que matam até quem está dormindo em casa... e no fim de semana sabe como é: o pessoal bebe e o trânsito ainda é pior!

Em casa, tomei um banho rápido, pra economizar água e ir treinando para aprender a viver sem banho (porque já que o Governo não faz a parte dele e culpa São Pedro pela estiagem, a gente tem que se acostumar com a ideia de viver sem água, como o sofrido povo do Nordeste já faz há séculos).

No conforto do ar-refrigerado, peguei no sono e sonhei. Que era inverno e chovia. Ai, finalmente... me diverti.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Pai bandido

Na sucessão dos escândalos financeiros no país, detenho os olhos nas fotos de um certo ex-diretor de estatal, justamente um ex-diretor acusado de falcatruas tantas que, como o mundo inteiro já sabe, a dita estatal, vítima de outros senhores como este que estou citando, e que já foi das maiores empresas do mundo, hoje não tem dinheiro para tocar seus investimentos. Na fotografia, este ex-diretor veste roupas de grife e vai cercado de policiais, portando no rosto um sorrisinho meio de lado. De que será que ele ri? De sarcasmo ou de vergonha?

Fiquei aqui pensando neste homem, e nos outros que, como ele, já foram respeitáveis homens de negócios, respeitáveis homens de família, cheios de pompa, cheios de luxo, cheios de vontades, de cerimônias, de salamaleques e de poder... e que agora estão nus frente ao mundo inteiro, vestindo apenas o mau-caratismo que têm, e que tornou-se indisfarçável, porque por mais que o mau-caráter se julgue mais inteligente que os demais, sempre chega o dia em que a casa cai.

Penso nos filhos destes homens, que já fizeram o papel de "respeitáveis" um dia, e que agora tornaram-se piada na boca do Brasil inteiro, porque brasileiro faz piada de tudo... e como o Carnaval está aí, tornaram-se também máscaras de folia, refrão de marchinhas. Então é esta a herança que hão de deixar aos descendentes?  Quando avidamente armavam suas negociatas não pensavam nisso? Ou as falcatruas eram justamente em nome do "amor paternal" e a proteção à família era desculpa para suas atitudes, envolvendo inclusive os filhos e as mulheres em suas armações?

Longe de mim bancar a juíza. Mas penso em como deve ser ver o pai estampado no jornal e apontado como tendo enriquecido ilicitamente, como tendo lesado os cofres públicos, seu nome ridicularizado... não há dinheiro no mundo que valha esta dor. Pagar um psicanalista em Paris, para aprender a viver com a verdade que o pai era ladrão e prejudicou muita gente? Eis uma herança triste de se receber e aceitar...
Valioso mesmo é o respeito genuíno por um pai honesto, que mesmo pobre de tudo, seja rico de bons exemplos para dar. No final das contas, esta certeza é que faz a vida da gente seguir nos trilhos.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Angústia

A casa, repentina, se apequena;
paredes alvas tornam-se castanhas
e da janela vejo a noite antes da hora.

Faço um poema, penso em ir embora

mas onde for serei a mesma,
uma estranha.

A casa faz-se outra sem aviso:
pequena é, mínima se torna;

É o silêncio que devora as traças
das tantas dores que onde for, não lanço fora.

(Fernanda Dannemann)

domingo, 11 de janeiro de 2015

Viagem ao centro de si

Não me canso de repetir que a pior maneira de escolher um filme para ir ver é ler a crítica dos jornais. Mais uma vez os especialistas pisaram na bola: "Uma longa viagem", que leva Colin Firth no papel principal, é um filme que, se fosse mal contado, teria tudo para ser um dramalhão... e no entanto é lindo, embora os "entendidos" no assunto tenham feito até piada sobre a história (verídica), e tenha havido gente que até riu do final, classificando-o como "impossível".

O caso é que o dito final aconteceu mesmo, na vida real...

Adoro Colin Firth e fiz minha escolha por causa dele, apesar de não apreciar Nicole Kidman, seu par.

