segunda-feira, 18 de julho de 2016

Meryl Streep dá aula sobre o ridículo


Comprei o ingresso apenas por se tratar de Meryl Streep. Gosto de me aventurar em um filme sem imaginar as curvas da viagem e, mais ainda, ignorando dicas de críticos: ver um filme, pra mim, é como ler um livro ou mergulhar em um quadro; cada um vê e entende ali um mundo de coisas a partir de si mesmo.

O charmosão Hugh Grant, que sempre faz o mesmo em papéis engraçadinhos, desta vez ganhou o meu respeito com uma interpretação comovente e de verdade, para ajudar a contar a história verídica de uma mecenas da NY dos anos 40 que era acima de tudo amante da música e dotada de um coração vivíssimo, apesar de sifilítica e à espera da morte por nada menos que 50 anos! (E se pensarmos bem, quem de nós não vive a vida inteira à espera da morte? A consciência disso é que nos foge, e que muitas vezes nos faz fugir também o valor mínimo à vida... lapso do qual não sofria a sra. Florence Foster, interpretada aqui por Meryl Streep).

Florence ansiava ter voz de passarinho, mas cantava como uma gralha. Por força da bajulação de que padecem os milionários, foi levada a crer encarnar o rouxinol que não era, e daí para o ridículo foi um passo bem pequeno. Mas e o marido, vivido pelo herói Hugh Grant? O marido entra em  cena com um amor tão verdadeiro, que se vê impedido de dizer-lhe a verdade. Sabe a tal “mentira de amor”, aquela que justifica a lealdade de um sentimento profundo e verdadeiro? E aí nos cabe a velha pergunta: cabe mentira quando se ama, ainda que na mais sublime intenção? Aaaaaiiii... as coisas difíceis do coração! 

Na deliciosa interpretação da dama do cinema, a gente não sabe se rola de rir ou se fica comovido. O verdadeiro ator é de fato aquele que domina o ridículo, não é mesmo? A vida real, no fim das contas, é uma velha e bela ridícula, alguém discorda? Feliz é quem sabe fazer do limão uma limonada, de preferência com gelo e açúcar.

O fim da história, quando a cantora se depara com sua verdade, não poderia ser mais bonita: a gente vai até onde pode. Que triste seria o mundo se só pudesse cantar quem nasce Gal Costa! Tantos anos depois de morta, a sra. Florence Foster segue  inspirando as pessoas com seu amor pela música, e lembrando-nos o quanto ela, a música, pode encantar a vida: fui dormir pensando no filme e no dia seguinte comprei uns discos novos. Feliz da vida!
 

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

A libertação no envelhecimento

Estou prestes a completar 48 anos, e a cada ano vivido me pego gostando mais de viver. Chega a ser engraçado -- para não dizer trágico --  que quanto mais me aproximo da "maldita", mais me divirto com a "bendita"... mas é aí mesmo que está a beleza da coisa; e talvez a tal da "sabedoria da idade", embora eu esteja longe de ser sábia ou idosa.

O fato é que envelhecer é um lance muito legal, e é mesmo. A gente tem é que parar de olhar para a idade com os olhos de sempre: doença, dependência, decrepitude, limitação, finitude...

E o lado bom, como é que fica? Independência de pensamento, liberdade interna, perdão, desprendimento, consciência de si, desapego, coragem para saltos inimagináveis, sapiência para ver e ouvir detalhes... e o óbvio, que é o fato de ter vivido, de ter chegado lá, ora pois! Isso não conta? Olha, meu bem... isso faz toda a diferença!

Vejo o retrato da minha avó, aos 50 anos. Era uma velhinha. Toda de preto. Não faz muito tempo que as mulheres de 50 eram velhinhas. As de 60 então... e hoje, no entanto, a mulher de 50 está no auge para desfrutar dos anos que virão cada vez mais consciente e plena de si mesma e de sua vida, de suas escolhas, de suas atitudes e responsabilidades sobre si mesma e sobre seu entorno.

Homens e mulheres descobrem cada vez mais que não precisam apegar-se a um só papel profissional, familiar, social ou sexual. Somos seres mutantes, e o envelhecimento nos dá a prerrogativa, o tempo, a oportunidade, a libertação para mudar de ideia e seguir de outro modo, sem que qualquer cobrança nos impeça.

Se a juventude é uma força da natureza, que nos impele a viver cada minuto com ímpeto e sofreguidão, eu diria que a velhice, que já antevejo, é uma potência ainda mais forte por fazer de nós seres dotados de consciência e liberdade.








terça-feira, 12 de janeiro de 2016

David Bowie e Oliver Sacks ensinam a não temer a morte





Não poderia ser diferente! As últimas gotas de sangue nas veias de David Bowie só poderiam mesmo ser gastas para cantar e gravar um clipe. Fiquei emocionada ao ver o esforço que Bowie, terminal, empreendeu para viver a vida até o fim, chupar a laranja até o bagaço, incluindo o caroço.

