quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Eu não sou um caminhãozinho de lixo!


O cineasta Arnaldo Jabor conta que um dia estava num táxi e, diante de uma fechada que poderia ter resultado em um grave acidente, o motorista acenou calorosamente para o barbeiro, no outro carro. Surpreso, Jabor não aguentou:

-- Mas o cara quase mata a gente e você dá tchauzinho pra ele?

Ao que o outro respondeu:

-- Olha, meu senhor: o que mais existe por aí é quem jogue o que tem de pior em cima da gente. Pessoas que jogam seu lixo todo em cima da gente sem a menor cerimônia... mas eu não sou caminhão de lixo. Eu não recolho pra mim o lixo de ninguém!

Jabor gostou desta filosofia do homem e escreveu sobre ela. Eu também gostei, e estou aqui passando-a adiante porque é mesmo uma grande verdade.

Com quanta gente nos deparamos, infelizmente, que com avidez lança sobre nós o seu lixo interno, e nós, muitas vezes desatentos, acabamos fazendo o papel de caminhãozinho de lixo, engolindo a sujeira toda num gesto automático?

Os medíocres estão por toda parte. Os invejosos. Os infelizes. Os perdidos de si mesmos, verdadeiros andarilhos emocionais, gente que não suporta a felicidade pura e simples estampada no rosto de alguém. Gente que não aprendeu a ter coragem de expor-se e dizer o que pensa, a defender o que acredita. Gente que prefere fazer parte da manada a arriscar-se a ser diferente, e que devido à sua covardia, condena o diferente através da crítica, da fofoca, da calúnia. Gente que se sente inferior e alimenta o ódio por aquele que secretamente admira; e como não é capaz de um elogio, deixa-se levar pela agressão. Agredir é mais fácil que amar, afinal de contas... estamos no reino dos homens! Se estivéssemos no reino animal, com certeza a convivência seria mais fácil.

O desafio vai além de não nos permitirmos entrar para esta tribo nefasta dos infelizes, além de fazermos da nossa existência a melhor das nossas obras: toda atenção é pouca para que não nos transformemos em um caminhãozinho de lixo, pronto para recolher a imundície alheia, para engolir a violência do outro e envenenar nosso corpo e nossa alma, escurecer o dia, deixar a noite sem estrelas... é o desafio de não dar ao outro o poder de sujar a nossa vida.

Taí um exercício pra ser feito a todo instante: manter a alegria nas veias, correndo junto com o sangue. Não permitir um grãozinho só de sujeira alheia a macular a leveza da nossa alma. Parece fácil, mas não é... talvez o segredo seja fazer como o taxista lá de cima, e lembrar que não somos caminhõezinhos de lixo! Acho que tudo começa mesmo é com esta decisão.


Eu sou uma motoca!!!


 

8 comentários:

  1. Fernanda,

    Este motorista e realmente sensacional ....... assim como o Arnaldo Jabor !!!!
    Adorei seu Post !!!

    Felicidades,

    Gilda Bose

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    1. Gilda, minha flor... este motorista virou meu guru!!! kkkkkkk

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  2. Eu sou uma asa delta.

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  3. Conheço e adoro esta filosofia do taxista e pasme...consigo, não sem esforços e constante vigilância, há alguns anos, manter "o desafio de não dar ao outro o poder de sujar a nossa vida".Aprendi,a duras penas e com o passar dos muiiiiiiiiiiitos anos -já beiro à senectude rsrs -, a separar o joio do trigo (a calúnia pertence ao caluniador, a infelicidade pertence ao infeliz, etc.), ou a não competir para ver quem é o pior, afinal, não combatemos fogo com gasolina ou com mais fogo.Temos de ser a mudança ou o comportamento que esperamos nos ou dos outros, ou seja, exemplares e não reativos infantiloidemente.

    Em algumas situações, vale ser sarcástico ou irônico, se for conveniente, mas jamais agressivo como o agressor uma vez que um erro não justifica outro. A mítica e sábia Dona Beja quando recebeu fezes de presente, retribuiu-o com lindas rosas , anexando um "singelo" bilhetinho sardônico:cada um dá o que tem.Bingo!

    Sem falsa modéstia, identifico-me, não com este caminhãozinho ingênuo ou inútil, mas, de fato e com alguma sorte, com a flor de lótus. No simbolismo budista, significa pureza do corpo e da mente. A água lodosa (invejosos, caluniadores, medíocres, injustos, infelizes, etc.) que circunda a planta é associada ao apego , mas não impede que e a flor imaculada supere e ignore estes "encostos" e desabroche em busca de luz.

    Esta flor representa um mistério para a ciência, que não consegue explicar a característica própria que possui de repelir microorganismos e partículas de pó, mantendo-se limpa e bela( mas sei que sou feio, porém limpinho rsrs).

    Não é fácil, mas a gente pode e deve se preparar para não se rebaixar ao nível da maioria infeliz ou mal resolvida...afinal, o latido dos cães sarnentos não é empecilho para os movimentos e evoluções da nossa carruagem existencial, se pretendemos "alcançar os astros e não levar a vida de rastros e ser poeira de chão".

    Ainda acredito que nascemos para as coisas do alto, portanto, sejamos águias e não galinhas, para que possamos evoluir.
    Santé e axé!

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  4. A verdade é que nem sempre a gente consegue ser o que Dalai Lama deseja. Aqui em casa nosso censor mora no outro. Quando ela estoura eu trato de apagar o incêndio e quando o estouro é meu, quem apaga é ela e assim, pretendemos fazer inveja ao Dalai. Quando estouramos os dois... Bem, ai o que se vê é um despautério, um trem precisando ser posto de novo nos trilhos. Mais tarde, na ressaca da vergonha pela perda da compostura, carinhos e sinais de afeto vão costurando a vida como ela é.

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  5. O Dalai tem a (des)vantagem de não amar eroticamente, ou com exclusividade, ninguém...o amor dele é desapegado e universal, jamais canalizado para uma pessoa...daí...a possibilidade de equilibrar-se ou de não estourar é bem menos trabalhosa ou sem precisar do censor alheio, se não estou equivocado, Alfredo. Na sua situação, só pode ser assim mesmo e mais do que razoável ou normal.Além da costura, os bordados também contam, né?Abraço.

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    1. Na verdade o que conta mesmo são os bordados! Ah! A poetisa nos chamou de poetas e isto, com certeza, é para nós uma lisonja

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  6. Marcos Lucio e Alfredo... vocês são dois poetas-filósofos!

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