domingo, 3 de maio de 2015

Entrevista: Monica Dias (e o amor no divã)

Psicóloga há 26 anos, Monica Dias trabalha com terapia de casal há mais de 20. Começou com crianças e aos poucos percebeu a necessidade de ampliar sua escuta às famílias e aos casais. Outro incentivo foram as queixas, bem frequentes no consultório, relacionadas ao casamento ou aos relacionamentos amorosos.  "Acho muito gratificante o trabalho com casais, embora seja bastante difícil", diz ela, "devido ao medo que as pessoas têm".

No entanto, a especialista em relacionamento é categórica:  “É importante buscar ajuda no momento certo para que se possa trabalhar a mudança; quando o casal demora a procurar a terapia, muitas vezes a relação já está muito desgastada, e aí não se pode fazer muita coisa...”



As pessoas temem fazer terapia de casal?
O medo existe sim, porque as pessoas não conhecem muito bem esse tipo de trabalho, não sabem que a terapia de casal é a terapia da relação, e não dos indivíduos, que é uma construção de novos padrões interacionais. O inicio do processo terapêutico pode ser um pouco complicado porque o casal tem que aprender a trabalhar em conjunto, não é só a fala de um, mas também ouvir o outro, que está ali e pode se manifestar. Mas é importante buscar ajuda no momento certo para que se possa trabalhar a mudança relacional. Quando o casal demora a procurar a terapia, muitas vezes a relação já está muito desgastada, e aí não se pode fazer muita coisa...”

Você ouve muitas queixas relacionadas à dificuldade de encontrar ou manter um amor?  
A dificuldade de manter relacionamentos estáveis tem sido uma queixa recorrente no consultório sim. As mulheres verbalizam mais essa queixa, mas os homens também estão sofrendo com isso, embora essa insatisfação, no caso dos homens, apareça de uma forma mais velada porque eles não colocam o relacionamento amoroso no centro de suas vidas, como as mulheres fazem. Mulheres e homens têm se queixado quanto à falta de comprometimento no relacionamento. O que percebo é que, atualmente, existe uma dificuldade de lidar no relacionamento a dois com as demandas da individualidade e da conjugalidade.


Você acredita que esteja mesmo difícil encontrar um par amoroso?
A dificuldade de encontrar um par amoroso está ligada, basicamente, a como compatibilizar os projetos individuais e aqueles construídos conjuntamente. Porém acho que as dificuldades são diferentes em cada etapa do ciclo de vida e o fato de ter tido ou não algum relacionamento anterior mais estável também influencia isso. Então, acho que não devemos generalizar essa "dificuldade para encontrar o par amoroso". Os jovens, certamente, estão menos preparados para os desafios e renúncias de um relacionamento estável e são mais sensíveis aos apelos de uma variedade de opções disponíveis. Em relação às pessoas mais "maduras" temos algumas dificuldades maiores pelo fato de terem menos tempo disponível para as trocas sociais, alguma experiência anterior que pode gerar maior precaução no envolvimento afetivo, e compromissos profissionais e familiares, o que também, pode dificultar a tolerância ao ritmo do outro.
Vivemos em uma sociedade com valores individualistas-igualitários, o que pressiona as pessoas a buscarem a sua realização pessoal e a transitarem por diferentes universos culturais, o que exigiria uma maior tolerância às diferenças, o que, sabemos, não ocorre com frequência...

 Você acredita que o Facebook piorou esta situação?
O Facebook introduz um novo modo de subjetividade e as pessoas ainda estão construindo formas de lidar com essa nova modalidade de interação. Muitos mal-entendidos no Facebook têm a ver com a dificuldade de diferenciar público e privado, e com uma demanda por um imediatismo de resposta que as relações não têm. O ritmo das relações não pode ser só o “meu”, é necessário perceber que o outro tem um ritmo diferente. E nas facilidades das redes sociais, esta dificuldade aparece de uma forma mais intensa... 

Por que as relações amorosas tornaram-se tão superficiais se, ao mesmo tempo, as pessoas querem amar e ser amadas?
As relações são superficiais quando não se constrói vínculos, quando se idealiza o outro ou a relação. Quando as pessoas se relacionam com um modelo ideal, não conseguem se abrir para as possibilidades reais daquela interação. As pessoas deveriam estar mais focadas na necessidade que todos temos de construir vínculos e pertencimentos, e menos em achar o par ideal.
 O que as pessoas hoje em dia esperam de um relacionamento amoroso?
Esperam demais... hoje em dia o relacionamento amoroso está muito idealizado. As pessoas esperam ter um relacionamento pleno de satisfações afetivas, sexuais, intelectuais... não têm tolerância para as diferenças e nem para as mudanças do ciclo de vida. Por isso troca-se tanto de parceiro. O compromisso com a relação é somente enquanto esta pode proporcionar as satisfações esperadas...

 Você acha que a liberação feminina é um fator determinante para o desencontro amoroso? Ou o contrário, ela contribui para a felicidade conjugal?
Não acho que a liberação feminina seja a causa determinante dessas dificuldades, mas certamente a busca da mulher por maior autonomia e satisfação abalou os pilares do modelo de relação no qual a submissão da mulher era pressuposta. Alguns homens se ressentem disso, mas outros já estão percebendo que relações mais igualitárias são mais satisfatórias, embora dêem mais trabalho para serem construídas, porque precisam abrir mais espaço para as negociações.

