quarta-feira, 23 de maio de 2012

Felicidade é uma questão de ponto de vista

Parei o carro na rua de costume e procurei o "flanela" de sempre, rapaz humilde e de minha total confiança, com quem já cheguei até a deixar as chaves do possante, em dias de falta total de vagas. Meu chapa andava desaparecido depois que o prefeito decretou caça às bruxas no trânsito e sumiu não só com a maioria das vagas, mas também com os guardadores não-oficializados.

Eis que ele aparece, repentino, saído de trás de um carro. Usando o colete dos guardadores oficiais, chegou todo sorrisos, ostentando uma prótese que lhe cobria a dupla banguela dianteira.

-- Uau! Quer dizer que agora você tá legalizado?! Mas que óóóóótimo...

Ele inflou o peito, orgulhoso.

-- É, agora tenho carteira assinada...

Na falta de lugar pra estacionar, relembrei os velhos tempos.
-- Não tem vaga... posso deixar a chave, e você estaciona quando alguém sair?

Ele se desculpou:

-- Ah, colega, agora sou "oficial", não posso mais ficar com chave de cliente...

Compreendi e fui agraciada:

-- Alá, alá!!! minha cliente tá saindo!

Enquanto eu me esfalfava pra botar o carro numa vaga tamanho mini, ele não se aguentou:

-- Quer que eu faça isso pra você? (Amigo é pra essas coisas, afinal...)

Não foi preciso, São Cristóvão me ajudou e dei conta do recado. E voltei ao assunto.

-- Mas que coisa boa esse lance da carteira, hein?! Pensei que nunca mais fosse te ver... e ficou bonito com os dentes novos...

-- Ficou bom, né? Sabe que arranjei até namorada? Mas já terminamos, e agora tô quase fazendo o gol com uma outra...

-- É mesmo?!

-- Também voltei a estudar. Tô na sétima série, à noite. É supletivo.

-- Mas quanta notícia boa você tá me dando...

Sem disfarçar o orgulho, ele sacou um par de óculos do bolso.

-- Tô até usando óculos pra ler!

E colocou os óculos como se eles fossem para miopia, me encarando satisfeito com os olhões aumentados pelas lentes. Tentei explicar que aqueles ali devem ficar na ponta do nariz, mas ele ficou desconfiado. E antes que eu pudesse convencê-lo, já saiu se desculpando, enquanto ajudava um outro motorista a estacionar:

-- Pèraí que o dever me chama! Mais... mais... agora gira tudo, pra direita... pra frente... aêêêê!!!

Enquanto seguia meu caminho, pensei no quanto a felicidade é relativa: um emprego de carteira assinada e, a partir daí, a prótese na boca, a namorada, a escola... e o luxo antes impensável de usar óculos! Meu chapa agora desfruta do orgulho de ser um cidadão trabalhador. Pode parecer pouco para alguns, mas veja o milagre que um pequeno salário é capaz de fazer na vida de alguém.

Enquanto isso, lá em Brasília, os contas-sujas comemoram contentíssimos a aprovação, pela Câmara, do projeto que permite suas candidaturas, e o bicheiro Carlinhos Cachoeira, feliz com a lei, que garante seu direito ao silêncio, ri da cara de todos nós.


16 comentários:

  1. Joaninha Curiosa


    "Não conto os bilhetes brancos, os negócios abortados, as relações interrompidas; menos ainda outros acintes ínfimos da fortuna. Cansado e aborrecido, entendi que não podia achar a felicidade em parte nenhuma; fui além: acreditei que ela não existia na terra, e preparei-me desde ontem para o grande mergulho na eternidade. Hoje, almocei, fumei um charuto, e debrucei-me à janela. No fim de dez minutos, vi passar um homem bem trajado, fitando a miúdo os pés. Conhecia-o de vista; era uma vítima de grandes reveses, mas ia risonho, e contemplava os pés, digo mal, os sapatos. Estes eram novos, de verniz, muito bem talhados, e provavelmente cosidos a primor. Ele levantava os olhos para as janelas, para as pessoas, mas tornava-os aos sapatos, como por uma lei de atração, interior e superior à vontade. Ia alegre; via-se-lhe no rosto a expressão da bem-aventurança. Evidentemente era feliz; e, talvez, não tivesse almoçado; talvez mesmo não levasse um vintém no bolso. Mas ia feliz, e contemplava as botas.

    A felicidade será um par de botas? Esse homem, tão esbofeteado pela vida, achou finalmente um riso da fortuna. Nada vale nada. Nenhuma preocupação deste século, nenhum problema social ou moral, nem as alegrias da geração que começa, nem as tristezas da que termina, miséria ou guerra de classes; crises da arte e da política, nada vale, para ele, um par de botas. Ele fita-as, ele respira-as, ele reluz com elas, ele calca com elas o chão de um globo que lhe pertence. Daí o orgulho das atitudes, a rigidez dos passos, e um certo ar de tranqüilidade olímpica... Sim, a felicidade é um par de botas."

    Machado de Assis


    Este foi um dos maiores legados de minha sàbia mãe; a liçao de que a felicidade é uma questao de ponto de vista, uma escolha e atitude... e resumia tudo citando, M. de Assis:

    "a felicidade é um par de botas"

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    1. Eu lembro! Eu lembro! Devo ter aprendido com ela!

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  2. Adoro seus relatos da vida e sua iluminada perscectiva do mundo. Tenho acompanhado em silêncio seus posts até agora, porém preciso parabeniza-la imediatamente, pelo conteúdo disponibilizado visto por esse ultimo(muito legal). Parabéns!

