sexta-feira, 31 de julho de 2015

Dois museus imperdíveis em NY

O Metropolitan... é o Metropolitan, e ponto final. O que dizer daquele que talvez seja o museu mais popular no imaginário dos turistas, que já não tenha sido dito? O Met está sempre lotado. Imenso, me faz pensar no Louvre, em Paris, pois ambos têm em comum o fato de que o visitante necessita voltar muitas vezes se deseja ver tudo. A gente se perde lá dentro, seja nos corredores ou na oferta de obras de arte, coisas de todos os tipos e de todos os cantos do mundo.


 
 
 
Foi ali que eu vi, por exemplo, o São João Batista mais impressionante da minha vida, esculpido por Rodin, o mestre francês da escultura.


E vi também, pela primeira vez na vida, um quadro "dele"... (e fiquei petrificada)



Não muito longe, do outro lado do Central Park, temos outro museu imperdível: O Museu de História Natural, que é sensacional...


Conta a história do planeta e do homem, percorre o tempo desde um passado muito longínquo para chegar aos dias atuais, fala dos dinossauros aos índios brasileiros (passando por populações que a gente nunca imaginou). O mundo animal, vegetal e mineral estão lá, em pessoa, num espetáculo que gente de todas as idades fica embasbacada. É um passeio imperdível que merece ser repetido mais de uma vez, se possível.







quarta-feira, 29 de julho de 2015

Guggenheim, meu queridinho

Em NY, o meu museu do coração é o Guggenheim. E as imagens falam mais que mil palavras (ainda que sejam imagens feitas da minha câmera nada profissional).

Independente da exposição que esteja em cartaz, o museu fala por si. Não entendo bulhufas de arquitetura, embora seja apreciadora inveterada do assunto. Imagino, cá com meus botões, que o (mago) arquiteto catalão Antoni Gaudí, meu amigo de alma, também iria curtir este prédio cheio de curvas e reentrâncias, um museu que chega a ser "interativo" com o público porque, à medida que a gente caminha por sua rampa curva, pode ver as obras espalhadas... e as outras pessoas misturando-se ao quadro que se forma. Eu diria que é uma sensação quase mágica, através da qual nos misturamos à arte de maneira muito natural.

Tudo isso além de um café delicioso (que oferece sanduíches deliciosos, e onde vi as duas Coca-colas mais charmosas da minha vida) e duas lojas bacanérrimas, pra gente se divertir vendo objetos de arte curiosos ou engraçados, pra comprar coisas legais a preços módicos ou sonhar com os colares, brincos e anéis maravilhosos e caríssimos, feitos por artistas muito descolados e famosos da cidade.

O Guggenheim é uma "experiência".






 
 

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Meu encontro com Klimt

Nova Iorque tem museus de todos os tipos e para todos os gostos, mas foi virando uma esquina que meu co-piloto viu, em um prédio acima de qualquer suspeita, o nome fatal:

Klimt

Pára tudo! Klimt? Gustav Klimt? Onde, homem de Deus? Quede o museu? Quede a exposição do meu pintor austríaco preferido?

Era um prédio comum, igual a todos os outros da área, e uma entrada tímida. Estávamos no Neue Galerie Museum for German and Austrian Art. Anote aí no seu caderninho, porque vale a pena conhecer, meu bem... fica pertinho do Guggenheim.

Estávamos de bermuda e camiseta, sabe como é... dois turistas turistando em NY. O povo que entrava era do mais alto naipe, todo mundo de terno, um chiquê danado. Mas não consegui deixar para amanhã.

 
Entrei. E levei um choque quando vi o retrato dourado de Adele Bloch-Bauer, que sempre imaginei pequenininho, mas que é enorme... e realmente uma obra-prima. Sentada diante do quadro, perdi a noção do tempo...



Embora contasse com apenas seis quadros de Klimt, a exposição mostrava objetos pessoais, como um caderninho de anotações aberto, e muitas fotografias do artista rebelde da art-nouveau, que retratava mulheres esplendorosas e paisagens com ares de impressionismo; um revolucionário que protestava contra a tradição nas artes e que deu ares modernos a Judith, personagem bíblico, sendo justamente ela uma de suas obras-primas.