 Você enxerga a banalização do sexo como uma possível raiz dessa situação?
A banalização do sexo é um mito. As pessoas buscam a satisfação no sexo  porque isso é mais fácil, o próprio organismo ajuda. O desejo demanda novidades, o que é mais difícil de se obter em um relacionamento estável. Existem sexos e sexos... O sexo pode ser uma experiência corporal ou emocional, pode ser uma experiência individual ou compartilhada...

O que você diria a quem deseja encontrar um amor verdadeiro?
Que o amor verdadeiro é uma construção, que ele demanda tolerância e persistência. Às vezes, para se construir um amor verdadeiro, é necessário ter vivido amores não tão verdadeiros... Cada amor vivido nos fortalece, mesmo que a experiência não tenha sido a que esperamos. É necessário saber a hora de apostar e a hora de abandonar uma história de amor.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Aproveita enquanto dura!

"Eu não sou uma princesa", diz Cinderela, ao sair da abóbora transformada em carruagem de ouro, usando um belíssimo vestido azul. E o lagarto, transformado em cocheiro pela fada madrinha da moça dá de ombros, ao constatar que sua realidade também é bem outra:

-- Aproveita enquanto dura!

Como todos sabemos, ela segue o conselho e aproveita o baile e dança com o príncipe até a última das famosas doze badaladas da meia-noite, quando quebra-se o encanto e tudo volta a ser como era antes.

Pois é, leitor, o novo filme da Cinderela tem o mérito de ser fiel à história da nossa infância, e as novas gerações estão conhecendo Gata Borralheira como ela de fato é, sem nenhuma novidade dos roteiristas moderninhos. Gostei. Mas gostei mais ainda foi do conselho do sr. Lagarto, porque é assim mesmo que a gente deveria passar pelos bons momentos, não é mesmo? Aproveitando ao máximo, coisa que nem sempre fazemos...

E quando se fala em bons momentos... aí é que pode estar o equívoco todo, porque eles não são, necessariamente, o sábado ou o domingo; mas o tempo que há entre a segunda e a sexta-feira, e que a gente nem vê passar porque vive mecanicamente entre a correria e a tensão dos compromissos.

Leio na reportagem de jornal que a executiva encontrou 45 minutos sagrados para dedicar à filha, todas as manhãs. E que este é o tempo mais precioso que ela tem em seu dia. Ainda bem que não sou executiva, porque 45 minutos é muito pouco tempo para me fazer feliz, considerando que o dia tem 24 horas.

Leio também sobre a enfermeira que trabalhou anos com doentes terminais, e que percebeu em quase todos eles os mesmos arrependimentos, como por exemplo, não ter trabalhado menos; não ter feito mais amigos e passado mais tempo com eles e com as pessoas queridas; não ter viajado mais, não ter aproveitado mais a vida.

Sabedores de que felicidade é um conceito relativo, e alegria é um estado interno, os bons momentos estão mesmo é espalhados pelo cotidiano... ao menos para boa parte de nós. O incrível é que justamente os mais desprovidos, como a mocinha Cinderela, é que têm olhos para enxergar a beleza das pequenas coisas e se maravilhar com elas. Porque os que têm tudo acabam com o olhar cristalizado e só enxergam o que é excepcional. São menos felizes, portanto.

A festa do dia a dia é estar vivo, e isso por si só já deveria bastar; não importa se você usa ou não uma coroa de ouro e brilhantes sobre a cabeça. E neste ponto da conversa, faço minhas as palavras do sr. Lagarto:

"Aproveita enquanto dura!".


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Aproveite o tempo que te resta

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Não olhe para trás

Al Pacino é sempre irresistível com aqueles olhões caídos e aquele charme de italiano feiosão. Quem é que resiste?

Mas o filme "Não olhe para trás", embora prometa, com seu roteiro baseado em fatos reais... só me conquistou mesmo na cena final... que eu não vou contar porque não sou estraga-prazeres.

Músico que parou no tempo e enriquece com meia-dúzia de baladas recebe, 40 anos depois, carta de John Lennon, seu ídolo, elogiando seu talento.

E dai se instaura a crise: o cara quer correr atrás do tempo e do talento perdidos. Quer escrever as músicas que não escreveu, tocar o que não tocou, ser o que não foi... quer mudar tudo, porque o afago de John Lennon lhe mostra o que ele já sabia: passou os últimos 40 anos desperdiçando sua vida e seu talento.

Obviamente que se o filme fosse sério, teria se desenrolado de outra maneira, não importa o que aconteceu com o tal que serviu de base e inspiração para o roteiro. Mas como foi rodado em Hollywood, virou filminho e perdeu a chance de contar uma boa história.

Nosso herói tenta, mas desiste quando tem a chance de ousar mudar o seu destino. Fez a sua escolha, preferindo permanecer em território conhecido e manter os fãs, em vez de arriscar-se a perdê-los. Com isso, perdeu também a oportunidade de renovar-se, e a partir daí, renovar tudo ao seu redor... inclusive (quem sabe) os fãs. Ter outros, ou nenhum. Nosso herói, portanto, coloca-se mais uma vez como perdedor diante da existência, como um dadinho sem força ou sem vontade própria, que cai aqui ou ali... dependendo de onde as forças externas o queiram conduzir.

Seria ingênuo pensar que somos inteiramente donos do nosso destino; mas daí a desistir sem lutar... são outros quinhentos! A mudança exige desapego, meu bem. Exige que a gente deixe para trás muitas conquistas, troféus, tesouros dos mais variados tipos... é preciso desapegar, porque no "novo mundo" que a nossa "nova pessoa" quer habitar não há lugar para velharias como estas, que o nosso orgulho e a nossa insegurança tratam de juntar vida afora.

