terça-feira, 7 de agosto de 2012

Qual é seu "ratatouille"?

Até quem não gosta de comida, porque estes tipos existem, e quem, em nome da dieta,  foge de um prato de arroz com feijão igualzinho o diabo foge da cruz... sim, até este povo tem o seu “ratatouille”.

O meu é este aqui, ó:


A quem não viu o filme do rato expert em comida, e do crítico de gastronomia que viajou  no tempo ao provar uma receita que a mãe fazia quando ele era pequeno, vou explicar: eu não preciso nem botar a costelinha de porco na boca... ou aquela mistura dos deuses, chamada “angu com feijão”... só preciso olhar a comida em cima da mesa, ou sentir o cheiro dela, para ser imediatamente teletransportada à casa da minha mãe, onde o almoço era quase todos os dias assim. Era uma casa mineira, uai!

-- Você tem que ver a sua cara quando come isso...
Meu marido gosta de me levar aos legítimos restaurantes mineiros só para ver minha satisfação. Mas tem que ser legítimo: restaurante mineiro fora de Minas é como restaurante brasileiro fora do Brasil. A pior feijoada que já comi na vida foi em Buenos Aires, num estabelecimento “brasileiro”  bem famoso lá.

Este negócio de “ratatouille” existe mesmo. Lembro de um amigo que adorava comer arroz papa porque era assim que comia em sua infância, na casa da mãe. A tal senhora não sabia muito bem pilotar o fogão, mas o rapaz não queria nem saber: cresceu comendo arroz papa e era de arroz papa que ele gostava. O soltinho, em sua opinião, era  coisa de quem não sabia cozinhar.

Tive um namorado que adorava cantar glórias ao talento culinário de sua mãe. Falava dos sanduíches que levava de merenda para a escola, dos almoços de domingo e de uns pratos que eu achava bem esquisitos, como uma mistura que ela fazia com tomate e feijão.  Quando a conheci, fui logo dizendo que estava curiosa para experimentar seus quitutes, porque o filho havia dito que ela era fera na cozinha.

-- Eeeeeeeuu?!

Ela não precisou dizer mais nada: entendi imediatamente que se tratava de um caso típico de “ratatouille”.

Dia desses descobri que o “rata” tem suas variações. Um amigo mais novo, pertencente à geração cujas mães trabalhavam fora (e demais), e que foram mais criados por empregadas do que por suas genitoras, não titubeou ao revelar seu “ratatouille”... que, longe de sair do livro de receitas materno, saiu mesmo foi do comercial de televisão:

-- Cheetos.

Como se vê, o paladar tem seus segredos insondáveis, tanto quanto a memória afetiva de cada um. Por falar nisso... ai que vontade de comer um pão de queijo!


21 comentários:

  1. Fernanda,

    A foto me deu uma "agua na boca" danada .... e saudades tambem ......

    Nao sei se voce conhece Sete Lagoas, Minas, claro, pois bem, foi la que eu passei ferias inesqueciveis.

    Ficava na casa da mae da minha cunhada, e comia a comida e os quitutes feito pela Tanzinha .....
    ela fazia um feijao (no fogo a lenha), um arroz, um bifinho frito com batatas fritas ....que ate hoje, quando lembro me da saudades .....e o pao de queijo com cafe, que nos comiamos depois que voltavamos dos gritos de carnaval ... meu pai .....

    Tive a sorte de nascer numa casa, que embora tivesse pessoas para ajudar minha mae, quem fazia a comida era ela e uma prima que morava conosco a vida toda, tanto e que a considerava como segunda mae, e as duas eram muito boas, mas eu nunca fiz propaganda nao ..... convidada alguns amigos e aguardava ..... interessante ninguem conversava, todos saboreavam ....era silencio total e pratos limpos ......

    E a minha tia era expert em paes, panetones, tortas doces, bolinhos de polvilho, sequilos, alguns italianos cobertos com mel.....fora os pasteiszinhos, croquetes e um cuscus (que ate hoje so encontrei feito por uma tia de uma amiga)..... fora os bolos com cha todas as tardes .........

    E paro por aqui, porque a saudades esta me matando......

    Beijos

    Gilda Bose

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    1. Gilda, suas palavras abriram meu apetite! Fiquei com uma fome danada...