Ver de perto o caderninho de anotações de Klimt, alguns de seus rabiscos sem nexo... vou te contar: foram os 44 dólares mais bem gastos da viagem.
 
 

terça-feira, 14 de julho de 2015

Uma tarde no Whitney Museum of American Art

Confesso que não sou o tipo de pessoa que passa um dia inteiro dentro de um museu... as ruas da cidade me interessam mais. Mas também não sou imune ao encantamento que eles provocam na gente, às histórias que eles contam. Assim sendo, os museus sempre fazem parte do meu roteiro. Desta vez conheci o Whitney Museum of American Art, criado pela riquíssima Gertrude Vanderbilt Whitney nos anos 30 e que recentemente ganhou esta nova sede, por si só uma obra de arte.

O Whitney foi criado para expor arte contemporânea, e foi ali que pude ver um quadro do meu querido Pollock e, pela primeira vez ao vivo de Wahol. A ideia, pelo que entendi, é contar a história americana. Na exposição "America is hard to see" (É difícil ver a América) estão as questões raciais, o feminismo e a imigração, a tecnologia, o capitalismo e a massificação, a glamourização do cinema, a ditadura da estética, a guerra... e, do lado de fora dos mirantes de vidro, a Nova Iorque em constante mutação: esta talvez a maior obra em exposição no museu.








































quarta-feira, 8 de julho de 2015

Nova Iorque no calor

Delícia passear em NY no calor! Mas antes que a temperatura fique insuportável,  veja bem!
 
Na falta da praia de Ipanema, o jeito é curtir a ioga na academia ao ar livre da Times Square!
 
 

E no Central Park tem teatro ao ar livre também. E de graça...


Passear pela High Line é outro programa mais gostoso no calor. Pra quem não conhece, High Line é uma antiga linha de trem que foi transformada em jardim suspenso. Ao redor, prédios e fábricas... um modo inteligente que NY encontrou de valorizar sua história e criar mais um espaço público aprazível na cidade.








Caminhar sem rumo continua sendo um dos meus programas favoritos. E uma rua assim, como esta, aparentemente sem atrativo nenhum, é cheia de bares e lojas muito legais...


Olha o calor aí, genteeeee!!!!


Quando cai a chuva repentina...


O povo entra nas lojas e se abanca pra ler e olhar a rua molhada, lá fora...



Outro programa imperdível é ficar mais de uma hora na fila da Union Square pra comer o lanche do Shake Shak, que é mesmo delicioso...



E depois se refestelar em alguma cadeira confortável, de alguma praça... e ver o tempo passar!



segunda-feira, 15 de junho de 2015

"O amor é o encontro de dois naufrágios"

                                                                                             (Para o meu amor)

Então Freud escreveu: “o amor é o encontro de dois naufrágios”.

E a frase parece que colou-se a mim como uma tatuagem invisível que foi entrando pela pele, sendo absorvida, lentamente, no passar dos dias... e absorvida para sempre. Os sentidos que encontrei para ela não sairão mais porque estão misturados ao meu jeito de ver o mundo e de sentir as coisas. E é assim mesmo que sinto o amor: o encontro de dois naufrágios.
Não sei exatamente o que é que Freud quis dizer com isso; jamais saberei, mesmo que estude exaustivamente sua obra. O sentido exato de sua intenção, ao escrevê-la, morreu com ele. O jeito é fazer, com as palavras, o  que faço com as paisagens coloridas de Van Gogh e com as formas às vezes incompreensíveis da escultura surrealista: encontrar uma porta escondida e entrar, sentir o efeito deste universo novo.

Não limito o amor ao encontro de dois acidentes. Esta é uma visão simplista e que diminui a união dos amantes a uma simples junção de dissabores, como se o enamoramento fosse uma neurótica e infeliz coincidência, uma ligação de maltrapilhos emocionais que compartilham as próprias necessidades.
O amor é o encontro de dois naufrágios porque é uma identificação íntima e espiritual, um enlace feito à revelia dos acontecimentos porque nasce na essência do que realmente somos: aquela parte nossa tão oculta do mundo e que só pode ser vista por um semelhante, um gêmeo, uma metade, um irmão de alma... aquele que nos conhece antes que possamos nos revelar, e nos aceita mais que nós mesmos.

