quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Vai ter festa no céu

Sim, vai ter festa... porque meu pai está voltando pra casa.

Minha mãe estará com seu melhor vestido, com os cabelos soltos como ele gosta de ver; escolherá um disco do Fagner para tocar na vitrola e vai preparar ovos nevados. É um encontro há muito esperado: vinte anos desde o último olhar. E dançarão de novo, de rosto colado, enquanto ele mal acreditará estar ali.

Como na infância, minha irmã correrá em sua direção. E ele poderá sentir outra vez a felicidade, antes perdida, que é tê-la em seus braços.

Se aproxima o momento da libertação. De uma alegria que, para nós, que aqui neste mundo ficamos, é quase impossível alcançar: estou triste, uma tristeza profunda que só os órfãos entendem, porque a conhecem bem. A tristeza de não ter mais para onde voltar, porque a simples palavra "papai" nos leva de volta à casa da infância... aquela de onde nosso coração jamais se muda.

Mas sinto também alegria, confesso: alegria por ele, que me ensinou a amar a vida e colocou em mim tantas coisas de si mesmo... acho graça em sua herança: a impaciência, o nariz longo e sempre em pé; o humor ácido, as respostas prontas na ponta da língua, o prazer na brincadeira, o desejo imenso de ser feliz.

Meu pai me inspira a vontade e a garra de viver porque é um lutador acima de tudo, um sobrevivente que jamais teve pena de si mesmo. Um combatente incansável diante das lutas que travou em seus 78 anos. Um vencedor pelo simples fato de não entregar os pontos nem mesmo diante das maiores dores e decepções. Um batalhador que viveu em busca da alegria de ser grande dentro de suas possibilidades. Um verdadeiro gladiador diante das adversidades.

Tenho um orgulho imenso de parecer-me com ele e de sentir o coração leve por ter sido a melhor filha que pude... por não ter deixado nada por dizer: nenhum "eu te amo"; nenhum "muito obrigada por ter feito o seu melhor"; nenhum "me perdoe se o magoei". A ele dedico (como à minha mãe, nestes vinte anos) todo o meu esforço em ser um ser humano melhor, um ser humano decente, um ser humano do bem: este é o meu maior "muito obrigada".

Meu coração acelera de frio pela solidão da orfandade, e pede a Deus que o receba ao lado de minha mãe, de minha irmã, dos meus avós e de todos os amigos que por lá estão. E que, juntos, celebrem seu reencontro e as vitórias que terão ficado pra trás.

E por nós, que aqui ficamos... peço a Deus que nos livre do egoísmo, para que o deixemos ser livre em paz.



13 comentários:

  1. Texto lindo, Fernanda. O nosso grande Paulo merece a filha que tem. Beijo

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  2. Fazia muito tempo que eu não me comovia tanto...
    Muita luz para toda a família.
    Duilio

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  3. Olá Fernanda,

    Me emocionei com suas lindas palavras.Saiba que aprendi muito tambem com seu pai.Busquei muito nele o pai que não tive.Estou muito triste pelo o que aconteceu, mas tambem feliz porque tenho certeza que no ceu ele ira encontrar muitas pessoas que ele ama e tera a felicidade eterna.

    Um grande beijo no seu coração.

    Fique com Deus

    Layra Capelli

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  4. Querida Layra, obrigada. Ele também te amava, tenha certeza. Beijo e volte sempre.

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  5. Exatamente,a profundeza dessa tristeza,só entende quem já passou por ela... Um beijo no seu coração Fernanda.


    Monica.

