sexta-feira, 30 de agosto de 2013

"Chorar é tão normal quanto rir"


-- Não, não toca esta música porque eu tenho vontade de chorar.
Eu digo esta frase e, logo depois, me faço a pergunta: por que será que a gente sente tanta aversão a cair no choro de vez em quando?
Lembro da minha infância, quando eu não suportava ver minha mãe chorando. O motivo, um mistério pra mim nas poucas vezes em que a vi com lágrimas nos olhos, na verdade era assim mesmo que eu queria: um mistério. Eu tinha medo dos motivos, medo de conhecer aquela dor, e ansiava apenas que ela parasse de chorar porque eu não aguentava ver.
-- Mãe, por quê você está chorando?
Era mais uma súplica do que uma pergunta, e lembro de ela dizer simplesmente “Porque estou com vontade”, uma resposta que não me satisfez nem me acalmou. Então em uma outra vez ela arranjou resposta melhor:
-- Fernanda, chorar é tão normal quanto rir.
Anos depois descobri que chorar é mais do que isso, até. É tão necessário quanto comer, dormir ou fazer xixi; é fisiológico.
Então por quê que a gente sente medo do choro? Talvez porque, por baixo dele, esteja um sentimento tão fino como raiz, que a gente precisa quase ter alma de poeta pra entender... e ser livre pra chorar em paz.  Nem sei exatamente o nome deste sentimento, mas é algo como uma saudade absoluta, uma saudade total e que pode ser do que já passou ou até mesmo do que a gente jamais teve ou viveu. As saudades são assim, têm uma lógica própria e um funcionamento incompreensível a quem não presta atenção nelas.
Eu, como todo mundo, tenho aqui minhas canções proibidas, aquelas que me trazem o choro imediato e doloroso das saudades que já coleciono. Vejo passar pela lembrança dos meus olhos aquele jeito tão singular do meu pai, ao cantar Roberto Carlos para a minha mãe, ou o brilho azulado dos cabelos tão negros que ela tinha, ao sol da manhã lá em Minas. É isso a saudade que mais fere: coisas incrivelmente simples do cotidiano e que, um dia, acabam por doer no coração da gente como uma pontada quase letal, e simplesmente porque só existem agora no olhar aguado da falta.
Mas como é que eu não vou mais ouvir esta música? Como é que vou esconder as fotografias na gaveta e fugir até do meu próprio rosto no espelho, todas as manhãs, se o meu rosto, cada vez mais velho, se assemelha mais e mais à minha origem? Vejo meu pai, totalmente vivo, na acidez do meu humor; minha mãe ainda respira em cada célula do meu corpo. Pra fugir disso, só morrendo.
E enquanto vivo, como é que vou relegar meu tesouro maior, esta lembrança que dói, ao conforto do esquecimento, à covardia da memória, como fingindo que o passado e as minhas raízes ficaram lá atrás, em algum momento congelado no cofre da tristeza?
Viver assim, só pagando um preço maior, que é o de romper com a própria história e tirar dela as melhores partes, justamente aquelas que doem tanto porque valem muito. O alívio, neste caso, não vale o imposto cobrado. Nossos maiores tesouros são estes mesmo, estes guardados na veia mais escondidinha do coração, onde repousam as nossas maiores saudades.






20 comentários:

  1. Fernanda,

    O que voce escreveu nao e em forma de poema mas para mim esse foi seu melhor poema.
    Que bela homenagem voce fez a seus pais ..... lindissimo !!!!!

    Felicidades, Bjus

    Gilda Bose

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    1. Idem! Tem coisa que a Fernanda escreve que não dá comentário - só da pra sentir. Bom ter você por aqui Fernanda, me faz sentir menos só no universo.

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    2. Alfredo, há muito tempo eu te disse que nós somos da mesma tribo...

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  2. Fernanda,

    Adorei a foto daos cachorros e a musica ..... linda, com suas fotos .... bacana.

    Gilda Bose

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    1. Gilda, eu também adorei este cachorro com cara doido...

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  3. Chorar é socialmente aceito, rir não. Rir é uma ofensa. A alegria ofende o infeliz. Se vemos uma pessoa chorando na rua, temos sobre ela um olha solidário, que na verdade é um olhar superior e que diz no íntimo, antes ela do que eu. Mas se vemos uma pessoa rindo sozinha na rua, dizemos logo que é um maluco, rindo sozinho... vê se pode? Queríamos estar rindo no lugar dele.