Nossos naufrágios são "nossos" no sentido plural que um casal é, em sua mais pura natureza. Porque o amor é feito de duas alegrias que se juntam, mas é também, eu acredito, o encontro do naufrágio que somos.
 
"O Impossível", escultura surrealista da mineira Maria Martins, hoje exposta no Malba, Em Buenos Aires
 

terça-feira, 9 de junho de 2015

A sabedoria onde menos se espera

Foi minha segunda incursão à Colônia Juliano Moreira. Paradas nas imediações da entrada, ali estávamos, as estudantes de psicologia, à espera do restante do grupo, para o início da visita guiada. Eis que se aproxima o rapaz. É um interno. Vem todo simpático e cheio de cumprimentos. Aperta a mão de várias de nós. Estaciona o corpão ao meu lado, todo sorrisos e, ao me ver de braços dados com minha amiguinha muitos e muitos anos mais jovem, manda na lata a pergunta:

-- É sua filha?
E eu, dando risada, respondo com outra pergunta:
-- Tá me chamando de velha?!
Ele leva um susto:
-- Nããããoooo...
E eu retruco, como se fosse absurdo (mas não é):
-- Vê se pode! Me fazer uma pergunta dessas!
E ele, em sua sabedoria:
-- Não tô te chamando de velha... tô te chamando de mãe!




domingo, 3 de maio de 2015

Entrevista: Monica Dias (e o amor no divã)

Psicóloga há 26 anos, Monica Dias trabalha com terapia de casal há mais de 20. Começou com crianças e aos poucos percebeu a necessidade de ampliar sua escuta às famílias e aos casais. Outro incentivo foram as queixas, bem frequentes no consultório, relacionadas ao casamento ou aos relacionamentos amorosos.  "Acho muito gratificante o trabalho com casais, embora seja bastante difícil", diz ela, "devido ao medo que as pessoas têm".

No entanto, a especialista em relacionamento é categórica:  “É importante buscar ajuda no momento certo para que se possa trabalhar a mudança; quando o casal demora a procurar a terapia, muitas vezes a relação já está muito desgastada, e aí não se pode fazer muita coisa...”



As pessoas temem fazer terapia de casal?
O medo existe sim, porque as pessoas não conhecem muito bem esse tipo de trabalho, não sabem que a terapia de casal é a terapia da relação, e não dos indivíduos, que é uma construção de novos padrões interacionais. O inicio do processo terapêutico pode ser um pouco complicado porque o casal tem que aprender a trabalhar em conjunto, não é só a fala de um, mas também ouvir o outro, que está ali e pode se manifestar. Mas é importante buscar ajuda no momento certo para que se possa trabalhar a mudança relacional. Quando o casal demora a procurar a terapia, muitas vezes a relação já está muito desgastada, e aí não se pode fazer muita coisa...”

Você ouve muitas queixas relacionadas à dificuldade de encontrar ou manter um amor?  
A dificuldade de manter relacionamentos estáveis tem sido uma queixa recorrente no consultório sim. As mulheres verbalizam mais essa queixa, mas os homens também estão sofrendo com isso, embora essa insatisfação, no caso dos homens, apareça de uma forma mais velada porque eles não colocam o relacionamento amoroso no centro de suas vidas, como as mulheres fazem. Mulheres e homens têm se queixado quanto à falta de comprometimento no relacionamento. O que percebo é que, atualmente, existe uma dificuldade de lidar no relacionamento a dois com as demandas da individualidade e da conjugalidade.


Você acredita que esteja mesmo difícil encontrar um par amoroso?
A dificuldade de encontrar um par amoroso está ligada, basicamente, a como compatibilizar os projetos individuais e aqueles construídos conjuntamente. Porém acho que as dificuldades são diferentes em cada etapa do ciclo de vida e o fato de ter tido ou não algum relacionamento anterior mais estável também influencia isso. Então, acho que não devemos generalizar essa "dificuldade para encontrar o par amoroso". Os jovens, certamente, estão menos preparados para os desafios e renúncias de um relacionamento estável e são mais sensíveis aos apelos de uma variedade de opções disponíveis. Em relação às pessoas mais "maduras" temos algumas dificuldades maiores pelo fato de terem menos tempo disponível para as trocas sociais, alguma experiência anterior que pode gerar maior precaução no envolvimento afetivo, e compromissos profissionais e familiares, o que também, pode dificultar a tolerância ao ritmo do outro.
Vivemos em uma sociedade com valores individualistas-igualitários, o que pressiona as pessoas a buscarem a sua realização pessoal e a transitarem por diferentes universos culturais, o que exigiria uma maior tolerância às diferenças, o que, sabemos, não ocorre com frequência...

