"O mestre não é aquele que vence sempre, é aquele que dá o melhor de si em todas as situações"
Carlos Castañeda
quarta-feira, 26 de março de 2014
domingo, 23 de março de 2014
O que seria do vermelho se todos gostassem do azul?
domingo, 16 de março de 2014
quarta-feira, 12 de março de 2014
Batatas
Ela descascava as batatas e as colocava no mármore encardido
da pia da cozinha.
A porta fechada era uma fronteira viva entre o corredor decorado por naturezas-mortas e a protegia das reclamações do pai, que inundavam a casa, vindas do quarto do moribundo. Foi sempre assim. O pai sempre perdeu muito tempo reclamando da vida e queixando-se da mão de Deus. Viveu os plenos dias e a insanidade, por fim.
A lâmina prata refletiu a luz que vinha pela janela.
Socorro.
Um grito inaudível e cortante, um grito por Deus.
A luz.
Deus?
O suplício rubro.
A porta fechada era uma fronteira viva entre o corredor decorado por naturezas-mortas e a protegia das reclamações do pai, que inundavam a casa, vindas do quarto do moribundo. Foi sempre assim. O pai sempre perdeu muito tempo reclamando da vida e queixando-se da mão de Deus. Viveu os plenos dias e a insanidade, por fim.
A porta se abriu. A mãe entrou na cozinha maldizendo
a suposta sujeira dos móveis e lamentando a velhice que lhe apagou os traços. Na
sucessão das noites morreram-lhe os sonhos, restando a amargura pelo
irrevogável.
Por um momento as vozes se confundiram, se
misturaram como se fossem um dueto, e a ouvinte pousou a faca sobre o mármore,
deixou cair a batata.
A mãe saiu da cozinha, deixando a porta aberta.
O pai se calou.
Ela retomou as batatas.
Mas o silêncio era pesado, o silêncio era afiado. O silêncio
era quase rubro.A lâmina prata refletiu a luz que vinha pela janela.
A luz.
O pai gritou outra vez em seu quarto.
A mãe gritou outra vez por Deus.
Deus?
A batata tombou na pia, a mão deslizou sobre o
mármore.
O mármore frio como uma laje esquecida.Socorro.
Um grito inaudível e cortante, um grito por Deus.
A luz.
Deus?
A lâmina.
O suplício.O suplício rubro.
As batatas vermelhas rolando pelo mármore.
A natureza-morta invadindo o espaço da cozinha.
(Fernanda Dannemann)
segunda-feira, 10 de março de 2014
sexta-feira, 7 de março de 2014
"O ser humano virou salsicha"
Se o blog do Migliaccio é bom, imagina conversar com
ele... passado o Carnaval, ele me solta esta frase que virou título de post:
A salsichada já chegou até mesmo nos desfiles na Sapucaí, onde é triste de se ver a comissão de frente dançando coreografias... eu me recuso!
-- O ser humano virou salsicha! Todo mundo igual...
Eu ri, e ri pela expressão de tédio e desânimo na
cara dele, e também provavelmente na minha. Pouca gente está se dando conta,
mas a TV e as redes sociais estão unificando tudo de uma maneira nojenta. Este
desejo humano de ser aceito, “de entrar para o clube” é a mola que acaba com
as diferenças. Mas que coisa chata, hein? Que pobreza emocional! É assim que
nascem as ditaduras e a ignorância se perpetua.
Por todas estas coisas, eu não aguento mais ver TV
aberta, tomei verdadeira ojeriza, acho tudo uma cafonice sem tamanho. Todo
mundo fazendo pose, caras e bocas, vendendo a alma pra aparecer no programa do
Faustão ou da Fátima Bernardes... ai, ai... credo.
Não vi nada
(NADA) de carnaval. Viajei pra Marte. Não, não, viajei pra Saturno, que é
mais longe. Certamente haverá por aí uma legião de salsichas que me chame de
maluca, mas logrei passar o Carnaval incólume, sem barulho, desfile, vodca,
noitaaaaada...
Só por que é Carnaval a gente tem que entrar na
dança?
Na Quarta-feira de Cinzas eu estava inteira, pronta
para o ano que então começa, e sem ressaca no corpo ou na alma, sem fantasia
pra jogar fora ou recosturar, sem precisar fazer desintoxicação com suco verde.
Porque Carnaval é assim, vira cinzas na
quarta-feira...
Alguma salsicha de plantão dirá que ando melancólica,
e é verdade. Deve ser a TPM, coisa de mulherzinha. Ou de alienígena que não
entra na dança dos blocos enfurecidos na cidade colorida. A salsichada já chegou até mesmo nos desfiles na Sapucaí, onde é triste de se ver a comissão de frente dançando coreografias... eu me recuso!
Alguma salsicha dirá:
-- Ah, mas isso aí é o maior show da Terra, o mundo
inteiro tá vendo, tem que profissionalizar, os americanos estão de olho... é muito dinheiro correndo...
Ah, é, é? Dinheiro correndo? E quede o samba no pé? Este é que já correu, e há muito tempo. Fugiu. Até os passistas não
podem mais sambar livremente!
Estão
fazendo com o Carnaval o mesmo que fizeram com o futebol: matando toda a raiz e
enlatando o que sobra.
