segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O quê, de fato, podemos controlar?

A Paula é aquele tipo de amiga com quem levo altos papos, muitos deles considerados “cabeça” por gente que não gosta de pensar.

Uma das nossas últimas conversas foi sobre a Catarina.

Não conheço a Cata muito bem, mas sei que trata-se de pessoa carinhosa e de natureza leal.

Não fosse ela um pouco temperamental, e dada a rompantes de personalidade que às vezes assustam ou contrariam as pessoas, a Paula não estaria sofrendo. E sofrendo aquela culpa tão típica dos amigos verdadeiros, que se sentem um pouco responsáveis pela felicidade do outro... como se ser amigo fosse também ser um pouco pai ou mãe.

Não acompanho a história de perto, mas parece que a Cata, às vezes, tem dificuldades de relacionamento. E embora seja um doce de pessoa, parece que é aquele tipo que, quando cisma com alguma coisa, não muda de idéia nem por um decreto. Por ser como é, acaba mal interpretada por muita gente, que a considera desagradável e, até mesmo, perigosa.

E a Paula, que gosta tanto dela, sofre. Sofre de chorar, e acabou recorrendo a ajuda profissional para tentar melhorar a situação.

Descobriu que, enquanto a Catarina tem lá as suas dificuldades, ela, por sua vez, necessita ter o controle da situação. Ou, como ela mesma disse, necessita ACREDITAR que tem o controle... porque, lá no fundo, o ser humano sabe que não controla nada nesse mundo: nem as ondas gigantes do mar, nem as placas tectônicas; nem a terra que desliza nas montanhas de Friburgo... nem o próprio coração batendo no peito, ou por quem ele acelera.

Minha amiga descobriu sozinha, e depois me contou, que só há uma coisa que podemos controlar: nós mesmos. E a melhor maneira de fazer isso, é cuidar de como REAGIMOS às atitudes alheias... porque, a partir do momento em que você se deixa levar pelo que quer que seja e não controla suas próprias atitudes, está deixando-se controlar por alguém.

A descoberta da Paula a está ajudando a compreender melhor a natureza da Catarina, e a ser mais feliz em sua amizade: menos culpa, menos necessidade de controle, menos possessividade, menos desejo de fazer a Catarina ser como ela, Paula, quer que seja.

E me ajudou a ver que, ao mesmo tempo em que não devo buscar o controle sobre quem eu amo, devo, por outro lado, tentar controlar a minha natureza: esta é uma boa maneira de exercitar o amor universal, pelos outros e por mim mesma.


 Olha a foto da Cata!

Clica no filminho das minhas amigas, aí abaixo!







sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Todos os cães merecem o céu (e um lar na Terra)

Meu marido já me avisou:

-- Se um cachorro entrar pela porta da sala, eu saio pela cozinha!

Minha vida teve lá suas cachorradas: quando nasci, o Hippie já estava lá em casa. Era um pastor-alemão que havia sido treinado pela Polícia Militar, e que sei lá por que cargas d´água, acabou virando amigo fidelíssimo do meu pai por muitos anos. Era uma fera "daquelas", mas com a gente, lá de casa, não cantava de galo. Muito menos de cachorro... era um doce de pastor!

Depois tivemos o Otávio, um dálmata. Pra tirar onda com os amigos do meu irmão, meu pai apelidou o bicho de "Sua Mãe" e, quando a rapaziada chegava, ele sempre provocava, dizendo as palavras bem depressa, de modo que o "no" desaparecesse da frase:

-- Ô menino! Você já deu banho no Sua Mãe hoje?

Então foi a vez do Pedro Emílio, um bace round daqueles beeeeeem compridos, com orelhas que arrastam no chão. O danado vivia fugindo pelo portão e tínhamos que caçá-lo na cidade, o que não era difícil, porque jamais havia existido um espécime daquele naquelas bandas de Minas Gerais. E a meninada da escola pública, quando nos via com cara de caçador e coleira em punho, delatava:

-- O salsicha foi por ali!

Por último, houve o Billy, um rusk siberiano da escola das antigas, de onde veio o Hippie: bravo na rua e carinhosérrimo dentro de casa. Isso, sem falar nos cachorros amigos, como o Mingau, um vira-latas peludo que conheci no Parque Ibirapuera, em São Paulo; a Tiffany, a foférrima cocker spaniel ruiva de uma prima; a Catarina (Cata, para os mais íntimos) que até já estrelou um post aqui no blog... e todos os labradores que já encontrei pelo caminho... e que tive ganas de esconder dentro da bolsa e trazer pra casa.

No entanto, como (ao menos por enquanto) ainda tenho impedimentos para isso, repasso aos amigos do blog a mensagem que recebi hoje. E quem sabe alguém se apaixona por estes órfãos aí abaixo e resolve fazer uma adoção?