 Você acredita que o Facebook piorou esta situação?
O Facebook introduz um novo modo de subjetividade e as pessoas ainda estão construindo formas de lidar com essa nova modalidade de interação. Muitos mal-entendidos no Facebook têm a ver com a dificuldade de diferenciar público e privado, e com uma demanda por um imediatismo de resposta que as relações não têm. O ritmo das relações não pode ser só o “meu”, é necessário perceber que o outro tem um ritmo diferente. E nas facilidades das redes sociais, esta dificuldade aparece de uma forma mais intensa... 

Por que as relações amorosas tornaram-se tão superficiais se, ao mesmo tempo, as pessoas querem amar e ser amadas?
As relações são superficiais quando não se constrói vínculos, quando se idealiza o outro ou a relação. Quando as pessoas se relacionam com um modelo ideal, não conseguem se abrir para as possibilidades reais daquela interação. As pessoas deveriam estar mais focadas na necessidade que todos temos de construir vínculos e pertencimentos, e menos em achar o par ideal.
 O que as pessoas hoje em dia esperam de um relacionamento amoroso?
Esperam demais... hoje em dia o relacionamento amoroso está muito idealizado. As pessoas esperam ter um relacionamento pleno de satisfações afetivas, sexuais, intelectuais... não têm tolerância para as diferenças e nem para as mudanças do ciclo de vida. Por isso troca-se tanto de parceiro. O compromisso com a relação é somente enquanto esta pode proporcionar as satisfações esperadas...

 Você acha que a liberação feminina é um fator determinante para o desencontro amoroso? Ou o contrário, ela contribui para a felicidade conjugal?
Não acho que a liberação feminina seja a causa determinante dessas dificuldades, mas certamente a busca da mulher por maior autonomia e satisfação abalou os pilares do modelo de relação no qual a submissão da mulher era pressuposta. Alguns homens se ressentem disso, mas outros já estão percebendo que relações mais igualitárias são mais satisfatórias, embora dêem mais trabalho para serem construídas, porque precisam abrir mais espaço para as negociações.

 Você enxerga a banalização do sexo como uma possível raiz dessa situação?
A banalização do sexo é um mito. As pessoas buscam a satisfação no sexo  porque isso é mais fácil, o próprio organismo ajuda. O desejo demanda novidades, o que é mais difícil de se obter em um relacionamento estável. Existem sexos e sexos... O sexo pode ser uma experiência corporal ou emocional, pode ser uma experiência individual ou compartilhada...

O que você diria a quem deseja encontrar um amor verdadeiro?
Que o amor verdadeiro é uma construção, que ele demanda tolerância e persistência. Às vezes, para se construir um amor verdadeiro, é necessário ter vivido amores não tão verdadeiros... Cada amor vivido nos fortalece, mesmo que a experiência não tenha sido a que esperamos. É necessário saber a hora de apostar e a hora de abandonar uma história de amor.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Aproveita enquanto dura!

"Eu não sou uma princesa", diz Cinderela, ao sair da abóbora transformada em carruagem de ouro, usando um belíssimo vestido azul. E o lagarto, transformado em cocheiro pela fada madrinha da moça dá de ombros, ao constatar que sua realidade também é bem outra:

-- Aproveita enquanto dura!

Como todos sabemos, ela segue o conselho e aproveita o baile e dança com o príncipe até a última das famosas doze badaladas da meia-noite, quando quebra-se o encanto e tudo volta a ser como era antes.

Pois é, leitor, o novo filme da Cinderela tem o mérito de ser fiel à história da nossa infância, e as novas gerações estão conhecendo Gata Borralheira como ela de fato é, sem nenhuma novidade dos roteiristas moderninhos. Gostei. Mas gostei mais ainda foi do conselho do sr. Lagarto, porque é assim mesmo que a gente deveria passar pelos bons momentos, não é mesmo? Aproveitando ao máximo, coisa que nem sempre fazemos...