    Ps: tomei a liberdade e a adicionei ao meu blog como VIP!

    marcelo keiser

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    1. Obrigadíssima, Marcelo, amei suas palavras! Agradeço também por ser VIP no seu blog! Passa aí endereço pra eu ir lá te visitar. E volte sempre!

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  3. Hein! Você é VIP no meu blog idem idem.

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    1. Afe Maria, eu tô ficando muito chique... tô VIP nas paradas... se continuar assim, daqui a pouco serei a Rainha dos Blogs! Mas Alfredo, você também é VIP aqui no Alma, né não???

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  4. Alvíssaras! Sensacional este achado da Joaninha Curiosa ...e melhor escolha não poderia haver. Quando você disse que ela era danada (de esperta, de sábia, etc.), eu concordei e, pela reprodução destas bem traçadíssimas linhas(comme d'habitude) do Machadinho...não resta "dúvida de sombra". Considero-a sua comentarista VIP e dela fiquei tiete.

    Fico feliz, queriDannemann, de pensar ou digitar sobre felicidade.Para a doutora em psicologia social Sonja Lyubominky, o mais importante é criarmos o hábito de instigar a felicidade, cotidianamente, através da valorização do que é bom: meditando, perdoando, exercitando-se, relaxando, servindo aos outros, dedicando-se a um propósito (espiritual) além de você mesmo...com persistência.Assim teremos como buscá-la dentro de nós.

    Acredito que o auto-controle/conhecimento seja o x da questão, assim como fazer o bem, pois gente feliz é mais propensa a agir de forma altruísta.

    O perigo está exatamente em termos o cérebro programado_como nossos ancestrais distantes_ para perceber problemas. Daí, a condição humana mais comum é desprezar as experiências positivas e focalizar os aspectos incômodos da vida, infelizmente.

    A confusão estabelecida entre preço e valor afetivo dificulta muito o bem estar , que prefiro usar em lugar de felicidade...conceito mais vago, pois os humanos em sua infinita diversidade, obtemos prazer e satisfação de formas diversas.

    Não podemos esquecer de que na vida, não somos os únicos responsáveis por tudo, afinal, estão em jogo muitas circunstâncias com inúmeras variáveis, nem sempre controláveis ou sob nosso domínio. A vida tem vida própria e se impõe, sem aviso ou consulta.

    Além da importantíssima saúde, fortes laços afetivos com os amigos, a boa família, enfim, quaisquer relacionamentos harmoniosos/amorosos, propiciam terreno fértil para o desabrochar da felicidade.

    No entanto, para que ela se estabeleça, definitivamente, é mister a crença em algo superior a si mesmo, que pode derivar da espiritualidade ou de uma filosofia autêntica/singular de vida. Sugiro, ainda, as irretocáveis palavras do Nelson Vieira, no Alma Lavada entrevista.
    Santé, axé, felicidade e beijão.
    Marcos Lúcio

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  5. Marcos Lùcio, também adoro teus comentàrios! Também sou tiete de EstiMarcos! Te agradeço pela honrosa consideraçao e da mesma desponho!

    Joaninha Curiosa :)

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  6. Fernanda,

    Como voce mesma o disse, a Felicidade e uma questao de ponto de vista.
    Li a algum tempo este poema de Cecilia Meirelles, que eu gostei muito ......

    A arte de ser feliz.


    Houve um tempo em que minha janela se abria
    sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
    Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
    Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
    e o jardim parecia morto.
    Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
    e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
    Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o
    jardim não morresse.
    E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que
    caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
    Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
    Outras vezes encontro nuvens espessas.
    Avisto crianças que vão para a escola.
    Pardais que pulam pelo muro.
    Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
    Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
    Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
    Ás vezes, um galo canta.
    Às vezes, um avião passa.
    Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
    E eu me sinto completamente feliz.
    Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
    que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
    outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
    finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

    Felicidades,

    Gilda Bose

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    1. Gilda, tambem gosto muito das coisas da Cecilia, este e muito lindo, obrigada! Concordo com voces duas, inclusive tenho um post, um dos mais acessados do blog, que fala disso, cujo titudo diz "A beleza esta nos olhos de quem ve". Beijos

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  7. Para tentar ficar à altura do magistral Machado, na felicíssima escolha da Joaninha...somente as lispectorianmente enfeitiçadas palavras da genial Clarice. Que seja o livro e não só as botas, também uma felicidade, e do agrado da minha blogueira predileta. Serão dois posts, lamento.
    Abraço com afeto, do Danilo

    Felicidade clandestina
    Clarice Lispector


    Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme; enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

    Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como "data natalícia" e "saudade".

    Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.

    Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.

    Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.

    Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.

    No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.

    Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se repetir com meu coração batendo.

    E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.

    Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.

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  8. Continuação do post anterior.


    Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!

    E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser." Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.

    Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.

    Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.

    Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.

    Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

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    1. Danilo, adorei! Dona Clarice realmente arrebentava... este final me deu ate um susto!!! Obrigada e bjs!

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  9. Felicidade também é agradar ou surpreender positivamente quem admiramos, ainda que assustando, clariceanamente, a minha blogueira "number one".

    Foi paixão forte a descoberta da Clarice através de Beta, Beta, Bethânia, que já declamou vários textos lispectorianos em shows e cd's. Mais radicalmente, ainda, através do Lúci(o)do, assim como os extraordinários Nandinho Pessoa e o Guigui Rosa... a santíssima trindade nas palavras do nosso amigo.

    Ele afirma, também, que duas das maiores felicidades apaixonadas foram conhecer Paris e ler O grande Sertão Veredas.Sei que você já ficou adicta do Clube parisiense da felicidade e da sorte. Resta, então, fechar o pacote com esta frase de lógica metafísica geuinamente roseana:

    "Felicidade se acha é em horinhas de descuido".

    Com afeto, abraços do Danilo.

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