NOSSA MÃE FALECEU !!!!
Ela cuidava de nós com muito amor e carinho.
Não há ninguém da família que nos queira.
Há 9 meses aguardamos um lar, senão vamos p/ rua! 
Ajude a gente! 
Divulgue o nosso apelo.
 

Para você, que gosta de cachorro, o link do desenho "Todos os cães merecem o céu". 

Vamos falar de paixão?

Do que confesso

Falar de sexo é bom
com quem se quer deitar
Depois, queimar lençóis com o suor do corpo,
trotar na cama as patas invisíveis
do que há de mais humano em ser um par.

É bom falar, deixar-se ouvir;
amar sonoro que depois persiste
e encerra o sono na vigília dos calores.

Falo por mim:
tua palavra é um faquir...
e entre nós, o espaço, como cãimbra,
é quase dor, é quase mar de dissabores;

E de falar, e de ouvir, de desejar,
de ver no teto a silhueta desta fome,
sou quase tua, mesmo que me tome
a consciência de resvalar no erro

O que me abate é a força bruta do desterro:
ter na lembrança do nariz os teus odores...
guardar palavras no ouvido, vãos sabores,
e o colo aos saltos
a repetir teu nome.

 (Fernanda Dannemann)

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Não basta gostar: tem que saber respeitar!

Uma coisa é certa: a sua mãe te adora. Mas ela te respeita?

Ok, ok. Não vamos botar a mãe no meio da discussão...

Mas aqui cabe a pergunta: pra que servem os amigos? Não... não responda no automático e recorrendo a todos aqueles lugares-comuns que, no fundo, reduzem o sentido maior de amizade a mera bengala, à qual pedimos socorro quando a coisa fica preta.

A amizade é muitíssimo mais que isso, e seu conceito merece muita reflexão. Talvez ela seja muitas coisas; e, certamente, tem diferentes significados para cada um.

Pra mim, a amizade tem a ver, principalmente, com o verbo “respeitar”: quem não respeita, não consegue ser amigo, já que a liberdade é um princípio básico da amizade... a liberdade pra ser quem você é, pra dizer o que você realmente sente ou pensa, pra pedir o que você necessita.

Mas como ser livre se o outro, mesmo te amando muito, não te respeita? Como ser você mesmo, se ele tem expectativas que não podem ser frustradas... e, em nome disso, você acaba tendo que representar um personagem? Ou, pior ainda, em algumas situações você tem mesmo é que engolir o desrespeito pra que ele não fique melindrado ou ofendido?

O amigo de verdade te ama, é certo! E ele também erra, é claro, às vezes desrespeita sem querer... mas é fácil fazer esta avaliação: ele sofre quando isso acontece, e realmente se esforça pra entender o nosso lado. Além (e principalmente) de nunca mais repetir a trapalhada. É fácil ver o seu esforço.

Perdi um amigo por dizer a verdade: ele se ofendeu quando abri o jogo sobre o incômodo que me causava certo comportamento invasivo seu. Antes que o critiquem, eu o defendo: ele era meu amigo, sim, e deve ser até hoje, tanto tempo depois. Mas deixou-se levar pelo orgulho e não aceitou meu desabafo... embora, intimamente, com certeza tenha me dado razão, porque estava invadindo mesmo.

É preciso cuidado com as fronteiras da amizade, porque um simples passo a mais pode levar-nos a caminhos sem volta. Sim, até os amigos mais fiéis têm seus limites, e o erro está em crer que Fulano, por ser seu amigo-irmão, tudo suportará. Quanta, ingenuidade!

Com os amigos de verdade, aprendemos sobre erros e acertos, independente dos rumos que a amizade toma.  Mas uma coisa é certa, creia: onde não há respeito, amizade também não há.

 Amigos de verdade: Calvin e Hobbes, de Bill Watterson


segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Quem imaginaria um enterro daquele?

Chegamos ao cemitério para um enterro diferente. A começar pela falta de um caixão, de um corpo frio e das lágrimas torrenciais.

Houve, claro, os olhos tristes de cada um, inclusive do meu sobrinho mais novo, que na ingenuidade dos dez anos, comoveu-se com a tristeza infantil no rosto da mãe, e aprendeu que os órfãos são todos criancinhas: aquela criança pequena que fomos, e que nunca morreu.

Com as duas mãos, “abracei” a caixa azul onde estavam as cinzas. É quase inacreditável pensar que está tudo ali: cada unha, cada cílio, os pulmões, os pés, o rosto do meu pai... tudo já de volta ao pó... e ainda assim, quando fechei os olhos e baixei a cabeça sobre a tampa, por alguns segundos o dia desapareceu, enquanto pensei sentir a energia da sua mão tocando as minhas. Foi como se estivéssemos juntos, fisicamente, mais uma vez.

Será que viajei na maionese?

Seu último pedido, ficar junto do que foi a minha mãe, foi atendido, e senti como se alguma coisa tivesse finalmente chegado ao fim.

Saímos dali todos meio sem destino, porque embora a vida continue, e nos agarremos a ela, às vezes retomar a estrada para seguir adiante é quase um devaneio... nem a gente crê que consegue. O jeito é ir tropeçando.