E quando se fala em bons momentos... aí é que pode estar o equívoco todo, porque eles não são, necessariamente, o sábado ou o domingo; mas o tempo que há entre a segunda e a sexta-feira, e que a gente nem vê passar porque vive mecanicamente entre a correria e a tensão dos compromissos.

Leio na reportagem de jornal que a executiva encontrou 45 minutos sagrados para dedicar à filha, todas as manhãs. E que este é o tempo mais precioso que ela tem em seu dia. Ainda bem que não sou executiva, porque 45 minutos é muito pouco tempo para me fazer feliz, considerando que o dia tem 24 horas.

Leio também sobre a enfermeira que trabalhou anos com doentes terminais, e que percebeu em quase todos eles os mesmos arrependimentos, como por exemplo, não ter trabalhado menos; não ter feito mais amigos e passado mais tempo com eles e com as pessoas queridas; não ter viajado mais, não ter aproveitado mais a vida.

Sabedores de que felicidade é um conceito relativo, e alegria é um estado interno, os bons momentos estão mesmo é espalhados pelo cotidiano... ao menos para boa parte de nós. O incrível é que justamente os mais desprovidos, como a mocinha Cinderela, é que têm olhos para enxergar a beleza das pequenas coisas e se maravilhar com elas. Porque os que têm tudo acabam com o olhar cristalizado e só enxergam o que é excepcional. São menos felizes, portanto.

A festa do dia a dia é estar vivo, e isso por si só já deveria bastar; não importa se você usa ou não uma coroa de ouro e brilhantes sobre a cabeça. E neste ponto da conversa, faço minhas as palavras do sr. Lagarto:

"Aproveita enquanto dura!".


Leia também:

Aproveite o tempo que te resta

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Não olhe para trás

Al Pacino é sempre irresistível com aqueles olhões caídos e aquele charme de italiano feiosão. Quem é que resiste?

Mas o filme "Não olhe para trás", embora prometa, com seu roteiro baseado em fatos reais... só me conquistou mesmo na cena final... que eu não vou contar porque não sou estraga-prazeres.

Músico que parou no tempo e enriquece com meia-dúzia de baladas recebe, 40 anos depois, carta de John Lennon, seu ídolo, elogiando seu talento.

E dai se instaura a crise: o cara quer correr atrás do tempo e do talento perdidos. Quer escrever as músicas que não escreveu, tocar o que não tocou, ser o que não foi... quer mudar tudo, porque o afago de John Lennon lhe mostra o que ele já sabia: passou os últimos 40 anos desperdiçando sua vida e seu talento.

Obviamente que se o filme fosse sério, teria se desenrolado de outra maneira, não importa o que aconteceu com o tal que serviu de base e inspiração para o roteiro. Mas como foi rodado em Hollywood, virou filminho e perdeu a chance de contar uma boa história.

Nosso herói tenta, mas desiste quando tem a chance de ousar mudar o seu destino. Fez a sua escolha, preferindo permanecer em território conhecido e manter os fãs, em vez de arriscar-se a perdê-los. Com isso, perdeu também a oportunidade de renovar-se, e a partir daí, renovar tudo ao seu redor... inclusive (quem sabe) os fãs. Ter outros, ou nenhum. Nosso herói, portanto, coloca-se mais uma vez como perdedor diante da existência, como um dadinho sem força ou sem vontade própria, que cai aqui ou ali... dependendo de onde as forças externas o queiram conduzir.

Seria ingênuo pensar que somos inteiramente donos do nosso destino; mas daí a desistir sem lutar... são outros quinhentos! A mudança exige desapego, meu bem. Exige que a gente deixe para trás muitas conquistas, troféus, tesouros dos mais variados tipos... é preciso desapegar, porque no "novo mundo" que a nossa "nova pessoa" quer habitar não há lugar para velharias como estas, que o nosso orgulho e a nossa insegurança tratam de juntar vida afora.