Mudar a vida é para poucos. "Não olhar para trás" é para pouquíssimos, porque significa mirar adiante e ter a consciência de que, enquanto vivos, somos sim os donos da nossa vontade, capazes de transformação e conquista. Sem olhar para trás e sem chorar pelos erros cometidos, pois o passado não volta e não se transmuta; o passado é somente um trampolim de onde saltamos para os dias que virão.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Eternamente jovem

O tempo é engraçado. Ele passa pra nós, mas nós só o sentimos passar no rosto dos outros. No espelho, somos, no dia a dia dos anos, os mesmos. Dos oito aos 80 anos, somos os mesmos, não percebemos o tempo.

Mas então, aos 47 anos, a gente se mete a dar uma faxina na casa e quase cai morta antes de terminar de lavar o banheiro. E pensa que, aos 24, limpava o apartamento inteiro sem sentir cansaço nenhum: depois de tudo ainda encarava uma noite de dança e amor atééééé... o sol raiar! Se mete a fazer faculdade e quase cai morta também quando acaba a semana de provas... e é assim todo santo semestre, ai que cansaço, essas provas me matam, cruzes!

Pois é. Já contei pra vocês que minha amiga octagenária costumava dizer:

-- Fernanda, envelhecer é uma merda.

E eu ia dizer o quê? Só escutava.

Ainda não cheguei aos 80, mas já começo a entender. Envelhecer é o seguinte: a gente quer continuar levando a vida como sempre,  no bem-bom da juventude... naquela correria de mil coisas, mil planos, um milhão de motivos pra continuar vivo... mas um dia a gente descobre que a vida é finita e que não dá pra fazer tudo. E por dois motivos simples: o primeiro é que o tempo é curto, e o segundo é que o corpo não aguenta.

É, fio... o corpo impõe limites. Quisera eu aguentar namorar a noite inteira! Não aguento. Se não aguento namorar, que dirá estudar?!  Menos ainda!

A força dos 20 anos acaba logo ali depois dos 30, embora a gente, passados os 40, finja que tudo continua bem no Reino da Dinamarca... mas a verdade é que o peso dos anos já cobra sua fatura desde longe, e insistir na ideia de que o corpo é uma máquina que a tudo suporta, pode ser fatal. O corpo não é uma máquina, muito menos a cabeça.

Olha, quer saber? Envelhecer pode ser péssimo, mas pode também ser muito bom e gratificante; tudo depende de como passamos pelo processo.

Cada dia precisa ter o seu valor; a existência deve ter um propósito; a vida não pode ser um desperdício.

A alegria de viver não está contida apenas no "bem-bom da juventude", mas também na sabedoria que a gente vai adquirindo com o tempo... a sabedoria para evitar as roubadas  que aparecem pelo caminho, para "viajar" em estado de plena caretice; e para entender que sim, o tempo passa, e por isso mesmo a gente tem que curtir a vida adoidado, antes que tudo se acabe, tão rapidamente como começou... porque a vida é breve, meu bem. Tão breve quanto pode ser a alegria da juventude.


Eternamente jovens!

domingo, 5 de abril de 2015

Vão-se os dedos, ficam os anéis

Não tem jeito, não tem: ou a gente se desapega, ou o mundo se encarrega de acabar com a gente, mesmo que a miopia não nos permita enxergar que, uma vez apegados, nos tornamos algo muito próximo das nossas propriedades e estamos longe de sermos realmente pessoas, e muito menos livres.

Passamos a vida construindo prisões para nós mesmos, sem perceber. Cada decisão equivocada, um tijolo. Cada atitude de aprisionar o outro, um tijolo. Cada gesto de posse em relação a qualquer coisa, um tijolo...

A vida é movimento, é constante ir, esvaziar, fluir, passar. A finitude está em tudo para nos provar isso todos os dias; nós é que nos recusamos a entender esta mensagem essencial.

Não sei como era no passado, não sei portanto se a situação está pior, o que posso dizer é que nestes tempos que vivemos, a necessidade de posse está se transformando em pandemia. Será um resultado natural do capitalismo? Do individualismo que é marca de como as relações de estabelecem, mesmo nas "melhores famílias"? Será também consequência da (falta de) educação das novas gerações, criadas pela TV, pelas babás despreparadas e pela escola que não dá conta de tudo, já que pais e mães trabalham excessivamente e não têm tempo para conversar e ensinar os filhos?

São muitas as razões capazes de justificar a necessidade de posse, inclusive mesmo o traço pessoal, que vem no sangue.

Tem havido uma distorção tão grande no inconsciente coletivo, que o essencial está trocando de roupa... e vestindo uma fantasia perigosa, transformando os afetos em doença.

As doenças afetivas estão nos relacionamentos nutridos à base de ressentimento, costume, dependência emocional, amargor e até mesmo ódio... mas dos quais as pessoas não se livram, não se desfazem, e apenas por razões atreladas à raiz de um sentimento de posse: culpa, medo, preguiça, egoísmo.

Pessoas vêm e vão nas nossas vidas e delas também, e isso faz parte do ciclo natural da existência. Seja por morrerem ou por continuarem vivendo, um dia elas se vão, ou nós mesmos é que nos vamos, porque ninguém nasceu colado a ninguém, ninguém é dono de ninguém, tudo na vida é uma passagem.

Dói encarar esta verdade? É, eu sei que pode doer sim... mas a liberdade é isso: existe escolha na liberdade, e isso não é indolor.

Mas então, deixa ir! Deixa partir, deixa ir embora, deixa acabar, chegar ao fim.  Quem tiver que ficar, ou que voltar, o fará, e não por sentença sua, mas por escolha da própria pessoa, o que lhe dará a alegria de ser escolhido.