O que sobra?
É salsicha!terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
Amor e futebol têm uma só raiz
Neste mundo que pertence aos "grandes", é muito fácil ser Flamengo ou Fluminense... neste mundo de "vencedores", é muito fácil sonhar com o Barcelona ou o Real Madrid...
Eu quero ver é ser Amééééééééériiiiiiicccccaaaaaaa...
Amor é coisa que não se explica.
Eu quero ver é ser Amééééééééériiiiiiicccccaaaaaaa...
Amor é coisa que não se explica.
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
"Elton Johnson" no conflito de gerações
Falou minha amiga Talita, que bem poderia chamar-se Lolita:
-- Fui ao show do Elton Johnson!
-- Fui ao show do Elton Johnson!
-- De quem?
-- Do Elton Johnson...
Não, leitor, não fique pasmo. É muito comum que uma
moça de vinte e poucos anos confunda o nome do Elton John, mesmo sendo ele... o Elton John.
Fiz uma pausa na conversa e comecei a divagar, coisa
que, sabemos, é a minha especialidade:
Não sei se é porque já passei dos 45, mas o fato é
que ando reparando que o tempo é bem relativo, a depender da idade que a
gente tenha. Veja só: se você tem mais de 70 anos não há de considerar a
Segunda Guerra Mundial um evento pré-histórico, e nomes como Hitler, Stalin e
Mussolini não lhe hão de soar distantes como "Matusalém", "Maomé" ou "Adão" e "Eva".
Mas se você (como eu) estiver na casa dos 40 ou 50,
a Segunda Guerra já lhe trará à mente as velhas aulas de história, as tardes
abafadas dos verões da adolescência... o que é bem diferente da Guerra do
Golfo, que acompanhamos ao vivo e à cores pela televisão há bem pouco tempo...
mas que, para a turma de vinte e poucos anos, é tão longínqua quanto a Segunda
Guerra é para nós. Sacou? Experimente falar em Saddam Hussein com um rapaz de vinte anos e ele, muito provavelmente, não saberá de quem se trata.
Rebobinei a memória: dia destes entrei em uma loja e
começou a tocar justamente uma daquelas músicas que marcaram a minha juventude.
Não me contive e falei para as duas mocinhas no balcão:
-- Aumenta que isso aí é Dire Straits!
-- Quem?!
-- Dire Straits!!!
Elas fizeram cara de descrédito e foram conferir o
nome da banda na capa do CD, que era um mix de bandas diversas. E riram:
-- É... é este nome ai mesmo...
Fiquei incrédula:
-- Vocês não conhecem Dire Straits?!
E elas, em côro:
-- Nãããão...
Passados alguns dias, estava eu conversando com
outra mocinha quando ela, contando de sua aventura no Rock in Rio, disse que
gostou muito de um “velhinho" que ela não conhecia, que tocou um rock maneiro e a pegou de surpresa.
-- Qual o nome dele?
-- Não lembro...
Depois vim a saber que o tal velhinho era ninguém
menos que o Bruce Springsteen...
Parei de divagar e voltei ao papo com a minha amiga Lolita, ou melhor, Talita, que foi ver o show
do “Elton Johnson”. Mas não me contive:
-- Escuta... você conhece uma música chamada “My Way”? E uma outra, chamada “In the Still of the Night”? Conhece
um cara chamado Frank Sinatra? E um tal de Cole Porter?
Ela não se fez de rogada, a danadinha, que é terrível:
-- E você, Fernanda? Conhece o Jack Johnson?
Calei a boca. E, como quem cala, consente, ela
aproveitou meu momento de fraqueza para confessar sua mágoa:
-- Ah, Fê, eu nem sabia mesmo quem era o Elton
Johnson, mas quando ele cantou a música da Lady Di eu reconheci. Mas eu fiquei
na maior frustração porque ele não cantou a outra que eu conheço e que é a
minha preferida...
-- Qual? “Don’t
Go Breaking my Heart”?
-- Nãããããooooo... esta daí eu nunca ouvi falar. A que eu queria mesmo era a do filme “O Rei Leão”.
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
O Tempo do Alfredo
"Ainda sou do tempo em que viajar para outro país era coisa sem volta, coisa de migração em que a pessoa sozinha era aventureira e, se a viagem fosse com a família, seria mais do que aventureira; seria de risco total conforme fizeram alemães, italianos e japoneses em determinada época para o Brasil. Eles vieram para substituir a mão-de- obra escrava, que havia sido abolida. As condições daquela gente chegando aqui eram terríveis, sendo alojados nas mesmas acomodações dos escravos já libertos. Alemães não vieram nessas condições, mas vieram fugindo de um sistema político ‘nazismo’ que se impunha gradativamente na Alemanha, até que por fim – duas guerras mundiais.
Com essa visão de grandes viagens é que passei a minha infância e juventude e até hoje não consigo entender como uma pessoa sai do seu país, desembarca em um aeroporto do outro lado do oceano e... some numa multidão de desentendidos.
Não sou
adepto de viver fora do lugar onde nasci e, por mais que admire o sistema
organizado de cada país do primeiro mundo, sou daqui, desta terra-de-ninguém.