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  2. Como eh do conhecimento da dignissima, este pobre desempregado gosta de pilotar um fogao e os resultados voce ja teve o prazer de ver (quem sabe, um dia, de experimentar?).
    Quando eu vou fazer um jantar para alguns convidados, creio que voce pensa como eu penso, cuido da apresentacao pois considero como fundamental o primeiro contato com a comida: ver o prato. O segundo vem logo na primeira garfada!
    Entao ficamos assim: fazer algo bem bonito e gostoso eh a porta do sucesso.
    Isso a parte, como eh bom voce poder curtir um "mata hambre", o "personal ratatouille" quando a fome bate e, melhor ainda eh ter saudade disso, pois te leva a um passado gostoso!
    Sabe como eh... Quando nao da para curtir uns blinis com um beluga malossol, uma ova de sardinha bem fritinha cai como um paraiso na nossa mesa.

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    1. Ariel, concordo totalmente: a cara da comida faz toda a diferença. Se eu não adorar a aparência, não como de jeito nenhum! Espero sim um dia poder comprovar seu talento de chef. Quem sabe você não abre aquele restô?

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  3. Fernanda e Gilda,vcs fiquem aí tricotando sobre comida,e comendo tambem claro,e depois quando as duas estiverem GOOOOORDAS,eu não vou aceitar lamentações me pedindo dicas de dieta... Bjs para as duas.

    Monica.

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    1. Monica, diz aí como é que eu faço pra perder esta pança que não quer me largar!!!!!!!!!!!!

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  4. Monica,

    Adorei a sua resposta, mas a verdade e que quando eu comia essas comidas todas eu era magra .... acredite se quiser, mas a quantidade era correta.

    Hoje sou gordinha (rsrsrsrs) e nao como nada disso porque nao tenho ninguem que faca para mim .....

    Beijos

    Gilda

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  5. Nada se compara ao sabor da memória. Li seu post, com água na boca, e emocionei-me pelas lembranças dos almoços dos fins de semana em família, no interior das Gerais, quando criança. É quase consenso a culinária mineira como a mais saborosa do país, né?

    Como tive o privilégio de ser educado e alimentado por mãe presente "full time"_ a verdadeira rainha do lar_, para não ir às lágrimas, vou sair pela tangente e falar de Marcel Proust, a melhor combinação entre literatura e culinária de que tenho notícia. Ao levar à boca um pedaço do bolinho que ele havia mergulhado no chá, o narrador é imediatamente transportado ao seu passado, à sua infância feliz, em Combray, no interior da França. Uma felicidade súbita e tão passageira toma conta dele, que a partir daí passa a rememorar, quase a viver, com a mesma emoção, o seu passado distante, quando então costumava tomar chá com as tais madalenas, na casa de sua tia.

    É assim que começa um dos romances mais fascinantes do século 20, e um marco da literatura moderna: Em Busca do Tempo Perdido. As madalenas são, na verdade, uns bolinhos muito comuns, de formato ovalado, mas que acabaram se tornando famosos no mundo todo, sendo objeto de estudos, debates infindáveis e análises acadêmicas em razão dessa referência que é o ponto de partida na obra de Proust."Et vive la France!".

    Ao longo dos sete volumes que compõem Em Busca do Tempo Perdido, além de relatar com detalhes as refeições preparadas por Francisca – a exímia cozinheira, empregada fiel e temperamental – ou os jantares freqüentados pela aristocracia decadente, Proust também descreve esse “milagre” da memória sendo reavivada a partir do sabor ou do aroma que uma comida pode desencadear em nós.

    A seguir um trecho da obra que foi traduzida pelo genial Mário Quintana:

    “levei aos lábios uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço de madalena. Mas no mesmo instante que aquele gole, envolto com as migalhas do bolo, tocou o meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção de sua causa... De onde me teria vindo aquela poderosa alegria?”

    Nem o estímulo visual, nem a leitura de um texto, nem uma canção, nenhum outro apelo aos nossos sentidos pode ser comparado àquele despertado pelo aroma de uma comida, pelo sabor de uma fruta experimentada pela primeira vez ou por um prato degustado há muito tempo e capaz de nos trazer de volta aquele passado.

    Que misteriosos mecanismos são desencadeados quando sentimos o cheiro ou o sabor de um alimento que nos remete imediatamente há um tempo já vivido?