A verdade de "Lazarus", impregnada em cada nota, em cada palavra, em cada dobra dos lençóis, em cada ruga no rosto, na dor e na emoção de Bowie ultrapassa os limites da física e vaza pela tela do I-pad. Contagia-nos porque não se trata de um clipe: é a verdade, nua e crua que se estampa frente aos nossos olhos. Ali está um homem cheio de cicatrizes, e no momento em que o assistimos, já canta do céu.

"Lazarus" é um hino à vida. Um aviso, também, deixado a todos nós por alguém que, de tanta sede de viver, jamais se conformou em ser um só. Performático, andrógino, bissexual, metamorfose constante, cantor, ator, produtor, ousou ser muitos em um só e mal coube nesta vida. E avisa-nos, com este clipe derradeiro, que todos os instantes da existência são de inestimável valor.

Tanto quanto Bowie, Oliver Sacks, famoso neurologista inglês morto em agosto último devido a um câncer, foi um sábio amante do viver. Sacks também espalhou-se por outras áreas e foi ainda professor e talentoso escritor capaz de transpor diversas deficiências físicas para o papel de modo muito singular, poético e compreensível para o leigo: falo de pérolas como "O homem que confundiu sua mulher com um chapéu", "Tempo de despertar" e "Vendo vozes", só pra citar alguns. E que, como vimos no final, foi não somente um mestre na arte de viver, mas também na arte  de morrer.

Ao contrário de Bowie, Sacks não era uma estrela das multidões: reservado por natureza, e marcado pela rejeição familiar devido à sua homossexualidade, ganhou maior popularidade fora do círculo acadêmico em fevereiro do ano passado, quando o jornal "The New York Times" publicou uma carta sua  respeito de seu câncer terminal.

A carta era um verdadeiro agradecimento à vida! O reconhecimento do medo, mas também da certeza de haver vivido intensamente.

Bowie e Sacks me ensinaram que a melhor maneira de não temer a morte é viver a vida com a maior consciência e desejo que formos capazes. E eu lhes agradeço por isso.


Leia, a seguir, a carta de Sacks:

"Há um mês, eu sentia que estava em boas condições de saúde, robusto até. Aos 81 anos, ainda nado uma milha por dia. Mas a minha sorte acabou – há algumas semanas, descobri que tenho diversas metástases no fígado. Nove anos atrás, encontraram um tumor raro no meu olho, um melanoma ocular. Apesar da radiação e os lasers que removeram o tumor terem me deixado cego deste olho, apenas em casos raríssimos esse tipo de câncer entra em metástase. Faço parte dos 2% azarados.

Sinto-me grato por ter recebido nove anos de boa saúde e produtividade desde o diagnóstico original, mas agora estou cara a cara com a morte. O câncer ocupa um terço do meu fígado e, apesar de ser possível desacelerar seu avanço, esse tipo específico não pode ser destruído.
Depende de mim agora escolher como levar os meses que me restam. Tenho de viver da maneira mais rica, profunda e produtiva que conseguir. Nisso, sou encorajado pelas palavras de um dos meus filósofos favoritos, David Hume, que, ao saber que estava terminalmente doente aos 65 anos, escreveu uma curta autobiografia em um único dia de abril de 1776. Ele chamou-a de “Minha Própria Vida”.

Estou agora com uma rápida deterioração. Sofro muito pouca dor com a minha doença; e, o que é mais estranho, nunca sofri um abatimento de ânimo. Possuo o mesmo ardor para o estudo, e a mesma alegre companhia de sempre.”
Tive sorte de passar dos oitenta anos. E os 15 anos que me foram dados além da idade de Hume foram igualmente ricos em trabalho e amor. Nesse tempo, publiquei cinco livros e completei uma autobiografia (um pouco mais longa do que as poucas páginas de Hume) que será publicada nesta primavera; tenho diversos outros livros quase terminados.

Hume continua: “Eu sou… um homem de disposição moderada, de temperamento controlado, de um humor alegre, social e aberto, afeito a relacionamentos, mas muito pouco propenso a inimizades, e de grande moderação em todas as minhas paixões.”
Aqui eu me distancio de Hume. Apesar de desfrutar de relações amorosas e amizades e não ter verdadeiros inimigos, eu não posso dizer (e ninguém que me conhece diria) que sou um homem de disposições moderadas. Pelo contrário, sou um homem de disposições veementes, com entusiasmos violentos e extrema imoderação em minhas paixões.