Pra mim, a senhora Jacy tem razão. Não devemos nos mudar do primeiro ambiente, e pronto. Hoje, acredito que minha família nunca deveria ter saído de Baixo Guandu, onde de certa forma construiu um patamar, apesar de todos os problemas que vieram em seguida. Devíamos ter ficado por lá e criado uma força familiar forte, estabelecido uma fonte de renda e, mantido a vida e os bens até então adquiridos. Teve uma época em que eu quis até comprar, da minha família, a casa do meu avô, mas desisti e tudo ficou por isso mesmo.
É issssssssssssso!!!!! "
(Por Alfredo Petersen)
Texto retirado do blog Barão de Sacocheiro
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
Um homem com saia de oncinha
Sentado no sofá da área-comum do shopping, o rapaz
me observava com o olhar desafiador e um sorrisinho de canto de boca, daqueles
meio debochados. Não, ele não estava sentado: estava refestelado, tomando todo
o conforto do sofá para si, com seus braços, pernas e saias espalhados pelas
almofadas, e os pés, de unhas feitas à moda “francesinha”, se alternando num
balanço nervosinho.
Sim, o moço estava vestido de mulher, e confesso que
num primeiro momento passei pelo impacto da surpresa. Não é sempre que a gente
vê por aí um rapaz com cara de rapaz, cabelo de rapaz, corpo e músculos de
rapaz... portando uma saia godê e uma sandalinha rasteira. Mas passados os
primeiros segundos meus olhos se acostumaram e ele foi naturalmente integrado à
paisagem. Mesmo assim, em resposta à minha surpresa inicial, me olhava com cara de deboche e desafio.
Dias depois, tornei a vê-lo, e desta vez na
livraria. Usava uma saia longa de oncinha e bolsa tiracolo rosa-choque. Mais que
nele, prestei atenção ao redor e percebi que ninguém olhava em sua direção. No começo
achei muito bacana que aquele homem de saia estivesse tão “homogeneizado” ali no
ambiente, mas então percebi que havia um certo esforço no ar; um esforço
coletivo em busca da naturalidade. Era assim: ninguém olhava em sua direção,
mas quando ele já estava longe, tornava-se alvo de comentários e risinhos.
Através da livraria eu o perseguia a pretexto de
olhar os livros, e enquanto observava a reação das pessoas, peguei-me já sua admiradora: é preciso
muita coragem para assumir-se assim, sobretudo em um país como o Brasil. Imagine você a extensão do deserto que
este homem atravessou, sem uma gota de água sequer, para chegar onde chegou. E que
batalhas teve que vencer pelo direito de ser quem é.
Lembrei do Laerte, cartunista, que admiro muitíssimo
não só pelo talento e pela inteligência, mas também por esta coragem, esta
audácia... de ser quem é.
Curioso isso... as redes sociais e a mídia criaram possibilidades para que as pessoas se sentissem mais livres, mais espontâneas, mais importantes... mas como o ser humano é autocentrado em demasia, tornou-se uma "vaca feliz" em meio à manada imensa, vivendo nas telas do Face e nas
fotos do Instagram como se fosse protagonista da novela das nove, encaixando-se com perfeição ao que se espera dele. Pode estar ferrado por dentro, contanto que por fora
haja um “botox comportamental” que segure as aparências. E como todo mundo está
no mesmo barco, a tal rede social cuida para que uns amparem os
outros, de modo que todos sejam sustentados em sua hipocrisia.
Não, não me digam que sou pessimista... os
dramas humanos não são poucos, nem são secretos; basta só um pouco de atenção para dentro de si mesmo e para quem estiver ao lado. O que mais há por aí é gente com o choro preso na garganta. Gente que não para de contar piada ou de forçar o riso porque, se parar... gente que não se dá a chance de rever a própria vida porque, se fizer isso...
Mas então, quando aparece alguém como o Laerte, ou como o
tal rapaz anônimo do shopping, com coragem para aceitar-se plenamente... como é
que reagimos?
Nossa tendência é a crucificação. O escárnio, mesmo
que velado. A ridicularização. Será por inveja?
Veja você que nem os mortos estão a salvo disso: dia
destes, vi na Internet algumas biografias de Isaac Newton, Leonardo Da Vinci e
Mahatma Gandhi, e ali estavam também os especuladores acerca da orientação
sexual dos biografados. A hipótese da possível homossexualidade do trio
baseia-se principalmente no fato de que Newton era muito fechado, Da Vinci
nunca foi visto com mulheres e Gandhi optou pelo celibato apesar do casamento.
Passei alguns dias pensando em todas estas coisas e no
final de tudo me lembrei de uma das frases preferidas do velho jornalista
Ibrahim Sued, com quem trabalhei muitos anos atrás, e que não raro era também
alvo de especulações ou maledicências. Uma frase que de tão libertadora, pode acalmar as
tempestades que se formam no coração dos diferentes:
“Enquanto os cães ladram, a caravana passa”.