    Deixemos de lado explicações fisiológicas, conexões neurológicas intrincadas e abordagens existenciais. A memória despertada pelo aroma ou sabor de uma comida é pura mágica driblando o próprio tempo. E a literatura _destaco também Eça de Queiroz, dentre tantos outros gênios das letras_tem registrado com muita riqueza a comida e a bebida como uma representação da sociedade no seu tempo.
    Abraço apertado
    Marcos Lúcio

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    1. Sabe, EstiMarcos, tenho um pouco de peninha de quem cresceu sem ter a mãe integralmente em casa... era bom, não era?

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    2. Nó! (pra quem não conhece mineirês, significa: Nossa Senhora do Divino Perpétuo Socorro Eterna Dedensora dos Fracos e Oprimidos... porém a Rita Lee acha que esta Santa é defensora dos frascos e comprimidos kkkk)...minha mãe , que estava o tempo tooooodo em casa...e ligadíssima, até salvou-me de um quase afogamento, fruto de uma brincadeira mal feita, entre mim e minha irmã (era danada).
      Já relatei, detalhadamente, no blogue do Marcelo, no post ALGUÉM JÁ SALVOU SUA VIDA?

      Como era, é , e será bom ter e contar com este porto seguro, pelo menos até a adolescência, indiscutivelmente.

      Tenho mais do que pena, queriDannemann, do desamparo a que são expostas (desnecessariamente) todas as crianças cujas mães precisam ou querem trabalhar fora. Respeito, mas discordo, afinal, ou ela escolhe ter filho ou trabalhar. Ou se coloca os anéis ou se coloca as luvas. Ou isto ou aquilo. Se com mãe presente, nem sempre as coisas saem como se deseja, imagine, então, sem mãe e com babá eletrônica (maldita telê), os resultados estão aí, pra quem quiser observar: famílias absolutamente desfuncionais.
      Beijão procê!!!

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    3. Menino de Deus!!! Este "nó!" saiu das priscas eras da minha vida!!!!!!!!!!!!!!

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  6. Lendo esta delícia _ de lamber os beiços_ da minha blogueira maneira/mineira prediieta, tenho de concordar,embora sendo carioca, que a mais saborosa e afetuosa culinária nacional, disparada, é a mineira, uai". "Leitãozim" à pururuca,
    feijão tropeiro, "franguim" com quiabo, tutu com couve, o "pãozim" de queijo, a broa de milho com café, e vou parando "porraqui",
    para não salivar mais. Como Minas é o estado brasileiro que tem mais a ver com a França: o detalhe, o capricho, a introspecção, a arte, a educação, a discrição, os queijos, a bandeira cujos ideais foram pregados pela Revolução Francesa, assim como a Inconfiência Mineira, etc.,
    achei genial a sacada do mineirésimo Lúcido, ao referir-se a Proust e suas famosas "madeleines".

    Fiquei, mineiramente matutando e decidi pesquisar.

    A cozinha mineira encanta não somente porque é a mais característica do Brasil, mas sobretudo porque é feita de pratos ricos em sabor e cheios de histórias próprias, bem brasileiras que remontam à época dos escravos, o ciclo do ouro, das pedras preciosas e que nos falam de cidades importantes e lindas como Ouro Preto, Diamantina, Sabará e outras, onde se escreveram muitas páginas da nossa história .
    A preparação desses pratos em ambientes modestos e com poucos recursos, termina por despertar um espírito criativo, seja nas misturas dos ingredientes, seja nos temperos, dando lugar a uma cozinha típica, muito rica e bem variada.

    O "feijão tropeiro", por exemplo, era feito pelos homens encarregados do transporte do ouro desde as minas até a capital do país e era justamente nas paradas feitas durante a viagem que eles o preparavam de maneira bem simples.
    Baseada nos produtos de fundo de quintal: o porco, a galinha, o quiabo, a couve, o fubá, por isso mesmo, é simples mas de um sabor inigualável e marcante. Está intimamente ligada às cozinheiras das grandes fazendas.
    Ela seduz principalmente pelos aromas. Eles nunca saem da memória de quem já sentiu o cálido olfato de um lombinho crepitando no forno, de um feijãozinho imerso em temperos, do torresmo saltando em pururuca , da lingüiça que toma forma com seu principal tempero: a paciência , e onde as panelas agüentam horas sobre o calor para que as carnes se impregnem de sabores e liberem os aromas que calam fundo na memória de alguém que, algum dia, caminhou displicentemente pelas ruas de uma cidade do interior mineiro.
    Hoje, está disseminada em todo o país pela sua alta qualidade e sabor.
    "Instantes depois a mesa foi posta e nos serviram um prato de feijão cozido com algumas verduras, arroz e canjica. Eu me achava de novo na terra hospitaleira de Minas Gerais." Auguste de Saint - Hilaire

    Abraço afetuoso

    Danilo

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    1. Danilo, não é à toa que pertencemos ao mesmo clube...

