segunda-feira, 19 de março de 2012

O Principe me ensinou a não cair em papo de raposa

O filme “Shame”, sobre o rapaz lindo, sexy e bem-sucedido que padece nas garras da compulsão sexual é um saco. O ator é ótimo e aparece pelado várias vezes, mas mesmo assim saí do cinema com a sensação de ter jogado fora o dinheiro do ingresso e, pior, duas horas da minha vida, ou seja, um verdadeiro desperdício.

Meu tempo é meu maior patrimônio e não gasto minha vida com nada que não valha a pena. Livros que não me tocam a alma, filmes arrastados, peças teatrais “cabeça”, viagens desconfortáveis ou raposas maquiavélicas. A gente demora a entender que o tempo está passando, mas depois dos 40 não tem jeito, esta verdade nos salta aos olhos todas as manhãs, na hora de escovar os dentes. E desperdiçar é que não dá, ainda mais com bicho ruim!

Cuidado então com as "raposas" de plantão, sempre prontas a recorrer à ladainha do “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. Quem não lembra? Eita conversa mole! Onde já se viu chantagem pior?

Em “Shame”, o pobre rapaz, que tem bom coração, é explorado por uma irmã parasita que o joga pra baixo e faz da vida dele um inferno... e quando ele põe um limite, ela saca do coldre as cobranças, o jogo de culpa e, por fim, dá o bote final ao tentar o suicídio. Ele está preso e amarrado para o resto da vida, a menos que caia na real e tenha forças para livrar-se da vampira disfarçada de quadrúpede peluda...

Todo cuidado é pouco com as raposinhas à solta por aí, liiiindas... mas esfomeadas e ávidas para devorar o tempo, a esperança, a paz de espírito e a felicidade de quem estiver por perto. Esperto foi o Pequeno Príncipe, que não se deixou levar!


Ela bem que tentou, mas ele viu que era furada!

sexta-feira, 16 de março de 2012

Peguei carona na máquina do tempo

Eu sei... já li ou já ouvi em algum lugar que a memória mais possante que temos é a olfativa: basta sentir o perfume do primeiro namorado e zás! Menos de um milionésimo de segundo e já estamos lá, naquele abraço que só ele sabia dar... Cheiro de torta de maçã? Zás, e estamos na cozinha da avó...

Pois hoje viajei ao passado, e o piloto da máquina do tempo não foi o meu nariz.

Tive a sorte de crescer em uma casa onde a música reinava, ao lado dos livros. Bem cedo, eu já gostava de tango, de bolero, de rock e de guarânias. Caí de amores pela valsa lá pelos 11 anos, e até aprendi a valsar, nos ensaios do baile de debutantes das minhas irmãs.

E hoje finalmente chegou minha encomenda: um disco do Supertramp, e que nem é essas “coca-colas”... “Free as bird” é o nome, e meu pai o comprou quando eu já estava lá pelos 19 e já conhecia a dita banda havia muito tempo... ao som de Supertramp curti muita dor-de-cotovelo, assim como America, The Monkees, Fleetwood Mac, Elvis, Edith Piaf, Charles Aznavour, Ray Charles, Withney Huoston...

Quem, com mais de 40, não namorou ao som de Barry White? Quem não dançou com Marvin Gaye?

Mas este disco do Supertramp, em especial, ficou por mais de 20 anos guardado na minha lembrança, sem que eu ouvisse uma só de suas canções. Ele não fez sucesso... então não toca em rádio, não é facilmente “encontrável” nas lojas e, pra piorar, ninguém tem. Por todos estes anos, eu cantarolava as poucas frases que guardei na memória: “it doesn’t matter what I do; it doesn’t matter much to you...” “But every time I ask you to tell me why, you say it’s not the moment…”.

E quando finalmente botei o CD pra tocar, fechei os olhos e esperei a mágica acontecer. Não é que ela aconteceu mesmo?

Quando dei por mim, ao som de “It´s alright”, a viagem já tinha dado certo, e eu tinha outra vez 19 anos e dançava na sala de casa. A cabeça, cheia de sonhos, planos e dúvidas... um livro de biologia inteirinho pra estudar e um namorado lindo morando no prédio ao lado, de onde me chamava com um assovio, pela janela do quarto.

Minha mãe fazia o café das quatro horas e meu pai estava prestes a chegar do trabalho. Meus irmãos transitavam pra cá e pra lá, enquanto disputavam a máquina de lavar , o único banheiro da casa ou o telefone: coisas de família grande.

Enquanto isso, eu curtia meu Supertramp sossegada... e feliz da vida!



quarta-feira, 14 de março de 2012

A felicidade veio montada num caramelo

Minha tia Leléia era um show de mulher: bonita, elegante, inteligente e bem-humorada. Além de ser um tipão, bem estilo Greta Garbo, a estrela de cinema que virou mito, tia Leléia tinha ainda um talento natural para estrelar situações embaraçosas. Foi assim que, ao entrar na loja do “seu” Frota, um respeitável comerciante de tecidos conhecido da família, ela passou por um constrangimento digno de crime passional, quando ele se aproximou e sussurrou, em tom confidencial:

-- Danada, por que você foi embora ontem e não esperou que eu acordasse?

Chocada, ela deu um passo atrás, mas ele segurava suas mãos nervosamente e falava baixinho. Ela tentou chamá-lo à razão.

-- “Seu” Frota, sou eu, a Maria Léa...