Isaac Newton, um dos gênios de quem sou fã
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
A maior dor do mundo
A maior dor do mundo é a sua, e não tenho dúvida
nenhuma a respeito disso. A menos, é claro, que você consiga, por um breve
momento que seja, calar o seu coração e levantar os olhos para além dos limites
de si mesmo. Não é preciso ir muito longe, porque o mundo, este terreiro de horrores, não tardará no favor de lhe mostrar a desgraça alheia,
muitas vezes histórias bem piores que a sua e que talvez até lhe anestesiem um
pouco a tal dor da primeira linha ali atrás.
Dia destes li a entrevista de um escritor
brasileiro, em revista de grande circulação. Um simpático senhor que tive a oportunidade de
entrevistar mais de uma vez, inclusive, e que passou pelo drama de perder um filho.
A morte é sempre trágica para os pais que ficam, e
dolorosamente sem remédio para a família amputada, para os irmãos que tornam-se
“ímpares”, sem par devido à ausência daquele insubstituível que se foi. Como
dizia minha mãe, “um filho jamais substitui o outro”. E eu lhe digo: um irmão também não.
Mas o que me chamou a atenção na entrevista foi aquilo passível de ser sentido, mas que, quando dito, faz-se
absurdo. Algo mais ou menos assim:
“A Terceira Guerra Mundial não é nada diante do que
estou vivendo”.
Com absoluto respeito ao seu sofrimento, levei um
susto...
Não duvido que caiba toda a dor do universo em um só coração, e quem sou eu para dizer que não? Mas... como é que se mede a dor?
E então a dor somada de
todos os pais do mundo, que por ventura perdessem seus filhos, não seria nada
diante do seu infortúnio? Toda a catástrofe de uma guerra
seria menor? Todo o amor alheio... menor?
Pus-me a pensar. E, como sou jornalista, imaginei logo a cena: a entrevista começou
sobre trabalho, enveredou para a vida pessoal e o homem se emocionou,
esqueceu-se de que falava com um jornalista e abriu seu coração. Deixou falar o
desespero, soltou a frase íntima e impensada que só confessamos a amigos de
verdade, aqueles que entendem as forças de expressão dos nossos piores momentos.
Mas quando é um jornalista quem está do outro lado
do sofá, cada frase ganha outro valor, sobretudo se o entrevistado é famoso, mais ainda se for popular. E frases desesperadas valem
mais, principalmente nas manchetes de jornal...
Espero que tenha sido assim. Que a frase infeliz, vista qualquer que seja o ângulo, tenha sido nada mais
que um desabafo muito bem aproveitado no momento da edição da matéria. Porque a
outra hipótese seria, no mínimo, cruel e arrogante demais.quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
Frase do dia
"O verdadeiro lugar do nosso nascimento é aquele onde lançamos, pela primeira vez, um olhar inteligente sobre nós mesmos".
Marguerite Yourcenar
Marguerite Yourcenar
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
O pai que não censurava
Pleno dia de férias escolares no Rio de Janeiro. O
cinema tem 18 salas, a maioria ocupada por filmes infantis. As filas estão
enormes, e em meio a tudo isso estou prestes a entrar na sala para ver “O lobo
de Wall Street” quando ouço o bilheteiro murmurar, quase suplicante, à pessoa à
minha frente:
E aí, quando alguém levanta a voz para dizer que não pode tanta liberdade na TV, que alguma censura tem que existir para ajudar os incapazes a botar um limite na situação, a horda é quem grita, sobretudo na imprensa, para dizer que censura é coisa do diabo. Calma, devagar aí: tudo vai depender de como se faz as coisas. Censurar a informação é sim, coisa do diabo, mas censurar o sexo, a sacanagem, a violência e os interesses das grandes empresas nos meios de comunicação de massa é outra bem diferente. Ou não é?
Uma coisa é certa; dar liberdade total a quem não sabe o que fazer com ela só pode acabar em problema, e dos sérios. Não é assim que se educa alguém? E se os pais que temos aí também carecem de educação... como é que vão dar aos seus filhos o que não têm?
-- Senhor, este filme é pra quem tem mais de 18
anos...
O lance é o seguinte: ali está o
homem, de mais ou menos 45 anos, e o filho, de cerca de nove ou dez, ambos com um saco
de pipoca enorme e um copo de coca-cola gigante nas mãos.
Silêncio constrangedor. O homem encara o bilheteiro
com um olhar vazio naquela pausa que parece durar duas horas. O rapaz insiste.
-- Dezoito anos. Filme pesado...
O homem volta o olhar vazio para o garoto e faz
sinal de “vamos” com a cabeça. E vão.
Incrédula, e já esperando o pior, não aguento e pergunto ao bilheteiro
que filme estão indo ver, e não deixo de notar um certo inconformismo em sua
voz.
-- O “Lobo”...
-- Mas o filme não é proibido para menores de 18?
-- Senhora, a última palavra é do pai. Se o pai
autoriza, a lei não proíbe, e a criança pode assistir um filme como este aí,
cheio de cenas de drogas e de sexo...
Em suma: o tal pai saiu de casa para levar o filhote ao cinema nas
férias, mas em lá chegando... não teve saco de ir ver um filme infantil... e levou o garoto pra
encarar um filme adulto mesmo. E ele que
se divirta com a pipoca, ora bolas!
