domingo, 7 de abril de 2013

O Rio da van que Tom Jobim não cantou

Chegamos ao ponto em que a França aconselha o povo a ter cuidado com as vans cariocas. Francês é um povo gentil. Deveria mesmo era aconselhar a evitar o Rio de Janeiro, onde a violência explode sem hora nem lugar. Uma van, um ônibus... não há limites para o perigo. Enquanto lá na Palestina as bombas explodem sem aviso e botam a população em estado de terror, aqui no Rio moradores das favelas também sabem muito bem o que é isso. Temos até a nossa própria Faixa de Gaza...

Conheço um casal português que já viajou por muitos lugares e adorou passear por dentro de uma mina na Bolívia. A dupla considerou exótico olhar nos olhos dos mineiros lá embaixo, imagine você... e achou pitoresco passear de carrinho por dentro da mina, enquanto assistia, de camarote, o trabalho em péssimas condições daqueles bolivianos. É mais ou menos assim que os turistas reagem quando vêm às favelas cariocas e desbravam o mistério das ruelas pobres, onde o calor dos trópicos e a simpatia do povo parecem encher a realidade de poesia. Mal sabem eles! O Rio é lindo na poesia de Tom Jobim... e quanto desgosto teria o Maestro se visse a cidade nos dias de hoje! Pergunte agora ao casal torturado na van dos estupradores o que é que eles acham do Rio. Pergunte ao grupo de alemães, rendido na Estrada das Paineiras dias atrás, e assaltado à mão-armada...
Nós, que nascemos, crescemos e nos acostumamos a viver numa cidade violenta, estamos também acostumados aos maus-tratos das autoridades: veja que os policiais abordados nas Paineiras pelo tal grupo alemão sugeriram que eles ligassem para o 190! E que as moças brasileiras estupradas naquela mesma van nem se deram ao trabalho de prestar queixa... e a que correu à Delegacia (Delegacia Especial de Atendimento à Mulher, hein?) não foi atendida como deveria. Veja o absurdo que é você sair para o trabalho e não saber se estará de volta para o jantar, porque pode acontecer de um doido violento dar pontapés na cara do motorista do ônibus e você morrer ali mesmo, no ônibus que despenca do viaduto.
Ontem fui ver um filme lindíssimo sobre como floresce o amor em plena guerra na Palestina, e saí do cinema em estado de graça, diretamente para o trânsito caótico da Cidade Maravilhosa. Enquanto dirigia e me vigiava para não entrar no clima de agressividade que impera no Clube dos Motoristas Cariocas, pensei que o Rio não é a Faixa de Gaza, não, não é... mas a violência entre nós explode tão repentina e virulenta quanto lá naqueles lados do mundo, onde as famílias se espremem de pavor ao som dos aviões e cobrem com as mãos os ouvidos das crianças. Lá, o povo grita e se desespera, conforme nos mostram as reportagens de TV... o povo não se acostuma... a ponto de haver jovens como o israelense Nathan Blanc, que prefere a pecha de "traidor" a vestir a farda e ocupar territórios palestinos.
Aqui no Rio, onde a guerra é civil e continua partindo a cidade, apesar das Unidades Pacificadoras, a gente baixa a cabeça para o terror, a gente se rende ao absurdo que é ver várias pessoas morrendo em decorrência de uma briga entre um motorista despreparado e em péssimas condições de trabalho, e um estudante com antecedentes de violência. Nosso estado é palco de cerca de 16 estupros por dia... mas dá-lhe Jornada da Juventude, Futebol e Olimpíadas, dá-lhe!, e o carioca, que já não sei se padece mais de cegueira ou de narcisismo, entra cada vez mais fundo na onda de que a cidade é o Paraíso na Terra. Já disseram até que o Rio é melhor para passear do que Paris... alguém acreditou nessa, Jesus?
Da história de amor na guerra da Palestina eu falo depois. Aqui nestas linhas não há espaço para a beleza. Só mesmo para a tristeza que é este Rio de Janeiro esquecido por Deus.

10 comentários:

  1. Fernanda,

    Parabens pelo post., muito bem descrito, ja estava sentindo falta ..... assunto como este me fez refletir e ver como alguns(muitos) seres humanos ainda estao muito a desejar ..... os fatos que voce citou como por exemplo do casal que vai para Bolivia, ver trabalhadores de minas como atracao turistica ..... caso de violencia e estupro .....com mulheres e turistas..... gente que diz que passear pelo Rio e melhor que passear por Paris (gostaria de saber que Paris ela conhece ....) enfim me faz lembrar a epoca do Coliseu, quando as pessoas se reuniam para ver os gladeadores matando-se uns aos outros e sendo comido pelos leoes, epoca da guilhotina, pessoas nas pracas assistindo as execucoes, vendo as cabecas sendo cortadas e roladas ao chao ..... pessoas que viajam a Alemanha para ver ou conhecer um campo de concentracao .... meu pai .... que horror ....
    Realmente no seu post nao tem comentario para a beleza do filme .....

    Felicidades,

    Gilda Bose

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    1. Gilda, querida, amanhã falo do filme. Bjão!

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  2. Assino embaixo seu "desabafopost". Recado bem dadíssimo e concordo tim-tim por tim-tim (nada como ser antigo rsrs).

    Assim como a Gilda, também fiquei pasmado: "Já disseram até que o Rio é melhor para passear do que Paris... alguém acreditou nessa, Jesus?".
    Quem foi a criatura tontona/lesada que disse esta estapafurdice???
    Será que esta pessoinha quis dizer A Paris...cida do Norte??? rsrs. Neste caso comparativo,o Rio é melhor sim, embora eu não conheça aquela cidade da "fé" demais rsrs, e seus inúmeros romeiros.
    Santé e axé!
    Marcos Lúcio

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    1. Quá, quá, quá! Só você mesmo pra sair com esta de A Paris...cida do Norte!!!

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  3. Irretocável!
    A cidade maravilhosa infelizmente é muito perigosa. Espero que ninguém esqueça disso. Ontem li uma postagem sua sobre Madureira, achei legal (como sempre) mas lembrei da violência urbana tão presente naquele bairro. Madu não deixa nada a desejar ao sul do Pará, em termos de crimes cruéis. O retrato fiel do nível de violência da região é o caso do garoto João Hélio, lembra?

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    1. Claro que lembro, Andrea... mais uma história de barbárie no cartão-postal...

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  4. Marcos Lucio,

    Adorei o Paris..cida do Norte !!

    Felicidades,

    Gilda Bose

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    1. Merci, felicidades too, e abração procê!
      M.L.

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  5. Olá, Free Nanda, como será a festa dos 100 mil acessos ao seu blog?

    Tony Nelson

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  6. Tempos de barbarie na Cidade Maravilhosa, no Brasil e no mundo.

    ANTONIO CARLOS

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