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    1. Ótimo o seu pitaco!!!Parece que o sofrimento de Cristo, não somente na cruz... e sua indiscutível fama -JESUS CRISTO SUPER STAR- , fez com que a cultura judaico-cristã desse mais atenção e valor ao choro, ao sofrimento, enfim. Pessoas alegres e felizes são , incautamente, tomadas por tolas ou alienadas. Para decepção desta gente, a palavra entusiasmo (que contém em si boa dose de alegria, vontade e tesão), etimologicamente significa ter Deus em si. Sem negar a dor ou a tristeza...não podemos esquecer de que a alegria é EROS, PULSÃO DE VIDA...o sofrimento é THANATOS, pulsão de morte.
      Marcos Lúcio

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  4. Excelente seu post, queriDannemann, dos seus melhores... Segundo psicoterapeuta Simone Aziz ..."Se chorar é se expor, muita gente prefere não chorar. No caso dos homens, colabora ainda a educação machista, em que os meninos crescem ouvindo frases como "homem que é homem não chora".

    Em pessoas que cronificaram suas defesas, é possível que o choro se torne impossível. Alguns homens - e mulheres também - precisaram construir, ao longo da vida, defesas muito grandes para suas emoções e acabam reprimindo suas lágrimas.

    Essas pessoas em geral possuem uma personalidade aparentemente forte e resistente, como se nada pudesse atingi-las, mas em geral apresentam somatizações como pressão alta, úlcera e problemas renais.

    É comum que pessoas que não conseguem chorar tenham sido incompreendidas ou hostilizadas na infância. Outras vezes, foram crianças que assumiram cedo demais responsabilidades para as quais não estavam preparadas ou que tiveram suas emoções desprezadas, impedindo qualquer comportamento espontâneo.

    Para que consigam descobrir e usufruir dos benefícios das lágrimas -é interessante ressaltar que chorar faz bem, porém o choro sem motivo e a toda hora faz mal, pode ser sintoma de depressão - pessoas que não choram ,muitas vezes, precisam de ajuda psicológica. Então descobrem que o choro é necessário e não é expressão de fragilidade. "Quanto mais assumimos as nossas fragilidades, mais conseguimos nos enxergar de uma forma inteira e mais nos tornamos fortes", afirmou a psicóloga.

    Sabendo que viver é (re)aprender a resistir, a superar e, fundamentalmente, a perder, também, afinal viemos ao mundo para perder a própria vida material, lembro de uma amiga que anos depois de uma perda , perguntou-se: Como estou ainda sofrendo esta perda? Isto é apenas apego ao que não está mais aqui. Então ela repetiu, mais algumas vezes internamente: não está mais aqui, e foi quando teve o insight de que aquela dor era uma dor inútil.

    Chorar faz bem. Limpa os olhos, lava a alma, deixa o peito mais leve. Há choro ao nascermos e choro ao morrermos. E muito choro entre as duas pontas da linha da nossa vida precária, posto que tão breve é existência.
    Santé e axé!
    Marcos Lúcio

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    1. "Pardon"...corrigindo parte do texto apressado rs..."segundo a psicoterapeuta",..."e acabaram reprimindo", ..."tão breve é a existência".
      M.L.

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    2. Querida Fernanda,admiro sua coragem em nos mostrar seus mais secretos sentimentos com muita intensidade e franqueza .A infância contem potencialidades muito particulares e ,as vezes nos visitam em momentos de baixa defesa .Chegam soltas e fortes diante de nossas estruturas construídas com tudo que conseguimos aproveitar do que experimentamos no riso e na dor .Estamos sempre reaprendendo a amar e suas lembranças fazem parte desse balanço do que a vida pode ser através de Voce .Foi um relato comovente.Leve essas sensações para brincar um pouco e pegar sol e continue a recriar a sua própria vida,sempre.. .! Grande beijo .Silvana

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    3. Silvana, obrigada pelas palavras tão bonitas. Eu acho que estas coisas acontecem com todas as pessoas, por isso, quando escrevo, sinto que não estou falando de mim, mas de nós todos. E olha, estou mesmo sempre brincando com as minhas sensações, e acho que é por isso que consigo escrever sobre elas. Obrigada de novo! bjão!

