segunda-feira, 14 de abril de 2014

On the road again


Quer treinar o espanhol? Venha para a Flórida. Todas as vezes que tentei falar inglês por aqui, foi em vão. A Flórida é latina, seja no povo, na música, na cultura e na língua que se ouve pelas ruas. A gente nem se dá conta de que está nos Estados Unidos. Miami e Orlando são a América Latina que deu certo. Romero Brito está por toda parte, e assim como ele, gringos morenos, que falam inglês com sotaque, fazem a vida por aqui. A maioria com quem conversei veio de Cuba ou da Colômbia, e embora sonhe com a terra-natal me disse sentir-se em casa aqui também.

E uma coisa eu te digo: nunca vi três horas e meia tão demoradas como as que separam Miami e Orlando... as nossas três horas e meia duraram cinco e meia, porque não dá pra fazer este percurso sem passar por Fort Lauderdale e Palm Beach, lugares onde os milionários americanos curtem a praia e seus big iatezinhos. O equivalente a nossa Angra dos Reis, mal comparando...
 
 

Pois bem. Viajar de carro por aqui é bom, porque a estrada é um tapete. Fiquei procurando um buraco, um remendo que fosse, mas não achei. O asfalto é de altíssima, resiste ao tráfego pesado numa “nice”. (Ai, ai...) Passar horas dirigindo um carro no piloto automático, a 110 km por hora, sem se preocupar com curvas fechadas, buracos, vacas na pista, carros enguiçados e motoristas do tipo que aceleram quando a gente dá a seta realmente é uma delícia. Melhor do que ir para os parques da Disney, coisa aliás, que não fizemos... por mais incrível que possa parecer. Ééééé... nós viemos de Marte e somos os únicos seres viventes neste planeta que vão a Orlando e não dão as caras nos parques nem mesmo para babar no Harry Potter.
Ao pegar uma estrada nos Estados Unidos a gente entende um pouco a cultura americana em relação aos carros e às estradas. E por que tantas músicas e filmes fazem referência a deixar tudo para trás e seguir sem rumo. Talvez os carrões não sejam simplesmente um capricho para eles, mas jeito de viver representado pela Harley Davidson.
E Orlando já não é aquele oba-oba de compras, sabe? Aquela coisa looouuuca de comprar um tênis e ganhar o segundo; de comprar duas calças e ganhar a terceira, de ganhar cupons de desconto nas lojas para voltar no dia seguinte... não. A crise de 2008 passou, os brasileiros chegam cada vez mais e os comerciantes locais resolveram dar um arroxo. Mas a brasileirada não liga e compra a rodo pois mesmo assim ainda é vantajoso. Só aviso uma coisa: excesso de bagagens dói demais no bolso: quatro quilos me custariam 200 dólares. Só não custaram porque ali mesmo, na fila do check-in para NY, abri as malas e tratei de rearrumar tudo, fazendo cara de paisagem para os olhares curiosos da fila toda em cima da minha bagagem.
 
Miami é uma cidade enorme, cheia de autoestradas e viadutos, obras por todos os lados, e com frequência o GPS dá uma pirada na batatinha. Nessas horas o estresse vai às alturas porque a gente se sente perdido dentro de um prato de macarrão. Por isso mesmo, nunca, jamais, escrever “Miami International Airport” no GPS. Porque o GPS é burro e não entende que você quer ir para o RENT A CAR CENTER. E aí, como o aeroporto fica no meio da cidade e mil caminhos levam até ele, o GPS vai fazer com você o que fez conosco, ou seja, te levar para a entrada dos fundos, na área de cargas. E aí, meu nego, até encontrar o caminho certo, você já perdeu o avião...



quinta-feira, 10 de abril de 2014

Welcome to Miami

Vou logo avisando: o point de Miami está fora de Miami. Por quê? Porque o famoso Bayside é de uma breguice que não cabe em palavras. Chato, música altíssima, lojas caríssimas... Coconut Grove, por sua vez, só não é um tédio para quem tem bala na agulha pra ser dono de iate e morar pelas cercanias.

Assim sendo, o bom mesmo de Miami é cruzar a ponte e curtir Miami Beach. Melhor dizendo, South Beach, a pontinha deliciosa do sul da ilha, onde o charme art deco se mistura a um azul do céu e do mar que eu nunca vi igual...e que faz a gente pensar nos livros do Gabriel García Márquez... juro que em tais condições de pressão e temperatura quase me senti Fermina Daza, a heroína de "O amor nos tempos do cólera", ai, ai...