Com fome e sem apetite naquele fim de tarde, fomos parar num restaurante, e quando nos demos conta, a rodada de pizza corria solta, enquanto as passagens engraçadas do passado nos faziam rir.

Vivemos tantos anos separados pelas estradas da vida e do mundo, e então estávamos lá, mais próximos do que nunca pela mesma história, mais humanizados do que nunca pela mesma dor. Não pude deixar de pensar que meu pai, lá de cima, olhou-nos contente e orgulhoso pelo enterro que teve, onde os bons sentimentos foram mais fortes que tudo.

E eu, nesta família mineira do interiorzão, daquelas que chooooooram a morte enquanto o cortejo fúnebre percorre a cidade, senti que éramos quase orientais naquele dia de enterro e de celebração da vida... esta vida que, tenho fé, continua para todos nós.



Veja também:
 A vida é uma caixinha de surpresas

Vai ter festa no céu 

Como renascem os órfãos?


sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Até que nível você está disposto a descer?

-- Jamais se rebaixe ao nível de quem não tem educação. Senão, estará se igualando – ensinou-me meu pai, por toda a vida.

 Quanto mais envelheço, mais me convenço de que as grandes e mais valiosas heranças que os pais podem deixar a seus filhos são os conselhos e os exemplos. Salvo, claro, as exceções, porque há por aí filhos muito mal-parados, que lamentavelmente aprendem em casa o que há de pior... e seguem vida afora pela trilha da estupidez.

Felizmente, os bons são maioria neste mundo de meu Deus. E a civilidade ainda impera, quero crer, no coração dos homens.

O xis da questão é o seguinte: como não estamos aqui para curtir umas férias muito doidas, o universo nos desafia. Somos postos à prova diariamente, para nosso próprio bem  ou, claro, nosso mal... mas isso é uma questão de escolha pessoal, já que nossas atitudes é que desenham o mapa da nossa trajetória.

Neste ponto, recorro novamente ao Marcos Lúcio, leitor e comentarista, que não é mosca morta nem lesma lerda, como ele mesmo disse, em seu comentário do post anterior. O negócio é que ele já entendeu que manter a linha (e, com isso, a paz de espírito) é a prova maior de sua evolução.

Perder a cabeça, como diz o sábio amigo, só vale se for no melhor sentido, e concordo com ele, que tão bem exemplificou: “pela arte, beleza, inteligência, sensibilidade, gentileza, prazer, alteridade, ética, alegria, justiça e bom gosto”.

Ganhar uma batalha? Deveriam bastar-nos nossas batalhas interiores, travadas no campo aberto da nossa evolução. Se posso ser meu maior inimigo, é comigo mesma que devo lutar, e com ninguém mais.

Afinal de contas, gato escaldado sabe pular e já aprendeu que não precisa medir forças com ninguém,  principalmente com os ratos venenosos que saem do esgoto... desesperados por sua própria podridão.


Não vale a pena se rebaixar!


quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Pra perder a cabeça, o motivo tem que ser ma-ra-vi-lho-so !!!!

Antes de perder a cabeça, pense bem: não há nada que valha a paz de espírito. Nenhuma ambição que compre a consciência tranquila. Dinheiro algum que compense a felicidade. Nem desejo que faça valer o desespero.

Talvez a tranquilidade seja só uma questão de consciência. De aceitação pura e simples. E deveríamos começar aceitando quem somos.

Mas há uma diferença enooooorme entre aceitar quem você é e acomodar-se a respeito das suas fraquezas: não há desperdício maior na existência do que alguém sentar-se sobre os próprios defeitos e esperar que o mundo se adapte. Não importa se seu motivo é o narcisismo ou a preguiça. O universo não se adaptará, e em resposta lhe dará a solidão.

A aceitação implica humildade, mas ser humilde está cada vez mais difícil e sem valor nesta sociedade consumista em que vivemos, na qual a grife vem valendo mais que a atitude, e as pessoas crêem em felicidade que se compra.

O deslumbramento chega a ser ridículo, já ultrapassou há muito os limites do cafona. Melhor tentar não perder a cabeça na crença de que somos deuses... e aptos a seguir errando vida afora, até dar com os burros n´água. Devemos, sim, é esforçar-nos para lutar contra nossa tendência natural ao erro. Recusar os convites sedutores da vingança, da vaidade, do egoísmo e da estupidez... lutar até o fim pra manter a cabeça em seu lugar.

Nada vale o sono sem tranquilizantes, o dia a dia bem vivido, a certeza de que estamos no caminho certo e de que nossa alegria não depende de nada, só mesmo da paz que temos dentro de nós.

Perder a cabeça? Só se for por paixão! E, assim mesmo, só na hora daquele beijo...

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Mais um poeminha antigo

Fastio
(novembro 2005)

Ai, as lagartixas! Ai, esses insetos!
E a alegria no meu peito é só de restos...