O enredo, como já disse, conta a história de um soldado inglês capturado e torturado por japoneses, na Segunda Guerra; finda a batalha, o homem segue vida afora torturado pela lembrança.

Daí pra frente eu não conto mais porque não sou estraga-prazeres, mas o modo como se desenrolam os assuntos da vingança, do arrependimento, do ódio e também o do amor... da lealdade acima de qualquer coisa... isto é que interessa e faz a gente pensar.

A lealdade é um tema que dá muito "pano pra manga", como se diz em Minas. Lealdade a quê? A quem? A que preço? Muitas vezes a lealdade transforma-se em algo funesto dentro da gente, sem que possamos nos dar conta, e faz apodrecer o lado bom da vida: quando nos aferramos a qualquer coisa que seja por "lealdade" é possível que estejamos tomando o caminho do retrocesso ou da estagnação.

A vida é movimento, muitas vezes é também mudar de ideia, tomar outro rumo, decidir até mesmo seguir pelo caminho oposto ao que imaginávamos o correto, o ideal, o único caminho.

Neste sentido, o ódio pode ser uma forma tortuosa de lealdade, tanto quanto o amor pode ser visto como desleal.

Graças a Deus, falíveis que somos... temos também a grandeza dentro de nós.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

A dor da crítica

Dificil é ouvir uma crítica, o resto é mole pra “nóis”, como dizem os aficcionionados do Facebook, o Fantástico Mundo dos Puxa-sacos, onde tudo é elogio e seda rasgada, e talvez por isso mesmo o sucesso seja tanto.

Uma boa verdade, na forma de crítica construtiva, já quase não encontra lugar na vida de hoje; o povo prefere cortar relações, sair no tapa, virar a cara, jogar a amizade no lixo. É que para ouvir uma crítica, o sujeito carece ser forte por dentro, ter músculos no pensar e na autoestima, ser movido pelo anseio verdadeiro de evoluir. Caso contrário se ofende, exige desculpas e condolências.

As críticas bem-intencionadas não foram feitas para os fracos, nem para os arrogantes, que no fim das contas estão todos no mesmo barco.

Crítica doentia, maldosa, cheia de esgar e inveja... isso aí é artigo para incineração e não merece uma gota de preocupação de quem quer que seja. Mas não é disso que falamos no presente momento, e sim do famoso "toque" que só os corajosos têm ousadia de dar... mas que necessita coragem também para ser ouvido, aceito, assimilado e digerido, como se fosse um remédio ministrado por quem ama. E só quem ama o faz. O que em geral há faltado, é amor na hora de receber. Explica-se: o caminho do ódio é mais fácil, e da infelicidade também.

Mas o sincero, aquele cara que tem a coragem de levantar o dedo e gritar para todos que sim, o rei está pelado... este aí deveria ser ouvido com mais cautela por Sua Majestade, o que não erra, o que não paga mico, o que está acima do bem e do mal. Porque o único ganho que o sincero tem, é justamente ver o rei vestido. Mesmo correndo o risco de ser incompreendido pela multidão... e pelo próprio rei. Aliás, coitadinho do rei!

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

O silêncio nos dias

Peço perdão aos amigos do blog pelo silêncio de semanas.

Talvez eu estivesse mudando a plumagem. Ou de estação: silenciei de repente, um vazio interno e abissal, uma falta do que pensar e dizer. Então não pensei e nem disse.

Deixei-me levar pelo silêncio como se fosse um rio, daqueles bem tranquilos, em pleno verão tropical. Boiando sobre ele, deslizei pelos dias numa frugal ausência de palavras. Foi quase meditação. Foi quase transcendência.

Já nasci feita de palavras. Como se frases cobrissem os ossos e, dentro das veias, corressem rimas. E a minha alma, a alma sempre molhada, que voa presa ao varal... a minha alma é de sentido!

Mas até quem é feito de palavras é também feito de silêncios, de pausas, de nada a declarar.

Então às vezes me calo, encho a boca de reticências e é como se um sono de princesa amaldiçoada se deitasse sobre mim.

