segunda-feira, 19 de maio de 2014

O jovem velho

O mal de se ter vinte e poucos anos é sentir que a vida é longa, por vezes tão longa que nos damos o direito de fazer besteiras monumentais, como se para tudo houvesse jeito e remédio, milagre a tempo e a hora, resoluções românticas que só mesmo a fé da juventude é capaz de alimentar.

O problema é que o tempo passa, e rápido, e mais rápido ainda quando fazemos más escolhas. Não sei exatamente o motivo, mas preste atenção: sempre que fez uma opção equivocada em sua existência, o tempo voou mais veloz, e depois foi mais difícil correr atrás do prejuízo, sanar os danos físicos, morais, financeiros e espirituais... o erro de cálculo em geral custa caro.
E como ser jovem ou velho nada tem a ver com idade cronológica, um dia a gente se mira ao espelho e se dá conta de que o viço da juventude já não brilha mais ali naqueles olhos... alguma coisa aconteceu, mas o quê?

A perda da ilusão, da fantasia, e isso é triste. Um pouco da alegria se foi também. E é assim que a gente começa a envelhecer, porque velhice, na verdade, é isso, é entristecer-se, tornar-se cativo de uma situação externa criada a partir de uma decisão interna.
Envelhecer não é ter 50, 60, 70, 80, 90 anos... a gente pode chegar aos cem e continuar o mesmo jovem que foi a vida inteira, desde que tenha passado pelos anos consciente do próprio valor e tomando as decisões certas para si e para os que estavam ao redor, aquelas que conduzem à alegria, e não à ruína.

Envelhecer é exatamente ser um jovem que desconsidera a si mesmo e brinca com o futuro, como se a vida fosse sempre lhe ofertar uma nova chance.
Ser jovem, ao contrário, é compreender o valor que a vida tem e que cada dia tem; compreender que o futuro é hoje, que cada batida do coração é uma benção  que merece ser celebrada... e que a única maneira de celebrar a vida é buscar de verdade a felicidade, sem atitudes doentias de autocomiseração, sem boicotes a si mesmo, sem pagamento de tributos ao orgulho: tudo isto um jeito mórbido que encontramos de matar o que há de mais livre em nós mesmos.

 Coisa mais triste ver os olhos de 80 numa pessoa de trinta!
 
 

8 comentários:

  1. Eu tambem continuo procurando, nao sei o que, mas sigo procurando...

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    1. E eu procuro junto, não sei o quê, mas procuro!

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  2. Sem duvida, a idade da cabeca eh a melhor de todas. E para ser jovem basta levar a vida com uma simples alegria, com alguns bons amigos, enfrentando e superando obstaculos sempre com bom humor e, principalmente, jogando na lixeira todos os maus sentimentos e coisas ruins que possam aparecer, mesmo que por um segundo, nas nossas vidas.

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  3. Em tempos de Copa- em que pese eu não entender e não gostar de futebol -, a talentosa blogueira fez mais um gol de placa neste excelente texto.

    Assim como a lua possui 4 fases(na verdade ela não muda, nós é que a vemos assim, pelas partes iluminadas pelo sol), os chamados de humanos (há controvérsias rs) que tiverem sorte, terão , igualmente 4 fases:infância, adolescência, adultidade e velhice. Os que não quiserem atingir a última fase, terão de morrer antes, "de susto , bala ou vício", dentre inúmeras outras possibilidades, ou, na pior das hipóteses, cometer suicídio.

    O problema está na falta de saúde e na cabeça entortada, e não na idade.Envelhecer , quando se tem boa saúde, boa energia, pé quente , cabeça fria e curiosidade... é uma etapa/ prêmio natural da vida.

    Coisa mais linda ver os olhos de 20 e tantos anos, numa pessoa de 80 ou mais .

    Se a pessoa tiver bons amigos, saúde, gosto por leitura, teatro, viagens, filmes, shows, exposições, atividades físicas, banhos de mar, pesquisas,trabalho voluntário, dança, conhecimento/novos aprendizados , etc., ela só vai lamentar a escassez absoluta de tempo.Embora antiqüíssimo- com trema e tudo - tenho tantas tarefas atraentes (e olha que só interesso-me pelo que considero de excelência) pela frente, que nem se vivesse mais 500 anos seria suficiente para cumpri-las.Ainda , cumulativamente, pretendo surfar a pororoca rs.