Já faz uns dias invejo até mosquito:
Se mosca eu fosse, saía em revoada.

E esse choro, que em mim é água parada;
E essa dor, que é quase dor de incesto...

Ai, que eu quero a fuga e nem me movo!
E de mim mesma eu corro e só me escondo;
E nesses dias só de nuvem, céu de lodo,
Sou eu que esfrio, que trovejo, eu que chovo!

(Fernanda Dannemann)

domingo, 9 de outubro de 2011

Na volta pra casa, que não aconteceu, conheci mais uma mulher incrível em Buenos Aires

Voltei. E isso me faz lembrar daquela música linda do "meu amigo" Roberto Carlos...

Tudo está igual como era antes
Quase nada se modificou
Acho que só eu mesmo mudei
E voltei...

O caso é o seguinte: à minha aventuresca volta ao Brasil, só faltou mesmo foi o meu cachorro me sorrir latindo. A "novela de Janete Clair" começou logo na quinta-feira à tarde, quando tivemos que descobrir, de táxi, o novo endereço dos escritórios da Aerolíneas Argentinas, porque o que está no site ainda é o antigo. E o taxímetro rodando...

Explico: mineira escaldada, senti cheiro de problemas no ar quando, uma semana antes, meu amigo Marcelo Migliaccio, do blog Rio Acima, teve seu voo cancelado duas vezes pela Aerolíneas em um mesmo dia. E, ao embarcar, finalmente, depois de horas de aeroporto, quase teve que sair do avião por falta de lugar.

Na sexta bem cedinho, com o voo já confirmado, minha cara-metade e eu corremos de um lado para o outro em Buenos Aires, à cata de uma guloseima aqui e outra acolá... somos bons de garfo e tínhamos muito do que nos despedir naquela manhã chuvosa.

Ao chegar ao aeroporto, às 14h, para um voo às 17h, começou a lenga-lenga da Aerolíneas Argentinas: na fila, passageiros do voo das seis da manhã mantinham o otimismo de que sim, algum funcionário apareceria para fazer o check-in. E dá-lhe pizza, samba, fotografia... o brasileiro não perde o bom-humor nem quando é destratado.

Olha, a história é longa e eu a resumo assim: fiquei amiga da dona Lourdes, uma senhora pra lá dos 70 anos e verdadeiro doce de Pernambuco. Conversei com pencas de argentinos que esperavam "su vuelo" para Montevidéo, Rio, Córdoba e sei lá mais onde... quando vi que a coisa ia demorar, tratei logo de me sentar ali mesmo, e relaxar. Fazer o quê?

Enquanto isso, meu marido, que também é ótimo repórter nas horas vagas, foi apurar os fatos: a primeira versão para o acúmulo de milhares de passageiros (dos mais de 60 voos cancelados pela Aerolíneas) foi a chuva forte. Mas como as outras companhias aéreas continuavam operando, veio a segunda versão: logo cedo, um passageiro teria dado uma bifa em um dos funcionários (justamente por causa de atrasos e cancelamentos) e, com isso, e sindicato teria retirado todo o corpo da Aerolíneas do aeroporto.

Durante o dia inteiro, imaginei o pior: aquilo era uma greve... 

Embora o número de passageiros só aumentasse no pequeno Aeroparque, NINGUÉM apareceu para uma explicação. Os voos eram cancelados seguidamente e o aviso, baixíssimo e incomopreensível, pelas caixas de som, dizia que os prejudicados procurassem um escritório da empresa para tentar remarcar seu voo. Diante daquele horror, meu marido questionava:

-- Como será que as empresas europeias lidaram com a crise do vulcão islandês, ano passado? Será que também deixaram os passageiros ao  léu, sem informação nenhuma, sem consideração ou um mínimo de respeito ao consumidor?

Às 21h30, finalmente, rolou o rebuliço: um funcionário, com megafone na mão, deu as caras à multidão e admitiu... nenhum avião tiraria suas rodinhas do chão. E veio a terceira versão: era greve mesmo.

Como não sou boba, tratei logo de correr à Gol e comprar dois bilhetes (que saíram mais caro que ida e volta pela Aerolíneas) para um voo na manhã seguinte. Muita gente teve a mesma ideia e imagino que a Gol faturou alto nesta noite.

De volta ao hotel, tivemos que implorar ao recepcionista que nos alugasse um quarto: o hotel estava lotado justamente por causa da greve da Aerolíneas... que, aliás, no dia seguinte, não mereceu nem mesmo um espaço em pé de página do Clarín, onde reinava absoluta, na capa, a vitória da seleção argentina sobre o Chile.

E então, como nada é por acaso, aconteceu o grande lance imprevisível de toda esta epopéia: enquanto meu marido negociava um quarto que nem mesmo havia sido arrumado pelas camareiras, resolvi atravessar o restaurante para ir ao banheiro. Foi quando a vi... tão simples, na última mesa, tomando uma sopa.