Durmo. Espero. Deixo passar o vazio interno, esta necessidade de estar só como em um salão de baile sem orquestra ou convidados... apenas a voz do pensamento vago, errante, disperso: um encontro de dias entre mim e minha consciência, esta que se achega repentina e exige tempo, exige calma, exige mesmo a sabedoria da qual não disponho.

É o silêncio que faz pensar no que jamais pensamos, porque maltrata, fere, exige, impõe.

Um silêncio que toma tudo; a casa, nas tardes abafadas. O quarto, nas noites vagarosas. O fim de ano, com suas cores falsas.

Até que um dia as palavras brotam, lentamente, ou o desejo simples de dizê-las... como se ali, do outro lado da janela, o meu jardim anunciasse a primavera.



segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Bolsonaro e o estupro da vida em sociedade

A violência maior não está no homem que faz a política do contra: contra as mulheres, contra os homossexuais, contra os negros, contra a liberdade, e sim no fato de que há quem vote nele!

Em 2014, Jair Bolsonaro foi o deputado mais votado do Rio, com mais de 460 mil votos, e isso é um caso a se pensar. Violência não se limita a assalto a mão armada. A violência silenciosa, que finca as raízes na cabeça das pessoas e conduz ao estupro da vida pública e da vida em sociedade, esta sim é a mais virulenta. Basta olharmos a história do homem, exemplos não faltam.

Era o caso de se pensar até que ponto a democracia deve dar espaço para que ideias de ódio possam ser oficialmente disseminadas, tendo como porta-voz um político eleito pelo povo. Ou não?

sábado, 13 de dezembro de 2014

Buenos Aires musical

O Piazzolla Tango é um teatro na calle Florida que oferece um show diferente dos tradicionais tangões ao estilo "Por una cabeza": as seis duplas de dançarinos bailam ao som de uma orquestra de seis músicos que tocam o mais puro Piazzolla, artista que revolucionou a música argentina ao inovar o tango com as influências do jazz.

Ali, o apreciador da boa música e dança vai curtir um tango que não é para iniciantes. Quem quiser um show típico para turistas deve mesmo procurar outra opção, ou sairá frustrado. O teatro oferece um lauto jantar com excelente comida e vinho de primeira antes do espetáculo, que tem duração aproximada de 1 hora e meia.

Mas Buenos Aires é uma cidade musical, como se sabe, e a música está por toda parte e para todos os públicos... a seguir, uma pequena amostra do que vi, em menos de cinco minutos de caminhada, em duas esquinas vizinhas:


quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Sou Racing, mas na vitória do River virei a casaca

A festa do River Plate, ao vencer a Copa Sul-Americana por 2 a 0 ao derrotar o colombiano Atlético Nacional, foi contagiante. As autoridades fecharam a Avenida Corrientes e os torcedores se concentraram no Obelisco da Avenida Nove de Julho. Já era mais de meia-noite e o povo não parava de chegar, com uma alegria digna de Copa do Mundo. Impossível não se deixar levar...

 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Arte moderna em Buenos Aires

Descobri um novo museu na cidade, o Museu de Arte Moderna!



Relativamente novo, ainda falta montar um café e uma lojinha, coisas que na minha opinião são fundamentais! Mas o prédio tem o charme de parecer, ele mesmo, uma peça de arte... olha a escada, que ao vivo lembra a espinha de um dinossauro:


Alguns museus valem não só pelas obras que exibem, mas também pela sua arquitetura e conjunto. Um bom exemplo é o Guggenheim de Nova Iorque, em círculos, projetado para facilitar a vida dos visitantes e valorizar as exposições. Não é o caso deste aqui, mas mesmo assim ele é um colírio para os olhos, porque as salas são coloridas e também valorizam as mostras. Olha só:





O museu fica pertinho da Feira de Santelmo, que acontece aos domingos. Marque aí no seu caderninho e faça dois passeios que valem a pena em um dia só.






 

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Buenos Aires tropical

No verão, Buenos Aires é totalmente diferente daquela dos dias de frio!