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    4. A querida Silvana digitou sábias, belas e sensíbilíssimas palavras... fazendo um oportuno pendant com o seu tocante texto. Trocando em miúdos...a sua destemida exposição, recebeu uma nobre visita, né?.
      Marcos Lúcio

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    1. Andrea, por que será que eu sabia que você ia gostar?

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  6. Mauro Pires de Amorim.
    Pois é Fernanda, concordo contigo, pois chorar e rir são reações emocionais a situações que provocam sentimento, seja de dor ou alegria e muitas vezes, pode-se rir de dor e chorar de alegria, numa reação emocional irônica ou carregada que toda aquela situação específica causou de acordo com o histórico pelo qual se passou.
    Por exemplo, essa história da NSA (Agência de Segurança Nacional, sigla em inglês) em espionar pessoas por meio do sistema de comunicação mundial, interceptando, grampeando, telefonemas e correspondência eletrônica, me lembra a época da Ditadura da Redentora, até a sigla da NSA me lembra, SNI (Serviço Nacional de informações), DOI-CODI e suas afiliadas nas forças armadas brasileiras, polícias e órgãos e serviços do governo naquela época.
    Toda essa estrutura foi montada e paga com o dinheiro dos cidadãos por conta da psicose em se mostrar serviço contra o "Grande Inimigo Vermelho", que na verdade não passava de um bicho papão, um factoide, criado pelos paranoicos-esquizofrênicos do Estado Redentor.
    Pois bem, como patologia nunca muda, sendo que, alteram-se apenas os agentes biológicos ou bioquímicos que as causam, criando assim cepas e versões mais resistentes, aprimoradas em termos de danos e malefícios, em nossa atual "modernidade", ainda que boa parte da humanidade se esforce para amadurecer, continuam essas patologias institucionalizadas no Estado, agindo com os mesmos sintomas.
    Não fosse as revelações de Edward Snowden, técnico analista de sistemas informático da NSA, que encontra-se exilado em Moscou, sendo portanto considerado um desertor, que apropriou-se de material de conteúdo de segurança nacional dos EUA, ter revelado ao mundo através da imprensa, nós aqui no Brasil, inclusive o nosso "serviço secreto" a ABIN (Agência Brasileira de Inteligência), criada a partir das amareladas cartilhas e com os oriundos também mofados do extinto SNI, não saberíamos de nada e acharíamos que tudo que ocorre, é mera ação do destino, da coincidência. É por essas e outras que não confio nem gosto de doutrinadores e doutrinados, pois doutrinadores, são reprodutores de ideias e sistemas relutantes em serem aprimorados e que para tanto, precisam ser criadores de conclusões e ideias próprias para amadurecerem e evoluírem no sentido positivo e por sua vez, os doutrinados, seguindo o modelo doutrinador, são formatados para repetirem ipsis litteris, o ensinamento de seus ancestrais doutrinadores. Por isso, prefiro pessoas pensadoras, que fazem esforço em raciocinar, pensar, pois enquanto isso, o tempo não para e com o método e sistema dos doutrinadores, acaba-se ficando para trás, perdendo-se o passo do tempo e a oportunidade de se contribuir para aprimorar algo e torna-la melhor ou ao menos fazer-se colocações, críticas de seus pensamentos e ideias, uma vez que doutrinadores e doutrinas são fechadas, aquilo que reproduzem, se for contestado, desaba, pois nas amareladas cartilhas das doutrinas, não existe respostas para perguntas ou contestações, sendo portanto, também monologas, do tipo, "é assim porque é". Logo toda doutrina, se você não concordar, ela não tem argumentos para te convencer do contrário, para debater ou te fazer raciocinar no sentido do argumento dela, sendo portanto monologa, no sentido que ela fala e você escuta e aceita.
    Felicidades e boas energias.

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  7. Eu voltei à visitar esse blog, e confesso que o texto e a música se completam.
    Eu que também sou de cidadezinha do interior, sempre gostei dessa musica.
    Sergio.

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  8. Lindo,lindo! Obrigada por este texto magnifico ,quase chorei !!
    Beijinho e saudade
    Cristina Pinto

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