E ainda assim, uma linha do ensaio de Hume me toca como especialmente verdadeira: “É difícil”, ele escreveu, “estar mais separado da vida do que eu estou no presente.”
Nos últimos dias, consegui ver a minha vida como a partir de uma grande altitude, como um tipo de paisagem, e com uma sensação cada vez mais profunda de conexão entre todas as suas partes. Isso não quer dizer que terminei de viver.

Pelo contrário, eu me sinto intensamente vivo, e quero e espero, nesse tempo que me resta, aprofundar minhas amizades, dizer adeus àqueles que amo, escrever mais, viajar se eu tiver a força, e alcançar novos níveis de entendimento e discernimento.
Isso vai envolver audácia, clareza e, dizendo sinceramente: tentar passar as coisas a limpo com o mundo. Mas vai haver tempo, também, para um pouco de diversão (e até um pouco de tolice).

Sinto um repentino foco e perspectiva nova. Não há tempo para nada que não seja essencial. Preciso focar em mim mesmo, no meu trabalho e nos meus amigos. Não devo mais assistir ao telejornal toda noite. Não posso mais prestar atenção à política ou discussões sobre o aquecimento global.
Isso não é indiferença, mas desprendimento – eu ainda me importo profundamente com o Oriente Médio, com o aquecimento global, com a crescente desigualdade social, mas isso não é mais assunto meu; pertence ao futuro. Alegro-me quando encontro jovens talentosos – até mesmo aquele que me fez a biópsia e chegou ao diagnóstico de minha metástase. Sinto que o futuro está em boas mãos.

Nos últimos dez anos mais ou menos, tenho ficado cada vez mais consciente das mortes dos meus contemporâneos. Minha geração está de saída, e sinto cada morte como uma ruptura, como se dilacerasse um pedaço de mim mesmo. Não vai haver ninguém igual a nós quando partirmos, assim como não há ninguém igual a nenhuma outra pessoa. Quando as pessoas morrem, não podem ser substituídas. Elas deixam buracos que não podem ser preenchidos, porque é o destino – o destino genético e neural – de cada ser humano ser um indivíduo único, achar seu próprio caminho, viver sua própria vida, morrer sua própria morte.
Não posso fingir que não estou com medo. Mas meu sentimento predominante é de gratidão. Amei e fui amado; recebi muito e dei algo em troca; li, viajei, pensei e escrevi. Tive uma relação com o mundo, a relação especial de escritores e leitores.

Acima de tudo, fui um ser senciente, um animal pensante nesse planeta maravilhoso e isso, por si só, tem sido um enorme privilégio e aventura.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Carol, sufragistas e escravas da Idade Média

"Carol" é um dos filmes mais bonitos que já vi. Conta a história de um amor impossível, o marido louco de amor pela mulher que o ama e respeita como amigo... mas não o quer.

E vai desnudando aos poucos como se constrói a paixão em brasa entre duas mulheres na Nova Iorque dos anos 50, quando a homossexualidade era assunto a ser discutido por advogados, psiquiatras e juízes... e a vida privada poderia tornar-se um inferno da noite para o dia.

E então a paixão se transforma em amor. E ninguém melhor que Rooney Mara e Cate Blanchett para nos contar esta história, em cenas belíssimas, silêncios e falas muito certeiras, que nos fazem pensar, nós, as mulheres do século 21, a respeito da nossa liberdade... esta liberdade da qual hoje desfrutamos sem pensar, e que foi tão duramente conquistada por nossas ancestrais, irmãs cujo sangue talvez nem tenhamos nas veias, mas que, onde estiverem, são nossas irmãs de gênero e alma. E que sofreram na carne e no espírito limitações tremendas para conquistar este espaço psíquico e social que hoje habitamos.

Dias atrás vi "As sufragistas", filme sobre a luta das feministas do Reino Unido pela conquista do voto feminino no começo do século passado, no qual Meryl Streep faz uma pequena ponta, suficiente para um discurso e a frase "não desista!".

E ali estava a mulher subjugada, dominada, dobrada ao macho, seu senhor e proprietário. Algo bem parecido com o que hoje assistimos, queixo caído, em países do Oriente Médio: o patriarcado em essência.

De novo estavam elas, as marginais que lutavam por seu lugar ao sol, por seu direito à luz, à fala, por seu direito a ter direitos! Algo tão elementar... e no entanto, minhas amigas, foi ontem! Porque não faz muito tempo, não...  Não faz muito tempo que nós tínhamos que nos esconder de tudo, tínhamos que dizer sim a tudo, tínhamos que obedecer a tudo!