Lá dentro, a
história de três horas tem muito estresse, muita cocaína, balinha, festa do “tá
todo mundo pelado”, muito grito, muito cigarro, muita bebida, muita sacanagem de naturezas diversas... muito de tudo
o que um pai, em sã consciência, jamais aproximaria do imaginário
de um filho de nove ou dez anos.
O filme é muito longo e cansa, é bem verdade. Di
Caprio está cada vez melhor, o que não nos surpreende. As cenas em que discursa
para seus empregados são incrivelmente metafóricas e nos remetem mesmo a
situações de fanatismo absoluto, como aquele das igrejas evangélicas e seus
pastores eletrônicos, ou de como deve acontecer nas matilhas de lobos de carne
e osso, prontos para a caça e espumando o apetite pela carne dos cordeiros...
tudo a mesma coisa, no final.
E eu via o filme e pensava no garoto de nove ou dez
anos, em alguma poltrona do cinema, assistindo tudo àquilo... como estaria
processando aquelas informações bizarras e incompreensíveis, que jamais sairiam de seu cérebro? De
que forma elas voltarão à tona, em algum momento do futuro? Angústia? Revolta? Imitação?
Não bastasse a criançada engolir tanto lixo na TV
aberta e na TV a cabo, nos jogos eletrônicos e até na literatura
infanto-juvenil, que já está descobrindo o nicho violência/sangue/morte/etc, não
me surpreenderei se virar lugar-comum criança em filme para maiores, já que não é a primeira vez que vejo uma situação como esta. Talvez os
pais avaliem que, se as novelas já mostram tanto sexo escancarado e tanta
mau-caratice, os filhos podem ver tudo.
No final das contas, concluo, é isso que dá a
censura ficar a cargo dos pais, os guardiões do bem estar da criança... e que,
infelizmente, nem sempre têm condições intelectuais ou afetivas para
desempenhar tal papel.E aí, quando alguém levanta a voz para dizer que não pode tanta liberdade na TV, que alguma censura tem que existir para ajudar os incapazes a botar um limite na situação, a horda é quem grita, sobretudo na imprensa, para dizer que censura é coisa do diabo. Calma, devagar aí: tudo vai depender de como se faz as coisas. Censurar a informação é sim, coisa do diabo, mas censurar o sexo, a sacanagem, a violência e os interesses das grandes empresas nos meios de comunicação de massa é outra bem diferente. Ou não é?
Uma coisa é certa; dar liberdade total a quem não sabe o que fazer com ela só pode acabar em problema, e dos sérios. Não é assim que se educa alguém? E se os pais que temos aí também carecem de educação... como é que vão dar aos seus filhos o que não têm?
As condições intelectuais estão em falta sim, pois há muitos pais ignorantes por aí, que não alcançam que criança não é adulto, que
filho não é amigo, que educar exige dizer não. Gente que fez mestrado e doutorado, que tem muito dinheiro no banco... mas discernimento não tem nada a ver com dinheiro ou com títulos acadêmicos, e no final, o que acontece é que sobram pais despreparados e para quem tudo é normal demais, gente que não entende que a mais valiosa herança que se deixa para um filho é a boa educação e uma cuca legal, com autoestima no lugar e fé no futuro.
Mas como ter autoestima no lugar ou fé no futuro assistindo coisas horrorosas na TV e no cinema? Como, se os pais não desempenham seu papel de educadores, e ao invés disso bancam os coleguinhas?
E claro, faltam a estes pais as condições afetivas porque, infelizmente, não são poucas as pessoas que botam filho no mundo apenas porque necessitam de alguma coisa que lhes ocupe a vida... mas no fundo, não têm amor nem paciência, nem vontade nem disposição para educar de verdade: e aí criam filhos literalmente sem-educação, sem limites, sem cuidados. Compram o afeto dos rebentos com dinheiro vivo, porque isto é mais fácil do que educar de verdade. Temos aí uma legião de ricos sem educação para comprovar o que estou dizendo.
E é assim que o mundo vai ficando cada vez mais parecido com o
filme do Leonardo Di Caprio: uma imensa matilha de lobos que só pensam em
diversão e em devorar quem for preciso, em nome da própria satisfação. Mesmo
que seja a infância do filho de nove ou dez anos, e este filho, quando crescer, há de
fazer pior ainda, pois terá aprendido muito bem a sua lição.Mas como ter autoestima no lugar ou fé no futuro assistindo coisas horrorosas na TV e no cinema? Como, se os pais não desempenham seu papel de educadores, e ao invés disso bancam os coleguinhas?
E claro, faltam a estes pais as condições afetivas porque, infelizmente, não são poucas as pessoas que botam filho no mundo apenas porque necessitam de alguma coisa que lhes ocupe a vida... mas no fundo, não têm amor nem paciência, nem vontade nem disposição para educar de verdade: e aí criam filhos literalmente sem-educação, sem limites, sem cuidados. Compram o afeto dos rebentos com dinheiro vivo, porque isto é mais fácil do que educar de verdade. Temos aí uma legião de ricos sem educação para comprovar o que estou dizendo.
terça-feira, 21 de janeiro de 2014
A armadilha do "amor incondicional"
É muito fácil dizer que filho a gente ama incondicionalmente.
Não tive filhos, desconheço o amor materno, mas de amor verdadeiro entendo bem, e de
observação... idem.
E é aí que o tal do amor incondicional esbarra na vaidade, a vaidade nojenta e pegajosa que sempre se disfarça de sentimentos nobres como respeito, fervor, compreensão e amizade... e que infelizmente nem sempre os pais têm dentro de si para doar aos filhos, principalmente se estes filhos não corresponderem à imagem idealizada que pai e mãe gestaram na placenta junto mesmo com o feto, e que foi parida como ele como uma irmã-gêmea, e que cresceu ali, lado a lado, um membro a mais na família, uma tortura para aquele que está sempre como perdedor, e que por mais que nade depressa, jamais chegará em primeiro lugar.
O filme “Pais e filhos” trata do assunto pondo em
xeque-mate duas forças muito grandes: este amor aí, dito incondicional, e o
famoso “laço de sangue”, aquele que nos aproxima de pessoas que, lá no fundo da argila que nos constitui, não têm mesmo nada a ver com a gente, mas fazer o quê? "Amor de sangue,
sabe como é... não quebra nunca e aceita tudo..." será mesmo? Tenho cá as minhas
dúvidas.
Filho, dizem, é uma coisa doida, uma coisa imensa
que toma todos os cantinhos da nossa alma, e ai que horror que deve ser a vida
sem ele! Filho é alegria, é maravilha, é sonho e realização de tudo o que a
gente sonhou pra gente mesmo, mas não deu conta de realizar...E é aí que o tal do amor incondicional esbarra na vaidade, a vaidade nojenta e pegajosa que sempre se disfarça de sentimentos nobres como respeito, fervor, compreensão e amizade... e que infelizmente nem sempre os pais têm dentro de si para doar aos filhos, principalmente se estes filhos não corresponderem à imagem idealizada que pai e mãe gestaram na placenta junto mesmo com o feto, e que foi parida como ele como uma irmã-gêmea, e que cresceu ali, lado a lado, um membro a mais na família, uma tortura para aquele que está sempre como perdedor, e que por mais que nade depressa, jamais chegará em primeiro lugar.
Facílimo amar alguém que corresponde às nossas
expectativas, seja este alguém um filho, um pai, um irmão, um amigo, um parceiro
amoroso, um escritor, um presidente da república e até um deus.
Difícil é amar acima das diferenças. Aceitar a
frustração que o outro, ao ser quem é, nos provoca. Amar sem ódio, sem desejos
canibalescos de destruição. Amar acima das mágoas propositais ou não; perdoar o
outro por ele ser fraco aos nossos olhos, ou por não atender às súplicas da
nossa vaidade e não conseguir ser uma cópia fiel do que nós somos ou gostaríamos (tanto!) de ser.
Este é o amor incondicional, que pode certamente
ser provado e vivido em nossas relações profundas, independente do laço de
sangue, que não raro nos prega peças tremendas e sem solução. E por que somente os filhos teriam a primazia de merecê-lo? Será que somos tão egoístas a ponto de amar verdadeiramente somente aquele que saiu de nós, e que por isto mesmo é parte de nós sobre a Terra? Mas este é um amor de si para si...
O filme “Pais e filhos” tem ainda o mérito de
mostrar que não somos, necessariamente, “como nossos pais”, como cantou o poeta
Belchior: mudar de rumo pode ser uma
questão de opção. Exatamente como amar sem esperar nada em troca... amar o outro justamente pelo que ele é; taí a
melhor parte do amor, aquela que nos liberta em vez de nos fazer cativos da vaidade e da tirania.
Para ver o trailer, clique o mouse na bolinha (indicador de tempo) caso a tela fique verde
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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
Luxo de verdade
Qual é a graça de ouvir um passarinho que canta preso dentro de uma gaiola? Não é um canto, pode acreditar: é um choro, um lamento, um repúdio, um xingamento, um impropério, uma vontade de morrer; é tudo, menos um cantar!
E me admira que alguém se regozije em colecionar... pássaros! E em trancar numa gaiola todos os voos que eles poderiam dar...
O moço aí de cima, este sim celebra o estar vivo, e seu gogó é uma fanfarra, é uma banda de carnaval. Tem mil rasantes sob a asa, mete este bico onde bem quiser...
E eu, de minha parte, desfruto do luxo de ouvir diariamente um canarinho livre, um bem-te-vi e outros que minha ignorância não sabe nomear. Acho que voltam por saber que nada aqui os aprisiona ou fere; minha varanda é um porto-seguro no céu.
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
A saúde carioca é Terra de Marlboro
Dias atrás estive, pela primeira vez, em um dos
maiores hospitais municipais do Rio, e me senti em um daqueles filmes de guerra
que mostram os hospitais improvisados em acampamentos cheios de gente, de
confusão, de carência, de barulho... lugares onde o alívio parece tão improvável
quanto a cura.
Eu olhava a fila indiana de macas pelos corredores,
os pacientes enrolados em lençóis e cobertores velhos, tecidos com o fio da
resignação... e aqueles que esperavam horas, talvez dias, por um atendimento;
alguns com a sorte de uma cadeira onde se sentar, na sala abafadíssima, outros
de pé, esgueirando o cansaço pelas paredes.