Deixa morrer, deixa seguir, deixa esgotar... sem aferrar-se a mais nada, nem mesmo às lembranças, porque isso é uma forma de morrer também. E sem eleger símbolos da sua saudade... uma xícara, um colar, um vaso... tudo isso passível de se quebrar, de ser roubado, queimado em um incêndio na casa... foram-se os dedos, meu bem, ficaram apenas os anéis...e que importância hão de ter, além do mito de, um dia, terem pertencido a tal pessoa?

Permita-se ir, meu bem! Permita-se partir! Porque ficar, às vezes, é deixar de ser um dedo para transformar-se em um anel.





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Saber desistir é uma arte



quarta-feira, 18 de março de 2015

Recaída, o xis da questão

Acendo um cigarro. E outro, e outro. O papo com as minhas amigas, as risadas que damos, o café delicioso... tudo isso me faz esquecer que recaída é assim, é triste assim; a gente fuma e não se importa que fuma; depois volta pra casa tão triste e amargo como o alcóolatra que se deixou levar pela ilusão de um golinho só ao lado dos amigos no bar... e cai no vão sem fundo da noite, onde o brilho dos copos é tudo o que há, além do prazer irresponsável do vício. O vício de se deixar cair.

Cair de novo na ilusão. E pode ser ilusão em qualquer coisa, não precisa ser, necessariamente no cigarro, como é o meu caso. Eu gosto de pitar um cigarrinho com as amigas, de vez em quando, tomando um café quentinho, batendo um papo, e tal... mas depois sempre me arrependo. Quero fazer ginástica, ter os pulmões limpos e leves, a consciência tranquila de quem não se sacaneia.

Mas recaída é assim, deve ser mesmo pulsão de morte... o que me faz pensar na minha amiga, que é tão bonita e jura que sonha com felicidade, mas deu de presente o coração para um homem que a trai repetidas vezes... porque não consegue ser fiel. E ela não consegue partir pra outra, mesmo sofrendo tanto: se ele recai na traição, ela recai em voltar pra ele, só de pensar em ir embora...

Se a gente parar pra pensar, vai perceber que a recaída está em tudo, está nas mínimas coisas, e o futuro é quem mais perde com isso porque o futuro é só uma promessa, uma miragem, uma alucinação. A gente só tem o hoje e entrou numas de que quer ser feliz aqui e agora, porque quase perdemos a fé nesta veleidade que o futuro se tornou em tempos de consumismo tão voraz e absoluto. Então a juventude bebe vodca até morrer, porque a vida não tem mais sentido, ou talvez nunca tenha tido.

A recaída é o xis da questão de nós, que nos sentimos eternos.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Frase do dia

"Se não há desejo, não  há vínculo."

                                                 Lúcia Helena Alves





segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

"Iguais" e "diferentes"

Fico sabendo da notícia: professora manda um bilhete para mãe da aluna negra, bem pequenininha, contando que a menina é alvo de piadas na escola por causa do cabelão armado. A professora termina o bilhete dando à mãe a ideia de fazer um "relaxamento" para alisar os fios e baixar o volume.

A mãe, indignada, não só se recusa a mudar o cabelo da filha como publica a história no Face, com foto e tudo.

Eu vi a foto, e a menina é linda, assim como seu cabelão. Se fosse minha filha, eu não alisava nem por decreto.

Minha primeira reação ao saber do caso foi achar a professora uma despersonalizada infeliz. Mas depois de pensar um pouco, concluí que é claro que ela agiu com a melhor das boas intenções. Quis proteger a menina das piadas dos coleguinhas. Porque a gente sabe que criança é um bicho terrível quando resolve pegar alguém pra Cristo, né?

O problema é que, como se sabe, o inferno está cheio de boas intenções, e em vez de proteger a "diferente" tornando-a igual e pasteurizada, o ideal seria que a escola (e no caso a professora, que representa a escola) deveria ensinar aos "iguais" que o "diferente" também pode ser lindo.

Mas não. Infelizmente a escola não ensina o aluno a pensar...

Neste caso, por exemplo, a professora só enxergou a alternativa de recorrer à mãe e pedir para alisar o cabelo da menina, sem perceber que esta sua atitude significa menosprezar a origem afro e toda a beleza que aí reside, alimentar o racismo e a suposta inferioridade da raça negra, perpetuar a vergonha de ser quem se é e o desejo impossível de ser outra coisa.

A professora perdeu a chance de ensinar aos "iguais" uma ótima lição de respeito e de valorização do próximo. E de ensinar à "diferente" uma boa aula de autoestima.

E de ensinar a todos da sala de aula que todos temos o direito de ser quem somos. Sem ser preciso mudar nada. Sem alisar, sem emagrecer, sem ficar rico, sem ficar na moda, sem ter que agradar, sem ter que pagar nenhum tipo de ingresso para a maioria. Sem ter que ficar igual, ou ter que pensar igual. Sem ter que abrir mão de sua originalidade!

A professora ainda não aprendeu, mas pobre dela: ninguém a ensinou quanta liberdade existe naquele cabelão!

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Mulher rodada

Queria ter saído, ontem, no Bloco das Mulheres Rodadas. Ficou para o ano que vem.

Veja você que eu, que sempre achei ridículo homem vestido de mulher no Carnaval, justamente na tarde do sábado anterior à festa, me vi dentro do meu carro,  cercada por uma horda de rapazes bem jovens, todos fantasiados de Minnie (a namorada do Mickey)!

Entrei na onda da brincadeira e enquanto eu sorria para a rapaziada, achando tudo o maior barato, a coisa subitamente mudou... a turma começou a bater na lataria, com força, e gritar, "dinheiro! dinheiro!"...