Passei por ela e, na volta, guardei a vergonha na bolsa e parei em sua mesa.

-- Marina, me desculpa, mas não resisti e vim aqui falar com você...

A ex-ministra conversou comigo por uns minutos, enquanto deu autógrafos a duas ou três meninas brasileiras que apareceram ali.

Senti que não tinha mais nem um pingo do cansaço daquele dia inteiro e saí com meu marido para "matar" uma pizza, mas acabamos num restaurante mexicano. Então, ao pensar em Marina Silva, concluí que, realmente, muitas vezes a vida nos diz "não" aqui... porque nos reserva um presente bem ali adiante.

Meu cinegrafista de plantão registrou a bagunça no Aeroparque. Clique para ver!

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

"O tempo nos destròi por fora e nos constròi por dentro"

Hoje conheci duas mulheres incrìveis: Tita Merello e Nacha Guevara. Atrizes talentosas e apaixonadas, me levaram por uma viagem emocionante atravès do tempo e de uma Buenos Aires que eu náo conhecia, onde a boemia da Avenida Corrientes colore com màgica tudo o que os olhos vêem. Ao final de duas horas e meia de um musical de primeirìssima linha, com roteiro, figurino, coreografias, vozes e orquestra irretocàveis, senti-me agraciada pela emoçáo da noite.

È incrìvel como o teatro, quando è bom, pode mexer com a gente. Incrìvel como os atores abrem caminho para chegar ao coraçáo da plateia, e conseguem puxar o fio dos sentimentos... para alcançar a grande vitòria da arte: mudar alguma coisa pra melhor, nem que seja no peito de um sò espectador. Eu, pelo menos, saì do Teatro Metropolitan com meu coraçáozinho voador em plena atividade... batendo as asas!

Tita Merello nasceu em 1904 e faleceu aos 98 anos, depois de uma carreira de sucesso no cinema argentino, de uma paixáo insuperàvel e de triste fim, e de recolher-se ao isolamento em seus ùltimos anos. Geniosa, sofrida e vivìssima por natureza, foi uma mulher à frente do seu tempo: náo teve medo de ser feliz nem de ser triste.

Nacha Guevara, reconhecidìssima na Argentina atual, náo fica atràs: tem mais de 40 anos de carreira, jà viveu e trabalhou em diversos paìses e, tanto quanto Tita, náo teme dizer o que pensa ou defender suas ideias. Por isso mesmo, precisou exilar-se no exterior durante a ditadura. Ao voltar, foi recebida de braços abertos pelo pùblico, que náo a esqueceu.

Da plateia, entendi o motivo. Nacha "arrebenta" ao apresentar-nos Tita Merello, que por sua vez confidencia jamais ter estudado artes dramàticas: "o que aprendi sobre o drama foi na Avenida Corrientes, quando passei fome e náo tinha onde viver".

Ao final, jà velhinha, Tita me deu a ùltima liçáo da noite:

-- O tempo nos destròi por fora e nos constròi por dentro.

Meu coraçáo se apertou e meus olhos se encheram de novo: foi de emoçáo que chorei desta vez.


Nacha recebe flores e o aplauso da plateia, ao fim de duas horas e  meia como Tita

Veja um trecho do musical no link abaixo:
Tita, una vida en tiempo de tango

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Três palhaços em Buenos Aires

Conheci o Ricardo em 2006, quando ainda morava na capital portenha e costumava passear em San Isidro, bairro afastado da cidade, que nos fins de semana tem uma feira de artesanato na praça da Igreja Matriz.

O simpàtico senhor estava sempre là, em sua barraca de brinquedos educativos feitos a máo, por ele pròprio. Um dia náo resisti e comprei um palhacinho acrobata, que fica na estante do escritòrio, e a quem, claro, batizei Ricardinho. Que outro nome poderia ser melhor?

Quando alguma amiga ficava "embarazada", eu corria ao artesáo pra tratar logo de comprar um presente para o bebê... Atè que um dia, em vez de encontrar là o meu amigo, quem me atendeu foi a neta dele, a explicar a causa de sua ausência: um AVC.

A notìcia entristeceu o domingo, e mandei por ela um recado: rezaria por ele.

E rezei mesmo, sem saber se deveria pedir por sua melhora ou por sua alma no cèu.

Os anos passaram e o Ricardinho, de cima da estante, seguiu lembrando-me o amigo argentino, que imaginei morador de outras esferas.

Eis que voltei a San Isidro, domingo ùltimo, e jà suspirando pela falta que me faria a melhor barraquinha da feira. Mas como podem ser boas as surpresas da vida! Ao meu aproximar da praça, levei um susto: a barraca estava là, e os brinquedos, coloridos, refletiam o dia de sol. "Deve ser a neta", pensei. Mas náo era! Estava là o Ricardo, vivinho da Silva, e pronto para uma foto e um abraço feliz.

E dormi contente esta noite, pensando o quanto pode ser boa uma verdadeira palhaçada!



-- Seráo dois palhaços no retrato -- falou baixinho
-- Três! -- respondi

domingo, 2 de outubro de 2011

Entrei no bololô só pra gritar

Estava andando pela rua e de repente dei de cara com a pequena multidáo: centenas de garotas gritavam, histéricas, diante de um hotel de luxo. Foi quando meu marido, que também é minha "catapulta de maluquices", deu a ideia:

-- Vai lá e aproveita pra gritar junto com elas! Ninguém vai achar que vocé é doida...

Até agora náo sei se falou sério, mas o fato é que náo precisou repetir. Me enfiei no meio delas, enchi o peito e mandei ver no gogó.

-- Aaaaaaaaahhhhhhhhh !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

As meninas mais próximas náo entenderam nada, e muito menos quando perguntei por que é que elas gritavam tanto, afinal. Era por causa do Nick, claro! O cantante americano que faz dupla com o irmáo. E se eu náo sabia, o que estava fazendo ali? Sem a ilusáo de que me entenderiam, expliquei que economizava o dinheiro da psicanálise, e vi que, ao contrário do que me disse minha cara-metade, teve gente que me achou maluca, sim.

Náo importa: depois de meia-dúzia de berros, exausta, rouca e com o peito leve, pendurei minha alma no varal. Aliás, me dá licença que vou ver se ela já secou...

Me procura aì no meio delas...

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Meu coraçào è cidadào do mundo

Ando de viagem por estes dias: caminhando muito pelas ruas de uma cidade que adoro, comendo macarróes e sobremesas que hà muito náo comia, revendo paisagens, fazendo uns gastos extras e descansando a mente, a alma e o coraçào.

Espero que, na volta para casa, nào encontre a dona Angùstia no sofà da sala, tomando um chà, â minha espera... com um risinho no canto da boca amarga. Mas olha, nem penso nisso: embora saiba que o melhor lugar do mundo pra chorar as pitangas è a velha cama e o travesseiro táo amigo, desta vez corri para o horizonte.

Vem dando certo. As àrvores que eu jà conhecia, as esquinas onde o vento è táo frio, a arquitetura singular desta capital... a mùsica, os carros velhos pelas ruas... tudo me encanta e me recorda que, se estou no mundo, è pra viver! Meu coraçào tem batido forte ultimamente, a arritmia grita de dentro do meu peito, mas tenho fè: è de alegria!

Pra quebrar o clima, um poema de paixáo

Obediência
(dezembro 2006)

O dia passa, vou vivendo
(Um objeto a mais entre os da casa).

Faz sol ou chove?
O guarda-chuva, como eu, é só espera
Sem se importar que o céu desabe.
Até os copos, sobre a pia,
São meus irmãos, de tão vazios.

Cada segundo é só de tédio,
De solidão que já nem me comove,
E que nem penso mais que se acabe.

Só quebra este marasmo a pulsação, que treme o prédio:
A vizinhança foge, enquanto rio de sarcasmo,
Sem medo de ruir, porque já não sou nada;

Meu pensamento cobre a pele de arrepios
A tua voz, que busco, o teu chamar, que me rejeita.

Pra não morrer, só um remédio:
Mando que aquiete o coração,

E ele, como um cão,

Se cala e deita.

(Fernanda Dannemann)

terça-feira, 27 de setembro de 2011

sábado, 24 de setembro de 2011

Marcos Lúcio "ataca" outra vez!!!!!!!!!

QueriDannemann...o chato é sempre o outro , mas como somos, também, o outro, seremos, mais cedo ou tarde, os chatos da hora (há raríssimas exceções!?). A nossa propria finitude, tanto quanto nossa transitoriedade, lembram-nos de que não dá para levar tão a sério a vida, (basta termos responsabilidade)afinal, dela ninguém sai com vida. As dores, de intensidades diferentes, de cada um,(delas também ninguém escapa completamente) podem ser professoras nesta escola existencial... para aprendermos que, tanto quanto o vento que venta lá venta cá, o rio que leva, é o mesmo que pode, desde que consintamos, trazer novas e limpas águas, e não apenas os mesmos seixos depositados no seu fundo.Melhor ainda, se aprendermos_ para chegar à nascente_ a nadar contra a corrente.Portanto, somente após o luto vivenciado, jamais negado, é que a sensação de vazio ou ausência pode e deve, também _tudo a seu tempo_ser transformada em possíveis e necessários re-nascimentos (como fênix) afetivos, ou seja, sair do luto para o reencontro com a paixão pela vida.Deixamos, então, a dedicação quase exclusiva pela falta ou perda, para concentrarmos no que ainda de bom possuímos_principalmente nossos afetos ainda encarnados_ além de ficarmos mais atentos ou seletivos com relação ao tempo que ainda nos resta.Somos como remédios: temos, todos, prazo de validade.Recuperando o ENTUSIASMO , volta a fundamental sensação de que Deus habita em nós, ou seja, sentimos, em plenitude, nossa pulsação de alma (etimologicamente é este o real significado da palavra= ter Deus em si).
Como gosto de variações, inclusive os dias, as coisas e as pessoas não são iguais,interrompo as mal traçadas linhas, para fazer minhas, as palavras do João A. Macedo , sobre a essência da vida: A IMPERMANÊNCIA, tentando compartilhar e solidarizar.

"A experiência de morte e separação dá-nos a percepção de impermanência, realidade que evitamos encarar. As estações mudam, as pessoas mudam, a vida muda. O nordeste tem regiões secas, que hoje são caatingas, sertões que outrora foram mar. Existe uma tendência de não aceitarmos e de resistir ao princípio (imutável) da impermanência.
Precisamos aprender que, quanto mais apegados nós somos a nossos bens materiais e relacionamentos no mundo, quanto mais importantes e necessários pensamos que somos , mais dor se vive quando chega o fim terreno.
O conhecimento do conceito de impermanência deve ser encarado positivamente de um modo diferente e compreendido que, por pior as coisas possam parecer: adversas e prejudiciais naquele momento, as circunstâncias que geraram o sentimento de infelicidade, não podem durar muito: vida que segue.
É de se perguntar: Se tudo é impermanente, se nada dura para sempre, como pode alguém ser feliz? A verdade é que não podemos nos apegar às coisas, mas admitir e aceitar as situações irreversiveis.
(...)
Se tivermos a sabedoria, a consciência de colocar nas nossas vidas o conceito de impermanência, e a maturidade de saber que tudo é impermanente, vamos ver que nossas experiências serão mais ricas, nossos relacionamentos mais sinceros, e que teremos maior apreciação/atenção por tudo aquilo de que já desfrutamos".
Sinceramente, é a única ou melhor forma de que tenho notícia ou experiência, para ser feliz: somente com o máximo de realismo possível, saúde e a proteção de Deus.
Abraço caloroso e forte.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Hoje um cabritinho me fez sorrir


Abro bem os olhos, pra que a beleza do mundo não me escape. Está aí, por toda parte, e que depois não digam que a vida não tem milagres: os olhos é que fazem os milagres. E se não os fazem, é só por falta de atenção.



quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Vento que venta lá, venta cá

Embora a gente se esqueça, viver é, acima de tudo, um exercício... e de muitas coisas: num sentido mais amplo, um exercício de vontade, de paciência, de esperança, de humildade, de desprendimento... a “matéria” varia de acordo com o aluno, porque cada um tem o seu dever de casa, personalizado, pra fazer.

E às vezes vem aquela vontade danada de deixar pra lá e de jogar as provas para o alto, porque a vigilância permanente cansa, a obrigação de aprender cansa e a necessidade de seguir em frente cansa mais ainda.

Quando bate este cansaço todo, talvez o melhor seja buscar o isolamento, porque o mundo, que é de onde saiu o Facebook, não está nem aí para o que vai no seu coração, e se você não tem alegria pra mostrar, nem pique pra manter a pose... se você estiver uma pilha, ou tão triste que não consiga fingir que está tudo ótimo... dirão que você é um chato, e como se isso fosse um absurdo, como se você tivesse a obrigação de ser a melhor companhia do planeta. E o tempo inteiro.

Mas o ser humano de verdade é o que é, e ainda não inventaram a maquiagem que disfarce isso. Embora sejamos muito diferentes uns dos outros, estamos todos juntos nesta tribo universal, que é a espécie humana, onde o sofrimento faz parte da vida tanto quanto o estômago ou o pulmão: é impossível viver sem; todo mundo tem o seu.

Melhor exercitar o coração, a mente e o espírito pra aprender a viver com isso, porque sempre há de chegar o dia em que o chato que não tem lugar no mundo... seremos nós.

 Será que tem um cantinho pra mim aí em algum lugar?

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Alice no País do Facebook

Não faz muito tempo, dei a mão à palmatória e abri uma conta na rede mais badalada do planeta, para divulgar o blog.

Estou quase desistindo: é demais pra mim aquela festa que nunca acaba, aquele Carnaval sem quarta-feira de cinzas, onde todos são lindos, louros, magros e ricos. Por que será que todo mundo é sempre tão feliz no Facebook? E a tristeza, que já foi coisa tão particular, ali ganha ares de novela da Globo?

No palco do Facebook, todo mundo é lindo: quem não é, recorre ao fotoshop ou às imagens alheias. Vale tudo em nome do glamour, das cenas teatrais, da chance de ser protagonista nem que seja por alguns minutos, e em uma rede de relacionamentos tão superficiais.

Sabe aquela coisa muito confortável, chamada “anonimato”? E aquela outra, a tal da “privacidade”? O “Face” está acabando com elas, porque o consenso geral prega que ser anônimo é chato demais!