E ele, inconformado, um segundo antes de ela fugir porta afora:

-- Agora vai querer mudar de nome?! Quero saber por que é que foi embora e me deixou lá! Saiu sem me acordar, sua malandrinha! Logo ontem, que a minha mulher tinha ido visitar a mãe dela!

Mas este episódio não é nada diante do dia em que ela entrou, linda e poderosa, na finada Confeitaria Colombo que havia em Copacabana, para um lanche com as amigas. “Fechou” a confeitaria assim que pôs os pés lá dentro, e não passou desapercebida a absolutamente ninguém. Todos se viraram para vê-la passar entre as mesas, tão elegante com o vestido de seda e uma piteira na mão.

A mágica durou pouco. Escorreu ralo abaixo enquanto ela, horrorizada, gritava a plenos pulmões:

-- Um dente!!!! Um dente no caramelo!!!!!!!!

Em peso, a Colombo voltou-se para ela, que em vez da piteira, tinha agora o caramelo entre os dedos... e nele, bem coladinho, jazia um molar. Choque geral, silêncio de horror... e ela, repentinamente, deu outro grito:

-- É meu!!!!!!

Desde a infância, já ouvi esta história milhões de vezes, mas não tem jeito: sempre dou risada. E como este mundo não perdoa, dia desses me aventurei ao prazer de uma bala Toffees, daquela que gruda deliciosamente nos dentes... e fiquei sem o único bloco que tinha na boca. Pelo menos não tive um ataque; consegui manter a pose até o banheiro, onde, entre quatro paredes, constatei minha banguelice em completa solidão.

Mas... há males que vêm para o bem, é o que sempre digo. Aquele bloco prateado, que fiz para salvar um Siso, me incomodava tremendamente, em meio a todos os meus dentes branquinhos. Milhões de vezes olhei para ele, diante do espelho, pensando que sim, um dia eu criaria coragem para tirá-lo de lá, substituindo-o por um branquinho da Silva, porcelana total! Mas quede a coragem para gastar uma grana preta em nome desta vaidade? Afinal era só um dente lá no fundo da boca... um dente que ninguém, além do Marcelo Migliaccio, o cara mais crítico que Deus botou neste mundo, já havia reparado (e apelidado de "Panelão").

Então... eis que uma bala de leite entrou em minha vida e mudou tudo... a dentista, que é amiga há anos, ganhou o dia ao ver minha felicidade com o dente novo. E eu, que tinha reclamado tanto do gasto inesperado, acabei agradecida à tragédia inicial:

-- Bendito caramelo!

domingo, 11 de março de 2012

Toda princesa real de vez em quando pira!


Ainda guardo o volume da velha coleção da infância: é que nele tem a história da “princesa real”, cuja mãe, além das avós, bisavós e tataravós, também foi princesa, todas de sangue azul nas veias transparentes. Magrinha, ela sem saber dormiu sobre muitos colchões de plumas postos sobre uma ervilha pela futura sogra, interessada em saber se seria mesmo ela uma princesa real. E acordou toda roxa e cheia de dores, porque a ervilha havia maltratado seu corpinho frágil de aristocrata. E eu, magrelinha lá de Minas, já fui logo decidindo:

-- Eu sou uma princesa real!

A decisão foi tomada quando eu ainda não sabia ler e minha irmã me contava as histórias dos livros, misturando-as à própria imaginação e, muitas vezes, deixando para lá o livro e narrando só mesmo o que lhe saía da cabeça: castelos, reinos, cavalos, príncipes e princesas se juntavam a seres mitológicos e flores que jamais murchavam, além de peixes que falavam e cidades inteiras invisíveis...

Os anos passaram, mas jamais deixei de ser a princesa real de todos aqueles lugares que ela inventava. Inclusive, o nome que escolhi para dar de chofre, quando não quero revelar minha verdadeira identidade só podia ser... Elisabeth, é claro!

Vez por outra, dependendo de como venha a TPM, meu desejo é mesmo fazer como a colega de “Alice do País das Maravilhas”, a Rainha de Copas, e ordenar, sem dó nem piedade:

-- Cortem-lhe a cabeça!

Meu marido disse que, nesses dias, o risco seria restar, além de mim, só o carrasco, assim mesmo cada um com seu machado nas mãos, enquanto trocaríamos olhares desconfiados e ameaçadores. Dou risada, e o pior é que concordo. É que, como eu lhe disse logo que nos conhecemos...

-- Toda princesa real de vez em quando pira!

Olha, lamento dizer, mas não há charme ou educação que resistam à minha tensão pré-menstrual. Recorro aos vilões dos desenhos animados do saudoso Vila Sésamo, para dizer que “fico tão má que tenho medo de mim... há! há! há!!!!!”....

Aliás, é justamente o meu “termômetro da piração” que avisa quando a TPM chegou: pode ser porque fico sentimentalóide e caio no choro quando o supermercado não tem a caixinha de isopor pra eu comprar os picolés de baunilha e chocolate... pode ser porque bate um atrevimento surreal e logo eu, que detesto briga, viro uma metralhadora giratória... pode ser porque acordo tão cansada que decido bancar o urso e resolvo hibernar o dia inteiro... ou então me convenço de que corpinho com tudo em cima é besteira e traço logo três daqueles picolés... e depois quase corto os pulsos de arrependimento e não como mais nada o dia inteiro, pra compensar. E pode ser, também, porque eu pego o meu santo marido pra Cristo e testo seu amor milhões de vezes, até que por fim fico carente e pergunto, com as velhas lágrimas nos olhos:

-- Você me acha chata?