Passear por South Beach não tem mistério. Na verdade, toda Miami Beach é muito bem dividida, a exemplo de NY, o que facilita a vida do turista. E então a gente pode curtir a paisagem, o casario e se deliciar com cenas inusitadas como estas aí abaixo. Inglês é idioma que quase não se ouve pelas ruas ou no comércio, e acho que esta é uma das razões pelo crescente turismo brasileiro por aqui. O portunhol é a língua oficial da região. O engraçado é que mesmo quando funcionários de hotéis, lojas ou restaurantes se oferecem para falar em português com os brasileiros, estes em geral se recusam.

Aliás, por falar em portunhol, nunca vi tanto cubano junto. (Pudera, ainda não estive em Cuba). Mas o fato é que acho que em South Beach deve ter mais cubano do que americano por cada metro quadrado. Dá até vontade de dar um pulo a Havana e conhecer aquelas praias maravilhosas e aquele povo simpático, mas aí eu penso na realidade amarga que reina por lá e desisto. Quem sabe um dia crio coragem?

 
 
 
Por enquanto fiquemos com a Ocean Drive, a famosa avenida atlântica de South Beach, cheia de bares e hotéis em prédios antiguinhos, e totalmente livre de arranha-céus e engarrafamentos monumentais...
 
 
A praia é um caso à parte. Pra começar, ela conta com uma esteira emborrachada presa à areia, que serve de passagem para as pessoas caminharem até mais perto do mar...
 
 
A praia é pública, mas não significa que tudo é permitido...

 
E talvez por isso mesmo a praia seja assim tão limpa, tão organizada, tudo tão bonito... a areia parece mais limpa que o tapete da sala lá de casa...

 
Mas há liberdade para a gente ser quem a gente é...


E olha os garotões de South Beach aí...


E tem as sereias do tipo americano...


E os tipos curiosos...

 
Saca a organização da barraca de refri:
 
 
Na orla, vale tudo pra chamar a atenção...


Mas todo cuidado é pouco ao sair de carro, ok?


Melhor alugar uma motoca

 
Ou vá de bike, que aliás o ônibus tem lugar especial para ela e o motorista desce para ajudar a ajeitar a magrela no lugar...



Mas South Beach também tem os seus contrastes...


E seus points são Lincoln Road e Espanola Way, que concentram bares, lojinhas, ateliês de artistas, restaurantes legais e eticétera e tal...


A noite em South Beach é colorida, alegre e mágica...


Tão mágica que parece coisa de cinema, e se a gente não tomar muito cuidado, pode até acabar se esquecendo de quem é...

segunda-feira, 7 de abril de 2014

O valor das férias

Não sei como é que pode, mas tem gente que aguenta, e mais: acha o máximo dos máximos viver sem tirar férias. Pois eu sou do contra. E tão do contra que ainda tiro férias no meio do ano letivo, no meio de um projeto do trabalho, no meio de qualquer coisa... desde que meu corpo ou minha alma peçam arrego. Não me sacrifico a ponto de virar escrava de nada. Corto as algemas e vou. Não é à toa que um dos meus filmes preferidos é o "Pão e Tulipas". Já viu? Se não viu vá ver. Trocando em miúdos, ela se enche e dá um tchau para a casa, os filhos, as plantas e o marido... e vai curtir Veneza em paz.

Já vi muitas, muitas histórias de gente dedicada ao extremo aos compromissos da vida, gente que prefere abdicar das férias pelo prazer macabro de martirizar-se no trabalho contínuo ano após ano, e protelando o descanso como se ele fosse uma miragem no Saara. Sabe como é? Coloca cada ano trabalhado em cima da estante da sala como se fosse um troféu da própria competência. E acreditando mesmo que não pode parar por uns dias porque pode ser que depois se arrependa. E se der problema na empresa? Se na volta a casa estiver uma bagunça total? Se os filhos estiverem anêmicos, mortos de fome, reprovados na escola? Se o marido não tiver nem uma camisa limpa pra vestir? Se o chefe tiver entrado em parafuso? Se os clientes... sei lá? Vai que o planeta pare de girar?