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  6. Querida Fernanda...peço a Deus conforto e amparo para você e familiares, pois perder quem a gente admira, ou quem é uma das, ou a figura central dos nossos afetos é, de certa forma, ou certamente, uma morte iniciática que, por outro lado, possibilita-nos uma nova forma de ser e ver a razão da existência... e seus insondáveis mistérios. O espírito de luz, Emmanuel, nos diz que "O homem, quanto mais avança na ascensão evolutiva, mais seguramente percebe a inexistência da morte como cessação da vida. E agora, mais que nunca, reconhece-se na posição de uma consciência retida entre forças e fluidos, provisoriamente aglutinados para fins educativos. Compreende, pouco a pouco, que o túmulo é porta à renovação, como o berço é acesso à experiência, e observa que o seu estágio no Planeta é uma viagem com destino às estações do Progresso Maior".
    Através de suas sábias, emocionadas, sinceras e bem ditas palavras, percebi que seu pai está mais "vivo" ainda, ou mais aceso no seu coração, principalmente quando você diz ter orgulho de parecer-se com ele: "um gladiador diante das adversidades". Infelizmente não são muitos ou tantos os filhos que têm esta clareza, ou este reconhecimento, e por diversos motivos. O seu relato honesto e afetuoso, da trajetória dele, encaixa-se perfeitamente na sabedoria de Confúcio:"Para morrer bem é preciso viver bem". Ainda bem que você não descobriu o amor por ele, somente após "perdê-lo". A sua salutar vontade ou garra de viver advém da sua consciência de que foi, para ele, a melhor filha que pôde. Para os que aqui ficamos, só nos resta viver da melhor forma possível, ainda que o processo possa ser lento...para que os que lá nos aguardam, fiquem_ nas suas próprias e iluminadas palavras_" livres e em paz".
    Por serem parecidos, a vontade do seu transformado pai, na outra dimensão, é, necessariamente, que você fique bem, forte, com coragem e, principalmente, de que você "não entregue os pontos mesmo diante das maiores dores e decepções".
    Meu profundo respeito pelo seu delicado momento, minha condolência, meu afeto e meu abraço caloroso como o deserto ensolarado e aliviante como o desejado oásis. Paz, bem , luz e fique sempre com Deus.
    Marcos Lúcio

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  7. Marcos Lucio... confesso que esperava mesmo pelas suas palavras. E elas iluminaram o meu dia, nesta manhã em que me preparo para, finalmente, desperdir-me dele. Agradeço por cada letrinha. Vc, para mim, já é um amigo. Um abraço.

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  8. Mauro Pires de Amorim.
    Muito comovente e inspirador seu texto, pois penso que todos que conhecemos ao longo de nossa existência, mantém-se vivos e presentes, a partir de nossa memória e lembranças, mesmo aqueles e aquelas que nos decepcionaram e foram maus. Portanto seu pai e outros que já partiram dessa existência para viverem no mundo das memórias, fossem bons ou maus, vivos ou mortos, nunca deixaram de estar presentes, eles apenas mudaram de forma, cabendo a nós que nos lembramos, seleciona-los, classifica-los e aprendermos com nossa experiência de convivência e feitos com eles. A isso eu chamo de legado, que ao meu ver é mais importante do que qualquer valor ou bem material, pois nos ensina a escolha entre o bem e o mal, o certo e o errado, o digno e o indigno.
    Felicidades e boas energias.

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  9. Fernanda ,ainda não passei por esta experiencia,mas senti sua dor ,como se fosse minha,com suas palavras sensíveis e também fortes.Neste momento, peço a Deus que te abrace e te carregue no colo ,pois é o único ,segundo a minha fé ,que pode dar a voce e aos seus,consolo.

    Grande beijo.

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  10. Fernanda,

    Me comovi com a homenagem que voce fez ao seu pai. Conheco a sua dor pois ja perdi meus pais e tambem uma irma.
    Tenha forca. Estamos todos de passgem.
    Beijos no seu coracao.

    Gilda Bose

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  11. Meus sentimentos, Fernanda. Lindo texto, fica com Deus.

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  12. Monica, Mauro Pires Amorim, Teresa, Gilda, André...
    Muito, muito obrigada pela generosidade de suas palavras: só mesmo Deus e o carinho genuíno é que nos sustentam nessas horas. Abraços a todos.

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  13. Maria Aparecida Dannemann Moura9 de novembro de 2011 12:53

    Maria Aparecida
    Fernanda, não tenho palavras para descrever a minha emoção ao ler o que vc escreveu sobre o papai. Você o descreveu lindamente, um homem comum, cheio de falhas, mas a meu ver um herói das batalhas diárias,um guerreiro ,um perseguidor incansável do seu ideal.Camioneiro, dono de açougue, administrador de fazenda, dono de posto de gasolina, professor de ingles,boy da embaixada americana, executivo na embaixada americana...foram algumas das profissões de nosso pai. Eu sempre o comparei a um Fênix, que renasce das próprias cinzas.E de certa forma eu estava bem certa disso.

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