-- Não, meu amor, pra ser chata você tem que melhorar muito, porque você é chatérrima!

E foi numa tarde dessas, de TPM total, que pra me livrar de uma abelha e afugentá-la, arranquei a roupa no meio da rua, nem aí pra quem passava. Quem viu, registrou só para provar a velha teoria: toda princesa real de vez em quando piiiiiira !!!!!!!!!!!!

sábado, 10 de março de 2012

Os órfãos são todos criancinhas

Aniversário

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)


No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

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Se somos tudo, também não somos nada

quinta-feira, 8 de março de 2012

Árvore genealógica da dor

O velho Alencar, sentado na grama da varanda,
espalhava olhares sobre a paisagem do campo
(imutável prado;
sonhador imutável na mesma varanda de tantos anos).

Lembrava-se de Cléa...
de sua risada sonora;
e dos seus bordados,
retratos daquela terra.

Ao pensar Cléa,
fitava o rosto cru de Estela:
um rosto duro
marcado pelo choro como se fosse chuva
na terra estéril.

Cléa vivia no retrato sobre a mesa
e na solidão de Estela.
Vivia nos olhos de Alencar,
coloridos por triste azul.

Cléa e Tereza
ainda viviam nas doces mãos de Marina,
na bondade irmã
a sustentar Estela e Diana.

Cléa e Tereza eram mães da dor,
irmãs da bondade
e inteiramente mistério.

O velho Alencar era já a imagem de Gonçalves,
parceiro da memória.

Gonçalves, todo lembrança...
viva corrosão
das imagens multicores do passado.

(Fernanda Dannemann)

quarta-feira, 7 de março de 2012

A violência como herança de geração em geração

O noticiário não deixa dúvidas a respeito da violência contra crianças: este é um “mercado” em franca expansão no Brasil.

Usei a palavra “mercado” porque não têm sido poucos os casos de pais adotivos que espancam, torturam e matam crianças que escolheram acolher, e esta idéia me faz pensar que, nos casos em questão, a adoção foi um gesto macabro, uma escolha premeditada do algoz que elege a vítima. Crime hediondo que merece cadeia sem direito a fiança, dó ou piedade.

Também há os pais consangüíneos que cobrem os filhos de hematomas, traumas e horrores de morte... e o que pensar deles? É difícil não resvalar no julgamento, principalmente quando a vítima é indefesa ao extremo, seja por sua fragilidade ou pelo fato de não ter a quem pedir socorro... porque o agressor teria que defendê-la de si mesmo. Afinal, o que são os pais (ou deveriam ser?) além de os maiores defensores de seus filhos?

Para estes bárbaros, a violência contra a infância jamais terá fim, porque a criança que eles realmente querem agredir está dentro deles: é aquela que eles mesmos foram, e que também sofreu nas mãos de alguém tão doente ou cruel quanto eles o são hoje... então a violência vai passando de geração em geração e perpetuando-se na família, como uma herança de sangue.

Mas a Psicologia está aí é para isso mesmo, para curar as dores da alma que fazem de nós meros fantoches, manipulados por neuroses e ressentimentos. Não que eu acredite que para todos os agressores haja cura, porque se há os que batem por ignorância, e são sensíveis à reeducação, há também aqueles que se divertem com o sofrimento que causam... e para estes não há Psicologia que baste.

O que o agressor deveria saber, é que cabe ao ser humano buscar sua libertação, pisar e esmagar a serpente do mau impulso. Aprimorar-se a ponto de não se transformar no que ele mesmo mais teme e despreza. É para isso que o homem está neste planeta, afinal: esta é a sua missão, embora muita gente ainda duvide e prefira levar a vida na flauta da inconseqüência e do erro... um caminho bem mais fácil para os preguiçosos.

Seguir o modelo neurótico ou violento que um dia o fez sofrer, como um escravo, em nada aplacará seu pesadelo íntimo. Da mesma forma, aquela criança que ainda sofre e chora, escondida no canto mais obscuro do seu coração, precisa é ser curada, abraçada, defendida, inclusive porque já sofreu demais. Amar aquela criança-fantasma, que arrasta correntes nas suas noites de insônia, é a única forma de seguir adiante, de deixar o passado para trás, de deixar de ser um corte aberto em permanente hemorragia.

E as crianças de hoje, todas as crianças do mundo, podem ser uma parte daquela que o agressor foi, e receber todo o amor e proteção que poderiam tê-lo salvo do seu destino de tragédia.

Criança é gente: merece amor e respeito mesmo quando faz birra!

segunda-feira, 5 de março de 2012

As almas postiças da mulher "forte"

Esta semana comemoramos o Dia Internacional da Mulher, que essencialmente tem a ver com as lutas femininas por uma vida melhor e envolve questões como trabalho digno, liberdade e cidadania. Com o tempo, esta essência se perdeu como aconteceu com o Natal e a Páscoa, e sobrou o marketing. Pena.

Pena porque uma data como esta deveria nos fazer pensar sobre as questões femininas. Não só em direitos e deveres em franca expansão graças a mulheres corajosas e admiráveis, mas também no que vai dentro do coração e da cabeça da mulherada atual... como alguns estereótipos que carregamos, quase “almas postiças” que nos pesam horrores sobre as costas.

Estamos em um momento delicado da nossa ascensão social neste mundo tão masculino... um momento em que a idéia de “conquista” e de “liberdade” parece se confundir com “força” e “poder”, como se tudo isso fosse, lá no fundo, coisa de homem... então, para provar que também “podemos”, temos que nos masculinizar.