Meu co-piloto, mais esperto que eu, me avisou logo:
-- Pisa no acelerador e vamos sair daqui!

Foi quando dei por mim e vi que aquelas Minnies fofas não estavam sorrindo... elas estavam arreganhando os dentões, bem ao estilo predador para o queijo... e o queijo, na dita situação, éramos nós, dentro do carrinho que não é blindado nem lá grandes coisas, nesta cidade que já virou Terra de Marlboro faz é tempo...

Acelerei o quanto pude, enquanto meu coração tentava sair pela goela, e fui abrindo caminho em meio às Minnies batedoras de carteira. Com a graça de Deus conseguimos sair dali.

Foi o bastante para eu me enclausurar em casa durante a "festa".

Mas do Bloco das Rodadas eu gosto. Aliás, quero uma camiseta!

Sabe, acho maravilhoso a gente poder abrir a boca pra gritar contra o machismo. Penso nas tantas mulheres submetidas aos horrores da ignorância machista que ainda impera no mundo, e não só em absurdos como o ritual de passagem ainda praticado no Oriente Médio e na África, de retirada do clitóris, que impede o prazer sexual. E os casamentos forçados? E o impedimento ao estudo ou à religião? E a falta de liberdade para qualquer coisa? E a condenação ao afastamento da família?

E a sentença à infelicidade, que muitas mulheres, mesmo aqui, no Brasil, são submetidas por homens machistas e estúpidos, carrascos ou matadores, que exploram a dignidade de suas companheiras dentro de casa durante anos, impunemente?

E quando um homem posta na Internet que "não merece mulher rodada"?

 E logo eu, que sempre achei ridículo homem vestido de mulher no Carnaval, desta vez achei lindo: homem vestido de mulher no Bloco das Mulheres Rodadas teve tudo a ver porque teve significado, foi político, não foi simplesmente brincadeira gratuita, muito menos motivo para soltar a franga de uma violência íntima e viral.

Mulheres Rodadas! Ano que vem eu vou!


Fotos de Eulicia Esteves

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Livre (do passado)

Chegar ao grau máximo de acabar com a própria vida e dar cabo de si exige um nível muito alto de coragem. Para quem não dispõe de tamanha valentia, há outras maneiras eficazes de, literalmente, chegar ao mesmo fim, e uma delas é manter os olhos pregados no passado.

Dito isto, conto que meses atrás, passeando por uma livraria, comprei o livro “Livre”, da americana Cheryl Strayed, que conta a história de quando ela, a autora, perdeu a mãe aos 21 anos e, junto, perdeu também o rumo na vida durante quatro anos. Sofreu tanto que acabou sem o casamento, as referências e a esperança no futuro. E, quatro anos depois, reencontrou a fé na vida ao fazer uma caminhada de quase dois mil quilômetros, sozinha, através de uma trilha montanhosa na costa oeste dos Estados Unidos.
O livro ficou em minha estante e talvez tivesse sido doado sem ser lido se o filme não estreasse com a atriz Reese Witherspoon no papel principal. Passei a gostar de Reese desde que a vi em “Johnny e June”, de 2005, com Joaquin Phoenix. Então resolvi ler a história escrita por Cheryl antes de conferi-la nas telas.
O que vale no filme é o desempenho de Reese. No mais, o livro dá de dez não só porque é mais detalhado e porque nele a imaginação do leitor entra como coautora. Mas também porque no livro a gente tem a sensação de que Cheryl está realmente conversando com a gente. Ela escreve de um jeito tão coloquial, tão íntimo, tão transparente, que chega a ser uma confissão. Sem falar nas partes engraçadas, que não são poucas... porque Cheryl não está nem aí para as aparências ou para o que vão pensar dela.

O roteirista fez o melhor que pôde, mas o filme está longe de alcançar a profundidade dos questionamentos da autora, que divaga sobre o drama de uma perda tão grande, de uma solidão tão absoluta, de um desespero que só a morte é capaz de nos lançar, e do qual nos tornamos cativos.

Mas o maior foco de toda esta história é justamente a volta por cima, e daí vem o título do livro e do filme: “Livre”.
No entanto, tudo tem a sua hora, inclusive deixar de sofrer. A dor existe para ser vivenciada até a última gota. E então a escalada rumo ao renascimento pode ser iniciada, e para isso precisamos deixar o passado para trás. O que Cheryl faz, sem perceber, é exatamente isso: forçada a manter o foco em sua sobrevivência naquela duríssima caminhada solitária, ela deixa de pensar 24 horas por dia em seu passado e consegue abrir os olhos para a maravilha da vida. Deixa de ser mártir de sua história pessoal para sobreviver. E não é só assim que sobrevivemos?

Terminei o livro e conclui que todos passamos por nossas perdas, e no final das contas todos encontramos um modo de lidar com o desafio de superá-las. Sei de um senhor que perdeu a filha em um acidente de carro e isolou-se no interior, ele e um mestre-de-obras: em poucos meses haviam construído uma casa bem grande juntos. O dois, sozinhos. Ele trabalhava das seis da manhã às dez da noite, e naqueles meses todos, quando a mulher e os outros filhos iam visitá-lo, jamais falou sobre seu luto. Depois da casa pronta, viveu sozinho nela por um tempo, e quando sentiu-se em paz, voltou para a família.
Sim, as perdas fazem parte da vida e temos que aprender a vencê-las. Aprender a encontrar um band-aid para a alma, de modo que deixemos o passado para trás e possamos seguir adiante com os pés no chão e a mente no infinito: um desafio cujo prêmio é o nosso renascimento.


