Não tem jeito, não tem: ou a gente se desapega, ou o mundo se encarrega de acabar com a gente, mesmo que a miopia não nos permita enxergar que, uma vez apegados, nos tornamos algo muito próximo das nossas propriedades e estamos longe de sermos realmente pessoas, e muito menos livres.
Passamos a vida construindo prisões para nós mesmos, sem perceber. Cada decisão equivocada, um tijolo. Cada atitude de aprisionar o outro, um tijolo. Cada gesto de posse em relação a qualquer coisa, um tijolo...
A vida é movimento, é constante ir, esvaziar, fluir, passar. A finitude está em tudo para nos provar isso todos os dias; nós é que nos recusamos a entender esta mensagem essencial.
Não sei como era no passado, não sei portanto se a situação está pior, o que posso dizer é que nestes tempos que vivemos, a necessidade de posse está se transformando em pandemia. Será um resultado natural do capitalismo? Do individualismo que é marca de como as relações de estabelecem, mesmo nas "melhores famílias"? Será também consequência da (falta de) educação das novas gerações, criadas pela TV, pelas babás despreparadas e pela escola que não dá conta de tudo, já que pais e mães trabalham excessivamente e não têm tempo para conversar e ensinar os filhos?
São muitas as razões capazes de justificar a necessidade de posse, inclusive mesmo o traço pessoal, que vem no sangue.
Tem havido uma distorção tão grande no inconsciente coletivo, que o essencial está trocando de roupa... e vestindo uma fantasia perigosa, transformando os afetos em doença.
As doenças afetivas estão nos relacionamentos nutridos à base de ressentimento, costume, dependência emocional, amargor e até mesmo ódio... mas dos quais as pessoas não se livram, não se desfazem, e apenas por razões atreladas à raiz de um sentimento de posse: culpa, medo, preguiça, egoísmo.
Pessoas vêm e vão nas nossas vidas e delas também, e isso faz parte do ciclo natural da existência. Seja por morrerem ou por continuarem vivendo, um dia elas se vão, ou nós mesmos é que nos vamos, porque ninguém nasceu colado a ninguém, ninguém é dono de ninguém, tudo na vida é uma passagem.
Dói encarar esta verdade? É, eu sei que pode doer sim... mas a liberdade é isso: existe escolha na liberdade, e isso não é indolor.
Mas então, deixa ir! Deixa partir, deixa ir embora, deixa acabar, chegar ao fim. Quem tiver que ficar, ou que voltar, o fará, e não por sentença sua, mas por escolha da própria pessoa, o que lhe dará a alegria de ser escolhido.
Deixa morrer, deixa seguir, deixa esgotar... sem aferrar-se a mais nada, nem mesmo às lembranças, porque isso é uma forma de morrer também. E sem eleger símbolos da sua saudade... uma xícara, um colar, um vaso... tudo isso passível de se quebrar, de ser roubado, queimado em um incêndio na casa... foram-se os dedos, meu bem, ficaram apenas os anéis...e que importância hão de ter, além do mito de, um dia, terem pertencido a tal pessoa?
Permita-se ir, meu bem! Permita-se partir! Porque ficar, às vezes, é deixar de ser um dedo para transformar-se em um anel.
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