E o pior... é que há muitos lugares no mundo onde milhões de mulheres ainda hoje permanecem subjugadas, escravizadas, estupradas por maridos, pais, irmãos e até filhos. Permanecem sem direitos a nada e tendo que obedecer a tudo, a dizer sim a tudo, a aceitar e a viver uma vida de sofrimento sem fim.

Para milhões de mulheres no mundo, o mundo continua sendo aquele, bem anterior à Nova Iorque dos anos 50 e ao Reino Unido das sufragistas: é o universo das sombras da Idade Média, quando o sol girava em torno da Terra e o homem (o macho!) era o centro de tudo...

No conforto da sala do cinema, comendo pipoquinha, esta constatação parece coisa de outro planeta... mas incrivelmente não é.



terça-feira, 5 de janeiro de 2016

O Macbeth de cada um

"Amanhã, amanhã, amanhã..."

A fala de Macbeth, vivido por Michael Fassbender nesta versão cinematográfica de 2015, é dita numa belíssima cena de loucura e morte, dor e despedida, tomada de consciência e arrependimento. Todos estes, os ingredientes da saga dos Macbeth, tão furiosamente tragados pela volúpia da ambição, uma cegueira tão tipicamente humana.

Outra vez os críticos não gostaram. E eu amei. Pensei logo no que aproxima Shakespeare de Machado de Assis. Ambos mais atuais e profundos do que nunca. Conhecedores da alma e das tentações do homem. Sabedores das pequenezas que nos dominam e assolam. Tornaram-se imortais por isso mesmo: o tempo não apaga a voz da razão.

Se Machado sabia que "a ocasião não faz o ladrão, pois o ladrão nasce feito", Shakespeare fazia das misérias humanas as personagens principais de seus escritos. No caso de Macbeth, a tentação, na forma de bruxas, diz ao honrado guerreiro que ele há de ser rei. E o honrado guerreiro, que de honrado não tinha nada, mata o rei e toma-lhe o lugar. Amaldiçoa-se, sem saber, pois não contava ter consciência.

Macbeth trata da tentação diária de todos nós, das mais ínfimas aos maiores horrores.

E quem tiver olhos, que veja. E quem tiver ouvidos, que ouça.


sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Dois pavões na ativa em Copacabana

Era uma loja de CDs em Copacabana, daquelas bem antiiiiiigas e modestas. Fui atraída pela bossa-nova que, em alto e bom saxofone, irradiava lá de dentro.

-- Moço, que disco é este? Quero um, por favor!

O vendedor era um senhor que já ultrapassava os 70, com uma mecha de cabelo coberto por gel cuidadosamente alisado por cima da calva, vã tentativa de disfarce, relojão dourado no pulso e um sapato tipo Vulcabrás. Imaginou?

Mas então... quando o dito-cujo me diz que o disco já está vendido, uma voz masculina se precipita repentina, altíssima, disputando com o saxofone:

-- Nããããoooo... pode vender pra ela!

O homem sorria para mim, de dentro da bermuda pelo menos um número maior e da camisa estampada. Seria um turista? Ao lado dele, uma moça bem mais jovem sorria, acompanhada por dois adolescentes.

-- Faço questão! Pode ficar com o disco!

A cerimônia foi maior que o desejo de comprar o CD:

-- Nãããão, imagiiiiiiina... é o último? Fique com ele, você viu primeiro...

O homem não se fez de rogado:

-- De maneira nenhuma! É seu! TODO SEU!

Contente da vida, e sem ver segundas intenções na situação, me deixei levar pela gratidão:

-- Aaahh, muito obrigada então! Olha, estou tão agradecida que vou lhe dar um beijo!

Neste instante, enquanto me aproximava para um beijinho do tipo "bochecha com bochecha", vi o exato momento em que o espírito do Dom Juan baixou de vez no cinquentão, que se animou todo, já abrindo os braços e se chegando com aquelas mãos "cheias de dedos" para um abraço BEM carinhoso.

Fui mais rápida, beijei uma bochecha só e tratei de me afastar rapidinho, antes que suas asas se fechassem ao meu redor.

Contente com a atenção que recebia, ele atacou outra vez:

-- Você é muito linda, viu? E esta aqui é a minha nora, e estes são os meus netos! Estou disponível! Livre como um passarinho!

Foi aí que me lembrei do Rolando Lero, personagem de sucesso do ator Rogério Cardoso na antiga "Escolinha do Professor Raimundo", e que era a encarnação do sedutor de plantão.