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Birdman, Grandes olhos e o alter ego de cada um



No sábado fui ver "Birdman", do mexicano Alejandro Gonzáles Iñarritu, o mesmo do excelente “21 gramas”, e fiquei pensando que todos nós somos um pouco Birdman, e é por isso que este filme é tão bom! Iñarritu  acertou em cheio mais uma vez, agora ao tratar do conflito de um homem entre o que ele é excessivamente e o que ele é em menor parte. E estas duas naturezas, ambas verdadeiras e pulsantes neste homem, lutam para se impor e sobreviver.

Em suma, o personagem (vivido pelo impressionante Michael Keaton),  um ator de cinema decadente, que um dia incorporou o super-herói de sucesso chamado Birdman, deseja desligar-se desta imagem enlatada e tornar-se um respeitado ator de teatro.
Ele tem talento para tanto, mas... quando conquista seu desejo... seu alter-ego, o Birdman, o super-herói irritadinho, um homem-pássaro que detesta teatros da Broadway e adora cinemão com tiros e sangue no estilo catchup, vence a parada.

E não é assim com a gente, na vida real? Ninguém aqui é Hamlet, mas não estamos sempre decidindo entre "ser e não ser, eis a questão"?  Decidindo sobre como agir ou não agir? E a cada decisão que tomamos, a cada tom de voz, a cada estupidez ou gentileza, a cada atitude ética ou não, melhor ou pior para nós mesmos ou para os outros, a cada cigarro que decidimos fumar ou não fumar... a cada esquina que dobramos ou não dobramos... não escolhemos entre um ou outro "personagem"? Não optamos por um ou outro "roteiro" para a nossa existência, com uma diferente possibilidade de "fim"?
Realmente não entendi porque o filme foi classificado como “comédia”, porque ele não tem nada de engraçado! É um drama tratado de forma irônica e inteligente, bonito de se ver porque a luta interna deste homem, consigo mesmo, é dura de ser travada, e nos mostra que de nada adianta o esforço de anos a fio para tentarmos nadar contra nossa própria corrente: somos o que somos, e o melhor que fazemos é lapidar nossa própria natureza.

No domingo fui ver o tal “Grandes Olhos”, de Tim Burton, que traz às telas a história da pintora Margareth Ulbrich, que ao casar-se com Walter Keane, nos anos 50, tornou-se Margareth Keane e, ao assinar simplesmente “Keane” nas telas que pintava, e aceitar que seu marido as comercializasse fingindo ser ele o autor, acabou vivendo à sua sombra por dez anos: ela pintava, ele fazia um tremendo sucesso.
Também classificado como comédia, sem sê-lo, o filme causa incômodo ao mostrar a submissão feminina em um tempo que não vai tão longe assim. “Por que ela não reage?” a gente se pergunta. Mas é preciso contextualizar para entender.

E ao olhar de perto o sr. Walter Keane, aquele homem sedutor e inteligente, que era um agente imobiliário de sucesso e sonhava ser artista, embora não tivesse talento para tanto... e que mentia tão bem que acabava acreditando em suas próprias invenções... fica muito evidente, ali na tela, o quanto é perigoso deixar-se levar pela fantasia e acreditar naquilo que escolhemos acreditar: se é isso que Walter faz, ao crer que os quadros são realmente dele, é o que Margareth também faz, ao convencer-se de que seu marido era boa pessoa e que ela estava correta ao ceder a autoria de seu trabalho a ele.
Há casos em que o alter ego deve ser amordaçado. Um deles é quando a vaidade e a exploração entram em cena.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Emoção e diversão

Neste calor de Saara que tem sido o verão carioca, na hora da diversão não me arrisco a ir à praia. Se saio de casa, vou ao cinema, ao teatro, ao shopping, ao restaurante. Tudo para fugir do calor.

No último fim de semana, elegi um filme e uma peça, dois sucessos de crítica, e minha emoção não deu as caras no cinema nem no teatro. E olha que emoção é coisa que não me falta...

Ao contrário dos críticos de plantão, que raramente nadam contra a corrente, tenho a coragem de dizer que o premiado "Boyhood - da infância à adolescência", que levou 12 anos para ser filmado, e acompanha o crescimento de um casal de irmãos, fruto de um casamento em crise... olha, "Boyhood" não me disse absolutamente nada nas duas horas e meia em que aguentei na sala escura. O filme tem três horas de duração, três horas que os críticos julgaram incríveis! E que eu considerei ter gasto à toa; podia ter continuado a ler meu livro, que está ótimo, ou podia simplesmente ter tirado uma soneca, que adoro.

Ok. O diretor, Richard Linklater, uma das seis indicações ao Oscar que o filme recebeu, fez uma coisa que os críticos consideraram "única, do ponto de vista cinematográfico": dedicou anos a um projeto. E o roteiro, que a crítica considerou ótimo, eu considerei arrastado. Os diálogos, que os entendidos acharam "extraordinários", eu achei chatérrimos.

Enfim... fiquei duas horas e meia diante da telona buscando alguma coisa realmente preciosa na tal "simplicidade" que as matérias festejaram nos jornais, mas não vi nada, nem mesmo uma frase que me fizesse pensar, uma cena que me tocasse a alma. E desisti. Saí do cinema, que estava lotado aliás, com vontade de gritar pra plateia:

-- Vocês estão gostando?

No sábado resolvi ver a tal comédia teatral, pra dar umas risadas. Adoro rir. E gastei um bom tutu pra ver o monólogo de um ator famoso, a quem muito admiro, e que está há meses em cartaz. "A vida sexual da mulher feia" prometia. Ou não? Só este título já me fez pensar em mil situações hilárias.