Será mesmo? Talvez, na pior das hipóteses, o medo seja de sair de férias e não conseguir relaxar. Ou de, lá no fundo, não fazer tanta falta assim para aqueles que ficarão...  pode ser o tal apego ao masoquismo da batalha interminável. Há heroísmo nisso, afinal. Um heroísmo idiota, mas fazer o quê?´

Eu, que nunca fui Mulher Maravilha e não nasci pra sofrer, largo (quase) tudo e vou. Na volta eu arrumo a casa, estudo em dobro, faço hora-extra no trabalho, corro atrás do prejuízo, se é que pode haver algum. Mas deixar de curtir a vida por causa de um "possível" arrependimento... isso sim é que é ter motivo pra se arrepender depois!

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Frase do dia

"Toda vez que você diz 'eu sei' está deixando de pensar ou de aprender algo"

                                                                                                      (Albert Einstein)


sexta-feira, 28 de março de 2014

Make love, not lepo-lepo

Diz o Marcos Lúcio: 
 
"Esta piadinha é beeeeeem legal... Lepo-lepo é mau-gosto total! Coisa mais caricata e idiotizante: 
 
 Eles se reencontraram por acaso, uns cinco anos depois do fim. Ela nunca entendeu o motivo do 'pé na bunda'. Ele alegou na época que era por uma razão bem particular. Qual era? Jamais disse. Agora ela tinha a oportunidade de perguntar novamente: por quê? O que tão grave separara os dois? Dessa vez, sossegado pela distância do tempo, ele resolveu falar:

- Me desculpe, mas eu perdi todo o meu interesse no dia que você sugeriu que a gente fizesse um... lepo-lepo.

 - Lepo-lepo???

- Isso, daquela música que fez sucesso na época. Desculpe pela franqueza tardia, mas eu sou um cara que transa, trepa, faz amor, essas coisas. Mas... lepo-lepo??? Pelamordedeus, hein???

E ele foi embora mais uma vez, sem olhar pra trás."


quarta-feira, 26 de março de 2014

Frase do dia

"O mestre não é aquele que vence sempre, é aquele que dá o melhor de si em todas as situações"

                                                                                                  Carlos Castañeda


domingo, 23 de março de 2014

O que seria do vermelho se todos gostassem do azul?

O bichinho de estimação da minha amiga Cíntia é uma gatinha chamada Milk...



E o da minha amiga Lu é um gambazinho chamado Coffee...
 

quarta-feira, 12 de março de 2014

Batatas

Ela descascava as batatas e as colocava no mármore encardido da pia da cozinha.
A porta fechada era uma fronteira viva entre o corredor decorado por naturezas-mortas e a protegia das reclamações do pai, que inundavam a casa, vindas do quarto do moribundo. Foi sempre assim. O pai sempre perdeu muito tempo reclamando da vida e queixando-se da mão de Deus. Viveu os plenos dias e a insanidade, por fim.

A porta se abriu. A mãe entrou na cozinha maldizendo a suposta sujeira dos móveis e lamentando a velhice que lhe apagou os traços. Na sucessão das noites morreram-lhe os sonhos, restando a amargura pelo irrevogável.
Por um momento as vozes se confundiram, se misturaram como se fossem um dueto, e a ouvinte pousou a faca sobre o mármore, deixou cair a batata.
A mãe saiu da cozinha, deixando a porta aberta.

O pai se calou.
Ela retomou as batatas.
Mas o silêncio era pesado, o silêncio era afiado. O silêncio era quase rubro.

A lâmina prata refletiu a luz que vinha pela janela.

A luz.
O pai gritou outra vez em seu quarto.

A mãe gritou outra vez por Deus.
Deus?

A batata tombou na pia, a mão deslizou sobre o mármore.
O mármore frio como uma laje esquecida.

Socorro.

Um grito inaudível e cortante, um grito por Deus.

A luz.

Deus?

A lâmina.
O suplício.

O suplício rubro.

As batatas vermelhas rolando pelo mármore.
A natureza-morta invadindo o espaço da cozinha.

(Fernanda Dannemann)

sexta-feira, 7 de março de 2014

"O ser humano virou salsicha"

Se o blog do Migliaccio é bom, imagina conversar com ele... passado o Carnaval, ele me solta esta frase que virou título de post:

-- O ser humano virou salsicha! Todo mundo igual...
Eu ri, e ri pela expressão de tédio e desânimo na cara dele, e também provavelmente na minha. Pouca gente está se dando conta, mas a TV e as redes sociais estão unificando tudo de uma maneira nojenta. Este desejo humano de ser aceito, “de entrar para o clube” é a mola que acaba com as diferenças. Mas que coisa chata, hein? Que pobreza emocional! É assim que nascem as ditaduras e a ignorância se perpetua.

Por todas estas coisas, eu não aguento mais ver TV aberta, tomei verdadeira ojeriza, acho tudo uma cafonice sem tamanho. Todo mundo fazendo pose, caras e bocas, vendendo a alma pra aparecer no programa do Faustão ou da Fátima Bernardes... ai, ai... credo.
Não vi nada (NADA) de carnaval. Viajei pra Marte. Não, não, viajei pra Saturno, que é mais longe. Certamente haverá por aí uma legião de salsichas que me chame de maluca, mas logrei passar o Carnaval incólume, sem barulho, desfile, vodca, noitaaaaada...

Só por que é Carnaval a gente tem que entrar na dança?
Na Quarta-feira de Cinzas eu estava inteira, pronta para o ano que então começa, e sem ressaca no corpo ou na alma, sem fantasia pra jogar fora ou recosturar, sem precisar fazer desintoxicação com suco verde.  Porque Carnaval é assim, vira cinzas na quarta-feira...
Alguma salsicha de plantão dirá que ando melancólica, e é verdade. Deve ser a TPM, coisa de mulherzinha. Ou de alienígena que não entra na dança dos blocos enfurecidos na cidade colorida.

A salsichada já chegou até mesmo nos desfiles na Sapucaí, onde é triste de se ver a comissão de frente dançando coreografias... eu me recuso!

Alguma salsicha dirá:
-- Ah, mas isso aí é o maior show da Terra, o mundo inteiro tá vendo, tem que profissionalizar, os americanos estão de olho... é muito dinheiro correndo...

Ah, é, é? Dinheiro correndo? E quede o samba no pé? Este é que já correu, e há muito tempo. Fugiu. Até os passistas não podem mais sambar livremente!  
Estão fazendo com o Carnaval o mesmo que fizeram com o futebol: matando toda a raiz e enlatando o que sobra.
O que sobra? É salsicha!

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Amor e futebol têm uma só raiz

Neste mundo que pertence aos "grandes", é muito fácil ser Flamengo ou Fluminense... neste mundo de "vencedores", é muito fácil sonhar com o Barcelona ou o Real Madrid...

Eu quero ver é ser Amééééééééériiiiiiicccccaaaaaaa...

Amor é coisa que não se explica.



quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

"Elton Johnson" no conflito de gerações


Falou minha amiga Talita, que bem poderia chamar-se Lolita:

-- Fui ao show do Elton Johnson!

-- De quem?

-- Do Elton Johnson...

Não, leitor, não fique pasmo. É muito comum que uma moça de vinte e poucos anos confunda o nome do Elton John, mesmo sendo ele...  o Elton John.
Fiz uma pausa na conversa e comecei a divagar, coisa que, sabemos, é a minha especialidade:

Não sei se é porque já passei dos 45, mas o fato é que ando reparando que o tempo é bem relativo, a depender da idade que a gente tenha. Veja só: se você tem mais de 70 anos não há de considerar a Segunda Guerra Mundial um evento pré-histórico, e nomes como Hitler, Stalin e Mussolini não lhe hão de soar distantes como "Matusalém", "Maomé" ou "Adão" e "Eva".
Mas se você (como eu) estiver na casa dos 40 ou 50, a Segunda Guerra já lhe trará à mente as velhas aulas de história, as tardes abafadas dos verões da adolescência... o que é bem diferente da Guerra do Golfo, que acompanhamos ao vivo e à cores pela televisão há bem pouco tempo... mas que, para a turma de vinte e poucos anos, é tão longínqua quanto a Segunda Guerra é para nós. Sacou? Experimente falar em Saddam Hussein com um rapaz de vinte anos e ele, muito provavelmente, não saberá de quem se trata.

Rebobinei a memória: dia destes entrei em uma loja e começou a tocar justamente uma daquelas músicas que marcaram a minha juventude. Não me contive e falei para as duas mocinhas no balcão:
-- Aumenta que isso aí é Dire Straits!
-- Quem?!
-- Dire Straits!!!
Elas fizeram cara de descrédito e foram conferir o nome da banda na capa do CD, que era um mix de bandas diversas. E riram:
-- É... é este nome ai mesmo...
Fiquei incrédula:
-- Vocês não conhecem Dire Straits?!
E elas, em côro:
-- Nãããão...
Passados alguns dias, estava eu conversando com outra mocinha quando ela, contando de sua aventura no Rock in Rio, disse que gostou muito de um “velhinho" que ela não conhecia, que tocou um rock maneiro e a pegou de surpresa.
-- Qual o nome dele?
-- Não lembro...
Depois vim a saber que o tal velhinho era ninguém menos que o Bruce Springsteen...
Parei de divagar e voltei ao papo com a minha amiga Lolita, ou melhor, Talita, que foi ver o show do “Elton Johnson”. Mas não me contive:
-- Escuta... você conhece uma música chamada “My Way”? E uma outra, chamada “In the Still of the Night”? Conhece um cara chamado Frank Sinatra? E um tal de Cole Porter?
Ela não se fez de rogada, a danadinha, que é terrível:
-- E você, Fernanda? Conhece o Jack Johnson?
Calei a boca. E, como quem cala, consente, ela aproveitou meu momento de fraqueza para confessar sua mágoa:
-- Ah, Fê, eu nem sabia mesmo quem era o Elton Johnson, mas quando ele cantou a música da Lady Di eu reconheci. Mas eu fiquei na maior frustração porque ele não cantou a outra que eu conheço e que é a minha preferida...
-- Qual? “Don’t Go Breaking my Heart”?
-- Nãããããooooo... esta daí eu nunca ouvi falar. A que eu queria mesmo era a do filme “O Rei Leão”.



sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O Tempo do Alfredo

                                                                                                      
"Ainda sou do tempo em que viajar para outro país era coisa sem volta, coisa de migração em que a pessoa sozinha era aventureira e, se a viagem fosse com a família, seria mais do que aventureira; seria de risco total conforme fizeram alemães, italianos e japoneses em determinada época para o Brasil. Eles vieram para substituir a mão-de- obra escrava, que havia sido abolida. As condições daquela gente chegando aqui eram terríveis, sendo alojados  nas mesmas acomodações dos escravos já libertos. Alemães não vieram nessas condições, mas vieram fugindo de um sistema político ‘nazismo’ que se impunha gradativamente na Alemanha, até que por fim – duas guerras mundiais.
 
Com essa visão de grandes viagens é que passei a minha infância e juventude e até hoje não consigo entender como uma pessoa sai do seu país, desembarca em um aeroporto do outro lado do oceano e... some numa multidão de desentendidos.

 O estigma de uma viagem para outra cultura, onde as normalidades são absolutamente contrárias às de um país como o Brasil me fariam sentir um estrangeiro no planeta Terra e, não mais um estrangeiro na terra em que nasci, sem falar em outro país, com outra língua e outra educação. Em comum com estes, eu teria a aversão pelo sistema periódico do povo brasileiro e, explico: brasileiro vive de pedaços; cuida mal de tudo e ninguém pensa em preservar nada. Nossa política é exatamente o resultado catastrófico da nossa maneira de viver e não podemos mesmo reclamar disso porque em cada um de nós mora um sentimento de aproveitador de rebarbas. Somos assim, brasileiros para brasileiros, e por isso mesmo tão desprezado em qualquer outro país civilizado do mundo.

Não sou adepto de viver fora do lugar onde nasci e, por mais que admire o sistema organizado de cada país do primeiro mundo, sou daqui, desta terra-de-ninguém.

Pra mim, a senhora Jacy tem razão. Não devemos nos mudar do primeiro ambiente, e pronto. Hoje, acredito que minha família nunca deveria ter saído de Baixo Guandu, onde de certa forma construiu um patamar, apesar de todos os problemas que vieram em seguida. Devíamos ter ficado por lá e criado uma força familiar forte, estabelecido uma fonte de renda e, mantido a vida e os bens até então adquiridos. Teve uma época em que eu quis até comprar, da minha  família, a casa do meu avô, mas desisti e tudo ficou por isso mesmo.

 Ao contrário do que possa parecer, fico sendo mais uma vez seu admirador pelo fato de sua coragem de ter se estabelecido nos Estados Unidos enfrentando tudo o que enfrentou e superou. Que foi audacioso, foi. Eu não tenho este espírito, aliás, sou mesmo é muito medroso para encarar grandes mudanças e, por outro lado (veja como são as coisas) – não fui medroso para me embriagar por anos e anos, sabendo do risco, confiando apenas no ‘taco’, como se diz numa gíria. É admirável a tal confiança, mais admirável do que a coragem de uma pessoa que se mudou de Brasil para os States com a ‘cara e a coragem’, porém – se é que me entende – de resultados absolutamente inversos.
 

 Hoje a minha vida, por muita sorte, ainda pode ser considerada até boa, tendo em vista tudo o que desprezei, e não reclamo desta sorte, mas sei que encurtei “My Way”  -   http://www.youtube.com/watch?v=-vNFbSVlS2I


 Apesar das minhas colocações e confissões, repito que não devemos chorar nesta vida. Ao contrário, devemos é rir, e aqui em casa procuramos sempre, sempre, ver tudo pelo lado do humor; quando não dá, até olhamos pelo humor negro. Sempre humor – bom humor – porque a vida, se você reparar...  a (vida) do vizinho, ela é gozada e dá mais pra rir do que pra chorar. Portanto, colocando-se na pele do vizinho, e de lá olhando a sua própria vida, você vai ver que dá, também, mais pra rir do que pra... chorar.
É issssssssssssso!!!!! "


                                                                               (Por Alfredo Petersen)
                                                                       
                                                                          Texto retirado do blog Barão de Sacocheiro



quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Um homem com saia de oncinha

Sentado no sofá da área-comum do shopping, o rapaz me observava com o olhar desafiador e um sorrisinho de canto de boca, daqueles meio debochados. Não, ele não estava sentado: estava refestelado, tomando todo o conforto do sofá para si, com seus braços, pernas e saias espalhados pelas almofadas, e os pés, de unhas feitas à moda “francesinha”, se alternando num balanço nervosinho.

Sim, o moço estava vestido de mulher, e confesso que num primeiro momento passei pelo impacto da surpresa. Não é sempre que a gente vê por aí um rapaz com cara de rapaz, cabelo de rapaz, corpo e músculos de rapaz... portando uma saia godê e uma sandalinha rasteira. Mas passados os primeiros segundos meus olhos se acostumaram e ele foi naturalmente integrado à paisagem. Mesmo assim, em resposta à minha surpresa inicial, me olhava com cara de deboche e desafio.
Dias depois, tornei a vê-lo, e desta vez na livraria. Usava uma saia longa de oncinha e bolsa tiracolo rosa-choque. Mais que nele, prestei atenção ao redor e percebi que ninguém olhava em sua direção. No começo achei muito bacana que aquele homem de saia estivesse tão “homogeneizado” ali no ambiente, mas então percebi que havia um certo esforço no ar; um esforço coletivo em busca da naturalidade. Era assim: ninguém olhava em sua direção, mas quando ele já estava longe, tornava-se alvo de comentários e risinhos.

Através da livraria eu o perseguia a pretexto de olhar os livros, e enquanto observava a reação das pessoas, peguei-me já sua admiradora: é preciso muita coragem para assumir-se assim, sobretudo em um país como o Brasil. Imagine você a extensão do deserto que este homem atravessou, sem uma gota de água sequer, para chegar onde chegou. E que batalhas teve que vencer pelo direito de ser quem é.
Lembrei do Laerte, cartunista, que admiro muitíssimo não só pelo talento e pela inteligência, mas também por esta coragem, esta audácia... de ser quem é.
Curioso isso... as redes sociais e a mídia criaram possibilidades para que as pessoas se sentissem mais livres, mais espontâneas, mais importantes... mas como o ser humano é autocentrado em demasia, tornou-se uma "vaca feliz" em meio à manada imensa, vivendo nas telas do Face e nas fotos do Instagram como se fosse protagonista da novela das nove, encaixando-se com perfeição ao que se espera dele. Pode estar ferrado por dentro, contanto que por fora haja um “botox comportamental” que segure as aparências. E como todo mundo está no mesmo barco,  a tal rede social cuida para que uns amparem os outros, de modo que todos sejam sustentados em sua hipocrisia.