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  7. Oi Fernanda,

    E como diriam os poetas:

    “Todos os princípios se desmoronam diante de um lombo de porco com rodelas de limão. tutu de feijão com torresmo, lingüiça frita com farofa.” (Fernando Sabino)

    “E do prato inteiro, onde havia um ameno jogo de cores cuja nota mais viva era o verde molhado da couve – do prato inteiro, que fumegava suavemente, subia para nossa alma um encanto abençoado de coisas simples e boas. Era o encanto de Minas”. (Rubem Braga)

    “Nosso não será o petróleo tanto assim. Nossos, bem nossos, são o doce de leite e o desfiado de carne-seca. Meu – perdoem-me – é aquele prato mineiro verdadeiramente principal. Guisado de frango com quiabos e abóbora-d’água (ad libitum o jiló) e angu, prato em aquarela, deslizando viscoso como a vida mesma, mas pingante de pimenta”. Sem esquecer os doces, “à frente os de calda, que não convém deixem de ser orgulho próprio e um dos pequenos substratos do bem-querer à pátria e do não desentender a nação”. (João Guimarães Rosa)

    Parabéns por conseguir transmitir em um post, todas as emoções e felizes lembranças que temos dos tempos em que nos reuníamos em volta de uma mesa, porque a cozinha, para nós mineiros, é um santuário da casa.

    Mercedes

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    1. Oi, Mercedes! Bem-vinda à nossa cozinha virtual! Adorei a sensação de ter aqui o Guimarães, o Rubem Braga e o Sabino... este último foi meu amigo e costumávamos bater altos papos comendo pão de queijo, que ele assava num forninho elétrico. Obrigada pela visita e veja se volta outras vezes. Abraços

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  8. Gente,

    Quanto bairrismo, o Brasil tem uma culinaria maravilhosa ....agora para conhecer, tem que se hospedar numa casa, cuja cozinheira e de forno e fogo ....quem conhece a culinaria de um estado comendo num restaurante ........sem comentarios .......

    Beijos

    Gilda Bose

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    1. Não é bairrismo não, Gilda, é que a mineirada adora a culinária local. Mas deixa eu dar um pulo nordeste que vai acontecer a mesma coisa, cê vai ver!

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  9. Olá, Fernanda. Visito Rio todos los años, amo esa ciudad. Cada vez que viajo me prometo a mi mismo comer feijoada y nunca lo hice. Le agradecería me sugiera algun lugar donde a su criterio se sirva la feijoada más parecida a lo que se come en un hogar brasileño. No busco un lugar bonito ni caro ni barato, procuro uma boa feijoada !! Desde ya, muchas gracias, me encanta su blog

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    1. Hola, Fernando! Bienvenido a mi blog! Espero verlo por acá otras vezes. Bien... una buena feijoada en BsAs no es nada fácil... pero en Rio, te cuento que el "Bar do Mineiro", en Santa Teresa, o la "Academia da Cachaça", en Leblon, son las que más me encantan. Me olvidé el nombre del resto porteño donde comi feijoada, pero voy a ver y te lo digo. Dáme un rato. Voy a escribirlo abajo, ok? Pero no espere mucho, porque está muy, muy lejos de una feijoada carioca. Te sugiero esperar hasta el próximo viaje a Rio! Saludos!

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    2. Muchas gracias, Fernanda !! No es necesario el nombre del resto porteño ya que vivo en un pueblito de Córdoba y rara vez viajo a Bs. As., con los datos de Rio está bien. Sigo su blog (y el de Marcelo) desde que escribían en JB, realmente los disfruto. Me resultan muy útiles para visitar lugares que aún no conozo. Por ejemplo, las notas sobre Madureira y Minas me resultaron muy interesantes, un cordial abrazo, Fernando

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  10. Ok, entonces, estimado Fernando... es mejor así, porque la feijoada argentina no era nada buena... agradezco por su visita e espero verlo siempre acá. Es un gusta para mi, sobretodo porque amo mucho BsAs, que es mi segunda casa! Abrazos!

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