No entanto, o sedutor à minha frente era tão gentil...  e ao mesmo tempo me pareceu tão triste dentro daquele sorriso e daquela camisa estampada... e ainda tinha o agravante de estar acompanhado pela família! Não tive coragem de cortar o exercício de sua veia galante. "Será viúvo?", pensei... e minha compaixão entrou em cena, como um perfume que tomasse o ar. Se a viuvez me parece triste demais para as esposas, me soa como tristíssima para os maridos e suas casas vazias de uma presença de mulher.

-- Netos?! Quem diria...

E encerrei a questão:

-- Muito obrigada pelo CD...

Mas ele insistiu:

-- Adoro um sax! No fim do dia você chega em casa, cansada do trabalho, coloca este disco e prepara um drink... um drink para si mesma! E relaaaaaaxa no sofá! Adoro, viu?

Pensei que dizer que era isso mesmo que eu faria com o meu marido e aquele disco que estava comprando... mas mais uma vez minha compaixão me calou. E pra encerrar de vez o colóquio, dei um aceno de despedida. Ele entendeu que seu tempo havia acabado e se afastou dizendo mais uma vez:

-- Você é muito linda, viu?

No balcão da loja, o vendedor era todo sorrisos. E eu, contente com a compra do disco e também com o elogio do outro, comentei:

-- Ele estava me paquerando, o sr. viu?

 E ele:

-- Você não se ofendeu? Tem gente que se ofende...

-- Claro que não! Vou me ofender com um elogio? Ser paquerada aos 20 é normal, né? Mas ser paquerada aos 50 é um luxo!

Foi aí que o homem, só porque é homem, partiu para o ataque mudando imediatamente a postura corporal, tornando-se repentino um pavão vaidoso debruçado sobre o balcão... e a fisionomia, que portava agora uma expressão à moda Rodolfo Valentino, com a sobrancelha levantada... e a voz, com um recém-adquirido tom de cantor de tango, arriscou:

-- Então quer dizer que gostas de bossa-nova. Moras por aqui?

Procurei minha compaixão dentro da bolsa, mas o frasco estava vazio.

-- Embrulha pra presente porque é para o meu marido, por favor.

E o pavão, talvez só porque seja macho, pigarreou e vestiu outra vez a roupa dos seus mais de 70 anos. Todo respeito.


sábado, 21 de novembro de 2015

Por que voltar a Buenos Aires?

Para tomar um café como este, e pagar o equivalente a R$ 40,00...

 
Comer bem a qualquer hora do dia, e ser bem atendido, pagando muito menos que no Rio...
 
 

Ver uma arquitetura lindíssima, e muito verde misturando-se à paisagem...



Caminhar pela cidade e ter diversão garantida só de olhar, porque tudo é lindo!



Fazer uma consulta com meu médico preferido...




Ouvir um tangão "daqueles"...



E reencontrar velhos amigos!


A foto abaixo foi tirada em 2006, quando eu morava na Argentina e conheci o sr. Alfredo. Todos os dias, a caminho da faculdade onde estudava, eu parava por instantes para vê-lo dançar tango na rua. Um dia ele me convidou para dançar e aceitei. E eis que ele me tascou um beijo na boca!

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Triste lugar para uma mulher

Certas atitudes que cometemos na vida aderem-se a nós como uma segunda pele. Ou uma cicatriz. Uma sombra. São atitudes que mais tarde transformam-se em vergonha ou em arrependimento. Em lamento ou decepção íntima, daquelas que a gente tem a respeito de si mesmo. Sabe como é?

O ex-jogador Gerson, por exemplo, arrependeu-se daquele comercial de cigarros, em que pronunciou a frase fatídica: "Tem que levar vantagem em tudo, certo?". E que o marcou de modo definitivo e injusto.

Acontece com todo mundo... uma cruz às costas, na forma de arrependimento.

Foi justamente num momento em que as mulheres estão em toda parte pedindo reconhecimento aos seus direitos, gritando até pelos poros que não aceitam mais a desigualdade e a violência de uma sociedade onde até elas próprias, mulheres, não percebem seu discurso de opressão, e o reproduzem... num momento em que a lei se volta para a violência contra a mulher, seja através da Lei Maria da Penha e do Feminicídio... pois bem, foi neste momento que a ex-esposa do candidato à prefeitura do Rio, o sr. Pedro Paulo, foi à TV para defendê-lo e dizer que não, "ele nunca foi um cara agressivo".

Opa!

Vitima duas vezes de violência doméstica enquanto casada com Pedro Paulo, Alexandra, mostrou-se extremamente pouco à vontade na entrevista coletiva dada ao lado do candidato, uma tentativa desastrada de salvação de sua candidatura.