Não, não me digam que sou pessimista... os dramas humanos não são poucos, nem são secretos; basta só um pouco de atenção para dentro de si mesmo e para quem estiver ao lado. O que mais há por aí é gente com o choro preso na garganta. Gente que não para de contar piada ou de forçar o riso porque, se parar... gente que não se dá a chance de rever a própria vida porque, se fizer isso...
Mas então,  quando aparece alguém como o Laerte, ou como o tal rapaz anônimo do shopping, com coragem para aceitar-se plenamente... como é que reagimos?
Nossa tendência é a crucificação. O escárnio, mesmo que velado. A ridicularização. Será por inveja? 
Veja você que nem os mortos estão a salvo disso: dia destes, vi na Internet algumas biografias de Isaac Newton, Leonardo Da Vinci e Mahatma Gandhi, e ali estavam também os especuladores acerca da orientação sexual dos biografados. A hipótese da possível homossexualidade do trio baseia-se principalmente no fato de que Newton era muito fechado, Da Vinci nunca foi visto com mulheres e Gandhi optou pelo celibato apesar do casamento.

Passei alguns dias pensando em todas estas coisas e no final de tudo me lembrei de uma das frases preferidas do velho jornalista Ibrahim Sued, com quem trabalhei muitos anos atrás, e que não raro era também alvo de especulações ou maledicências. Uma frase que de tão libertadora, pode acalmar as tempestades que se formam no coração dos diferentes:
“Enquanto os cães ladram, a caravana passa”.

Isaac Newton, um dos gênios de quem sou fã

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A maior dor do mundo

A maior dor do mundo é a sua, e não tenho dúvida nenhuma a respeito disso. A menos, é claro, que você consiga, por um breve momento que seja, calar o seu coração e levantar os olhos para além dos limites de si mesmo. Não é preciso ir muito longe, porque o mundo, este terreiro de horrores, não tardará no favor de lhe mostrar a desgraça alheia, muitas vezes histórias bem piores que a sua e que talvez até lhe anestesiem um pouco a tal dor da primeira linha ali atrás.

Dia destes li a entrevista de um escritor brasileiro, em revista de grande circulação. Um simpático senhor que  tive a oportunidade de entrevistar mais de uma vez, inclusive, e que passou pelo drama de perder um filho.
A morte é sempre trágica para os pais que ficam, e dolorosamente sem remédio para a família amputada, para os irmãos que tornam-se “ímpares”, sem par devido à ausência daquele insubstituível que se foi. Como dizia minha mãe, “um filho jamais substitui o outro”. E eu lhe digo: um irmão também não.

Mas o que me chamou a atenção na entrevista foi aquilo passível de ser sentido, mas que, quando dito, faz-se absurdo. Algo mais ou menos assim:
“A Terceira Guerra Mundial não é nada diante do que estou vivendo”.
Com absoluto respeito ao seu sofrimento, levei um susto...

Não duvido que caiba toda a dor do universo em um só coração, e quem sou eu para dizer que não? Mas... como é que se mede a dor?
E então a dor somada de todos os pais do mundo, que por ventura perdessem seus filhos, não seria nada diante do seu infortúnio? Toda a catástrofe de uma guerra seria menor? Todo o amor alheio... menor?
Pus-me a pensar. E, como sou jornalista, imaginei logo a cena: a entrevista começou sobre trabalho, enveredou para a vida pessoal e o homem se emocionou, esqueceu-se de que falava com um jornalista e abriu seu coração. Deixou falar o desespero, soltou a frase íntima e impensada que só confessamos a amigos de verdade, aqueles que entendem as forças de expressão dos nossos piores momentos.
Mas quando é um jornalista quem está do outro lado do sofá, cada frase ganha outro valor, sobretudo se o entrevistado é famoso, mais ainda se for popular. E frases desesperadas valem mais, principalmente nas manchetes de jornal...
Espero que tenha sido assim. Que a frase infeliz, vista qualquer que seja o ângulo, tenha sido nada mais que um desabafo muito bem aproveitado no momento da edição da matéria. Porque a outra hipótese seria, no mínimo, cruel e arrogante demais.