Sentei na terceira fila, toda animada, e confesso que fiquei constrangida diante do texto fraquíssimo, do figurino ruim e do desempenho mecânico de um ator que poderia ir bem mais além.

Em dado momento comecei a observar a plateia e notei que quase ninguém ria das piadas velhas e forçadas, algumas extremamente machistas, inclusive. Será que todos sentiam-se enganados como eu?

Dei graças a Deus quando o show acabou e saí correndo dali. Voltei pra casa estressada, com medo da violência carioca, dos assaltos, dos pegas que vivem matando inocentes pelas avenidas, das balas perdidas que matam até quem está dormindo em casa... e no fim de semana sabe como é: o pessoal bebe e o trânsito ainda é pior!

Em casa, tomei um banho rápido, pra economizar água e ir treinando para aprender a viver sem banho (porque já que o Governo não faz a parte dele e culpa São Pedro pela estiagem, a gente tem que se acostumar com a ideia de viver sem água, como o sofrido povo do Nordeste já faz há séculos).

No conforto do ar-refrigerado, peguei no sono e sonhei. Que era inverno e chovia. Ai, finalmente... me diverti.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Pai bandido

Na sucessão dos escândalos financeiros no país, detenho os olhos nas fotos de um certo ex-diretor de estatal, justamente um ex-diretor acusado de falcatruas tantas que, como o mundo inteiro já sabe, a dita estatal, vítima de outros senhores como este que estou citando, e que já foi das maiores empresas do mundo, hoje não tem dinheiro para tocar seus investimentos. Na fotografia, este ex-diretor veste roupas de grife e vai cercado de policiais, portando no rosto um sorrisinho meio de lado. De que será que ele ri? De sarcasmo ou de vergonha?

Fiquei aqui pensando neste homem, e nos outros que, como ele, já foram respeitáveis homens de negócios, respeitáveis homens de família, cheios de pompa, cheios de luxo, cheios de vontades, de cerimônias, de salamaleques e de poder... e que agora estão nus frente ao mundo inteiro, vestindo apenas o mau-caratismo que têm, e que tornou-se indisfarçável, porque por mais que o mau-caráter se julgue mais inteligente que os demais, sempre chega o dia em que a casa cai.

Penso nos filhos destes homens, que já fizeram o papel de "respeitáveis" um dia, e que agora tornaram-se piada na boca do Brasil inteiro, porque brasileiro faz piada de tudo... e como o Carnaval está aí, tornaram-se também máscaras de folia, refrão de marchinhas. Então é esta a herança que hão de deixar aos descendentes?  Quando avidamente armavam suas negociatas não pensavam nisso? Ou as falcatruas eram justamente em nome do "amor paternal" e a proteção à família era desculpa para suas atitudes, envolvendo inclusive os filhos e as mulheres em suas armações?

Longe de mim bancar a juíza. Mas penso em como deve ser ver o pai estampado no jornal e apontado como tendo enriquecido ilicitamente, como tendo lesado os cofres públicos, seu nome ridicularizado... não há dinheiro no mundo que valha esta dor. Pagar um psicanalista em Paris, para aprender a viver com a verdade que o pai era ladrão e prejudicou muita gente? Eis uma herança triste de se receber e aceitar...
Valioso mesmo é o respeito genuíno por um pai honesto, que mesmo pobre de tudo, seja rico de bons exemplos para dar. No final das contas, esta certeza é que faz a vida da gente seguir nos trilhos.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Angústia

A casa, repentina, se apequena;
paredes alvas tornam-se castanhas
e da janela vejo a noite antes da hora.

Faço um poema, penso em ir embora

mas onde for serei a mesma,
uma estranha.

A casa faz-se outra sem aviso:
pequena é, mínima se torna;

É o silêncio que devora as traças
das tantas dores que onde for, não lanço fora.

(Fernanda Dannemann)

domingo, 11 de janeiro de 2015

Viagem ao centro de si

Não me canso de repetir que a pior maneira de escolher um filme para ir ver é ler a crítica dos jornais. Mais uma vez os especialistas pisaram na bola: "Uma longa viagem", que leva Colin Firth no papel principal, é um filme que, se fosse mal contado, teria tudo para ser um dramalhão... e no entanto é lindo, embora os "entendidos" no assunto tenham feito até piada sobre a história (verídica), e tenha havido gente que até riu do final, classificando-o como "impossível".

O caso é que o dito final aconteceu mesmo, na vida real...

Adoro Colin Firth e fiz minha escolha por causa dele, apesar de não apreciar Nicole Kidman, seu par.

O enredo, como já disse, conta a história de um soldado inglês capturado e torturado por japoneses, na Segunda Guerra; finda a batalha, o homem segue vida afora torturado pela lembrança.

Daí pra frente eu não conto mais porque não sou estraga-prazeres, mas o modo como se desenrolam os assuntos da vingança, do arrependimento, do ódio e também o do amor... da lealdade acima de qualquer coisa... isto é que interessa e faz a gente pensar.

A lealdade é um tema que dá muito "pano pra manga", como se diz em Minas. Lealdade a quê? A quem? A que preço? Muitas vezes a lealdade transforma-se em algo funesto dentro da gente, sem que possamos nos dar conta, e faz apodrecer o lado bom da vida: quando nos aferramos a qualquer coisa que seja por "lealdade" é possível que estejamos tomando o caminho do retrocesso ou da estagnação.