Algumas, mais perdidas do que cego em tiroteio, fazem do corpo sua bandeira de liberdade, incapazes de perceber que sair pelada ou transar com toda a torcida do Flamengo só vai mesmo é pegar mal... porque liberdade sexual não tem nada a ver com baixaria, e macho que é macho não veste a fantasia de “pegador” pra provar nada pra ninguém.

Por falar em fantasia, pode dizer que é exagero meu, mas acho o fim da picada esse negócio de mulher usar terninho. O que é o terninho, senão uma fantasia de mulher muito “macha”, que manda geral, que “bota o pau na mesa”, como diz a gíria popular? A profissional competente não precisa desses subterfúgios “masculinizadores” para garantir o respeito: sabe que basta ser séria e competente, e o resto é conseqüência.

Nos relacionamentos, quantas buscam igualdade de direitos e deveres, muitas vezes errando a mão e transformando o amor numa competição constante! Uma luta perdida, sem vencedores: elas se esquecem que homem e mulher são diferentes, não tem jeito, e são complementares, cada qual com suas funções estabelecidas pela santa natureza, tão sabiamente, aliás.

Você pode pensar que fiquei doida, mas vou além. Acho até que o exagero na ginástica pode ser um sintoma de inadequação, visto que o muque de ferro parece transformar a mulher de fora pra dentro, tirando dela a fragilidade peculiar... creio que o objetivo seja mesmo este, disfarçar a fragilidade que, doa a quem doer, é fato, mas virou motivo de vergonha para muita gente.

Na ânsia de bancar a “fodona” e de conquistar suas “metas”, em vez de buscar seus desejos, quantas não metem os pés pelas mãos e acabam jogando fora suas chances mais verdadeiras? Quantas não enxergam que ser “guerreira” nada tem a ver com declarar guerra ao mundo?

Ao pegar o caminho errado em busca do seu lugar ao sol, muitas acabam escravas de um papel duríssimo que escreveram para si mesmas, com base em mitos masculinos que só podem nos trazer dor e confusão... para sermos livres, independentes e poderosas, não precisamos enterrar nossa essência feminina nos fundos do quintal, nem tentar, em vão, imitar os homens. Caso contrário, em breve teremos que mutilar ainda mais o que há de humano em nós mesmas, num golpe mortal em nossa sensibilidade maior, e aprender que "mulher não chora". Pobres de nós!


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sexta-feira, 2 de março de 2012

A carroça vai andando e as melancias vão se ajeitando

Mais espantada fiquei diante da confissão de Marcelo Crivella após o convite para o Ministério da Pesca, do que diante do próprio convite!
O senador, no que para muita gente pode ter sido um gesto de humildade, admitiu ter que aprender muito em sua nova função...

Agora, quem vai confessar sou eu: longe de mim querer julgar, mas já julgando, achei um absurdo a nomeação de fins eleitoreiros, mas o absurdo maior é o senador ter aceito o cargo. Um cargo do qual ele entende patavinas, assumidamente... e olha que não estamos falando de coisa sem importância, mas de um ministério...

Chegamos ao ponto. Neste post, Crivella estréia como exemplo de um costume muito arraigado aqui nas nossas terras, que é “meter a cara” e sair fazendo as coisas, mesmo sem o preparo necessário ao desafio. Uma atitude que tem tudo a ver com o “jeitinho brasileiro”, que empurra a situação com a barriga e vai levando, porque como diz o dito popular, “a carroça vai andando e as melancias vão se ajeitando”.

Vejo esta postura em todos os lugares: nas repartições públicas, nas agências bancárias, nas redações dos jornais, na televisão, no cinema, nas faculdades... quanta gente despreparada em ação, atuando em cargos ou posições para os quais não têm talento ou competência... mas está lá, num teatro diário, escondendo de si mesma suas incapacidades e tirando a maior onda de sabichona diante do mundo inteiro.

Foi assim que um médico famoso chamou minha irmã de “fresca” e mandou-a para casa, afinal de contas ela reclamava de dores “irreais”: meses depois, o câncer já estava tão grande que não teve solução.

As aparências valem tanto em nossa sociedade que, se você admite um ponto fraco, um “gap”, como dizem os executivos, se admite uma insegurança ou falta de talento, é visto como fraco, perdedor, covarde. A palavra “desafio” caiu na boca do povo como se, para quebrar barreiras, bastasse apenas a inconseqüência para topar qualquer parada. Se você recusa um “desafio” por não se ver apto, certamente será chamado de bobo por todos os seus amigos. Já não podemos ser simplesmente humanos e assumir nossos limites, porque o que se espera de nós é que estejamos preparados para o que der e vier: temos que ser super-heróis. Ou, em última análise, ter uma tremenda cara-de-pau.


Ziraldo é mestre: não é assim mesmo que somos no amor?

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

"Me alugo para sonhar"

Não só Frau Frida, a heroína austríaca de Gabriel García Márquez, e de cuja história tirei o nome deste post, bem, não só ela vive de sonhos... mas todos nós. Daí o sucesso das artes adivinhatórias, dos jogos de azar e do “171”, o tipo que vive de dar corda em sonhadores que crêem no dinheiro fácil e acabam na rua da amargura.

Nunca o mercado dos “cursos de especialização” cresceu tanto! E o “facilitador”, à frente da platéia, me faz pensar em Silvio Santos vendendo o carnê do Baú da Felicidade. Ao lado dos preparatórios para concursos públicos, a indústria dos cursos movimenta rios de dinheiro: quem não sonha com um salário gordo e estabilidade no empregão? O povo vai em massa, mas passar na prova é que são elas.