As moças deixam os casacões negros no armário e botam as perninhas de fora, com saias e shorts que a cada ano vêm ficando cada vez mais curtos...


A cidade fica toda colorida...

 

Os bares lotados...

O calor por aqui é de matar, e como não há praia, a gente tem mesmo que apelar para os heróis da temporada: Gota Máxima e Cucurucho:
 
Ou para a bebida gelada de café, verdadeira sobremesa, o Frapuccino (eu prefiro o velho e bom cafezinho):

Os piadistas gostam de dizer que os argentinos pensam que são ingleses, mas o fato é que Buenos Aires embarcou na ideia alemã de espalhar bancos de diferentes tipos pela cidade, então o pedestre nunca se cansa de andar por aí, porque tem sempre onde se sentar...


Outra coisa que me surpreendeu nesta estação é que eles aderiram à ciclovia!

E há por aqui bicicletas muuuuuito estilosas...

Por falar em estilo, as lojas da cidade estão cada vez mais lindas, e redecorar a casa é sempre uma tentação... pena que não cabe muita coisa na mala! Com a moeda argentina baixa e inflacionada, é uma oportunidade para quem pode trocar dólares ou reais em uma casa de câmbio confiável, pois o dólar no paralelo vale 30% a mais que no câmbio oficial. Os argentinos, que antes se ofendiam com um pedido de pechincha, agora aceitam baixar até 30% do preço marcado em vitrine no caso de pagamento à vista. Assim, não vale a pena pagar nada com cartão de crédito, nem mesmo diária de hotel.


Passeando por Palermo e Recoleta, a Ipanema portenha, a gente se pergunta onde é que está a tal da crise argentina. O povo continua lindo, leve e solto... todo mundo com sacolas de boutiques caras na mão... tomando Quilmes com os amigos e batendo aqueeeeele papo legal! Os restaurantes continuam cheios e animados, os carrões desfilam pelas ruas arborizadas e os jardins seguem gramados e floridos...

Aí a gente vai ao outro lado da cidade dar uma volta na tradicional Calle Florida, algo como o Saara carioca, mas melhor, e reduto dos turistas (que creem estar no lugar ideal para as compras) e dos comerciantes de bugingangas. Ali há de tudo um pouco: de Zara a lojas de 1,99... e a música de fundo é algo como:
“Fabrica de cuero!”, “Cambio! Casa de Cambio!”, “Show de tango!”, “Paseos Turísticos!” etc...
Em termos de propaganda no ouvido do turista, pior que a Calle Florida só mesmo um lugar em Pernambuco chamado Porto de Galinhas, onde estive uma vez e mal consegui caminhar por conta do enxame de ambulantes.
Mas em Buenos Aires lembrei da piada que diz que o país está em “recessão”  quando  SEU VIZINHO perde o emprego, e está em “crise” quando VOCÊ perde o emprego. Pois bem: em Palermo e Recoleta parece que o país está em recessão, e não em crise. Os sinais de crise que vi por aqui foram os mendigos pelas ruas do Centro e da Avenida Santa Fé, a alta do dólar paralelo e o sumiço de várias lojas que existiam até ano passado. Três fortes indícios, ainda que a cidade esteja com cafés e restaurantes cheios, que haja turistas por todo lado e as lojas e feiras da cidade continuem vendendo.
Agora vou fazer como eles e tomar uma Quilmes, porque o calor tá "daqueles"! Amanhã tem mais. Buenas!

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Alma portenha

Sou mineira da gema, mas o Rio é a cidade onde escolhi viver. No entanto, todas as vezes que volto a Buenos Aires, tenho a sensação de estar voltando para casa. É como se as ruas da cidade, os prédios, os odores, a musicalidade da língua e até as peculiaridades do portenho fossem muito familiares, bem mais até do que o esperado pelo tempo que já passei aqui.

Curiosamente, meu amor por Buenos Aires nasceu bem antes de eu de fato conhecê-la. Eu ainda não havia aprendido a ler quando me apaixonei pelo tango que meus pais ouviam em casa (e dançavam, de modo muito criativo, nas gincanas da nossa escola e nas festas do clube da cidade). Depois vieram os bolerões, que me fizeram amar o idioma. Aos 17 anos me matriculei num curso de espanhol e sonhei estudar na capital portenha, devaneio total àquela época.
Incrivelmente, eis que a vida, muitos anos depois,  acabou me trazendo mesmo a esta cidade tão bonita, onde vivi por tempo suficiente para que o amor brotasse verdadeiro, um amor talvez nascido até em tempos imemoriais...  veja você que aprendi o idioma tão rápido, e o domino tão bem, que costumo dizer que não aprendi, mas me lembrei!
Turistas apaixonados, como eu (que amam viajar) necessitam priorizar a escolha dos destinos, principalmente se, como eu, vivem em países de Terceiro Mundo, não são ricos e já estão na meia-idade. Neste caso, eleger as férias para um regresso significa uma escolha muito especial...

Buenos Aires, para mim, é como passar férias em casa; aquela casa que a gente já teve um dia, mas não tem mais...  que ainda existe nas nossas melhores lembranças, e que guardamos no melhor lugar do coração... aquela casa que colorimos com os lápis da alegria, da aventura, da paixão e da juventude... e para onde, ainda que o tempo voe, podemos voltar de vez em quando, porque ela não ficou estática no passado, mas continua viva e à nossa espera, sob aquele velho céu azul de sempre, em algum lugar deste mundo!




segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Infância consumida

Então a menina considerada a mais linda do mundo, a russa Kristina Pimenova, tem mais de 300 mil seguidores no Instagram e mais de 2 milhões no Facebook... e entre este povo todo, há quem diga que ela tem “pernas sexy”.

Pernas sexy aos 9 anos?

Olha... ela poderia ser bem MAIS bonita se não parecesse uma mulherzinha em miniatura; se fosse a imagem de uma criança, e só. O que de fato ela não parece, com as caras, bocas e poses que faz frente a lente do fotógrafo. Um verdadeiro deleite para os pedófilos de plantão, alguém duvida? Uma piração total destes tempos que vivemos,  nos quais a infância está com os dias contados, e cada vez mais escassos.

Minha amiga conta às risadas que viu a seguinte cena:
Na loja, a menina de não mais que quatro anos fazia birra para a avó. Queria uma bolsa. Ela cruzou os braços e sentenciou, fazendo beicinho e às lágrimas:

-- Vovó, eu não vivo sem esta bolsa! Eu PRECISO desta bolsa!!!
E eu aqui me pergunto: onde é que está a graça?

Tanto Kristina quanto a consumista que queria a bolsa (e ganhou) apontam para o fato de que a infância está mesmo erotizada, marcada pelo consumo e pelo descartável, os signos da atualidade.
A infância já não tem mais valor. Está sendo consumida pela indústria, pelos costumes moderninhos, pela pressa das crianças e até dos pais... as crianças nunca quiseram crescer tão rápido, e os adultos parecem não perceber que estão apoiando esta pressa, e achando bonitinho! Ou, na pior das hipóteses, ganhando dinheiro.

Kristina, a menina "mais bonita do mundo", tem uma legião de seguidores simplesmente por ser... "a menina mais bonita do mundo", com seu cabelo louro e seus olhos azuis, o estereótipo "capa de revista" mais batido do planeta.

Chega a ser de pasmar o quanto as pessoas precisam de um ídolo para seguir, e hoje, com as redes sociais, podem mesmo "segui-lo" por aí, num voyeurismo crônico e instalado que denota vazios profundos e tão antigos...
A indústria já fez das crianças um mercado consumidor valiosíssimo, e como os pais da atualidade, marcados pela culpa da falta de tempo, não sabem impor limites... bingo! Na televisão e no cinema a turma aprende que sexo é a coisa mais banal do mundo... em breve, aliás, o sexo há de chegar às séries de desenho animado, onde a pancadaria já chegou faz tempo. Porque se as modelos estão sexies aos 9 anos de idade...  quem é que vai duvidar?


Em breve estas placas não vão nem existir mais...