A vida é movimento, muitas vezes é também mudar de ideia, tomar outro rumo, decidir até mesmo seguir pelo caminho oposto ao que imaginávamos o correto, o ideal, o único caminho.

Neste sentido, o ódio pode ser uma forma tortuosa de lealdade, tanto quanto o amor pode ser visto como desleal.

Graças a Deus, falíveis que somos... temos também a grandeza dentro de nós.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

A dor da crítica

Dificil é ouvir uma crítica, o resto é mole pra “nóis”, como dizem os aficcionionados do Facebook, o Fantástico Mundo dos Puxa-sacos, onde tudo é elogio e seda rasgada, e talvez por isso mesmo o sucesso seja tanto.

Uma boa verdade, na forma de crítica construtiva, já quase não encontra lugar na vida de hoje; o povo prefere cortar relações, sair no tapa, virar a cara, jogar a amizade no lixo. É que para ouvir uma crítica, o sujeito carece ser forte por dentro, ter músculos no pensar e na autoestima, ser movido pelo anseio verdadeiro de evoluir. Caso contrário se ofende, exige desculpas e condolências.

As críticas bem-intencionadas não foram feitas para os fracos, nem para os arrogantes, que no fim das contas estão todos no mesmo barco.

Crítica doentia, maldosa, cheia de esgar e inveja... isso aí é artigo para incineração e não merece uma gota de preocupação de quem quer que seja. Mas não é disso que falamos no presente momento, e sim do famoso "toque" que só os corajosos têm ousadia de dar... mas que necessita coragem também para ser ouvido, aceito, assimilado e digerido, como se fosse um remédio ministrado por quem ama. E só quem ama o faz. O que em geral há faltado, é amor na hora de receber. Explica-se: o caminho do ódio é mais fácil, e da infelicidade também.

Mas o sincero, aquele cara que tem a coragem de levantar o dedo e gritar para todos que sim, o rei está pelado... este aí deveria ser ouvido com mais cautela por Sua Majestade, o que não erra, o que não paga mico, o que está acima do bem e do mal. Porque o único ganho que o sincero tem, é justamente ver o rei vestido. Mesmo correndo o risco de ser incompreendido pela multidão... e pelo próprio rei. Aliás, coitadinho do rei!

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

O silêncio nos dias

Peço perdão aos amigos do blog pelo silêncio de semanas.

Talvez eu estivesse mudando a plumagem. Ou de estação: silenciei de repente, um vazio interno e abissal, uma falta do que pensar e dizer. Então não pensei e nem disse.

Deixei-me levar pelo silêncio como se fosse um rio, daqueles bem tranquilos, em pleno verão tropical. Boiando sobre ele, deslizei pelos dias numa frugal ausência de palavras. Foi quase meditação. Foi quase transcendência.

Já nasci feita de palavras. Como se frases cobrissem os ossos e, dentro das veias, corressem rimas. E a minha alma, a alma sempre molhada, que voa presa ao varal... a minha alma é de sentido!

Mas até quem é feito de palavras é também feito de silêncios, de pausas, de nada a declarar.

Então às vezes me calo, encho a boca de reticências e é como se um sono de princesa amaldiçoada se deitasse sobre mim.

Durmo. Espero. Deixo passar o vazio interno, esta necessidade de estar só como em um salão de baile sem orquestra ou convidados... apenas a voz do pensamento vago, errante, disperso: um encontro de dias entre mim e minha consciência, esta que se achega repentina e exige tempo, exige calma, exige mesmo a sabedoria da qual não disponho.

É o silêncio que faz pensar no que jamais pensamos, porque maltrata, fere, exige, impõe.

Um silêncio que toma tudo; a casa, nas tardes abafadas. O quarto, nas noites vagarosas. O fim de ano, com suas cores falsas.

Até que um dia as palavras brotam, lentamente, ou o desejo simples de dizê-las... como se ali, do outro lado da janela, o meu jardim anunciasse a primavera.



segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Bolsonaro e o estupro da vida em sociedade

A violência maior não está no homem que faz a política do contra: contra as mulheres, contra os homossexuais, contra os negros, contra a liberdade, e sim no fato de que há quem vote nele!

Em 2014, Jair Bolsonaro foi o deputado mais votado do Rio, com mais de 460 mil votos, e isso é um caso a se pensar. Violência não se limita a assalto a mão armada. A violência silenciosa, que finca as raízes na cabeça das pessoas e conduz ao estupro da vida pública e da vida em sociedade, esta sim é a mais virulenta. Basta olharmos a história do homem, exemplos não faltam.

Era o caso de se pensar até que ponto a democracia deve dar espaço para que ideias de ódio possam ser oficialmente disseminadas, tendo como porta-voz um político eleito pelo povo. Ou não?

sábado, 13 de dezembro de 2014

Buenos Aires musical

O Piazzolla Tango é um teatro na calle Florida que oferece um show diferente dos tradicionais tangões ao estilo "Por una cabeza": as seis duplas de dançarinos bailam ao som de uma orquestra de seis músicos que tocam o mais puro Piazzolla, artista que revolucionou a música argentina ao inovar o tango com as influências do jazz.

Ali, o apreciador da boa música e dança vai curtir um tango que não é para iniciantes. Quem quiser um show típico para turistas deve mesmo procurar outra opção, ou sairá frustrado. O teatro oferece um lauto jantar com excelente comida e vinho de primeira antes do espetáculo, que tem duração aproximada de 1 hora e meia.

Mas Buenos Aires é uma cidade musical, como se sabe, e a música está por toda parte e para todos os públicos... a seguir, uma pequena amostra do que vi, em menos de cinco minutos de caminhada, em duas esquinas vizinhas: