sábado, 4 de maio de 2013

Eu sou a nova Maria Magdá

Lembro que na faculdade de jornalismo tínhamos uma colega na faixa dos 40: era a Maria Magdá, que tinha uma cicatriz deixada por um piercing no nariz, numa época em que piercing era coisa inexistente no Brasil. Magdá era uma mulher “prafrentex”, moderna, alternativa, como se vê pelo piercing que ela já havia deixado de usar. Estava em sua segunda faculdade e cursava jornalismo por prazer: o que eu achei o máximo! Depois da formatura nunca mais a vi, e sempre imagino como ela deve estar hoje, tantos anos passados.

E ai aconteceu que eu, que jamais pensei ter tempo, grana ou energia para encarar cinco anos em outra faculdade... eu, que nem lembrava mais o que vem a ser “meiose” e “mitose”... well... desisti dos cursos de pós-graduação e voltei pra estaca zero dos bancos escolares.
E agora tenho aula de genética, que adoro, e me faz lembrar das aulas de ciências, no primeiro grau, e de biologia, no segundo. Nunca entendi porque é que o nome mudava se a matéria era a mesma. E agora ela evoluiu mais ainda e virou neuroanatomia, psicofisiologia e genética. Que chique, hein? Eu, mulher das letras, entrei para o clube da Saúde!
A turma é eclética e tem de tudo, mas sinto um prazer especial em ser amiga das colegas mais jovens. Elas são jovens mesmo, muitas poderiam ser minhas filhas; eu olho para elas e vejo um pouco da moça que fui, vejo as minhas sobrinhas tão queridas e que também já passaram dos 30; vejo as filhas que não tive e a juventude que, graças aos Céus, ainda guardo como um luxo dentro de mim.
Conviver com jovens é uma das melhores coisas da vida: eles nos contagiam com uma alegria genuína e com uma ingenuidade que nos traz de volta a pureza das coisas mais simples. Dia desses, encontrei 12 reais no chão e tive pena da pessoa que, provavelmente no ponto de ônibus, se deu conta da perda. Quando a gente tem 18 anos, 12 reais são de um valor quase inestimável...
-- Fernanda, se você tiver dúvidas com a matéria, posso estudar com você!
Volta-e-meia ouço esta frase na aula de genética e acho um barato esta generosidade que, aos poucos, a gente vai perdendo, e aí a “falta” vira uma tônica: é a falta de tempo, falta de paciência, falta de vontade tão presentes na vida adulta. O jovem não: ele tem tempo pra tudo, tem vontade de sobra e paciência com as situações desagradáveis, que muitas vezes acabam virando piada. Ele ainda não se deu conta de que o tempo é finito e de que a vida é curta mesmo para quem chega aos 90.
Minha amiga antiga, a Ludmila, perguntou se me sinto velha de volta à faculdade e cercada por meninas na flor da idade. Não, Ludmila: eu  me senti aos oito anos quando montei, com minha mais nova amiga, a Juliane, um exemplar de fita de DNA e RNA, usando jujubas e palitos de dentes.  Inclusive tirei 9 na prova porque a Juliane estudou comigo depois da aula.
Dia desses, num almoço para comemorar as boas notas, foi a Juliane mesmo quem me chamou de “alternativa” ao me comparar com a mãe, que aliás tem exatamente a minha idade. Não sei bem o que ela quis dizer com isso, mas achei graça na situação. Eu, quem diria, virei Maria Magdá... e como é que vou me sentir velha com isso?

 
Olha a Juliane aí, com a nossa fita de DNA de jujuba!

19 comentários:

  1. Fernanda,

    BARBARO !!!!!

    Eu acho e sempre achei que:"o saber nao ocupa lugar no espaco" ....para falar a verdade eu vivo estudando e aprendendo coisas novas, e quanto se misturar com os jovens e "divino" e como se diz em ingles: Priceless ....
    Parabens pela nota 9 !
    Fiquei feliz por voce.

    Felicidades, bjs.

    Gilda Bose

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    1. Gilda! Consegui comprar o livro que você indicou! Vou ler e depois conto o que achei. bjos!

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    2. Minha mãe dizia que 'saber não ocupa espaço', mas acho que não é bem assim. Saber, procurar saber, trás uma certa intolerância que ao fim e ao cabo se volta contra o próprio mutismo sugerido pelo tal... Saber, ou procurar saber já que na verdade não se sabe é nada.

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  2. Fernanda,

    Aiiii que bom ....eu espero que voce goste .....este livro para mim foi uma tomada de consciencia .... um verdadeiro "Buuuummmmm".....eu simplesmente adorei .....

    Felicidades, Bjs

    Gilda Bose

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  3. Juliane... você que é uma jujuba!

    Ass: M&M

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  4. Nota 10 pelo 9, parabéns! e, principalmente, pela evidente jovialidade demonstrada no texto. De fato, só o novo renova e o contato com jovens inteligentes, estudiosos e cheios de alegria e esperança genuínas é das mais agradáveis coisas da vida.Adorei:"Eu, mulher das letras, entrei para o clube da Saúde!" que, sob qualquer aspecto , é o melhor e mais importante nesta "vida louca, vida breve".

    Como ainda considero que a salutar prática real da filosofia permite atravessar sem desagrado todas as épocas da vida, citarei o grande Cícero em SABER ENVELHECER, um problema para muita gente.