Sabe de uma coisa? Não é o sexo que move o mundo, nem o dinheiro. O que faz a gente sair da cama todas as manhãs e enfrentar um a um os desafios do dia (do trânsito à arrogância do chefe; da falta de grana à falta de perspectivas)... são os sonhos.

Da “chave do céu”, vendida pelo Pastor Waldomiro no balcão de sua igreja televisiva, à promessa das revistas femininas, de fazer da leitora uma mulher linda, chique, bem sucedida e terremoto na cama, tudo é sonho. Inclusive a novela, que lobotomiza a família inteira e o comércio, com suas modalidades cada vez mais elásticas de pagamento: todo mundo pode ter bolsa Louis Vuitton, todo mundo pode ter carrão 4X4, e no sonho de ser eternamente jovem, todos podem parcelar o pagamento das plásticas, preenchimentos e Botox, não importando muito o resultado real desses procedimentos... o que importa é fugir da realidade.

Do mesmo modo, o tão valioso sonho de ser feliz no amor muitas vezes nos enterra em relacionamentos "impossíveis", aqueles que jamais nos trarão a felicidade desejada, mas que nos prendem pulsos e tornozelos com as correntes da ilusão. E pior: a ilusão consentida por nós mesmos, que preferimos sonhar com um pássaro doente na mão, em vez de ter todos os saudáveis voando (e quem sabe pousando em nosso ombro, por espontãnea vontade). E já que o assunto é amor e sexo, nas academias de ginástica vemos o quanto o sonho de virar deus grego reduz a rapaziada a um filé... tudo em nome do consumo imediato de quê? De sonhos.

Quanta gente sonha, e sonha tanto, que acaba deixando de lado a realidade dos fatos e acreditando na vida não como ela é, mas como ela bem poderia ser... e no final das contas, a gente se vê num pesadelo sem fim.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Assombração sabe pra quem aparece

Fui visitar minha chapa Magali, que insistiu em me apresentar o namorado.
Confesso que cheguei lá de má-vontade, porque já sabia, pelas histórias dela, que o tipo era um machista inveterado. Quanto sacrifício a gente não faz pelas amizades... sorri para a figura que nem se deu ao trabalho de vestir a camisa quando entrei e dei dois beijinhos nas bochechas suadas.

Copo de cerveja numa mão, cigarro na outra e olho grudado no programa sensacionalista da TV, ele puxou assunto falando alto, como se eu fosse repórter policial e ele fosse o entrevistado. Desandou a criticar a violência do Rio, a superlotação dos presídios e a suposta amizade entre bandido, polícia e imprensa.

-- Tem que dar pau nessa gentalha!

Suspirei, dei um sorrisinho amarelo e decidi não surfar na onda dele, que, mais desagradável impossível, entrou de sola.

-- Tudo drogado! Só gente safada! Gente do capeta, que puxa fumo!

Incrédula, caí na armadilha e comecei uma frase incendiária, mas fui interrompida pela Magali, que me conhece muito bem e tentou entrar na roda, enquanto servia um prato de salgadinho.

-- Eu acho...

-- Você não acha nada! – cuspiu o brutamontes, e ela se calou com um meio-sorriso de compreensão, como se ele fosse uma criança birrenta que a mãe atura por falta de opção melhor. E ele ordenou: – Esquenta o salgadinho.

-- Não liga não, Fernanda, ele está de mau-humor porque não gostou da minha roupa.

-- Este vestido é de vagabunda! – rosnou o neanderthal. – E pra quê esse esmalte vermelho? –

-- Pra te agradar – foi minha vez de rosnar.

-- Ô Magali! Você arranjou advogada! E como é sua amiga nem vai te cobrar – ironizou o coisa horrorosa.

Guardei a educação na bolsa, pus o dedo na cara dele e achei que fosse apanhar. Soube depois, que meu interlocutor levou um susto e pensou que eu fosse bater nele. Nem me lembro como acabou a visita, só sei que o curupira botou o galho dentro e pude sair de lá com dignidade.

-- Mas Magali! Como é que você se envolve com um homem desses?! – perguntei, no dia seguinte.

-- Ah, Fernanda, coitado! Ele é assim mas é gente fina, e me adora! Além do mais, vem de uma família horrível, ninguém liga pra ele. Tenho pena de terminar...

Calei a boca. Olhei pra ela e fiquei triste, porque ainda ia sofrer muito nas mãos daquele poço de estupidez “gente fina” que a tratava sem respeito nenhum. E dei razão ao meu pai, que costumava dizer que assombração sabe pra quem aparece... E não é que sabe mesmo?

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O mal é o que sai da boca do homem

-- Deixe que o silêncio repouse em sua boca.

Volta e meia minha mãe recorria ao conselho de Santa Clara, na tentativa de me fazer ficar quieta. Lembro do dia em que, lá pelos cafundós da infância, perguntei à dona Fulana de Tal, uma parenta distante e de seios enoooooooormes saltando pelo decotão:

-- Isto é a sua bunda?

Tenho passagens ainda mais constrangedoras no currículo e um talento terrível para dizer coisas imperdoáveis no calor de uma discussão. Por isso mesmo, tento seguir o conselho de Santa Clara e cultivar o silêncio.