E vou além... digo que o Facebook é mais uma daquelas invenções que, com o passar do tempo, se revelaram nocivas à humanidade, utilizadas que foram para promover o que há de ruim no coração e nas idéias humanas. Tenho visto gente ser caluniada, agredida, exposta e ridicularizada nas páginas desta rede, a mais “social” que se teve notícias até hoje: esta rede cuja força motriz é a aparência, e quase nada é o que parece.

Talvez o futuro do Facebook não vá longe. Talvez, em algum momento, as pessoas percebam o quanto é desgastante ter que manter a pose o tempo todo, só pra sentir que pertencem a alguma tribo “fashion”, “antenada” ou sei lá o quê. O quanto é cansativo bancar a “celebridade” sem direito a, simplesmente, ser uma pessoa “qualquer”, daquelas que não precisam se iludir com a pretensa “popularidade”, nem ter centenas de “amigos”, nem ter seus “fatos & fotos” publicados na rede da moda... aliás, como escraviza esse negócio de ter que se enquadrar “na moda”! Isso também há de cansar, de esgotar as multidões carentes e necessitadas dos já tão batidos “15 minutos de fama”... (até a frase do Andy Warhol já me parece out, cafona como uma bolsa Louis Vuitton!).

Enquanto a vida é quase um roteiro de “Sex in the City” na tela do Face, a nossa velha conhecida, a Alice, que no começo achava tudo maravilhoso, de repente passa a ver que aquele gato não é tão gente fina assim... e aquele Chapeleiro... bem, ele é bem mais maluco do que se pensava...  



Livro "Alice no País das Maravilhas", de Lewis Carroll, ilustração de Camille Rose Garcia

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sábado, 17 de setembro de 2011

Se somos tudo, também não somos nada!

No meu clubinho imaginário, onde Sócrates e Hobbes (não o filósofo Thomas, mas o Tigre amigo do Calvin) desfrutam de igualdade de condições, as conclusões de alguns chapas confundem meus sentimentos. E fico sem saber se nós, os Gremlins, não somos mesmo nada... ou será que somos tudo (e por isso estamos “prosa”?).

De Albert Einstein, que sacou tantos milagres do universo, a Fernando Pessoa, que captou os mais obscuros cantinhos da alma humana, onde é que está o valor do homem? Outro dia vi um filme que gostei muito, sobre a vida de Charles Darwin. Eu já o admirava muitíssimo pelas razões mais óbvias, mas passei a gostar dele como pessoa, ao saber dos seus conflitos entre a Ciência e Deus. E por concluir que, para ele, todas as criações divinas eram iguais, providas do mesmo valor, da mesma maravilhosa centelha, dos mesmos direitos à vida... e à liberdade, sua matéria-prima essencial.

Penso no quanto é tão grande a existência, o coração que trazemos e tudo o que cabe nele, de bom ou de ruim. Quando vi meu pai inconsciente sobre a cama, também vi, em sua inércia, a vastidão do existir: em seu corpo fragilizado, perfumado por sabonete pom-pom, pulsavam todas as felicidades e infortúnios que ele viveu, e que foram, em seu momento, a grande chama da vida. Então entendi que a força ainda estava lá, e que até a morte é a vida acontecendo.

Quanto valor, quanta potência pode caber na vontade? Quanto vale a vida de cada um de nós, e o que é, exatamente, que a faz valer? Qual a medida do homem, que pode ser tanto... e ao mesmo tempo tão pouco?

Então penso na rede interminável de sentimentos, querências e batalhas que nos compõem, que fazem de nós seres humanos. Em tudo o que estamos envolvidos, em todas as pessoas que fazem parte da nossa história, em todas as esperanças que regamos no jardim: isto é o que somos! Penso em cada artéria, em cada movimento das válvulas , cada batimento cardíaco, cada célula que nasce ou morre... em todos os milagres necessários para que possamos, simplesmente, respirar ou tomar um copo d´água. A vida é grande demais!

Mas então olho para o outro lado, e vejo as coisas por um ângulo distinto.

A nova perspectiva me mostra o quanto as nossas dores, naquela UTI, eram pequenas diante das dores terríveis do mundo. O quanto era quase ingênua, a minha tristeza, diante da carência absoluta dos que nunca tiveram um pai pra chamar de seu... e eu tenho. O quanto a morte de um homem não é nada diante de todos os outros que morrem, no mesmo instante. O quanto não somos nem mesmo poeira cósmica, neste universo infinito, ao passo que nosso egoísmo apequena o mundo e faz de nós gigantes distorcidos: somos gigantes diante da nossa própria mirada. O que pode haver de tão selvagem na natureza quanto acreditar-se mais merecedor que alguém?

Neste clubinho imaginário, onde, como enxergou Charles Darwin, somos todos iguais, penso no quanto Deus, lá de cima, deve mesmo ter pena de nós.

 
A morte do Quixote, pelas mãos do incrível desenhista argentino Miguel Rep, que captou como ninguém a transformação do cavaleiro e a tristeza do Sancho,  fiel escudeiro.

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