    Além de ser mais interessante envelhecer (se temos boa saúde)do que morrer ainda jovem, concordo com ele quando diz ser a inteligência a mais bela dádiva da natureza e que as melhores armas para a velhice são o conhecimento e a prática das virtudes.E mais:"Os que não obtêm dentro de si os recursos necessários para viver na felicidade, acharão execráveis todas as idades. Mas todo aquele que sabe tirar de si próprio o essencial não poderia julgar ruins as necessidades da natureza .E a velhice faz, seguramente, parte delas. Todos os homens desejam alcançá-la, mas, ao ficarem velhos, se lamentam.Eis aí a inconsequência da estupidez. É portanto ao caráter de cada um, e não à velhice propriamente, que devemos imputar todas as lamentações.Os velhos inteligentes, agradáveis e divertidos suportam facilmente a velhice, ao passo que o temperamento triste e a rabugice são deploráveis em qualquer idade.Os cabelos brancos e as rugas não conferem , por si sós, uma súbita respeitabilidade.Esta é sempre a recompensa de um passado exemplar.O saber se vale das competências acumuladas e se enriquece à medida que envelhecemos, e aproveitar cada dia para adquirir novos conhecimentos, é fundamental.Longe de ser passiva e inerte, a velhice deve ser atarefada, fervilhante, ocupada em atividades relacionadas com o passado e os gostos de cada um.E certos velhos (eu diria os velhos certos rsrs), em vez de se repetirem, continuam a estudar coisas novas.Sim, nenhum prazer é superior ao do espírito.A vida segue um curso muito preciso e a natureza dota cada idade de qualidades próprias.Gosto de descobrir o verdor num velho e sinais de velhice num adolescente.Aquele que compreenceer isso envelhecerá em seu corpo, jamais em seu espírito.Não são nem a força, nem a agilidade nem a rapidez que autoriza as grades façanhas;são outras as qualidades como a sabedoria, a clarividência e o discernimento.Qualidades das quais a velhice não está privada e pode muito especialmente se valer."
    Santé e axé!
    Marcos Lúcio

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    1. Excelente! Nunca li Cícero, e depois desta fiquei com vontade de ler.

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    2. Que bom ter sido do seu agrado."Merci".Ato contínuo, esteja certa: o Cícero leu você, de certa forma, assim como somos "co-autores" dos livros que adoramos ou pelos quais sentimos afinidades ou paixões.

      Como já exerci a profissão de "fessô" rsrs...que considero a mais digna e importante, e concomitantemente das menos prestigiadas, inclusive pecuniariamente no Patropi(é um absurdo, abcego e abmudo rsrs isto, né?), vou lançar mais uma sementinha ciceriana procê, que adora uns quitutes (et moi aussi):

      "Em vez de lamentar a velhice, devemos nos felicitar que ela não nos faça lamentar demais os prazeres.Ao renunciarmos aos banquetes, ás mesas que desabam sob os pratos e as taças inumeráveis, renunciamos ao mesmo tempo à embriaguez, à indigestão e à insônia.Se a velhice deve evitar banquetes excessivos, ela pode muito bem desfrutar o prazer das refeições equilibradas".

      Aliás, este tipo de refeição indicada pros velhinhos como eu rsrs...seria igualmente ideal para crianças e jovens de todas as idades (como eu rsrs), se quiserem uma vida saudável.

      Mais uma:"Ouve-se ainda dizer que os velhos são mal-humorados, atormentados, irascíveis e rabubentos - e mesmo avarentos, examinando bem.Mas esses são defeitos inerentes a cada indivíduo, não à velhice".

      Sim, as pessoas são como vinhos... as desagradáveis e inadequadas avinagram com o passar dos anos. As convenientes e sensatas e divertidas, melhoram suas qualidades, "of course"!, desde que a saúde esteja boa.Há velhos saudáveis e jovens doentes, e vice-versa, claro!

      E coloca ponto final assim:"A natureza fixa os limites convenientes da vida como de qualquer coisa.Quanto à velhice, em suma, ela é a cena final dessa peça que constitui a existência.Se estamos fatigados dela, então partamos, e sobretudo se estamos saciados".
      Santé e axé!
      M.L.

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  5. ''Se teu corpo envelhece, que importa?
    Ainda é fresca tua alma.''

    - Rumi
    Poeta e místico sufi do século XIII

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  6. Da faculdade eu sinto saudade das minhas colegas,(que nem sei por onde andam.)Mas queria muito reencontrar todas,e assim atualizar o papo,e relembrar toda aquela bagunça gostosa da juventude que a gente viveu... Mas isso não quer dizer que me sinto velha.POR FAVOR!!!

    Monica.

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  7. Gostei do blog. Com essa sensibilidade você vai gostar do depoimento emocionante de ALINE, da Cidade das Pirâmides, quando completou 49 anos. http://www.youtube.com/watch?v=dSagrGrBeCw&feature=share&list=UUBvY_tI9xN0wVbBqJMxSr6g Abraços.

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    1. Obrigada, Luz! Seja bem-vinda e volte sempre!

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  8. Oi, Fernanda!

    Bem legal voltar aos bancos escolares. Mas...qual é mesmo a faculdade que você está fazendo? Biologia?

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  9. Muito bom. Em breve terei uma colega de profissão,que certamente, fará a diferença.

    Quanto á relação com jovens, é tudo de bom, inclusive, em meu caso, no plano afetivo-sexual.

    Quando fiz graduação, duas colegas na faixa dos sessenta fazim parte da turma. Uma, inteligente, ligada, de bem com a vida, inclusive, namorando um cara na faixa dos 30. A outra, provocava azias, a verdadeira velha rabugenta, obtusa e preconceituosa, que concluiu a faculdade, graças aos trabalhos em grupo. Felizmente, jamais pensou em exercer a profissão.

    ANTONIO CARLOS

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    1. Antonio Carlos, lá nas minhas aulas convivo também com estes dois tipos de senhoras. (Mas das do segundo tipo eu confesso que passo longe...)

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  10. Lo más lindo que he leído esta semana, abrazo, Fernando.

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