Nem sempre dá... nem sempre consigo: às vezes as palavras fervem na minha boca, e depois parecem descer ao peito e acelerar o batimento cardíaco. Chego a pensar que, se engoli-las, posso ter um ataque do coração! Então cuspo as frases e respiro em paz... para arriscar-me à frustração de mais uma batalha perdida comigo mesma, ou ao arrependimento sem cura por ter ferido alguém. Como diz o velho provérbio, a palavra dita é uma das três coisas que não têm volta nesta vida.

Mas tudo é questão de treino, inclusive o silêncio. Treinando, percebemos o quanto quase todas as palavras ditas ou ouvidas são dispensáveis. O quanto falamos mais por preguiça de não falar, de diminuir nossa velocidade interna e criar um outro tipo de diálogo com as pessoas e com o mundo: um diálogo baseado nas atitudes.

Quem não sabe que mais vale um gesto do que mil palavras?

Todos falam, falam, falam... Temem o silêncio porque é aí que a nossa alma murmura, e muitas vezes diz coisas que não queremos escutar. Quando sozinhas, as pessoas ligam o rádio, ligam a televisão ou ligam pra alguém, com a desculpa de “conversar”. Não: elas querem é fugir.

Rebobine só um pouco a fita da sua vida... quantos males teriam sido evitados se você tivesse ficado calado? Quantos desentendimentos teriam deixado de acontecer, quantas mágoas teriam deixado de nascer, quanto arrependimento você não teria se livrado de carregar?

Fiquei pensando em tudo isso depois de ver "O artista", e me lembrei de outra pérola silenciosa, o "Primavera, verão, outono, inverno... e primavera", que nos
mostra que bem poderíamos falar menos (e talvez a vida fosse até melhor ou mais fácil).

Tenho pra mim que Deus inventou as palavras para nos ensinar sobre a moderação. Mas esta foi mais uma aula que a gente deixou de assistir.


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A arte de dar a volta por cima

De todas as artes possíveis na vida, a que mais me sensibiliza é, de longe, a de dar a volta por cima... e seguir adiante, feliz e contente, sem fazer de si mesmo uma vitima dos acontecimentos.

É sobre isso que trata o filme “O artista”, que mesmo sem a ajuda do som e das cores, e sem a mágica da computação gráfica, faz a gente viajar no sorriso canastrão do personagem principal... e que sorriso, que sorriso aquele homem tem!

O filme conta a história de um ator em decadência, mas é de todos nós que ele fala... daqueles nossos momentos em que tudo parece perdido e a gente já bebeu toda a água do fundo do poço... e um tiro na boca pode até parecer solução diante de tanta desesperança. Quem é que nunca passou por isso? Quem não passou... vai passar, não tem jeito.

Mas o filme também fala do orgulho, aquele péssimo conselheiro que sempre insistimos em ouvir antes de cometer uma grande burrada. E fala de amizade, o lampejo divino que faz de qualquer criatura uma centelha de Deus. E é claro, fala de amor, porque nem só de orgulho e amizade vive o homem!

Ao retratar questões tão humanas, e com uma graça ingênua diante do espetáculo estressante que virou o cinema, “O artista” nos leva a rir dos personagens e de nós mesmos, que acabamos nos identificando com eles: seja a mocinha que quer vencer, o galã vaidoso, o cachorro fiel, o empresário que só pensa em dinheiro, o motorista que joga nas onze e “ataca” de mordomo... todos nós somos um pouco de tudo isso... e apesar de qualquer revés, sempre ganhamos o Oscar no final.


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

É mais fácil encontrar um marido do que uma empregada doméstica

Ao ver ‘Histórias cruzadas”, que fala da vida dura das empregadas domésticas negras em pleno Mississipi nos anos 60, lembrei de quando a Isabel, que passava roupas aqui em casa, contou sobre a ex-patroa que lhe mandava tirar dois bifes para o almoço: um para ela mesma e outro para o filho. E a Isabel almoçava só quando chegava em casa, lá pela hora do jantar.

Cansadas de serem tratadas como escravas por patroas egoístas e sem-educação (e cada vez mais dependentes dos seus serviços, porque não sabem lavar um banheiro e muito menos fritar um ovo), as empregadas domésticas estão indo pelo mesmo caminho do mico-leão-dourado e entrando em extinção.

Até minhas amigas solteiras concordam comigo e dizem que, hoje em dia, é mais fácil achar um bom casamento do que arranjar uma boa empregada. E olha que, pelo que andam me dizendo, até namorado mequetrefe virou artigo de luxo: quem tem, aposta todas as fichas pra não perder, e quem não tem já está rezando de vela acesa pra ver se o milagre acontece.

Procure alguém para trabalhar na sua casa, mesmo com a carteira assinada, e entenderá o que digo. Vai aparecer todo tipo de gente para um “teste”, como dizem as candidatas, mas dificilmente entrará pela porta alguém que você queira que volte no dia seguinte.

Dia desses, finalmente me apareceu uma, a quem propus salário acima de média e com carteira assinada, férias, décimo terceiro e uma carga horária tão leve que eu mesma pensei em aceitar o emprego.

-- Tem almoço?
-- Tem.
-- Fim de semana livre?
-- Sim.
-- Não preciso passar roupa nem cozinhar?
-- Não.
-- Nem lavar as janelas?
-- Não.
-- Tem TV na cozinha?
-- Tem.
-- Sem criança e sem cachorro?
-- Ok.
-- A senhora paga a passagem?
-- Pago.
-- Se eu precisar faltar a senhora entende?
-- Entendo.
-- A senhora ajuda com o meu plano de saúde?
-- Posso pagar metade.
-- Tá certo. Então eu vou pensar e ligo pra senhora na semana que vem.

Neste ponto, nem eu, que sou uma santa, resisti:

-- Mas você toca piano?

E dei o golpe fatal:

-- É que, pra trabalhar aqui em casa, eu só aceito quem sabe tocar piano.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Só as ovelhas negras são livres

Fui ver “O homem que não amava as mulheres” e adorei a atuação da Rooney Mara, que interpreta uma jovem cheia de atitude e bem fora dos padrões. Causar incômodo pode ser mesmo muito bom, tanto quanto sentir-se incomodado. È que isso significa que, dependendo do contexto, a gente é um bicho estranho e bem diferente do que estiver à volta. Se você parar pra pensar, vai ver quanta liberdade existe nisso!

Saca a ovelha negra? Ela tem muito mais a ver com o mundo do que com a família. Na tribo familiar, cujo cacique é o DNA, as ovelhas são, na verdade, bem mais iguais do que parecem (ou admitem). Por mais “rebelde” que a gente seja dentro de casa, os grandes e reais incômodos começam a aparecer é quando cruzamos a porta da rua.

É na vastidão do mundo que a gente se liberta ou se aprisiona, e nesta hora, nossa cabeça é mesmo nosso guia... TODAS as ovelhas estão "perdidas e procurando se encontrar", inclusive as brancas. E quase todas, em algum momento da vida, acabam mudando de cor. Não há ovelha que aguente ser branca ou negra o tempo todo, né?

Conto uma situação em que me senti completamente fora do esquadro, ovelha negra total... ou verdadeiro extra-terrestre em planeta desconhecido: foi na única vez em que me meti a fazer matéria de política e tive que entrevistar o então candidato a nem me lembro mais o quê, o jovem Sergio Cabral, com quem eu me afinava só porque ele era o “defensor dos velhinhos”. A mágica aconteceu num salão da extinta TV Tupi, na Urca, um lugar cheio de lixo e entulho, que caía aos pedaços e cheirava a mofo e a cocô de gato: parte do tal salão havia sido “maquiado” para a gravação do vídeo de campanha, e saí de lá com a sensação de ter participado de uma festa a fantasia onde nada era de verdade, e absolutamente tudo (inclusive eu, como repórter de política) era fake.

Já visitei planetas estranhíssimos e conversei com E.T.s dos mais variados, o que algumas vezes fez com que eu me considerasse até normal demais. Duvida? Então passe uma semana inteira dentro de um sexyshop, observando tudo e colhendo material para escrever um artigo, e entenderá o que estou dizendo...

Uma outra viagem interplanetária me colocou diante de um senhor de alta patente, que se ofendia depois de cada pergunta e me gritava ameaças veladas, do tipo “sabemos onde você mora”... ao mesmo tempo em que humilhava os subalternos. Na saída, dois deles vieram me pedir desculpas pelo absurdo da situação.

Na galeria dos horrores, lembro da moça que contou, na maior naturalidade, que fez aborto aos sete meses de gravidez, no quartinho em que dormia na casa da patroa... que via a novela das oito lá na sala, no melhor dos mundos da TV Globo.

-- Era um menino, ainda estava vivo. Minha amiga botou num saco de lixo e foi embora.

-- E o que você sente, quando pensa nisso?

-- Ah... que eu quero muito ter uma menina!

Se há um lado bom em tudo isso, é que a ovelha negra sempre vai embora para nunca mais voltar. Sábia Rita Lee!



terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A pureza apareceu pra mim

Creio que a gente é o que é: a mesma pessoa do princípio ao fim, ainda que consigamos domar nossos defeitos de fabricação. Então concordo com Machado de Assis, quando ele diz que “a ocasião não faz o ladrão; o ladrão nasce feito”.

O que eu lamento muito é que a maioria de nós, em algum momento, perde a pureza. Sabe aquela luz que trazemos na infância? E o curioso é que esta luz, não raro, reacende quando estamos já sofridos... acho que é porque a pureza não combina com  a arrogância típica dos que não são crianças (e não viram nada) nem velhos (e já viram tudo).

Ontem, bem tarde da noite, a pureza apareceu pra mim.

Em meio a todo o apocalipse da invasão alemã na Bélgica, na França e na Holanda, durante a Segunda Guerra, o povo deixava tudo pra trás, numa fuga desesperançada a Paris. Morte e destruição por todos os lados, cadáveres pela rua, cidades arrasadas, estupros, medo, fome, horror. As imagens do documentário são reais... e se sucedem numa inacreditável amostra da guerra que imaginamos, mas cuja imensidão não podemos alcançar.

No meio de tudo isso, a câmera flagra um menino ferido, e eu, que já quase dormia, acordei de imediato. Nos dois ou três segundos em que mirou o cinegrafista, ele transcendeu. Esqueceu-se da guerra, da cabeça machucada, de tudo o que tinha visto e temido, de tudo o que ainda havia para temer.

Naqueles tão valiosos segundos, a pureza surgiu de relance, mesmo ali, naquele inferno, quando o menino voltou a ser um menino... e sorriu.







Nem Hitler conseguiu acabar com esta luz!

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

"Justiça" para os ricos, barbárie para todo o resto

Não acredito na justiça do homem. Só creio (e cegamente) na justiça de Deus.

Já vi gente da pior espécie levar a melhor diante do juiz, enquanto que, na condição de “réu”, também vi gente honesta ser castigada pelo martelo de juízes que mal tiveram tempo ou paciência para conhecer muito bem os autos e tentar chegar à justa decisão. Muita burocracia, poucos magistrados e leis que nem sempre funcionam. Não bastasse isso, existe também a corrupção.

E fazer o quê? Reclamar com o Bispo?

Por um fio, numa votação apertadíssima dos próprios magistrados, o Conselho Nacional de Justiça poderá investigar juízes suspeitos de desvio de conduta. E o presidente do Supremo, Cezar Peluso, foi contra...

Alguém pode me dizer que fim levaram todas as 120 famílias que tiveram a vida arrasada em 1998, junto com o Palace II, que Sergio Naia morreu sem indenizar? Resta-nos rezar para que o mesmo não aconteça com todos os que tiveram uma vida inteira de trabalho lançada ao chão, sob o Edifício Liberdade. Porque para os que foram mortos sob os escombros da irresponsabilidade, não há indenização que dê jeito.

E por falar em liberdade, vejo Salvatore Cacciola todo sorrisos, numa festa pré-carnavalesca para ricaços, em Ipanema. Vejo pela foto do jornal, é claro, porque este tipo de programa não é para o meu bico classe-média. O ex-banqueiro, condenado em 2005 a 13 anos de prisão por crimes contra o sistema financeiro, e que causaram prejuízos de R$ 1, 5 bilhão aos cofres públicos, está em liberdade condicional por já ter cumprido 1/3 da pena: mais ou menos quatro anos. Não ficarei surpresa se qualquer dia vir a foto de Susane Von Richthofen saindo da prisão. Daniela Perez morreu para sempre, mas seus assassinos tiveram sua segunda chance.

Enquanto isso, quanta gente pobre, negra, nordestina e ignorante mofa nas cadeias brasileiras, odiada pela sociedade pelo simples fato de estar ali, e esquecida pelo Judiciário... pagando com anos e anos pelo que, diante dos crimes em Brasília, seria considerado roubo de galinhas, ou morrendo na prisão, sem direito a uma cama e um banheiro, que dirá a luxo na cela, condicional ou tentativa de fuga para o exterior?

Ao contrário do que disse o ministro Peluso, não somos uma nação suicida e estamos longe de querer degradar o Judiciário. Mas diante de tanta corrupção, impunidade e corporativismo à nossa volta, a gente facilmente se convence que, se ainda não estamos na "barbárie" citada por sua excelência, falta muito pouco pra chegarmos lá.

Enquanto a ministra Eliana Calmon disse que havia "bandidos escondidos atrás da toga", penso naqueles que se vêem acima do bem e do mal. Chegando à porta do Céu, Deus haverá de lhes fazer prestar contas, ao que certamente responderão:

-- Mas o que é isso?! Está querendo me desmoralizar?! Sou juiz!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Não há direitos humanos nas sucursais de Guantânamo

Estou longe de ser diplomata, e mais longe ainda de conseguir ficar calada diante do absurdo. Por isso mesmo ainda não fui a Cuba, onde vive um povo que eu bem gostaria de conhecer.

Mas fico pensando... como eu me sentiria se fosse proibida de freqüentar a praia aqui pertinho de casa, cujas águas e areias pudessem, somente,  receber os turistas que viessem ao Rio gastar o seu dinheiro? (Um dinheiro, aliás, que passaria bem longe do meu bolso, já que meu salário seria, no máximo, cerca de vinte dólares por mês?).

Isto é Cuba, não apenas segundo o que a gente lê nos jornais, mas também o que amigos meus, que por lá se aventuraram, viram de perto. Diante disso, ainda não me animei a entrar no avião para descer em Havana.

Falam tanto de Guantânamo... mas o cárcere em que vivem os cubanos também tem que acabar! Onde já se viu, em pleno século 21, toda a população viver prisioneira de um ditador que se considera dono do país, como se ele fosse seu latifúndio herdado por direito? E dono das pessoas, como se elas fossem a manada da qual ele dispõe, e cujo destino cabe a ele decidir? Conheço gente que toma o caminho mais fácil e usa o embargo econômico para justificar a pobreza do povo. Mas olha, Fidel Castro já caiu de moda há séculos, tanto quanto qualquer tipo de autoritarismo... só que é muito fácil bancar o fá do Fidel morando aqui no Brasil.

Enquanto tento engolir o silêncio da nossa presidente junto aos irmãos Castro, a respeito dos direitos humanos que ela tanto diz defender, dou uma olhada no jornal de ontem e fico sabendo da moça assassinada em Cabul, pelo marido e pela sogra, por ter dado à luz uma menina. Veja do que é capaz um regime gerado na violência em estado bruto: a sogra parece ter se esquecido de que é mulher e que vem sofrendo, por toda a sua vida, os horrores de uma opressão sem pé nem cabeça. Esqueceu-se, ao que parece, além de ter perdido a mínima capacidade de sentir empatia por sua igual... ou terá apenas dado vazão ao seu horror interno assassinando a nora?

Mais abaixo, no jornal, vejo o casal afegão que, com a ajuda do filho, matou três filhas adolescentes no Canadá, porque elas estavam "ocidentais" demais. No grampo telefônico, o pai foi pego dizendo “espero que o diabo defeque sobre seus túmulos”.

Ouso dizer que o maias erraram em suas previsões: o fim do mundo já chegou.

  
E muitos não enxergam a liberdade que há em botar um biquíni e ir à praia!