Mudar a vida é para poucos. "Não olhar para trás" é para pouquíssimos, porque significa mirar adiante e ter a consciência de que, enquanto vivos, somos sim os donos da nossa vontade, capazes de transformação e conquista. Sem olhar para trás e sem chorar pelos erros cometidos, pois o passado não volta e não se transmuta; o passado é somente um trampolim de onde saltamos para os dias que virão.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Eternamente jovem

O tempo é engraçado. Ele passa pra nós, mas nós só o sentimos passar no rosto dos outros. No espelho, somos, no dia a dia dos anos, os mesmos. Dos oito aos 80 anos, somos os mesmos, não percebemos o tempo.

Mas então, aos 47 anos, a gente se mete a dar uma faxina na casa e quase cai morta antes de terminar de lavar o banheiro. E pensa que, aos 24, limpava o apartamento inteiro sem sentir cansaço nenhum: depois de tudo ainda encarava uma noite de dança e amor atééééé... o sol raiar! Se mete a fazer faculdade e quase cai morta também quando acaba a semana de provas... e é assim todo santo semestre, ai que cansaço, essas provas me matam, cruzes!

Pois é. Já contei pra vocês que minha amiga octagenária costumava dizer:

-- Fernanda, envelhecer é uma merda.

E eu ia dizer o quê? Só escutava.

Ainda não cheguei aos 80, mas já começo a entender. Envelhecer é o seguinte: a gente quer continuar levando a vida como sempre,  no bem-bom da juventude... naquela correria de mil coisas, mil planos, um milhão de motivos pra continuar vivo... mas um dia a gente descobre que a vida é finita e que não dá pra fazer tudo. E por dois motivos simples: o primeiro é que o tempo é curto, e o segundo é que o corpo não aguenta.

É, fio... o corpo impõe limites. Quisera eu aguentar namorar a noite inteira! Não aguento. Se não aguento namorar, que dirá estudar?!  Menos ainda!

A força dos 20 anos acaba logo ali depois dos 30, embora a gente, passados os 40, finja que tudo continua bem no Reino da Dinamarca... mas a verdade é que o peso dos anos já cobra sua fatura desde longe, e insistir na ideia de que o corpo é uma máquina que a tudo suporta, pode ser fatal. O corpo não é uma máquina, muito menos a cabeça.

Olha, quer saber? Envelhecer pode ser péssimo, mas pode também ser muito bom e gratificante; tudo depende de como passamos pelo processo.

Cada dia precisa ter o seu valor; a existência deve ter um propósito; a vida não pode ser um desperdício.

A alegria de viver não está contida apenas no "bem-bom da juventude", mas também na sabedoria que a gente vai adquirindo com o tempo... a sabedoria para evitar as roubadas  que aparecem pelo caminho, para "viajar" em estado de plena caretice; e para entender que sim, o tempo passa, e por isso mesmo a gente tem que curtir a vida adoidado, antes que tudo se acabe, tão rapidamente como começou... porque a vida é breve, meu bem. Tão breve quanto pode ser a alegria da juventude.


Eternamente jovens!

domingo, 5 de abril de 2015

Vão-se os dedos, ficam os anéis

Não tem jeito, não tem: ou a gente se desapega, ou o mundo se encarrega de acabar com a gente, mesmo que a miopia não nos permita enxergar que, uma vez apegados, nos tornamos algo muito próximo das nossas propriedades e estamos longe de sermos realmente pessoas, e muito menos livres.

Passamos a vida construindo prisões para nós mesmos, sem perceber. Cada decisão equivocada, um tijolo. Cada atitude de aprisionar o outro, um tijolo. Cada gesto de posse em relação a qualquer coisa, um tijolo...

A vida é movimento, é constante ir, esvaziar, fluir, passar. A finitude está em tudo para nos provar isso todos os dias; nós é que nos recusamos a entender esta mensagem essencial.

Não sei como era no passado, não sei portanto se a situação está pior, o que posso dizer é que nestes tempos que vivemos, a necessidade de posse está se transformando em pandemia. Será um resultado natural do capitalismo? Do individualismo que é marca de como as relações de estabelecem, mesmo nas "melhores famílias"? Será também consequência da (falta de) educação das novas gerações, criadas pela TV, pelas babás despreparadas e pela escola que não dá conta de tudo, já que pais e mães trabalham excessivamente e não têm tempo para conversar e ensinar os filhos?