Seu mal-estar me contaminou ao vê-la naquela situação, defensora de seu algoz. Queixou-se da imprensa, que transformou a vida dele, dela e da filha de ambos em "um inferno", enquanto Pedro Paulo recorria a argumentos absurdos na tentativa de uma defesa patética. "Quem nunca teve um descontrole?", "Quem nunca teve uma briga em casa?", perguntou ele, com um sorriso entre o desesperado e o ridículo, enquanto ela mantinha a cabeça baixa, atitude que muitos enxergaram como opressão, e eu vi como constrangimento. Um constrangimento (quem sabe?) tão forte que me pareceu também semente de arrependimento...

Esta lamentável situação nos mostra que a revelação da história foi um estrago tão grande, que a equipe de especialistas convocada para lidar com crises não deu cabo do problema.

Mostra ainda que o prefeito, que insiste na candidatura de Pedro Paulo, considera aceitável este tipo de comportamento. E pior: desrespeita as mulheres, ao tentar fazer com que nós votemos em um candidato que bate e xinga mulher.

E mostra que o movimento de libertação da mulher está mesmo apenas no começo. A atitude de Alexandra comprovou isso. Triste.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

O silêncio da dona Marisa

Olha, vou contar uma coisa pra vocês: se eu fosse dona de um jornal importante, ou editora-chefe de uma grande revista, colocaria meus repórteres para trabalhar e mostrar a todo mundo o que pensa a dona Marisa. É, a dona Marisa Letícia, mulher do Lula, que entrou para a história por ter costurado a primeira bandeira do Partido dos Trabalhadores.

"Galega", como é chamada pelo marido, virou mulher invisível: se como Primeira-Dama já não tinha visibilidade, agora como "ex" parece ter saído definitivamente de circulação.

Dona Marisa não aparece... nem mesmo à época do falatório de que o marido teria um caso com a antiga secretária de gabinete, a Rosemary Noronha, que deu a volta ao mundo com ele em missões oficiais, dona Marisa apareceu. E nem para brigar pelos filhos, ou com eles, acusados de envolvimento com propina e corrupção, ela saiu das sombras.

Meia hora de conversa com dona Marisa, mulher que já liderou passeata de protesto nos anos 80 para tirar o marido da prisão, mas que, hoje, não aparece para protestar contra nada... e se eu só tivesse cinco minutos com ela, a pergunta seria simples: tanto silêncio por quê?



Entrevista oportunista em maio de 2003, início do primeiro mandato de Lula. A dita "presença de Marisa", no entanto, não se confirmou como Primeira-Dama, já que esteve sempre apagada e à sombra do marido.
Doze anos e tantos escândalos depois, dona Marisa continua devendo sua presença ao Brasil.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Brasil, reforma urgente!

Henrique Pizzolato, ex-diretor do Banco do Brasil, indicado pelo PT e condenado no mensalão, depois de todo o fuzuê de ter fugido do Brasil utilizando passaporte do irmão morto e ter feito de palhaços as autoridades italianas e brasileiras, finalmente vai  para a Papuda. No entanto, no meio do ano que vem, segundo especialistas, poderá ir para o regime semi-aberto. E note bem: depois de cumprir menos de dois anos de regime fechado.

É por essas e outras que Claudia Cruz, mulher do deputado Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos deputados, e que gastou US$ 60 mil em aulas de tênis  com o dinheiro do petrolão, almoça na maior alegria no Fasano mostrando que não está nem aí com a justiça brasileira e com as notícias na imprensa.

Enquanto isso, o sistema carcerário brasileiro está abarrotado de ladrões de galinha, em sua enorme maioria negros e analfabetos e que não podem pagar um advogado. Muitíssimos, aliás, com a pena já vencida. Tristíssima realidade a do Brasil, este país de desigualdades e que infelizmente alimenta a corrupção do branco que pôde pagar para estudar.

As leis contra a corrupção necessitam ser mais severas, porque estamos aprendendo com o mensalão e com o petrolão que a corrupção vale a pena, que os ganhos são muito altos e que os riscos (punição) são muito baixos. No Brasil, corrupção virou um ótimo negócio dependendo de quem você é e para quem você trabalha.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Yoná Magalhães e o passado


Eu trabalhava na Folha de S. Paulo e fazia uma coluna com pessoas famosas, que me enviavam uma foto antiga sua e me contavam a história daquele flash. Fazia muito sucesso a tal coluna, e um dia liguei para a Yoná, pessoa que sempre admirei e que reconhecidamente foi a vida inteira uma mulher lindíssima.

Muito calma, ela me atendeu do outro lado da linha, ouviu o convite e recusou. Disse que não, não tinha nenhuma foto de sua juventude, nada do seu passado. Não havia guardado absolutamente nada. Percebeu que fiquei sem palavras e explicou:

-- Não quis ficar olhando aquelas fotos e me sentir triste com a passagem do tempo. A vida é para ser vivida e celebrada, sabe? Não é pra gente se sentir como se estivesse perdendo alguma coisa. Então joguei tudo fora. Preferi não olhar para trás. Agradeço muito, mas é por isso que não posso participar da sua coluna. Tá bom?