E olhava as instalações, de uma precariedade
inimaginável para quem tem a felicidade de desfrutar de um plano de saúde
privado neste Brasilzão de meu Deus... sentia no ar um cheiro abafado, talvez mistura de calor, de água sanitária, de
remédio ou justamente da falta dele, de desesperança e de pobreza.
Mas no meio de tudo isso havia os heróis da rede
pública, aqueles caras que de fato examinam o paciente, em vez de apenas
assinar uma receita de antibiótico e gritar “próóóximo!” com o carimbo da
indiferença no olhar, e que não pagam substitutos em início de carreira para que
lhes cubram os plantões.
Em meio ao que me parecia um verdadeiro caos e me
provocava calafrios pela espinha, os doutores caminhavam numa desenvoltura quase
majestosa, e era bonito de se ver. A pobreza generalizada, na forma de mofo
pelas paredes, de falta de equipamentos e de remédios, de refeitório que virou
sala de espera, de improviso por toda parte, de gente extremamente humilde e
submissa à necessidade... nada disso parecia lhes melindrar.
-- E o Fluminense, hein, ô negão? Ô time de sorte...
-- Fluzão é time de fé, meu rei...
O papo rolou entre o médico (meu amigo) que vinha pelo corredor
e o enfermeiro que voltava; entre ambos, a maca que carregava o acidentado
grave. O doutor percebeu meu espanto e explicou:
-- Aqui, se a gente olhar só pra desgraça, não
consegue fazer nada.
Dias depois, dei entrada em um dos melhores
hospitais da cidade para um procedimento cirúrgico estético, na mão de um
bam-bam-bam dos bisturis. Era pra ficar apenas uma noite no hospital cinco
estrelas, mas decidi ficar cinco para favorecer o pós-operatório.
Quando saí, mal conseguia falar ou respirar, dado o
nível de fraqueza: a comida talvez fosse ótima, mas o fato é que eu não conseguia
comer pratos como “linguado ao molho de ervas aromáticas” depois de uma
cirurgia! O café da manhã era realmente sofrível, e tudo o que eu queria era um chá, uma torrada, uma fatia de
mamão... seria pedir demais?
Na hora do almoço, como é que eu, cheia de fios nos braços, ia partir o bife? A
enfermeira colocava a bandeja na mesinha ao lado da cama e vupt! Saía do quarto
antes que eu pudesse pedir que me ajudasse a comer.
As bandejas voltavam intocadas para a cozinha, e
ninguém naquele hospital chiquérrimo apareceu para saber o que estava
acontecendo. Chamei a nutricionista e implorei por uma sopa, um bife grelhado
que já viesse picadinho, um legume no vapor. Ando pensando em procurar a
instituição e me candidatar ao emprego dela...
As enfermeiras são um capítulo à parte. Afora três,
que me trataram bem, todas as outras foram surpreendentes. Senti, no ar, o
ressentimento de algumas delas, que pareciam odiar seu trabalho e acabavam
descarregando seus sentimentos represados no paciente... que no caso era eu
mesma, que tomei quase todas as injeções para dor, gelatinosas e dolorosíssimas,
no mesmo braço. Eu colocava o travesseiro no rosto para gritar, pode uma coisa destas? E tomei banho
de água fria, e cheguei a ficar sem remédio... e houve dia em que tive que quase implorar pelo
banho.
Já em casa, dei graças a Deus por finalmente estar
livre dos maus-tratos, e embora recebesse tratamento vip do “enfermeiro
particular”, passei dias desesperada entre dores e cansaço. Liguei para o
médico. Não o que me operou, mas sim aquele amigo que dá plantão nas
emergências cariocas. E descobri que estava sem remédio para dor e sem
tratamento para a anemia que se instala imediatamente, quando a gente perde
muito sangue em uma cirurgia.
Como se vê, mais uma vez é impossível não voltar às palavras da dra. Vera, minha sábia
amiga octagenária, médica politizada e engajada, que sempre me diz que a saúde carioca é terra de Marlboro:
-- Fernanda, no Rio de Janeiro, não importa se é
rico ou se é pobre, se tem plano de saúde ou se vai pra rede pública: a gente
tem é que rezar muito pra jamais cair na mão de um médico ou na cama de um
hospital.
sábado, 11 de janeiro de 2014
Eugênia de Pistache
Pistache faz lembrar o vestido verde de Eugênia.
E esta quase dor do sorvete em minha língua traz de
volta o gosto de Eugênia em minha boca, Eugênia toda aflições, Eugênia toda o
corte que ficou íntimo da carne,
feito íngua.
feito íngua.
Já passa das nove na vidraça e imagino a centopeia invisível em algum lugar do gramado, a centopeia e suas cem pernas de Eugênia Fugitiva.
Pernas de Eugênia arrebentam a porta, invadem a
casa, enroscam-me o pensar além das duas carnais que o são (e além das cem imaginárias). Duas, como se fossem mais
de cem não se sabe onde, pernas fugitivas.
E até a vidraça, tinta de negro por esta noite
implacável de ínguas e desesperos, torna a pôr Eugênia dentro de
casa. A vidraça escura como os seus cabelos, na noite úmida como seu púbis sob a
toalha; a madrugada que virá, opaca como a sombra sua, nos ladrilhos amarelos do banheiro.