São muitas as razões capazes de justificar a necessidade de posse, inclusive mesmo o traço pessoal, que vem no sangue.

Tem havido uma distorção tão grande no inconsciente coletivo, que o essencial está trocando de roupa... e vestindo uma fantasia perigosa, transformando os afetos em doença.

As doenças afetivas estão nos relacionamentos nutridos à base de ressentimento, costume, dependência emocional, amargor e até mesmo ódio... mas dos quais as pessoas não se livram, não se desfazem, e apenas por razões atreladas à raiz de um sentimento de posse: culpa, medo, preguiça, egoísmo.

Pessoas vêm e vão nas nossas vidas e delas também, e isso faz parte do ciclo natural da existência. Seja por morrerem ou por continuarem vivendo, um dia elas se vão, ou nós mesmos é que nos vamos, porque ninguém nasceu colado a ninguém, ninguém é dono de ninguém, tudo na vida é uma passagem.

Dói encarar esta verdade? É, eu sei que pode doer sim... mas a liberdade é isso: existe escolha na liberdade, e isso não é indolor.

Mas então, deixa ir! Deixa partir, deixa ir embora, deixa acabar, chegar ao fim.  Quem tiver que ficar, ou que voltar, o fará, e não por sentença sua, mas por escolha da própria pessoa, o que lhe dará a alegria de ser escolhido.

Deixa morrer, deixa seguir, deixa esgotar... sem aferrar-se a mais nada, nem mesmo às lembranças, porque isso é uma forma de morrer também. E sem eleger símbolos da sua saudade... uma xícara, um colar, um vaso... tudo isso passível de se quebrar, de ser roubado, queimado em um incêndio na casa... foram-se os dedos, meu bem, ficaram apenas os anéis...e que importância hão de ter, além do mito de, um dia, terem pertencido a tal pessoa?

Permita-se ir, meu bem! Permita-se partir! Porque ficar, às vezes, é deixar de ser um dedo para transformar-se em um anel.





Leia também:

Saber desistir é uma arte



quarta-feira, 18 de março de 2015

Recaída, o xis da questão

Acendo um cigarro. E outro, e outro. O papo com as minhas amigas, as risadas que damos, o café delicioso... tudo isso me faz esquecer que recaída é assim, é triste assim; a gente fuma e não se importa que fuma; depois volta pra casa tão triste e amargo como o alcóolatra que se deixou levar pela ilusão de um golinho só ao lado dos amigos no bar... e cai no vão sem fundo da noite, onde o brilho dos copos é tudo o que há, além do prazer irresponsável do vício. O vício de se deixar cair.

Cair de novo na ilusão. E pode ser ilusão em qualquer coisa, não precisa ser, necessariamente no cigarro, como é o meu caso. Eu gosto de pitar um cigarrinho com as amigas, de vez em quando, tomando um café quentinho, batendo um papo, e tal... mas depois sempre me arrependo. Quero fazer ginástica, ter os pulmões limpos e leves, a consciência tranquila de quem não se sacaneia.

Mas recaída é assim, deve ser mesmo pulsão de morte... o que me faz pensar na minha amiga, que é tão bonita e jura que sonha com felicidade, mas deu de presente o coração para um homem que a trai repetidas vezes... porque não consegue ser fiel. E ela não consegue partir pra outra, mesmo sofrendo tanto: se ele recai na traição, ela recai em voltar pra ele, só de pensar em ir embora...

Se a gente parar pra pensar, vai perceber que a recaída está em tudo, está nas mínimas coisas, e o futuro é quem mais perde com isso porque o futuro é só uma promessa, uma miragem, uma alucinação. A gente só tem o hoje e entrou numas de que quer ser feliz aqui e agora, porque quase perdemos a fé nesta veleidade que o futuro se tornou em tempos de consumismo tão voraz e absoluto. Então a juventude bebe vodca até morrer, porque a vida não tem mais sentido, ou talvez nunca tenha tido.

A recaída é o xis da questão de nós, que nos sentimos eternos.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Frase do dia

"Se não há desejo, não  há vínculo."

                                                 Lúcia Helena Alves