Meses depois, atravessando a rua no Jardim Botânico, no Rio, eu a vi, de cara lavada e roupa de ginástica, lindíssima. E algum tempo mais adiante, em uma festa de lançamento de novela, radiante, ao lado do ator Flavio Migliaccio. Observei de longe, pasma, o quanto a idade não havia afetado em nada a beleza de Yoná,uma mulher que sempre foi tão bonita por fora e, como pude ver, naquele papo tão rápido, ao telefone, por dentro também.


Clique no link para ver a foto do UOL da tal festa da novela:


 

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Frase do dia

"Quando Pedro fala de Paulo, sei mais de Pedro do que de Paulo"

                                                                                                           Freud



  

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Nada a declarar

Acontece com você? De repente, nada a declarar. O dia nasce e morre, o relógio anda, a vida segue... quatro semanas voam até que fecha o mês e tenho outra vez que pagar a analista... e  no entanto... nada.

As horas ficam para trás como corrente paisagem do outro lado da janela, borrão de tinta, porque meu carro imaginário também voa, e voa alto.

Será a idade? Melancolia ou sossego, sei lá, quem sabe? Ou o silêncio, meu inquilino há meses, e que com cisma de ficar, planta sementes, finca raízes, quase faz flores no olhar que é todo cores?

Não sei, não sei. Queria te dizer tanta beleza, queria escrever, rimar, falar alguma coisa que valesse o simples ato de falar... e é só silêncio.

Não queira mal a este locutor, que sem palavras te busca o ouvido imaginário da alma leve. A minha alma é que descansa, neste silêncio espesso, sem fundo ou borda para uma fuga ágil.

Este silêncio é tanto, que há de ser breve.


terça-feira, 18 de agosto de 2015

A feliz mulherzinha "das antigas"

Meu marido sempre diz que deve ser muito chato ser mulher, porque as demandas são muitas. Eu, particularmente, sou muito feliz com o gênero que Deus me deu, mas concordo que as demandas são exageradas mesmo. No fundo, acho que tudo se resume a ser uma boa administradora para que as coisas funcionem bem no trabalho, em casa, no corpo e na cabeça... e principalmente no coração.

Vejo por aí que em seu afã de independência, muitas mulheres se descuidam do amor. Deixam para depois, escolhem excessivamente o parceiro ou exigem demais dele; não se dedicam o bastante ao relacionamento ou simplesmente optam pela vida sem grandes sentimentos ou sobressaltos, preferindo a superficialidade dos namorinhos ocasionais para garantir sua liberdade (a tão duras penas conquistada, afinal!).

Mas fico pensando... quem foi que disse que o coração aprisiona? Por que ver no homem a figura de um carcereiro? O amor liberta! Não tenho vergonha de dizer que o amor tem lugar de honra na minha lista de prioridades, ainda que algumas amigas riam de mim e me considerem "mulherzinha das antigas", coisa menor...

Não tenho pudores em assumir que um relacionamento feliz é tão importante e necessário, para mim, quanto a consciência tranquila, a saúde e a independência financeira. E percebo que, no esgar do seu deboche, algumas mulheres concordam comigo, mas padecem da obrigação de bancar as autossuficientes.

Meu recado vai para elas: dêem-se uma chance. Uma pequena oportunidade, que seja, para que o amor seja um prato a mais, entre tantos, que vocês equilibram com cuidado em suas varinhas. Porque não há nada melhor no mundo do que desfrutar de um amor verdadeiro, daqueles que nos abrem para a vida e nos libertam de preconceitos herdados, que carregamos, a duríssimas penas, sem nem saber o porquê.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Dois museus imperdíveis em NY

O Metropolitan... é o Metropolitan, e ponto final. O que dizer daquele que talvez seja o museu mais popular no imaginário dos turistas, que já não tenha sido dito? O Met está sempre lotado. Imenso, me faz pensar no Louvre, em Paris, pois ambos têm em comum o fato de que o visitante necessita voltar muitas vezes se deseja ver tudo. A gente se perde lá dentro, seja nos corredores ou na oferta de obras de arte, coisas de todos os tipos e de todos os cantos do mundo.


 
 
 
Foi ali que eu vi, por exemplo, o São João Batista mais impressionante da minha vida, esculpido por Rodin, o mestre francês da escultura.