    Quanto às ilusões, fico com Mário Quintana:
    Meu saco de ilusões, bem cheio tive-o.
    Com ele ia subindo a ladeira da vida.
    E, no entretanto, após cada ilusão perdida...
    Que extraordinária sensação de alívio!


    Naturalmente o mais importante é a marca que devemos deixar nos outros, pela forma como afetamos e somos afetados por aqueles com quem tivemos o privilégio de conviver com satisfação.Mais que tudo, os bons encontros, sempre.

    Em entrevista a atriz Meryl Streep questionada por estar fazendo comédias românticas, ela, que já fez filmes como A escolha de Sofia e tantos outros de arte premiadíssimos, responde:
    -“Depois que fiz 60 anos, não tenho de provar mais nada à ninguém, quero fazer o que me dá prazer e acho divertido” (evidentemente, sem deixar o sinthoma de ser Streep).
    Taí uma vantagem da velhice: já ter dado as provas que a vida exigiu. Trata-se, agora, de um outro “fazer” que supõe uma liberdade e ao mesmo tempo um ato de se autorizar fazer diferente.


    Como existe algo na estrutura do sujeito, que perdura, alguma coisa que não passa e que constitui a sua marca própria... podemos dizer que é o sinthoma o que resiste e em relação ao qual, só poderá reinventá-lo.Ato contínuo,o bom da velhice pode estar na possibilidade de se reinventar e poder explorar recantos do nosso ser que ficaram à espera de uma nova montagem, uma outra leitura de nós mesmos, o novo sempre presente, pois, o que somos, ontologicamente, de fato, não envelhece.
    Santé e axe!

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  4. Para ser velho jovem tem de, com empenho e sagacidade, saber escolher entre envelhecer com mel ou com fel.Conheço muitas pessoas -infelizmente a maioria - que estão envelhecendo mal. Desconfortavelmente. Com uma infelicidade crua na alma. Estão ficando velhas (algumas ainda emocionalmente infantilóides ou aborrecentes), sem terem amadurecido (apodrecem antes de amadurecer).Consequentemente, não estão ficando sábias...condição sine qua nom para superar os novos desafios que a senectude impõe.

    É possível (re)compensar o aspecto físico externo que se deteriora naturalmente com o tempo. O enriquecimento cultural e espiritual alimenta e aprimora progressivamente o interior cuja essência é renovável e agregativa.Há velhinhos que," por fora, pão bolorento, por dentro, bela viola", invertidores do ditado popular.

    "Agora que a velhice começa, preciso aprender com o vinho a melhorar envelhecendo e, sobretudo, a escapar do terrível perigo de, envelhecendo virar vinagre" (Dom Helder Câmara)


    "Vinhos são como os homens. Com o tempo, os maus azedam e os bons apuram" (Cícero, filósofo Romano)


    "Homem vinho
    o tempo te lapida
    hoje, ferida, amanhã, cicatriz"
    (Rita Lee)

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    1. Creio que sobre os desafios, nem tanto ao mar, nem tanto à praia - menos que à 'terra' - porque os tempos mudaram. Creio na necessidade absoluta de se procurar uma explicação e isto, exige certa divagação.

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  5. Excelente texto que nos faz pensar no essencial da vida que, segundo Aristoteles eh mesmo ser feliz.

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  6. Jovens Velhos...

    Existem jovens que são velhos. Velho já sabe tudo. Não acredita que existam mais coisas a serem nomeadas e relacionadas. Tudo já se encontra encaixado naquilo que sempre esteve e ele já descobriu ao longo da vida. Quando é que recuperaremos enquanto humanidade a nossa capacidade de nomear as coisas novamente, de estabelecer novas relações e valores entre elas?

    Quando abrimos mão de corresponder à expectativas, sejam do mundo, da sociedade e nossas mesmos, parece-me que recuperamos uma antiga capacidade humana (própria até da juventude) de nomear o mundo muito mais por aquilo que desejamos dele, do que por aquilo que ele espera de nós. E é só assim que transformamos o mundo, ou seja, quando abrimos mão de reproduzir os nomes e as relações já estabelecidas e passamos a nomeá-lo (ele e as coisas dele) a partir de novas perspectivas e desejos que não reprimimos para atender o status quo. ..e isto não depende exclusivamente de idade.
    Gilberto Miranda Jr.

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