Além do vidro, vejo a cor do seu vestido tomando a
copa das árvores.
Um vestido verde que exibia a timidez dos seios
e pequenez das ancas;
Que enroscava as duas pernas e as invisíveis noventa e
oito.
E o pequeno par de brincos (tão baratos) que lhe
feriam o lóbulo, lembro bem;
Eu era como um brinco que se vê comprado na feira
E que vive da desgraça de ser apertado demais,
E de apertar, e de ferir, e de quase beirar à
asfixia
E deixar imóveis as duas pernas de quem o usa,
E imóveis as demais noventa e oito.
Eu sempre soube serem cem,
Prontas à fuga repentina.
Sempre soube que era de dores aquele beijo de
pistache.
Hoje, nem sombra de Eugênia,
Só luz sobre os ladrilhos do banheiro.
E meu destino, negra noite,
Escura como seus cabelos,
Úmida e pequena como seu púbis sob a toalha.
(Fernanda Dannemann)
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
Álbum de família
Gosto de filmes em que as atrizes não estão
preocupadas com o make-up, e em “Álbuns de Família”, estrelado pela dupla Maryl
Streep e Julia Roberts, é a verdade nua e crua que está na tela: as rugas e os
cabelos brancos de ambas as divas e também desta instituição que muitos ainda
insistem em chamar de “perfeita”, e que ali naquela história está com as
neuroses, ódios e cobranças bem arreganhadas diante da plateia, que muitas
vezes sente desconforto talvez porque se lembre de sua própria casa, não raro o
local eleito para receber todas as neuroses em estado bruto de cada membro do
dito clã.
Pois eu adorei o filme que meu amigo chamou de “casa
de loucos”, o que, em minha opinião, é justamente o que toda família é quando
vista de pertinho, inclusive as mais felizes, as mais respeitáveis e as mais
endinheiradas. Sem exceção. Nunca acreditei naquela felicidade idílica de “Os
Waltons” (quem tem mais de 45 sabe do que estou falando).
Bem... o pai desaparece, a mãe é viciada em
remédios, as três irmãs são de planetas diferentes. A
amizade inabalável entre a mãe e sua irmãzona do coração a tudo suporta... há
também o bode-expiatório da família, que não poderia faltar, é claro. E tem a
empregada-santa, que faz milagres. O enredo, como se vê, não traz nada de novo
e parece quase ter saído das páginas de Nelson Rodrigues.
Mas a interpretação de Julia Roberts e de Maryl
Streep são um deleite. Dei gargalhadas no momento em que Julia, tal
qual um felino, salta da cadeira direto no pescoço de Maryl e ambas rolam pelo
tapete, aos tapas. Qua´, quá, quá! Se era pra chorar, não deu.
Família, infelizmente, não é só paz e amor. Aliás,
muito pelo contrário, embora os moralistas se recusem a aceitar. Família, na
maior parte das vezes, é um poço de neuroses, e o cinema é quem tem coragem de
mostrar isso com todas as suas cores e palavras, embora na vida real o povo
ainda perca tempo na tentativa surreal de bancar o parente próximo do John Boy
(olha os Waltons aí de novo!).
O amor está ali, é claro, mas somos todos seres humanos e esta é a nossa desgraça: ainda não somos santos e não conseguimos, simplesmente, dar amor sem esperar nada em troca. As famílias são o berço da arte de trocar, de cobrar, de frustrar e de ser frustrado, o berço do ciúme e da inveja porque, afinal, a civilização começa ali, junto com as paixões mais verdadeiras, que são a raiz de toda a desavença. Amor & ódio, afinal de contas, seguem pelo mudo de mãos de dadas. Quem poderia afirmar que Caim não amava desesperadamente seu irmão Abel?
O amor está ali, é claro, mas somos todos seres humanos e esta é a nossa desgraça: ainda não somos santos e não conseguimos, simplesmente, dar amor sem esperar nada em troca. As famílias são o berço da arte de trocar, de cobrar, de frustrar e de ser frustrado, o berço do ciúme e da inveja porque, afinal, a civilização começa ali, junto com as paixões mais verdadeiras, que são a raiz de toda a desavença. Amor & ódio, afinal de contas, seguem pelo mudo de mãos de dadas. Quem poderia afirmar que Caim não amava desesperadamente seu irmão Abel?
sábado, 4 de janeiro de 2014
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
Pra começo de tudo...
Tempo
(Carlos Drummond de Andrade)
"Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um individuo genial.
Industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar
e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação
e tudo começa outra vez, com outro número
e outra vontade de acreditar
que daqui para diante tudo vai ser diferente.
Para você, desejo o sonho realizado,
o amor esperado,
a esperança renovada.
Para você, desejo todas as cores desta vida,
todas as alegrias que puder sorrir,
todas as músicas que puder emocionar.
Para você, neste novo ano,
desejo que os amigos sejam mais cúmplices,
que sua família seja mais unida,
que sua vida seja mais bem vivida.
Gostaria de lhe desejar tantas coisas...
Mas nada seria suficiente...
Então desejo apenas que você tenha muitos desejos,
desejos grandes.
E que eles possam mover você a cada minuto
ao rumo da sua felicidade".
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