E vi também, pela primeira vez na vida, um quadro "dele"... (e fiquei petrificada)



Não muito longe, do outro lado do Central Park, temos outro museu imperdível: O Museu de História Natural, que é sensacional...


Conta a história do planeta e do homem, percorre o tempo desde um passado muito longínquo para chegar aos dias atuais, fala dos dinossauros aos índios brasileiros (passando por populações que a gente nunca imaginou). O mundo animal, vegetal e mineral estão lá, em pessoa, num espetáculo que gente de todas as idades fica embasbacada. É um passeio imperdível que merece ser repetido mais de uma vez, se possível.







quarta-feira, 29 de julho de 2015

Guggenheim, meu queridinho

Em NY, o meu museu do coração é o Guggenheim. E as imagens falam mais que mil palavras (ainda que sejam imagens feitas da minha câmera nada profissional).

Independente da exposição que esteja em cartaz, o museu fala por si. Não entendo bulhufas de arquitetura, embora seja apreciadora inveterada do assunto. Imagino, cá com meus botões, que o (mago) arquiteto catalão Antoni Gaudí, meu amigo de alma, também iria curtir este prédio cheio de curvas e reentrâncias, um museu que chega a ser "interativo" com o público porque, à medida que a gente caminha por sua rampa curva, pode ver as obras espalhadas... e as outras pessoas misturando-se ao quadro que se forma. Eu diria que é uma sensação quase mágica, através da qual nos misturamos à arte de maneira muito natural.

Tudo isso além de um café delicioso (que oferece sanduíches deliciosos, e onde vi as duas Coca-colas mais charmosas da minha vida) e duas lojas bacanérrimas, pra gente se divertir vendo objetos de arte curiosos ou engraçados, pra comprar coisas legais a preços módicos ou sonhar com os colares, brincos e anéis maravilhosos e caríssimos, feitos por artistas muito descolados e famosos da cidade.

O Guggenheim é uma "experiência".






 
 

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Meu encontro com Klimt

Nova Iorque tem museus de todos os tipos e para todos os gostos, mas foi virando uma esquina que meu co-piloto viu, em um prédio acima de qualquer suspeita, o nome fatal:

Klimt

Pára tudo! Klimt? Gustav Klimt? Onde, homem de Deus? Quede o museu? Quede a exposição do meu pintor austríaco preferido?

Era um prédio comum, igual a todos os outros da área, e uma entrada tímida. Estávamos no Neue Galerie Museum for German and Austrian Art. Anote aí no seu caderninho, porque vale a pena conhecer, meu bem... fica pertinho do Guggenheim.

Estávamos de bermuda e camiseta, sabe como é... dois turistas turistando em NY. O povo que entrava era do mais alto naipe, todo mundo de terno, um chiquê danado. Mas não consegui deixar para amanhã.

 
Entrei. E levei um choque quando vi o retrato dourado de Adele Bloch-Bauer, que sempre imaginei pequenininho, mas que é enorme... e realmente uma obra-prima. Sentada diante do quadro, perdi a noção do tempo...



Embora contasse com apenas seis quadros de Klimt, a exposição mostrava objetos pessoais, como um caderninho de anotações aberto, e muitas fotografias do artista rebelde da art-nouveau, que retratava mulheres esplendorosas e paisagens com ares de impressionismo; um revolucionário que protestava contra a tradição nas artes e que deu ares modernos a Judith, personagem bíblico, sendo justamente ela uma de suas obras-primas.

Ver de perto o caderninho de anotações de Klimt, alguns de seus rabiscos sem nexo... vou te contar: foram os 44 dólares mais bem gastos da viagem.
 
 

terça-feira, 14 de julho de 2015

Uma tarde no Whitney Museum of American Art

Confesso que não sou o tipo de pessoa que passa um dia inteiro dentro de um museu... as ruas da cidade me interessam mais. Mas também não sou imune ao encantamento que eles provocam na gente, às histórias que eles contam. Assim sendo, os museus sempre fazem parte do meu roteiro. Desta vez conheci o Whitney Museum of American Art, criado pela riquíssima Gertrude Vanderbilt Whitney nos anos 30 e que recentemente ganhou esta nova sede, por si só uma obra de arte.

O Whitney foi criado para expor arte contemporânea, e foi ali que pude ver um quadro do meu querido Pollock e, pela primeira vez ao vivo de Wahol. A ideia, pelo que entendi, é contar a história americana. Na exposição "America is hard to see" (É difícil ver a América) estão as questões raciais, o feminismo e a imigração, a tecnologia, o capitalismo e a massificação, a glamourização do cinema, a ditadura da estética, a guerra... e, do lado de fora dos mirantes de vidro, a Nova Iorque em constante mutação: esta talvez a maior obra em exposição no museu.